quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A ETERNIDADE DO MELÃO


O Marcelo é um cara agregador. A sua aura é daquelas que exalam uma energia  tão boa, que acho difícil até mesmo para um estranho  que lhe aborde para qualquer coisa não querer permanecer em sua companhia por mais algum tempo. Eu não sei se posso me considerar seu amigo. Pelo menos gostaria. Depois de muitos anos sem notícias mútuas, nos encontramos outro dia. A gente ali naquele papo de atualizar as trajetórias e ele me disse o quanto a sua vida havia mudado de uma hora para outra. É que tornou-se pai de quadrigêmeos. Virou notícia no jornal da televisão aqui em BH.  No entanto não tinha uma olheira sequer, mesmo me dizendo que seu ritmo é levantar no máximo às quatro da manhã para fazer a sua parte nas mamadeiras, ajudar a carregar uma ou duas das meninas enquanto as outras mamam, trocar fraldas, etc e depois sai para o trabalho, no escritório de advocacia, aquela loucura de reclamados e reclamantes , audiências, petições e recursos. Ah, e ainda me contou que continua com sua banda tocando nas noites. Ele gosta muito de rock e disse-me que agora faz um cover de Elvis Presley.  Toca pelo menos uma vez por semana em bares e festas. Eu disse, depois de verificar que nesses anos todos e num turbilhão assim, a receita da boa genética e da conservação pelo espírito tranquilo estava com ele.

A medicina já está anunciando que vamos poder chegar saudáveis até os 100 anos. Eu disse para ele que algumas pessoas vão precisar mesmo de uma ajuda da medicina se quiserem. Acho que ele não vai precisar. E olhe que ele possui um sócio que tem todos os ingredientes para melar a sua longevidade! O outro é uma bomba relógio armada. Destemperado verbalmente, intolerante e impaciente, quase sempre de mau humor. Creio que o Marcelo seja o seu ponto de equilíbrio. O sócio dele, se quiser viver 100 anos, vai precisar e muito da ajuda de tecnologias médicas.

Muita gente nesse mundo tem um desejo de se eternizar. Uns por algum feito memorável outros pela permanência em carne e osso aqui na terra. A consciência da nossa finitude é o que acho que mais assusta e faz as idiossincrasias de cada um. Alguns buscam exercer a hipocrisia da bondade que não possuem com medo quase religioso do que possa haver depois da morte. A maioria, no entanto se contenta em fazer o bem por pura consciência de que está cumprindo seu papel de vir, deixar uma boa contribuição e partir desta. Mas é muito difícil encontrar alguém que queira morrer de bom grado, mesmo com a consciência tranqüila, né não? Portanto, vamos vivendo por ai nos equilibrando nesta dicotomia impalpável.

Bom, e o que o melão tem a ver com isso? Eu só ia falar dele no dia 31 de dezembro, quando vai fazer um ano que eu o comprei.  Está já com nove meses, quase dez e permanece intacto na fruteira daqui em casa. Não desidratou  que nem um maracujá maduro, não amadureceu mais, nem apodreceu - como poderá alguém pensar. Está viçoso e com a mesma aparência que veio da feira até hoje. O que o homem fez com o melão é o que deve estar sendo preparado em termos de eternidade para a genética humana. Já, já, vamos poder escolher entre o que está no seu interior e o que ele aparenta por fora.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

HUMOR

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE


Uns pesquisadores americanos descobriram que pessoas que passam dores de amor das mais variadas, desde traição, abandono, desprezo, etc., sofrem alterações cerebrais com  efeitos semelhantes às de quem é viciado em cocaína e passa por uma crise de abstinência. Ou seja, o cérebro comporta igualmente nos dois casos. Então, como já há remédios para a abstinência da droga, o Ricardo Boechat, apresentador do jornal matutino na rádio Bandnews*, onde ouvi a notícia, prevê que em breve a medicina vai desenvolver um medicamento para atuar nessas áreas cerebrais. Ele já até se antecipou e sugeriu o nome do comprimido: CORNIL. Bastaria uma terapêutica com dosagens prescritas e estaria resolvida a dor de corno. Já eu fico preocupado é com a dependência. É sabido que os hipocondríacos, por exemplo, gostam muito de simular uma doença somente para tomar remédios. Meu medo é que eles insistam em manter relações que os levem ao corneamento só para poderem tomar remédios.

