sexta-feira, 23 de julho de 2010

FEMINISMO E MPB


Muita coisa no comportamento de homens e mulheres mudou definitivamente com o movimento feminista que ganhou força avassaladora a partir dos anos sessenta do século passado. Vou me ater à música para ilustrar os momentos mais marcantes da mudança da condição da mulher objeto para a mulher agente.

 AI , QUE SAUDADES DA AMÉLIA, o famoso hino machista de Ataulfo Alves foi a primeira a cair em desgraça no gosto das novas “sem sutiã” da praça. Virou um inimigo poderoso, combatido em todas as frentes de audição. Já vi muita mulher quebrar vitrolas antigas por causa dela. Ela era o alvo preferido e considerada tão machista que outras acabaram ficando no esquecimento da perseguição. Tivemos por exemplo, o Agepê, que cantava JEITO DE FELICIDADE. Coisa impensável hoje em dia:

 “Acorda amor, já é hora de fazer o café
Sabe como é que é
Eu tenho que pegar o trem das seis
Senão não chego as sete lá
Eu já falei pra você
Deixar de assistir a novela das dez
Esquece de lembrar do compromisso
Quem não tem nada com isso
Fica sem café”,

Até o Chico Buarque, considerado o alter ego feminino deu a sua derrapada em FEIJOADA COMPLETA. Não estou defendendo-o, mas acho que ele queria era falar de uma festa regada a uma boa feijoada. Ocorre que acabou colocando a mulher  sozinha para fazer tudo e ele só entrou com os amigos e a bebedeira e ainda por cima, sem aviso prévio, mandando botar mais água no feijão. Fazia-me lembrar das raivas que a minha mãe tinha quando meu pai chegava meio tonto aos domingos levando um amigo para o almoço depois que todo mundo em casa já havia comido e lavado as louças. 

 “Mulher, você vai gostar
Tô levando uns amigos pra conversar
Eles vão com uma fome que nem me contem
Ele vão com uma sede de anteontem
Bota a cerveja estupidamente gelada prum batalhão
E vamos botar água no feijão...” 
E o triunfo feminino veio com os próprios homens, alguns interpretando o momento de poder feminino com classe, feito Ivan Lins em BILHETE, se bem que serve para ambos os sexos, mas as mulheres se apropriaram dela primeiro. Fafá de Belém foi rápida no gatilho e gravou: 
“Quebrei o teu prato, tranquei o meu quarto
Bebi teu licor
Arrumei a sala, já fiz tua mala
Pus no corredor
Eu limpei minha vida, te tirei do meu corpo
Te tirei das entranhas
Fiz um tipo de aborto
E por fim nosso caso acabou, está morto
Jogue a cópia da chave por debaixo da porta
Que é pra não ter motivo
De pensar numa volta
Fique junto dos teus
Boa sorte, adeus”

E também uns com menos recursos argumentativos ou se sentindo derrotados, fizeram músicas que são chamadas “de corno”. Será que foi vingança delas? Olhem o hino deles com o Reginaldo Rossi:
“Garçom! Aqui!
Nessa mesa de bar
Você já cansou de escutar
Centenas de casos de amor...
Garçom!
No bar todo mundo é igual
Meu caso é mais um, é banal
Mas preste atenção por favor...
Saiba que o meu grande amor
Hoje vai se casar
Mandou uma carta pra me avisar
Deixou em pedaços meu coração...”

7 comentários:

pensandoemfamilia disse...

Muitas mudanças de lá prá cá, com algumas consequências excelentes, outras nem tanto. Também recordo-me como meu pai lidava com minha mãe, que após o nascimento das filhas parou de trabalhar. Considerei-a sempre muito submissa e procurei fazer diferente, não acho que consequi muito, pois há muitas espécies de submissão, não é mesmo???
bjs

Adh2bs disse...

Boa tarde mestre!
Belo assunto, tenho o privilégio de ter uma mãe que nos conscientizou sobre isso "mulher não é escrava". Nos ensinou cozinhar, costurar, para sermos independentes e não nos casarmos com o que ela chama de "esposa-escrava"; ainda temos traços machistas (biologia é destino - como diz o L.F. Veríssimo), mas somos (meus irmãos e eu) maridos bem aceitáveis... Já fora da praça, lamento informar às moças casadoiras.
Grande abraço, ótimo final de semana.
Adh

Marliborges disse...

Olá, amigo!
Tive o privilégio de criar dois filhos. E graças a Deus pude criá-los como gente, como seres humanos. Só isso. Sei que não precisa mais. O resto, os "ismos" que andam soltos por aí, podem até servir pra literatura, mas pra nossa vidinha, essa daqui, já restou comprovado que não servem para nada. Boa lembrança essa das músicas. Eu nem lembrava mais. Bjssssss E aí, como foi ontem?

gorettiguerreira disse...

Pois não é que Cacá nos faz relembrar com requintes coisas lindas de um tempo não longe?
Beleza de Crônica amigo.
Quanto ao meu texto querido, ainda bem que o poeta nem sempre escreve de si próprio e o lamento não é meu momento, apesar de amar a tristeza de uma canção ou poema amigo.
Arrancam de nós belas verdades em versos melancólicos não é?
Muitos beijos aos seus e um belo fim de semana na paz de Deus.
Bjs Goretti.

Celina disse...

oi cacá tudo de bom amigo, agradeço pela visita e comentário,Que bela criação a sua mãe deu a vcs. Isso é ótimo pela independencia, vc com certeza não se aperta com nada. aqui só as mulheres sabem fazer tudo são ótimaas cosinheiras, mais os meninos não sabem fritar um ovo.Cacá segunda feira dia 26 de uma olhada no blog o que elas estão lendo, fiz uma postagem para o mesmo.E a minha segunda posstagem.um abraço fraterno celina.

Toninhobira disse...

Sim Jose foi um marco os anos 60 neste processo maravilhoso,que as mulheres conquistaram com beleza até.Realmente foi muito feliz em pegar o gancho com as musicas e com os exemplos deixou tudo mais elucidado.Apenas dou habeas corpus ao Chico,apesar desta derapada, mas foi é o compositor que mais tão bem se postou de mulher para fazer belas musicas,cantando a dor, a humilhação destas. Que vivam as mulheres nossa razão de ser.E via voce por esta iluminação nas inspirações para escrever coisa fundas e precisas e reflexivas. Meu abraço mineiro de admiração,com muita luz e paz.

Mulher na Polícia disse...

Senti uma certa nostalgia nesse texto, mas gostei da expressão "mulher agente".
: )

Beijos!

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