quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O LEITE DAS CRIANÇAS

imagem: mulher sexogragil.com(google)

A minha filha mais velha nasceu através da superação. Aos oito meses e pesando apenas 1kg,250g, tinha em seu código genético um gene chamado superação. O que ela passou de lá para cá confirma minha hipótese de geneticista amador e pai coruja. As outras superações eu conto numa outra oportunidade, talvez em livro, pois dá muitas páginas. Lá no início ela precisou ficar 35 dias internada dentro de uma incubadora tomando apenas leite materno vindo de doações dessas mães que a gente até perde adjetivos para acomodar a sua inaudita bondade.

A mãe dela, até que tinha bastante leite, mas a menina era tão frágil que não tinha forças para fazer sucção. Ficava numa canseira de dar dó. Então tinha que retirar o leite e colocar numa chuquinha com o furo do bico aumentado a fim de sair maior quantidade. E a mãe tinha que amamentar outras crianças porque a produção não parava e o leite podia empedrar.

Por outro lado, o hospital recolhia doações e a gente mesmo é que buscava nas casas onde tinha mães recentes na cidade de Itabira. Isso foi em 1986. Eu trabalhava em outra cidade e ajudava aos finais de semana. A Dona Tereza, um anjo que se casou com meu pai depois de sua viuvez e a própria mãe dela faziam o trabalho durante a semana.

Foram 35 mães de leite que a minha filha teve. Até que completasse 2 quilos, peso mínimo que os médicos admitiam para liberar a criança para ir para casa e sobreviver sem precisar ser monitorada. Era uma espécie de provação. O acompanhamento era diário. Dias em que ganhava 50 gramas, 90 gramas, dias em que perdias alguns gramas. Um torneio de sobrevivência.

Valeu a pena, êh,êh! Valeu a pena...

ilhadigitalseliga.blogspot.com

Marilda era uma mãe de um menino da mesma idade de minha filha e doava leite para ela. O seu menino perto da minha menina parecia um gigante com seus mais de 4 quilos. Também pudera, a mulher era uma fabricante natural de primeira grandeza. De toda a alegria que me contagiava quando saía buscando os vidrinhos de leite pela casas, na da Marilda era para mim uma festa. Todas as outras foram cruciais, reconheço e agradeço infinitamente. Mas Ela enchia, em menos de meia hora um vidrão de meio litro, sem precisar daquelas bombinhas de sucção dos seios, só nas massagens. Isso, logo depois de seu filho ter terminado a sua mamada. E ainda dizia. “Se você quiser voltar aqui mais tarde, eu posso tirar mais”, com o sorriso mais honesto a satisfeito que faz parte da reserva emocional de uma mãe de duplo amor.

A notícia (leia AQUI) que eu li sobre uma mãe que bateu recorde de doação de leite em São Paulo (100 litros de leite materno por mês) não me espanta e com todo respeito e veneração que passo a nutrir pela Gildilene, a protagonista do feito, digo que a Marilda não foi incluída nas estatísticas. Também não se trata de uma injustiça. Taí a minha filha fortíssima e saudável para atestar que a Marilda era mãe de uns 200 litros de leite por mês sem fazer muito esforço.

Numa sociedade onde a competição por futilidades de bundas, peitos e máscaras ganha tanta notoriedade na mídia, até que seria bom se fosse estimulada essa de quem faz mais para salvar vidas.

18 comentários:

Tati Pastorello disse...

Cacá, que linda história e justa homenagem! Minha irmã também doou muito leite. Uma mocinha quase sem seios, que usava sutiã para adolescente, quando foi mãe, foi de elite! Já no tempo do meu sobrinho (criança do ano 2000) os bombeiros iam até sua casa buscar os vidros. Eu não tive a mesma sorte, e imagino (com certa inveja) a satisfação e orgulho que sentiam Marilda, minha irmã e tantas outras mães de leite. Eu queria estar entre elas!
Adorei o gen da superação. Grande aula de genética literária que tive por aqui! :)
Beijos.

Chica disse...