* Rádio Bandnews, 89,5 FM, 06/09/10

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

BOM EM QUALQUER ÉPOCA - O NOVO HOMEM


Há tanta produção literária por esse mundão, tanta coisa que tanta gente tem acesso e muito mais coisa que tanta gente não tem que pelo bem do conhecimento humano e da literatura, acho que toda oportunidade que tivermos para aumentar a visibilidade de textos bons não pode ser perdida. Selecionei alguns que acho que precisam de quando em vez ser divulgados pelas suas qualidades inumeráveis. É só mais uma forma de dar ainda mais vida à sua imortalidade. Só lendo para qualificar. E isso cabe ao leitor.

O NOVO HOMEM

O homem será feito
em laboratório.
Será
tão perfeito
como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não-objeto
fará escultura.
Será neoconcreto
se houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório,
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como flor
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
"Nove meses, eu?
Nem nove minutos."
Quem já conheceu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exato,
medido, bem-posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afeto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaio
e, per omnia secula,
livre, papagaio,
sem memória e sexo,
feliz, por que não?
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.


Carlos Drummond de Andrade
Esta crônica/poema foi escrita em 1967, numa coluna que o poeta tinha no Jornal do Brasil (RJ)

domingo, 5 de setembro de 2010

DIFERENÇA ENTRE CONVÍVIO E AMIZADE




imagem google


Às vezes temos dois tipos básicos de pessoas ao nosso lado: umas porque a gente precisa delas por alguma razão. E outras porque a gente faz questão que estejam do nosso lado. Mesmo não precisando delas.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

SOBRE LEITURA


Chato, insisto na palavra. Não é ela cantada que embala bebês nas canções de ninar?  Não é ela, pois nas historinhas para dormir que se conta aos pequenos? Não são as palavras dos salmos as usadas nas primeiras e últimas homenagens? E por que não lê-las em vida? Não diz a sagrada escritura que no principio de tudo era verbo? Voltaremos aos aedos, aos trovadores? Ensinaremos de novo a escrita? Imagem é tudo?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

ROÇA (DE NOVO)


A palavra "rural" hoje no seu significado mais inerente está se tornando quase uma ofensa. Contradição das contradições, nunca se falou tanto em meio ambiente, mas na prática quase ninguém quer se ver ligado a uma roça, no sentido mais natural que isso possa ter. Estranho mundo, não é? Parece que a natureza está se tornando exótica, uma espécie de museu a ser preservado.

Estou republicando esta crônica, a propósito de um excelente artigo publicado no blog da Norma (http://pensandoemfamilia.com.br/blog), chamado Reverência à Terra.

EIS A CRÔNICA

            Se perguntar a um americano desses ultra - hiper modernos o que ele conhece como roça, provavelmente lhe responderá:  - Brazil. Tem muita banana, indiada e floresta.  Amazônia is very beautiful! Mais para perto, aqui em casa mesmo em que minha mulher é dessas nascidas e criadas na metrópole e só conhece de televisão e estudo de geografia, com certeza responderá que é qualquer cidade do interior. Os mais novos ainda:  - sei não, véi, deve ser onde ficam os bicho. Se souberem então de onde vem a carne do hambúrguer...  - Nó, véi, doido demais! 

O que me fascina e espanta ao mesmo tempo é que quanto mais distante de sua origem natural, mais estranho o homem se torna para si mesmo e difíceis ficam as relações dele com o mundo aparentemente facilitado por todas as tecnologias disponíveis, inclusive as que o dispensam do saber, das origens e da inter-relação entre as coisas. Não importa se a vaca vai ou não para o brejo, desde que o leite não falte ou não suba de preço. O pão comprado todos os dias pelo menos por considerável parcela da população não tem para ela nenhuma relação com um grão.

