sábado, 22 de março de 2008

TILÁPIA

Inimigos a gente faz muitos na vida. Tem de todos os tipos e para todos os gostos – ou desgosto. Já morei em muitos lugares e com muita gente de alto e baixo calão e escalão e não queixo muito nesse capítulo. Detratores tenho poucos. Declarados, na verdade, não conheço nenhum; e se me fosse dado o direito de escolher, os preferiria, porque os ocultos são mais perigosos, ensina a caminhada. É inveja, ciúme, orgulho, injustiça, traição, tudo isso constrói senão um inimigo, um amigo reticente, o que para mim dá no mesmo. Cá entre nós, o bom da vida mesmo e o cálice da salvação é, religiosamente, fazer amigos. E, se for fazer inveja ou não, ouso dizer que fiz. Não tantos quanto gostaria, mas duma qualidade sem par. Ou de uma qualidade ímpar.

Um deles é o Paulinho Patrício, também conhecido como Tilápia. Eu o chamo peixe fora d’água, não por sobreviver anaerobicamente e sim pela aversão a certos comportamentos convencionais; o que comumente chamamos de gostar de andar na contramão. Talvez por isso o apelido, nunca perguntei o motivo. Questionado por exemplo numa certa terça feira no trabalho aonde chegara com bafo amanhecido de noitada etílica, “ uai, Paulinho, bebendo em plena segunda feira?” respondia que, se trabalhava todos os dias, porque não poderia beber também? Esse negócio de agir como gado em boiada rumo ao pasto não é com ele; tá mais para ovelha desgarrada do rebanho. O que lhe atrai muitas simpatias quase sempre é o caráter assumidamente fora das convenções tácitas ou explícitas.

As mulheres gordas, que todos classificam desproporcionais, para ele são uma massa uniforme, cujas nádegas se juntaram com as costas e os peitos com a barriga. Tenho, entre muitas lembranças, guardada uma foto da época em que fui abrigado por ele em seu apartamento depois de uma separação matrimonial, onde (na foto) estou adormecido num colchão após um almoço, ele se deitou ao meu lado, me abraçou como faz um casal numa sesta e mandou alguém registrar. Certa feita, vindo exausto de uma viagem de carro que nem era tão longa, mas de trânsito intenso e tarde já para quem teria que despertar antes da alvorada para o trabalho, acendo a luz da sala para colocar a mochila e achar o caminho da cama. Havia um caixão em cima da mesa com uma vela acesa ao lado, que me fez estatelar, branquear e perder a voz num só tempo ante a cena, só desfeita com a sua saída do quarto com cara de quem nada tinha a ver com o episódio. Só riu depois de me refazer do susto quase fatal aos corações perrengues e me explicar que havia mandado fazer para uma manifestação de rua em que faríamos um enterro simbólico de um inconveniente personagem político ou econômico, não me lembro bem qual. Éramos dirigentes sindicais naquela ocasião.

Afora as brincadeiras e sutilezas da boa molecagem, é de uma solidariedade grandiosa e de uma bondade que, em conhecendo-o, vai-se logo abrindo o coração e depondo-se todas as armas que já estamos previamente habituados a carregar, se não no corpo, quase sempre na mente. A distância nunca nos afastou o convívio em pensamentos; e os contatos telefônicos e eletrônicos amenizam a saudade que bate vez por outra. A última boa lembrança foi dia desses numa conversa ao telefone em que me relatou haver voltado a beber, depois de longa pausa para tratamento de colesterol, triglicérides, etceteris, ao que ingenuamente perguntei: - mas em plena quaresma? Resposta, de aguda franqueza: - Ora, você não acha que é também uma penitência? Todo mundo pára nesse período e eu me obrigo a beber todos os quarenta dias, querendo ou não!

1 comentários:

paulo disse...

zé, o caixão era para o enterro de João Ramos, que ta vivo aí até hoje. Se você for se lembrar de inúmeros causos contecidos em casa, sindicato , timbopeba e principalmente no seu bar,junto com Valci vai ficar legal. Abraços, Paulinho Patricio

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