quarta-feira, 4 de agosto de 2010

DOUTOR *


Para tudo o que se pensar hoje em termos de necessidades imediatas acha-se um especialista. Quer saber sobre um investimento? Tem dificuldade na educação dos filhos? Quer saber sobre perspectivas de carreira? Quer saber qual alimento faz menos mal? Quer saber por que o seu relacionamento não dá certo? Tem para tudo e todos. E, se não puder pagar, digite “tutorial” - “criança birrenta”, por exemplo, no google. Estará lá, de graça, o passo a passo para qualquer coisa, até espinhela caída.      

O caso da medicina é o mais presente na vida de todo mundo. A  chamada junta médica, que nada mais é que uma reunião de especialistas, mostra a fragilidade das nossas vidas por causa das especializações extremadas, do apego excessivo ao diploma como única forma de dar legitimidade ao conhecimento. Bom por um lado, excludente por outro, já que quem pode arcar com isso tudo é uma parcela insignificante do mundo.

Hoje em dia nenhum saber que não venha de escolaridade tem sido levado em consideração com o devido respeito. Experiência e prática não têm sido levadas em conta mais, se a pessoa não tiver por trás de si um canudo. Pode ser por isso que há tanta gente com tanto título que não sabe fazer nada. Pode ser por isso também que não há muito respeito com as pessoas mais velhas. Elas simbolizariam esse passado tão descartado a todo minuto. Deixam de ser portadoras de um conhecimento acumulado no passado para serem simplesmente pessoas ultrapassadas. Pelo menos é assim que eu vejo as cabeças mais modernas funcionando. O novo vem e o velho tem que dar lugar, sem transição nenhuma. Seja um velho sem nenhuma fama ou fortuna acumulada e saia por ai disseminando experiências de vida para ver a repercussão do que estou falando. O máximo que se consegue é um lugar preferencial numa fila e olhe lá ainda as caras de má vontade  ou piedade com que lhe tratam.

 Quase todos os que alcançam um nível escolar superior gostam de ser chamados de doutor, doutora. Vou falar de Drauzio Varela para exemplificar um generalista, o oposto de tudo isso. São pouquíssimos médicos no Brasil, talvez no mundo com o cabedal de conhecimentos assemelhados ao dele. Ele fala de tudo o que diz respeito ao corpo humano, suas manifestações físicas e psicológicas. Estudioso da história da medicina, das artes como contraponto às doenças, das terapias não convencionais, da cura do corpo pela mente. A literatura que ele produz é coisa de gente que se envolve com o conhecimento de tal forma que não o dissocia de todos os elementos que o compõem. Ou seja, é um especialista em tudo ou um não especializado em uma parcela que dependa fatalmente de outra. Se eu tivesse uma doença em qualquer ponto da cabeça aos pés eu confiaria o meu tratamento exclusivamente a ele, sem que necessitasse chamar ajuda. Esse sim, eu chamo de Doutor. Poderão dizer que é um caso de genialidade inata. Mas qual gênio que é gênio a vida inteira sem associar vários conhecimentos? Os que eu tenho notícia e que se limitaram a seu campo específico que o alçaram a esta condição (foco único), enlouqueceram de alguma forma  por não desenvolver todas as suas potencialidades. Assim como o DR Drauzio pode ser a imensa maioria das pessoas que se dispuser a enxergar além do que lhe é ditado. Esse negócio de “cada macaco no seu galho” pode ser relativizado tão intensamente quanto maior for a dedicação na aquisição de novos saberes, que ao contrário do que muita gente pensa, não é perda de tempo.
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* Escrevi esta crônica por causa de uma outra (ESPECIALIDADES), onde afirmava que “preferia ser ruim em muitas coisas do que especialista em uma só.” Uma ou outra opção é exagero. Bem sei que o equilíbrio entre a água e o fubá é que fazem com que o angu não dê caroço, já ensinava o meu avô. Só que eu estou tomando uma surra dos dois lados. Dos especialistas e dos “meia boca” assim como eu.

11 comentários:

Chica disse...

Muito bom e eu também gosto demédicos assim, que estão tão raros hoje. Um entennde dacabeça e só.Outro dos ouvidos e SÓ e assimpor diante.Assim, precisamos andar de malas pramostrar exames em cada um que nos pede pra mostrar ao outro para no fim de tudo, chegar à inteligente conclusão que estamos bem e tuuuuuuuuuuuuudo em dia.Pode??? Fui fazer uma série de exames num local especialiozado pra descobrir por que raios minhas mãos estavam tremendo. Fiz de tuuuuuuuuuudo e saí de lá com a requisição para um outro especialista que não estava no "pacopte". Aré agora a requisição está numa gaveta...abração,chica

Helena Frenzel disse...