- É, véi, sabia que o trigo antes de chegar a ser pão é um grão quase da cor de um bago de feijão? E o mais relevante: tudo isso é produzido num lugar chamado roça. Ou num dialeto mais moderno, regiões produtoras do agronegócio. Já foi  economia agrícola familiar, mas está perdendo seus antigos alqueires para os milhões de hectares dos latifúndios. A natureza ainda vai ser uma coisa reinventada pelo homem. Nada natural, mas pode trazer alguma vantagem se for interativa.

            Tem umas saudades que não largam a gente nem se quiséssemos. A que tenho da roça é um vinco que não sai nem com ferro de braseiro. Banho de rio, dormir depois que o sol se punha, à luz de lamparina, esperando o infalível canto dos galos para avisar daquele cheirinho de café feito no fogão a lenha e adoçado com rapadura, acompanhado de leite tirado àquela horinha, esquentado nas tetas da própria vaca e uma broa de fubá. O angu então era um prato permanente. Aquela panela de ferro tinha lugar cativo numa trempe. Só recebia renovação de água e fubá com sal e gordura de porco.

            Tia Donata e Tio Anselmo,  diziam que acordavam antes dos galos, com os pios dos pintinhos pedindo canjiquinha ou milho para comer. Acabavam eles despertando com os bichos. Mas era mesmo para nos fazer todos os agrados. E faziam com uma ternura seca ou com uma secura terna que nem dá para explicar. Como fazer carinho sem precisar pegar no colo, sem ter que dar beijo na testa. Aqueles chamegos de pegar na mão e dizer Deus bençõe com uma honestidade de desfazer qualquer cara feia, mau humor ou birra de menino da cidade, acostumado com luz elétrica e banheiro com chuveiro quente. O Tony (assim mesmo com ‘Y’; ele dizia que gostava e entendia muito inglês), a Mirinha e a Vera eram os primos mais novos que nos acompanhavam nas brincadeiras e ensinavam os segredos da roça para a gente. 

            Os confortos da modernidade estão chegando na roça. Isso não é mau. Tragédia será se conseguir acabar com o sotaque da fala, com o gosto  do frango caipira e com o cheiro de bosta de boi. Ou, melhor ainda, como já ouvi, um toque de celular com som de berrante.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

ILUSÃO


Falar de amor em desencontro
não é igual a desengano
É, antes, uma dor de um momento
que se vai depois do pranto.

Desengano é ilusão
Que fica no peito e na mente
O coração dispara inclemente,
E a gente perde o chão.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

ESSA NOITE NÃO


O título acima é de uma música (abaixo) de Lobão que dei a interpretação que me coube no momento. Não é o caso aqui de inventar o que o compositor quis dizer com os versos e sim o que eu ousei. É que a solidão tem motivos variados. E acontece que eu estava pensando agora há pouco sobre  holofotes  que se acendem e se apagam criando luminosidades ou ofuscando caminhos.

Olha só como é que eu vejo algumas acontecências na vida: O instinto de sobrevivência humano era para ser apenas um mecanismo de defesa. Virou competição e nesse caso, a melhor defesa é o ataque. Não quer dizer que o ataque tenha o fim de matar um ou outro, apesar de acontecer muitas e muitas vezes, mas através de uma competição para o vivente sobressair acima de tudo e de todos. Ah, se não fossem umas leis... Já teria gente montando impérios como na moda antiga, cheios de haréns, escravos e súditos. Vontade é que não falta por aí.

A busca da fama, o desejo de reconhecimento, a população que aumentou demasiadamente, o talento do ser humano, a inteligência, a imaginação e a criatividade não comportam tudo o que todos querem e nem todos se satisfazem com uma pequena notoriedade. Tem-se que ser o maior, o melhor. Tudo e todos ao Sucesso. Assim como se produz essa máxima no mundo dos negócios, se reproduz na vida pessoal. A necessidade de se sobressair pode levar à glória se tudo der certinho, seja por talento puro, esforço descomunal, fraude ou apenas sorte. Ou à depressão se as coisas não se efetivarem conforme se deseja. Também pode levar a um inconformismo marginalizante ou ainda pode levar a um auto-extermínio. Poucos se contentam com a efemeridade e a não imortalidade em vida. Nem que seja apenas um reconhecimento em família. Afinal, a vida vive procurando sentidos e levando a gente junto, não é mesmo?

