sexta-feira, 6 de agosto de 2010

NÃO ERA HORA DAQUILO


Ultimamente tenho dedicado algumas horas a procurar umas músicas tão cantadas muito tempo atrás e desaparecidas completamente das paradas. A música de boa qualidade está numa crise braba. Quem não achar pode dizer o contrário. Eu digo que é a que eu me acostumei a gostar e estaremos resolvidos na preferência pessoal.  Os grandes compositores estão numa espécie de férias, eu quero crer. Dos novos talentos posso destacar muito poucos. Uma hora vou falar deles.

As músicas que marcaram época nos foram apresentadas pelos grandes festivais que existiram num passado muito fecundo de idéias e efervescência cultural no mundo e o Brasil foi um celeiro de grandes manifestações. Embora esta última frase que fiz pareça um artigo cheio de clichês de crítico de arte, é a mais apropriada que encontrei. Música também sempre foi associada a movimentos, a vanguardas, uma espécie de abrigo às idéias que circulam no mundo. E a nossa tumultuada última metade do século vinte ofereceu um prato cheio à criação.

As músicas de protesto contra a moral e os costumes abrigaram-se no Tropicalismo. Aquelas que protestavam contra o regime político ganharam o país como verdadeiros hinos clandestinos de uma geração engajada nos movimentos de transformação e rebeldia; “os subversivos” como eram saudosamente chamados quem compunha e quem ousava comprar disco deles. (Êta saudade de uma subversão!). Chegamos a ter um policiamento entre os próprios artistas, isolando-se os românticos, considerados alienados de um lado, na jovem guarda, e os subversivos engajados de outro, no Tropicalismo. E tinha os independentes ou marginalizados pelos dois lados. Vejam um exemplo: Antônio Carlos e Jocafi eram uma dupla adorável de baianos, produziam uma espécie de samba canção lento e delicioso. O mais notável e mais conhecido foi VOCÊ ABUSOU, onde, numa analogia poderiam estar se defendendo da condição de alienados ou fazendo apenas um protesto a uma amada intelectualizada. Pra um bom entendedor, uns versos bastam:

“...me perdoem se eu insisto nesse tema, mas não sei fazer poema ou canção que fale de outra coisa que não seja o amor.”
 “Se o quadradismo dos meus versos vai de encontro aos intelectos que não usam o coração como expressão...”

Por onde andarão? Eles eram muito bons, mesmo.

Vandré, caminhando e cantando, conformou-se com a derrota numa final de competição musical dizendo que “a vida não se resumia a festivais.” Chico e Jobim foram sonoramente vaiados como  vencedores com a romântica “Sabiá” num festival. Mal interpretada pelo público, que não entendeu as metáforas da letra da canção. Estes são, no entanto, um caso à parte. Transitavam bem em qualquer modalidade, estilo, nota e melodia. Até o Raul  Seixas entrou na rebeldia, ele que era rotulado um eterno rebelde de outra galáxia, acabou dizendo que, no fundo, no fundo, todo mundo queira mesmo era vender discos:
“ Mas é que agora pra fazer sucesso, para vender disco de protesto, todo mundo tem que reclamar?...”
Quanta saudade!

11 comentários:

Chica disse...

Estás certíssimo e também tenho saudades daquelas músicas que podiam ser ouvidas sem necessidade de serem "vistas" mostrando bundões se remexendo, cobertos ou não,srsr...abração,chica

pensandoemfamilia disse...

Olá Caca
No outro dia me peguei nesta linha de pensamento sobre compositores e escritores que se foram e não há ninguém para ocupar este espaço.
Momentos de criação precisam de sentimentos, sensibilidades, interiorização para que sejamos tocados e penso que vivemos momentos de muita dispersão.
bjs

´Flor* disse...

È amigo Cacá tu estas coberto de razão,mas é que houve uma transformação do quesito .....
QI..no meu tempo ele saia da Mente..Hoje em dia ele sai da "BUNDA"...eu ainda fico na minha..
Ernesto Cortázar e Kenny G e não abro mão..e xiem quem quizer xiar..
Muito Boa tua crônica..Bjuss\Mil\Flor*

Lua Nova disse...

Foi uma época privilegiada no que tange à nossa música popular. Verdadeiras obras primas foram expostas ao público, e como quase tudo que é novo, foram vaiadas e incompreendidas, mas em compensação, serão eternas.
Boas lembranças e, para mim, um bom tempo. Tinha minha vida toda pela frente.
Querido, um fds cheio de paz e alegria pra vc e os seus.
Beijos.

Maria disse...

Amigo também eu gosto de recordar as músicas de outros tempos.
Aproveite ao máximo o fim de semana, viva cada momento com alegria e deixe entrar a felicidade no seu coração.
“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.” (Oscar Wilde)
bom fim de semana
Bjs do tamanho do infinito
Maria

HSLO disse...

Verdade viu Cacá...a uma crise em nosso mundo musical, nossa.

abraços

Hugo

Toninhobira disse...

Feliz fomos nós,que vivemos numa nuvem da criação musical e que hoje somos saudosistas.Sofro como o que vejo,soma-se a isto eu ter que viver sob o barulho do Axé.Onde estão os mais Doces Barbaros,os Cae e os Gil? Ah, realmente o negocio é ficar revirando o bau.Quem viveu ao som do Clube da Esquina. Eu ainda viajo mais longe pela influencia de meu pai violeiro, que faz voltar aos velhos boemios da decada de 50 e 60.É muita onda meu caro.A postagem é perfeita, com referencia aos movimentos que fizeram a historia de nossa melhor musica.Um abraço mineiro.Ao som de Povo da Montanha de Sirlan.

Celina disse...

Cacá um final de semana bem legal para vc. gostei da sua crõnica, sendo que alguns dos cantores deixaram saudades. mais fico com o Chico Buarque de Holanda, e Elizete Cardoso principalmente quando ela canta as Bachiannas de Vila Lobo.
de uma passadinha no meu email um abraço carinhoso Celina.

Talita Oliveira disse...

Acabei sentindo saudades de uma época que não vivi.
Conheço a boa música desde cedo por causa dos pais, e pouco me identifico com os artista musicais da minha época.

Muito bom você trazer isso à tona, querido Cacá!

"Paz e bem"

Beijos!

lis disse...

Oi Cacá
me pego também com saudades.
nao sei o que acontece com nossos jovens.
As musicas e letras de hoje deusdoceu são péssimas, salvo algumas e poucas excessoes.
esses funks da vida, voce gosta? rsrs
garimpa aí e traga mesmo mais lembranças porque vou anotando daqui rss
a feira literária esta rolando e também sinto muito nao ter ido dessa vez,já estive em outra ocasião, é muito interessante pra quem gosta de leitura e escritores, como eu.
abraços, bom final de semana, bom descanso

Tais Luso de Carvalho disse...

Cacá: assino embaixo!! Pura verdade e ótimo teu texto. Vejo que estou muito repetitiva aqui em casa; volta e meia estou falando nisso: cadê nossos compositores, onde estão as músicas dos Movimentos, dos Festivais que mostravam para o mundo que nossa música estava entre as mais lindas? Não vejo mais nada. Recorro aos meus CDs, e através deles me encontro, novamente, nos meus gostos musicais. Não é implicância com o que se faz hoje, mas é inevitável a comparação...

Beijos
Tais luso

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