sexta-feira, 29 de outubro de 2010

AURÉLIO

imagem google




Ontem eu estava fazendo palavras cruzadas no banheiro, um vício maior do que a necessidade fisiológica que é obrigatória lá naquele meu espaço sacrossanto de leituras e divagações outras além das necessidades do corpo físico. Enquanto esvazio as vísceras, alimento o espírito. Acho que é apenas mais uma idiossincrasia. Alguém pode achar que é uma loucura, um disparate, um despropósito, um contra-senso, um despautério, uma discrepância, uma insalubridade. Não tem problema. Eu assumo meus desatinos onde quer que seja em busca de conhecimentos novos.

Foi lá que descobri que este ano comemorou-se, ou melhor, foi festejado com muita parcimônia  de palavras e  manifestações literárias, o centenário do criador de um dos objetos mais conhecidos no Brasil, depois da televisão e outros meios menos formadores de gente que gosta do conhecimento: Aurélio Buarque de Hollanda faria cem anos em maio deste ano. Andei fazendo umas buscas e descobri tímidas homenagens pela imprensa nacional, exceto pelo estado de Alagoas, onde nasceu e foi muito festejado. Nem o Rio de Janeiro, onde dedicou a maior parte de sua vida fez muita questão de honrá-lo tal como merece. Também não se trata de uma injustiça apenas do Rio, mas de todo o país, que acostumou a se render a astros de grande facho luminoso da música, da televisão e de pouca projeção naquilo que é tão caro ao nosso povo visando a uma formação ilustrada. Meteoritos que não deixam rastro nenhum de sua luz.

Estou republicando uma crônica que fiz dezembro do ano passado, quando o meu dicionário estava já em frangalhos e uso-a como uma homenagem tardia a este grande literato e pesquisador, tão imprescindível na minha e em tantas outras vidas cheias de busca por fecundidade. 

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 DICIONÁRIO


Corria o ano de 1986 e a minha primeira filha estava esperando para vir ao mundo. E eu não podia me dar ao luxo de muitos gastos. A gravidez era de risco e o inesperado é sempre companhia da temeridade.  Ainda que não seja nenhuma tragédia anunciada, inspira poupança. Juntando isso com os sobressaltos de conviver com um plano econômico a cada mês e reajuste salarial apenas uma vez por ano, temores havia sempre. Imagine comprar hoje um quilo de tomates a um real e amanhã ele ser dois, depois dois e cinqüenta. Era assim que funcionava o tal do dragão da inflação, mesmo com o Sarney, na época presidente e sem atos secretos, convocando a população para agir como fiscal nas ruas para vigiar os preços. Quem trabalhava o dia inteiro mal tinha tempo de fiscalizar seu emprego ameaçado a todo momento pela própria lambança dos planos econômicos dele.

Mesmo assim eu não resisti à tentação e comprei o meu primeiro AURÈLIO, oferecido em quatro prestações fixas (encontrar prestação fixa era como ganhar prêmio em sorteio).  E ele solidariamente resistiu, talvez como o maior patrimônio que adquiri em minha vida - pelo menos em meu conceito de valor. Afora as minhas duas filhas, mas isso não se conta como patrimônio intelectual nem material. É muito mais que possam explicar nossas teorias de apego. Não entro no mercado com meus sentimentos postos a avaliações. De lá para cá ele me acompanhou em boletins sindicais escritos quase que diariamente, me acompanhou durante toda a minha graduação e mudou um sem número de vezes de casas e apartamentos. O cuidado quando de seu manuseio era como se estivesse transportando cristais. Sua encadernação é de linhas costuradas.

Agora está chegando ao seu esgotamento físico imposto pelo tempo, esse implacável e impassível senhor das razões e loucuras, das alegrias e das amarguras, assim como faz com gente feita de tutano e osso, neurônio e outros tecidos sem costura. Alguém pode dizer: mas com a wikipédia aí disponível, com um google de todo tamanho, que tolice! Para os muito leigos eles realmente satisfazem. Já para quem se relaciona quase ludicamente e lubricamente com as palavras sabe do que falo. Nele quando o significado traz algum sinônimo lírico, poético ou literário há citação de traços ou trechos de obras literárias exemplificando. Nele há  etimologia, há pronúncia. Sem contar que na página em que se está pesquisando algum verbete, há sempre a tentação de namorar outro ali do lado, acima ou abaixo por pura curiosidade ou aquela quedinha inevitável para uma outra palavra. E para quem gosta de pesquisa, a wikipédia não é algo ainda totalmente confiável Enfim não dá para descrever o prazer das consultas quase terapêuticas, da mesma forma que dói a separação.

Ele se vai. Não há mais remendo possível, reencadernações. Não há quem o restaure mais originalmente sem cobrar um valor de uma peça tombada pelo patrimônio histórico, artístico e cultural como merece, aliás. Muito ao meu gosto, mas longe de minhas posses.