A cidade enlouquece sonhos tortos
Na verdade nada é o que parece ser
As pessoas enlouquecem calmamente
Viciosamente, sem prazer

A maior expressão da angústia
Pode ser a depressão
Algo que você pressente
Indefinível
Mas não tente se matar
Pelo menos essa noite não

As cortinas transparentes não revelam
O que é solitude, o que é solidão
Um desejo violento bate sem querer
Pânico, vertigem, obsessão

A maior expressão da angústia
Pode ser a depressão
Algo que você pressente
Indefinível
Mas não tente se matar
Pelo menos essa noite não

Tá sozinha, tá sem onda, tá com medo
Seus fantasmas, seu enredo, seu destino
Toda noite uma imagem diferente
Consciente, inconsciente, desatino

A maior expressão da angústia
Pode ser a depressão
Algo que você pressente
Indefinível
Mas não tente se matar
Pelo menos essa noite não

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

PODE SER COINCIDÊNCIA


Sexta feira treze ainda tem um restinho de mistério guardado na cabeça de muita gente antiga. Perdeu seu encanto para a modernidade que desmistificou quase tudo  quanto era estranho e não sabido pela ciência que ajudou a tirar a graça de muito medo bom e ruim que a gente tinha. Não que eu seja tão antigo, mas sendo cronista, tenho quase a obrigação de arranjar alguma graça ainda nesses tempos onde o suspense fica por conta apenas do medo do que os vivos vão aprontar diante da falta de paciência que reina no nosso meio.

Viajei para São Paulo numa poltrona atrás da 13, onde uma senhora dividia o assento com um jovem, que a princípio pensei ser  seu filho. Hoje em dia só mesmo filhos para ter tamanha paciência com alguém mais velho e ainda mais atrapalhado. O celular dela não parava de apitar, sua poltrona não parava no lugar, pois ela sabia como se ajeitar com a alavanquinha de reclinar. Levava um lanche de pão com mortadela com aquele cheirinho gostoso de se sentir de madrugada dentro de um ônibus cujas janelas não se abrem por causa do ar condicionado, verdadeiro guardador de odores. Desculpava-se de minuto em minuto com o seu companheiro de viagem, que tentava em vão dar uma cochilada. E ainda numa poltrona mais atrás um jovem com um MP100000 tocando uns funks numa altura ensurdecedora. E ninguém dormia. Ele fez questão de desplugar o pino dos fones de ouvido para socializar o som com os passageiros. Já repararam como as pessoas gostam de socializar coisas que irritam? Ninguém lhe oferece um concerto de música clássica para dividir num espaço coletivo, só titum-titum-titum com som de carro alto, conversas indiscretas aos celulares e notícias trágicas. A senhora no meio da viagem ainda teve uma dor de barriga, usou o banheiro do ônibus e demorou a fechar a porta quando saiu. Imagine o cheirinho no recinto com o ar seco, parado e frio? Sem superstições, eu comecei a achar que algo não ia terminar bem na minha ida. Uma noite inteira sem dormir, às sete da manhã, chego ao hotel, reservado com uma semana de antecedência, o recepcionista me diz que só haveria vaga a partir de 13 horas.

domingo, 29 de agosto de 2010

BEBEZÃO

Eu e a magnífica escritora e amiga Rosa Pena na bienal do livro em SP dia 14/08/10

UMA RESENHA DA ROSA PENA PARA O MEU LIVRO


Difícil escrever uma resenha quando fala mais alto a emoção. Fica, portanto, uma crônica de vida corrida. Ah! Ela tem me obrigado a praticar Cooper existencial.

Mas,
é que de repente, não mais que de repente ganhei um amigo e estou na tentativa de ficar isenta de carinho para escrever sobre o livro dele, não por retribuição por ele ter escrito sobre o meu livro. Não estamos fazendo álbum de elogios, não precisamos trocar figurinhas. Escrevo por ter gostado demais de ler A vida do bebê quarentão.

