quarta-feira, 11 de agosto de 2010

ACONCHEGO


“São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar”
(Gente Humilde, de  Garoto)


Tem uma crônica minha chamada Esquisitices, onde trato de um tema que muito me apraz: o comportamento das pessoas da porta para fora de suas casas. Isso pode me livrar da pecha de fofoqueiro porque não falo de ninguém em particular. Por outro lado, pode me carimbar como boca nervosa por falar genericamente de todo mundo. Eu afirmei que as pessoas que se mudam do interior para a cidade grande em vez de influenciarem nos modos de ser da cidade, acabam absorvendo dela seus modos de ser, a meu ver menos amistosos do que os hábitos que elas possuíam antes.

Na antiguidade havia muitas invasões e o povo dominado depois de muito apanhar como escravizado que se tornava, influía significativamente nas hordas de bárbaros sem modos nenhum de civilidade depois que passavam a conviver no mesmo lugar. Uma espécie de tapa de luvas sem intenção.

Morei no interior, vim para a capital, voltei para o interior e voltei novamente para a capital. Nessa peregrinação laboriosa deu para observar muita coisa interessante. As pessoas na cidade grande já estão chegando naquele estágio onde um desejo de bom dia, em vez de alvíssaras, está se tornando uma provocação. Abordar alguém para pedir uma informação pode se tomar uma porta na cara, uma despistada ao celular, uma cara de paisagem ou a transformação do abordado na própria paisagem, poste, por exemplo. Isso sem falar nos xingamentos eternos no trânsito, nas faltas de educação no comércio, nas casas fortificadas que, se a gente precisar pedir uma água, morre de sede na maioria dos casos. Tem muita falta de educação, por exemplo, escondida por trás da desculpa de medo da violência urbana.

No interior não quer dizer que as pessoas não tenham seus medos e desconfianças; hoje em dia isso está contaminando irremediavelmente a sociedade, mas lá ainda é uma escola de delicadeza e generosidade humanas. A minha companheira de viagem da última que fiz ao interior, que pouco conhece fora de Belo horizonte, precisou entrar numa casa próxima da entrada da cidade para ir ao banheiro. Não aceitou fazer no mato de jeito nenhum, nem encarar os banheiros de beira de estrada, que equivalem a um potencial de insalubridade em escala exponencial. Demorou tanto que cheguei a pensar que fosse uma daquelas dores e barriga intermináveis. Fui até lá bater á porta para saber o que se passava. Para minha surpresa, estava num animado bate papo com a dona do lar, numa mesa com um café, bolo de fubá, queijo e uns biscoitinhos caseiros. Uma delícia que acabei provando ao mesmo tempo em que a avisava do horário de nosso compromisso. Muito contrariada, ela se despediu da senhora aos beijos a abraços entusiasmados. No carro me disse se sentir a pessoa mais importante do mundo, pelo tratamento tão hospitaleiro que recebeu e na volta deveríamos passar lá novamente para agradecer mais um pouquinho ao jeito que ela chamou de simples daquela boa mulher, mesmo eu dizendo que isso era muito comum. Acho que isso alterou alguma coisa no modo dela enxergar as relações humanas. Toda vez que a vejo novamente ela não deixa de tocar no assunto com uma satisfação a olhos vistos.

10 comentários:

Chica disse...

Sem dúvida, no interior ainda encontramos mais calor humano, que nas cidades, foi deixado de lado.

Nos edifícios, quase nçao vemos nossos vizinhos de lado.Cada um correndo pra um lado...Incrível.

Linda crônica e novamente, boa BIENAL!abração,chica

Misturação - Ana Karla disse...

É mesmo Cacá, é incomum encontrar pessoas que sejam gentis.
Talvez lá pelo o interior a gente encontre quem ainda abra as portas.
Por aqui tem, mas a desconfiança fazem as pessoas serem cada vez mais fechadas.
Adorei essa história.
Xeros

Isadora disse...