E minha filha, vendo o meu drama patético, resolveu me presentear com outro, já que carrega o simbolismo de seu ano de nascimento. Não gosto que se apiedem de mim, mas acho que ela ficou com um dó danado.

24 comentários:

Yasmine Lemos disse...

Bom dia Cacá! tem resenha do seu livro no meu blog! adorei .Obrigada mais uma vez! beijos

Tati Pastorello disse...

Oi Cacá, eu amei a homenagem (merecidíssima) ao Aurélio e sua obra. Lembro de um tempo que a gente brincava de Dicionário, lembra desta brincadeira? Adoraaaava. Sim, folhear um dicionário, encontrar palavras fora de uso, interessantes, que expressem aquilo que nem sabíamos que era expressável.
Parabéns. Ler seus textos é sempre um momento de grato prazer.
"Enquanto esvazio as vísceras, alimento o espírito." Jamais levei o computador para o banheiro, mas este é um habito na minha família (a leitura, não o computador) e a forma de expressar este hábito, por meus pais, era menos erudita (cú letrado, conhece a expressão?). Desculpe, não resisti... hihihi
Beijos.

Chica disse...

Essa tua crônica é linda e que bom que estás com um novo em folga...rsrss


Mas que lugarzinho pra fazer palavras cruzADAS,HEIM????RSSS

ABRAÇÃO,CHICA

pensandoemfamilia disse...

Olá

Realmente a memória brasileira está um tanto que telequiada, rsr,s, mas ainda bem que temos pessoas como vc para trazer a luz merecidas homenagens. Eu também o dicionário A.B em frangalhos. Estou precisando de um novo, rsrs,.
abraços,

Misturação - Ana Karla disse...

Bom dia Cacá! Estou vindo do blog da Yasmine e a apresentação do seu livro por ela me desperta a curiosidade. Em breve quero ler.

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Essa sua crônica está perfeita e servirá para sempre.
Semana passada quis comprar uma enciclopédia para os meus que são pequeninos, para que na pesquisa possam ver outras coisas interessantes, pois aqui na net é muito fácil, digitar e Ctrl-v/ Ctrl-c
Assim faço com o dicionário,,, tem que procurar para ir vendo e conhecendo outras palavras.

Grande visão.

Bom final de semana.

Xeros

Isadora disse...

Cacá tenho um grande fraco por palavras cruzadas. Herança do meu avô materno!
Quanto ao dicionário, outro vício, pois eu o adoro. Gosto de pesquisar palavras.
Um beijinho

Thatica. disse...

Nossa eu tbm preciso fazer minhas necessidades fisiologicas, lendo uma revista.. agora irei utilizar as palavras cruzadas! Rs.

parabéns pela homenagem ao pai dos inteligentes..

pq se engana quem diz que o dicionário é o pai dos burros..

burro é aquele que não tem pelo menos a curiosidade de aprender..

bom fds..

Lúcia Soares disse...

Cacá, muito prazer em estar aqui.
Ainda mais num dia de post tão bonito.
Adoro ler, o dicionário é meu companheiro, adoro ir ao banheiro lendo, fazendo cruzadas, sudoku...
Minha família toda é de ir ao banheiro com algo para ler, nem que seja um folder de propaganda. rsrs
Nunca tive o "Aurelião", mas há uns meses comprei o mini Aurélio e ele me serve bem.
Tenho um antigão, que ganhei do marido, um tempo depois de casarmos, pois dicionário não faz parte dos presentes para uma nova casa. Não tínhamos um e me fazia muita falta, pois meu pai tinha o dicionário como livro de cabeceira, manuseava-o todos os dias.
Também sou sua seguidora, a partir de hoje!

Adh2bs disse...

Prezado Cacá!
Duas belíssimas crônicas na homenagem ao autor de um verdadeiro best seller! Saiba que ando com meu exemplar sempre ao lado (embora ele não esteja indo ao banheiro onde também castigo minhas revistas "A Recreativa"); ao ponto de ter providenciado outro para os meus filhos, para não esculhambarem o meu!
Grande abraço,
Adh

Uni ver sos disse...

Bravo, Cacá!!

Fiquei comovida com sua homenagem, quase ninguém lembrou-se,

Sua escrita é deliciosa, mesmo que outros vejam nela idiossincrasias, despautério ou desatinos. Eu vejo poesia e ponto.

Minha admiração sempre!

Ξ ѕ t є я ☆

Elayne C.A. disse...

Para mim é o melhor!!! E vc também..adorei e morri de rir com a sua "mania", digamos assim...rsrsrs Beijos!!

Celina disse...