Deixo a lua e venho para o micro buscar as palavras que descrevam o novo livro de José Cláudio Adão. De cara sinto o humor inteligentíssimo do livro A Vida do Bebê (segunda parte - de 40 para frente). O título já é a prova do que disse anteriormente. Muito bem bolado!


O livro traz fatores essenciais para o bem viver nessa segunda metade da vida. Ele, porém, deixa claro que não é auto-ajuda, mas se a existência (à vera) começa aos quarenta, onde costumamos dizer que aprendemos tudo e ainda não esquecemos nada, fica a pergunta no ar... Por que tanta crise nessa idade?


José Cláudio nos dá algumas das respostas que o início da maturidade adora questionar e junto nos dá (entre boas reflexões), saudáveis puxões de orelhas e risadas.


Na minha eterna falta de tempo comecei a ler e o bendito apareceu. Junto com ele a consciência de tempo ganho, bem aproveitado, pois valeu a pena ler cada linha desse excelente escritor mineiro.


O cotidiano pode ser uma maravilha. Como disse Johnny Alf: "O inesperado traga uma surpresa". E trouxe daquelas boas.


Experimenta e depois não diga que não
confia em ninguém com mais de trinta! Com menos? Nem nasceu né Zé Cláudio? 












sábado, 28 de agosto de 2010

AMOR E ÓDIO


O egoísmo sendo instinto de sobrevivência no homem, a ganância sendo adquirida e, tendo ele ao longo de sua história desenvolvido relações sociais em que prevalece a propriedade particular dos bens que produz, criou-se um estado mental coletivo da posse material e não se separou isso das relações afetivas. Por isso (creio), confunde-se muito amor e posse. Será que o sentimento de ódio advém daí?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

SOBRE O PLÁGIO


Diz o Fernando Pessoa que o poeta é um fingidor
Embora não dissesse que fingidor rimasse com trapaceiro.
Não sou, portanto enganador.
Isso me mantém inteiro

Não misturo alho com bugalho
Não iludo o outro, isso é do baralho
Se alguma vez fingi
foi para não causar mal, taí!

“O que sou nunca escondi
Vantagem nunca contei”
Esta frase não é minha,  me rendi
É do Vandré, pronto, falei

Digo apenas que um sonho meu a continha
Posso até virar ator, menos simular autoria
Plágio é coisa mesquinha
Se fizessem comigo eu rebelaria.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

POEMINHA BOBINHO


Entrei no estabelecimento,
para a moça disse bom dia!
E para perguntar o que eu queria
ela me respondeu com “oui”

Eu com cara de bobo, logo respondi
Oui ou uai?
Ela sem entender
Quis aprender  mineirês

Enquanto na França é sim o tal de oui
Em Minas o uai explico a vocês
Basta ter um espanto para gente dizer
Já o que significa, quem é que vai saber?

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O HOMEM FINANCIADO


“E ainda por cima...
Tem que pagar prá nascer
Tem que pagar prá viver
Tem que pagar prá morrer...”
(Trecho da música Pare o Mundo que Eu Quero Descer, de Silvio Brito).

A dívida nasceu no mesmo tempo que inventaram o dinheiro. O que faz com que uns tenham dinheiro e outros não tenham constitui a própria história da humanidade. Não daria pra falar aqui numa simples crônica de mais um endividado entre milhões de pessoas pelo mundo. Mesmo que a gente não possua aquelas dívidas de arrancar os cabelos, não há como escapar dos compromissos financeiros que nos acompanham do dia do nascimento até a morte. E nem estou falando das dívidas interna e externa de cada país. Essas a gente paga, paga, paga e continuará devendo por todos os séculos e séculos, amém.

Fiz uma imagem mental de minha árvore genealógica e gostaria bem de saber desenhar para ilustrar ricamente o assunto. Ricamente no sentido figurado, pois ela terá muito poucos galhos pendendo para o chão pelo peso da fortuna que eventualmente algum ancestral meu tenha possuído. O meu caráter atávico não diz muito a respeito de riqueza material. Só se for um atavismo assim de umas dez gerações para trás. Algum avô muito antigo que tenha sido um áulico de palácio em algum lugar de Roma, de Portugal ou um rei africano muito antes de começar o processo de escravização lá por aquelas bandas.