Simplesmente fantástica essa tua crônica.Perfeita e essas mãe doadioras são fantásticas.

Temos ainda, por trás disso um outro trabalho magnífico, que é o de arrecadar e doar vidrinhos para os bancos de leite. tenho uma amiga , apesar de apenas virtual, que faz isso por onde passa.

Passa lá e vai conhecer:

http://mimirabolantes.blogspot.com/

Vais ver. Assim, mães e pessoas engajadas, fazem trabalhos maravilhosos e quem lucra são as crianças.

Parabéns pela superação de tua filha!LINDO!abração,chica

´Flor* disse...

Lindo Dia Cláudio*Poxa que milagre divino ,ter sobrevivido ter superado e que benção poder doar o leite a tantas crianças..Deus é Pai..Gostei .Parabéns.Bjuss\Mil\Flor*

Elayne C.A. disse...

Superação-também passei por momentos delicados na minha segunda gravidez, mas o que vc falou sobre leite é super importante. Mas falta informação e eu te confesso que até pouco tempo atrás nem sabia como armazenar o leite, pois tive muito na minha ultima e tinha vontade de doar, mas nao sabia!! rs Enfim, acabei amamentando a filha da minha amiga, pois ela precisava muito e a mae nao tinha leite. Bjos!!E bela homenagem!

Isadora disse...

Cacá que linda história de supreação mesmo. Sua filha foi uma guerreira e superou as adversidades, ainda tão pequena.
São exemplos de mulheres assim que nos fz acreditar na bondade do ser humano.
Um beijo

lis disse...

Oi Cacá
Sempre me surpreendendo com seus textos ora nos fazendo rir ou chorar.
Essa experiencia de maternidade com bebê fragilizado em casa e a generosidade de outras mães me comove muito,porque sei o quanto é complicado manter o equilibrio que precisamos pra fazer esse trabalho de doar leite materno.
A sensaçao nem sempre é confortável e tem maes assim maravilhosas se doando.
Bonito e humano.
abraços Cacá. fica minha admiração.

pensandoemfamilia disse...

O início da história de sua filha_superação- certamente deixou marcas, e que podem ter se transformado em recursos para toda a sua existência.
Por outro lado, vc faz uma bela reflexão sobre as competições da atualidade, trazendo um aspecto positivo que poderia ser exaltado.
Como sempre exemplar em suas temáticas.
Abços.

Toninhobira disse...

Poxa amigo, uma linda emocionante historia de superação,de sofrimento, de angustia,pois deve ter sido uma barra esta fase,ainda mais estando ausente pelo trabalho. Vale ressaltar esta coisa de interior,onde as pessoas se jogam na ajuda ao outro, ao vizinho. Que esta menina seja bem sucedida na vida para maior alegria destas tantas mães de leite, para poder bater no peito e dizer,valeu! Um abraço de paz.

Ailton Augusto (in Argentina) disse...

Olá, Cacá.

É a primeira vez que visito o seu blog (uma vergonha depois de você visitar o meu e sempre comentar meus textos...) e me encantei ao ver essa postagem.

Realmente, entre tantas caras e bocas, peitos e bundas, é um alívio ler coisas que nos animam em relaçao ao ser humano. Parabéns a essas mulheres que doam um pouco de si em prol dos outros e parabéns também à sua filha, pela superaçao.

Abraços!

Marliborges disse...

Cacá, obrigada pela parte que me toca. Fui dessas doadoras. No hospital, amamentava os bebês no berçário e quando voltava pra casa, todos os dias alguém do hospital ia lá buscar meu leite. Sempre fui assim. Uma leitaria!!!rsrs. E nunca me neguei de doar. Fazia isso de todo o meu coração. Pois nos idos de 70/80 enfiavam na cabeça das mulheres que era feio amamentar e outras baboseiras mais. Foi bem na época em que a nestlé lançou um leite chamado Nanon, que era "melhor" que o leite materno. (Coincidência, não?) Parabéns pelo gen da superação de tua filhinha. Que bom que tudo deu certo. Adorei a crônica. Bjssss

M. Sueli Gallacci disse...

Cacá, lindo esse teu depoimento!