Cacá seu post não pode ser mais oportuno. Alguns hábitos, ainda existentes em cidades pequenas e mais difíceis na cidade grande sem dúvida trazem mais alegria para a vida. A hospitalidade, por exemplo? Como acolhermos alguém que não conhecemos e abrirmos a porta de nossas casas. Na cidade grande isso é praticamente impossível e vivemos cada vez mais voltados para o nosso próprio mundo.
Um beijo

M. Sueli Gallacci disse...

Cacá, muito interessante o teu texto.

Morei por quase três anos no interior em certa época da minha vida.

Confesso que estranhei a principio a atitude das pessoas por lá e demorei um pouco para compreender e aceitá-las. O hábito de entrarem em nossas casas sem bater, por exemplo.

A solidariedade exagerada, e a atitude de “aparecer” para ajudar sem ser solicitado, fez-me sentir invadida, no inicio... Depois voltei para São Paulo e senti uma falta danada de tudo aquilo.

Concluí tristemente como somos egoístas e perdemos a essência do bem viver, o aconchego de uma amizade sincera e desinteressada.

Aprendi grandes lições com aquelas pessoas simples e até hoje volto lá para rever meus amigos.

Um Gde Bjo.

Celina disse...

Oi cacá boa tarde, eu nascí na capital, mais conviví muito com o povo do interior, na terra dos meua avós maternos, ela não precisava botar alguem para ajudala, tinha sempre alguem por perto que nós chamamos de agregados, chegavam e iam ficando. e não cobravam nada a minha avó como era uma pessõa bondosa estava sempre os ajudando. Um abraço carinhoso. Celina.

Toninhobira disse...

"Ao chegar do interior, inocente puro e besta..." Que bela cronica Zé para explicar o stress e a violencia de nossas ditas cidades grandes.O caos implantado geral,as pessoas já não sorriem,fazem caretas.As grades estão invandindo todas as casas, com suas cercas eletricas, somos ilhas.A volta a simplicidade a confiança sem medo,é uma coisa boa para recuperar a esperança na humanidade.Bom seria se todos pudessem fazer este retorno a vida simples e de lá voltarem com seus embornal carregadinho de renovadas maneiras de ver a vida e o outro.Somos sonhadores né? Mas como viemos de lá ainda podemos sonhar. Sonhar em querer "Eu quero uma casa no campo/Onde eu possa ficar no tamanho da paz"
Luz e paz amigo.

HSLO disse...

Fundamental demais ler esse texto...e esse trecho da música Gente Humilde...nossa, eu sou gente humilde (amo essa música).

Abraços
de luz e paz

Hugo

lis disse...

Tambbém venho do interior Cacá e concordo que a abordagem é diferente. O aconchego também.Com todas as razooes que cita no texto, mais aproximação, menos violencia.
sempre volto lá pra semtir esse gostinho e volto porque a cidade gtrande tem seus atrativos também ,além de abrigar os amores que a gente tem.
obrigada pelos bons textos ,
abraços

Adh2bs disse...

Caro amigo.
Sinto-me em casa qdo vou p/ o interior. A cordialidade das pessoas, o interesse por esclarecer alguma dificuldade ou informação que a gente precise. Ser bem atendido num lugar - restaurante, p/ exemplo, e ver a conta surpreendemente baixa, além da amabilidade do atendimento! Claro que a cidade grande tem gente e lugares assim. Porém, muito diluídos na loucura da pressa, da indiferença e da desconfiança...
Abç, que vc só encontre boa acolhida por aqui!
Adh

Claudinha Monteiro disse...

Acho que essa questão de absorver comportamentos, integrar-se ao meio, é meio como a lei da Física - a historia do gelo no copo de água: porque o gelo derrete? POrque a temperatura da água e do meio que a cerca está em maior quantidade e é maior que a temperatura concentrada no gelo, que acaba sucumbindo. O gelo pode esfriar a água mas nunca a congelará...
Assim é quando mudamos nossas vidas, nossa essencia será sempre a mesma, mas o ambiente sempre nos influenciará os atos, de forma a nos adaptarmos ao que nos cerca, de outro modo, como viveriamos?
O homem é o camaleão que fala, pensa e faz besteiras...
Bjos, e de novo, boa sorte na Bienal!

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