sábado, 1 de março de 2008

O FUTURO DO CAFEZINHO


Acordei várias vezes durante a noite passada com uma enorme vontade de tomar um café. Creio que é psicológico, somático, sei lá, por estar com restrição em função da fase de recuperação de duas cirurgias que fiz esta semana. Dizem que provoca muitos gases e pode fazer doer os pontos. Mas tomei assim mesmo. Logo que levantei. Enquanto saboreava fiquei pensando sobre a importância dele em nossas vidas. Se não é importância, pelo menos a presença. Presença física, cheirosa, doce, amarga, quente ou fria. Atualmente, até combinada com outros sabores diversos aos costumes do nosso paladar. Mas firme e intocável. Intocável? Pois é disso que quero falar.

É muito difícil imaginar o dia-a-dia sem que o cafezinho tenha seu momento de companhia. Seja ao acordar, como fiz hoje, seja ao passar em frente a uma lanchonete ou padaria, seja em um encontro - formal ou não, para curar ressaca de quem preferiu o álcool ao café no tal encontro - formal ou não, em eventos de qualquer natureza.

É tão marcante sua presença nas mesas e xícaras dos brasileiros, que mesmo modismos americanizados até conseguiram mudar seu nome, mas não suas funções: Integrar pessoas e ao mesmo tempo, marcar um paladar típicamente brasileiro. Sobre o modismo, lembro de um caso engraçado em que fazia um curso de qualificação na empresa onde trabalhava e o instrutor, na abertura, distribuiu um folheto com a programação dos dias do curso. Entre atividades, almoço e encerramento havia um coffee-break pela manhã e outro à tarde, durante todos os dias do treinamento. Depois de todos lerem e guardarem junto ao restante do material, um colega levantou-se e soltou a pergunta: “Espera aí, mestre, nesses dias todos não vamos ter nenhum intervalo para um cafezinho?”

O café para mim é o produto mais brasileiro no sentido de identidade nacional. Do Oiapoque ao Chuí, com bombacha ou jerico, chimarrão, cachaça, suco, feijoada, pizza, umbu ou graviola, nada dá mais identidade brasileira que o café. Até para designar encontros, reuniões ou para expressar a hospitalidade, a referência é sempre o indefectível cafezinho.

Porém acredito que essa identidade está correndo sério risco a médio e longo prazo. Por motivos vários, o glorioso, imbatível e insubstituível café está deixando de fazer parte dessas coisas todas de que falei. Mansa e silenciosamente.

Como todos somos de tudo um pouquinho, vai aqui o resultado de meu lado pesquisador e estatístico. Sou de família de nove irmãos, cada qual com média de 2 filhos. Dos nossos filhos e sobrinhos, nem a metade toma café regularmente. Alguns nunca e outros sequer conhecem o sabor. Assim, conversando com outras pessoas, também pude constatar que a tradição não vem sendo mantida e isso é preocupante. Economicamente não é tão problemático, pois sua ausência pode ser compensada por outra produção. O negócio é saber se vai garantir a identidade. Isso sim, me preocupa, num mundo cada vez mais despreocupado com esses elos tão caros aos seres humanos, apesar de parecerem insignificantes. Reúna a qualquer hora amigos, colegas de trabalho ou familiares (em torno de um cafezinho, claro) e pesquise se não é fato.

2 comentários:

paulo disse...

ZÉ, o café só agora você me revela que o café causa gases? Se soubesse disso, teria contigênciado a verba do café no sindicato e em casa.Combinado com o alcool, imagine o estrago.

Anônimo disse...

Tomar café é um hábito muito comum aqui na Europa. Cá em Portugal chega daí do Brasil o melhor café e há uma "Cafetaria" a cada 30 metros (com pães deliciosos). Toda a gente tem uma máquina de café expresso em casa. Por aqui não há risco de extinção pq as pessoas saem simplesmente para tomarem um café. Os mais jovens adquiriram um péssimo hábito de tomar sufo em pó e até refri logo pela manhã - isso é que é péssimo para a saúde.
Tia Nina - que sempre gostou de um cafezinho.

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