Fiquei muito emocionada com sua iniciativa em divulgar tamanho ato de amor altruísta. Tive uma bebezinha prematura, mas hoje não tenho uma linda história prá contar, infelizmente.

Foi em outros tempos, outras épocas, não tínhamos toda informação que temos hoje.

E pensar que com toda informação que temos hoje sobre a importância do aleitamento materno, ainda existem mulheres mais preocupadas se o bico vai ou não continuar apontando para o céu... Francamente!!!

Um bjo gde e mil vezes parabéns!

Mimirabolante disse...

Cacá......Parabéns pelo seu relato.....tive dois filhos de parto normal,e tive tbm a felicidade de aleitar os meus filhos até dois anos de idade cada um....Deus me deu tbm a oportunidade de ser mãe de leite de outras crs........era uma vaca sagrada de tt leite que tinha......bem,sempre divulguei a importância de se amamentar um filho.........os anos se passaram,quis o destino que eu tomasse conhecimento do Banco de Leite Materno do Instituto Fernandes Figueira,aqui no RJ......ele serve de modelo para o mundo todo......além de divulgar este maravilhoso trabalho,desde 2001 ,sou uma doadora assídua e anônima de Vidros com Tampas de Plástico,do tipo Nescafé,para serem utilizados no Armazenamento de Leite Humano........Parabéns a essas mães que te auxiliaram....Que Deus dê muita saúde para todas elas e a vcs muitas Felicidades!!!!!Com carinho,Monique,autora do blog "Mimirabolantes "......

Diogo Didier disse...

Cacá, meu amigo, que história linnnnnnnnnnnnda! A sua filha é realmente uma guerreira, pois não é fácil sobreviver pesando tão pouco!

Concordo com vc quanto ao feito dessas amas de leite...é muita generosidade depositado em apenas dois pares de peitos...isso me faz lembrar que ainda existem pessoas boas no mundo, pessoas que valorizam a vida do próximo e quando esse próximo é um recém nascido a dádiva é superior...

Viva a fartura que a mãe natureza forneceu para essas mulheres...graças a ela é que o PAPAI ai tem uma boa história para nos contar...

Obrigado pela visita...a sua presença sempre enriquece o meu espaço!

bjoxxxxxxxxxxxxxxxx

boa semana!

Jaime Guimarães disse...

Grande Cacá, é sempre bom ler relatos como estes em que o amor e a solidariedade ainda enchem de esperança um coração tão descrente e abatido como este que bate por aqui.

Acho que terei que resgatar esse gene perdido, da "superação", para ter uma visão mais otimista do mundo. Um bom remédio é vir por aqui e deixar um pouco de lado o noticiário que acompanhamos costumeiramente na TV, no jornal e no rádio. A dona Gildilene teve algum destaque, mas deveria ter mais, para servir como exemplo e inspiração. De que ainda existe a bondade daqueles que fazem muito e nada exigem em troca.

Grande abraço e vá desculpando o sumiço, a vida anda corrida e bagunçada por aqui rs

Abs!

Uni ver sos disse...

Oi Cacá,

Tem selinho para vc em meu blog, passe lá depois,

de coração,
Ester.~

Luiz Felipe disse...

Quem me dera ter metade do poder de superação dessa sua filha. Essa menina é minha "ídola".

JoeFather disse...

Cacá meu amigo, emocionante o seu relato!

Só quem é pai ou mãe e tem que passar por uma provação dessas é quem pode dizer o quanto é importante para nós aquelas pessoas que direta ou indiretamente ajudaram literalmente a nos manter vivos!

Grato por compartilhar história tão bela!

Abraços renovados!

Maíra disse...

Pai, agradeço muito pela homenagem do gen da superação. Mas eu é que tenho de agradecer a você e minha mãe pelos ensinamentos esse tempo todo. E que não pare por aí.
Ah acho que temos de achar essa "mãe de leite" que faz jus a homenagem prestada.
Bjo grande no coração

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