Taí, desde que você não mude o texto (tem blogueiro que faz isto) concordo plenamente com você! Hoje estou tendo um dia de leituras bem produtivo, já descobri o que era "complexo de vira-lata", agora venho aqui e descubro que sua visão de "dôtor" bate 99,99...% com a minha (não digo 100% pra não me complicar). Ótimo texto, Zé, vou recomendar. Disse o que eu gostaria de ter dito. Um abraço fraterno e só nos resta seguir! Quanto a comentários maldosos, não esquente: "A verdade será sempre a verdade, dita por Agamenon ou seu criado".

Adh2bs disse...

Dr. Cacá;
Muito bem dito e escrito! Meu avô foi confrontado por um engenheiro paraquedista (destes que caem do céu no staff de uma empresa sem que se saiba de onde) que perguntou "qual a escolaridade do Sr?" Ao que ele, tranquilamente respondeu: "52 anos de 'faculdade' Light" (antiga - e saudosa! - Cia. de Energia Elétrica de SP). Tá bom pra vc?
Grande abraço deste "especialista em generalidades"! :-)
Adh

Isadora disse...

Cacá concordo com tuo o que você escreveu, mas a verdade é que precisamos desse canudo, de verdade. Na hora de disputarmos uma vaga de emprego, na hora de uma promoção ou aumento salarial. E canudo ainda que nem seja para trabalharmos na área pelo qual o conseguimos, mas ainda assim, o imprtante é o conhecimento que ajuda o outro e não o que dá títulos.
Um beijo e bom dia

Misturação - Ana Karla disse...

Para ser um verdadeiro doutor em qualquer profissão tem que estudar e caminhar muito.
Para mim é importante ser bom em apenas uma coisa.
Bom mesmo!!!
Xeros

Mari disse...

Muito bom seu post.

Eu tenho a sorte de ter em minha vida uma Dra. Drauzia rsrs.
A Dra, Debora minha ginecologista é ele de saia. Ela cuide de mim em todos os sentidos, tem uma propriedade em tudo quanto fala, nos diagnósticos que me deixarma totalmente confortável.

Beijo e ótimo dia!

Renata (impermeável a) disse...

Detesto especialidades...
Sei que estou na contramão.... Mas, minha cabeça não consegue ser especialista. Gosto do mundo como um todo... Gosto da multiplicidade e quando começo a desmenbrar algo em detalhes, a pequenas deficiencias, perde a poesia, o encanto, santa agonia que dá!

Sei que isto pode ser um defeito... mas, sei que isto faz parte da minha personalidade.

Arrisco a dizer, que a epoca das especialidades vai chegar ao fim, falta pouco para se exigirem seres humanos múltiplos...! Principalmente na area da saude...
to cansada de ser um pulmao. Já fui uma vesícula e como vesícula só me ferrei! E quando fui pele então.... me danei!

HSLO disse...

Parabéns pelo texto, você tem uma ótima escrita...
Obrigado pela presença em meu blog...viu.

abraços

Hugo

pensandoemfamilia disse...

Olá
Até hoje tenho um clínico. Não há como vivermos tão fragmentados como se propõe hoje, há especialista até para partes do corpo(ex. joelho).
Cada vez mais estamos caminhando para a transdisciplinaridade.
Eu trabalho com médicos, Perícia Médica, e há anos luto para a ampliação do olhar além do biomédico.
Em relação ao canudo, não tem jeito, qualquer concurso e promoções o exigem.
Mais conhecimento é uma construção própria que vamos adquirindo por vários canais do cognitivo ao sensitivo bem como nas diversas experiências que tivemos.
Seus assuntos são sempre bem interessantes pois~são questões que nos inquietam.
bjs

Mariana disse...

Concordo contigo,acrescentar o que mais?
mts q são chamados de doutores,na verdade não são.

Maria Mac disse...

Quando morei em Pirenópolis, Goiás, tinha um vizinho já velhote, roceiro, muito surdo (portanto falava enrolado) e que, por causa disso tudo, era com frequência desrespeitado pelas outras pessoas da cidade. No entanto, ele conhecia como ninguém o cerradão véi e diagnosticava a saúde das árvores com muita competência. Muitas vezes tive que recorrer a ele e ao seu precioso conhecimento adquirido com a vida e a experiência. E jamais vou me esquecer de quando ele orientou um rapazinho do local pra amarrar adequadamente e serrar, seção por seção, uma grande árvore cuja raiz havia sido comida pelos cupins e estava ameaçando cair sobre o meu telhado.
Tenho saudades do Seu Geraldo.

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