Oi cacá muita paz, vim agradecer a visita e te desejar um final de semana bem legal. Lí as tuas crõnicas gostei muito,vx é muito bom nisso, sem querer dizer que vc não seja bom nos outros assuntos que escreve. Que bom que vc lembrou do autor, e pretou a sua homenagem, de qualquer formaele não foi esquecido, ao menos para os teus leitores ELE foi lembrado, isso se chama gratidão! Um abraço carinhoso. Celina.

Toninhobira disse...

Por isso se diz que no silencio de um canto nasce grandes idéias,pois ali talveza haja um despendimento da alma que voa e assim as inspirações se enamoram e criam raizes.Que seja lá,kkk.E assim fazendo as cruzadas vamos prevenindo do mal maior da velhice e engravidando de palavras.Bela cronica Zé, mas esta lembrança do Sarna foi terrivel, eu já tinha esquecido aquela ciranda rapaz.Meu abraço de paz e luz.

Marli Borges disse...

Oiii Cacá,
Muito boa tua crônica e muito linda a homenagem. Eu também sou chegada num dicionário, rsrs. Aqui nós chamamos "amansa-burro", rsrs.
bjssssssss

Milla Pereira disse...

Ai, ai, Cacá! Pobre de mim se não existisse o Aurélio. Ele é meu parceiro de letras que, sem ele, elas seriam mais pobres do que são. Adorei teu blog,meu amigo. Aportei aqui, através do Blog de Yasmine e, com sua licença, incluí-o em minha lista de "caipiras" láno meu. Passe lá pra conhecer nosso espaço do sertão. Vc vai gostar. Beijos, Milla

Fátima Nascimento disse...

Eu me identifiquei bastante com este seu apego ao dicionário não virtual. Tenho um atualizado (com a nova regra ortográfica) ao alcance de minha mão em minha casa (e certamente outros guardados na estante).

Curioso é que não faz muito tempo eu estava falando com amigos sobre isso: eu pesquiso uma palavra e não resisto a ler outras (justificando ainda mais meu não abandono ao papel). Ou seja: aprendo sempre qdo abro as páginas de um dicionário.

Meu abraço!

Yoyo Pizy disse...

Adorei Cacá, adorei!
Primeiro, dei muita risada com o começo do seu texto, depois me concentrei na crônica e me encantei com ela.
Parabéns pela merecida homenagem ao Aurélio.
bjos

Simone Moura e Mendes disse...

Entendo que o dicionário não é o "pai dos burros", conforme tantas vezes repetido; mas de quem quer deixar de ser. Belíssima homenagem, Cacá, prestada ao nosso Aurélio. Ele será sempre um ícone. Não pude deixar de ficar orgulhosa pela referência feita na crônica à homenagem que lhe prestara Alagoas. Por outro lado, é mesmo lamentável quão pouco se valoriza quem realmente merece neste País. Parabéns pela exemplar iniciativa. Aproveito para, mais uma vez, agradecer sua visita contumaz ao nosso blog www.simonemouramendes.com (Uma vida em poesias). Ah! A propósito o Dinho está em franca recuperação. Saudações
Simone

Sheila disse...

Oi Cacá, ótima a idéia de nos presentear com este momento.Pois quem não se lembra da alegria de abrir um dicionário para encontrar palavras, aguçava a curiosidade, e fazia os olhos ficarem treinados.Era e é muito bom.Quanto a sua crônica ,sempre interessante, e muito bem escrita.Beijos

Sheila disse...

Oi Cacá, ótima a idéia de nos presentear com este momento.Pois quem não se lembra da alegria de abrir um dicionário para encontrar palavras, aguçava a curiosidade, e fazia os olhos ficarem treinados.Era e é muito bom.Quanto a sua crônica ,sempre interessante, e muito bem escrita.Beijos

HSLO disse...

Cacá,


obrigado pela energia positiva deixada em meu blog viu...
to muito confiante meu amigo.


abraços
de luz e paz

HSLO disse...

Cacá,


obrigado pela energia positiva deixada em meu blog viu...
to muito confiante meu amigo.


abraços
de luz e paz

CESAR CRUZ disse...

Cacá, preciso dizer que me solidarizo fortente com vc (e fazendo força, é claro), pois também tenho no banheiro meu refúgio de leitura. Sai o ruim e entra o bom, como sempre digo! Vamos falar mais disso, é importante! Uma campanha, quem sabe!

Outra coisa: também tenho um Aurélião anoso como o teu. O meu é idêntico, mesma capa. Dei ao meu pai em 1989, um ano antes de ele morrer, desgraçadamente, de um infarto traiçoeiro (com apenas 47 anos, eu tinha 19). Tenho meu Aurélião, velhíssimo, até hoje.

Ah, outra coisa: sabia que o Sr. Aurélio foi grande cronista/ contista? Não,procure e achará livros dele. Comprei um dia desses e me deliciei. Pouca gente sabe...

abço forte
Cesar Cruz
SP

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