O meu pai pagou para mim em prestações o hospital, a escola, o supermercado, a farmácia e o açougue para me sustentar a infância. Tudo pertencia à empresa onde ele trabalhava e não tinha direito a inadimplência, pois era descontado na fonte, mês a mês, tal como o leão da receita federal faz hoje com o imposto de renda dos assalariados. Cresci e arranjei logo um emprego para ajudar no restante da caminhada. Família enorme, dinheiro curto, a gente tem que dar os pulinhos logo cedo. Estudei em escola pública e particular, o que não quer dizer que eu não pagasse pelas duas. Pagar para morar e comer, é uma dívida que a gente considera natural (desde que tenha dinheiro). Ou não considera natural se for um ilustre membro da elite representativa dos poderes legislativo, executivo ou judiciário. Nesse caso é natural eles não pagarem e é natural a gente pagar por eles. Só mais uma dívida que nem levamos em conta.

A seqüência nem é preciso falar dela, pois depois que se tem filhos a dívida vai passando pra frente. Mesmo se você for rico e deixar uma fortuna para eles, em algum momento há a relação de dívida. Se não for de sua prole, vai ser de quem for trabalhar para ela e assim sucessivamente.

Portanto, me considero um homem absolutamente financiado. Em suaves prestações, vou pagando cada parcela do meu empréstimo eterno com esforço, ora sob protestos, mas com alegria também.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

O PODER E O DINHEIRO (OU O DESIGUAL E NÃO COMBINADO)


Desde a descoberta do fogo, o homem investiu-se de poder. Aquela rodinha de pessoas sentadas ali jogando conversa fora, riscando pedras no chão, de repente sai uma faísca, queima a mão daquele mais agitado, pois esfregava com mais força e ele vê e sente o fogo pela primeira vez. O chão, provavelmente cheio de gravetos e folhas secas, incendiou-se e a turma em volta, por ignorância completa, começou a reverenciar o felizardo como um ser dotado de poderes misteriosos. O cara passou a ter poderes que nem ele mesmo sabia, mas também não era bobo e soube tirar proveito disso muito bem. Estava inventada a submissão; o dominado e o dominador; o rei e o súdito; e o popular “quem manda e quem obedece”. 

Daí para  aquele tem e o que não tem foi um pulo. Nem é preciso voltar muito longe no tempo histórico: vejamos os casos das pirâmides do Egito antigo. Alguns homens já haviam se transformado em reis, com status de deuses. Mandaram fazer pirâmides de blocos pesadíssimos de pedras, algumas equivalentes a prédios de 10, 12 andares - sem guindastes nem carrinhos de mão. Somente para que fosse enterrado um homem e mesmo assim com todos acreditando que ele ressuscitaria, coisa que mais tarde, só Jesus teria conseguido sem precisar de nenhuma humilhação ou exploração de outro ser humano.

Enfim, acho que esse é o princípio da desigualdade social. E como o homem já sabia desde remotas eras que navegar era preciso, se espalhou pelo mundo e a maior prova disso é que há pirâmides no México, no Peru, na China e nos EUA, dentre as muitas descobertas mais recentemente. Isso bagunçou para sempre os instintos primordiais do homem que dá início com esse episódio, ao processo de civilização.

O poder e o dinheiro desvirtuaram tudo quanto é pureza de sentimentos. O que começa com uma emoção forte e verdadeira, tem que ser “enquadrado” na hora de estabelecerem-se relações humanas. O perde e ganha assume a ponta das conversações, intenções e palavras, senão é prejuízo na certa para uma das partes.

Os tais instintos humanos primordiais que era para evoluírem de instintos para sensações e daí para sentimentos  - numa perspectiva cristã - perderam-se numa confusa definição do que seja fraternidade, amor e felicidade. O amor, por exemplo, tornou-se uma relação afetiva jurídico-administrativa. Aquela história de meu bem antes, meus bens depois, sabe?

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

UMA VISTA PARCIAL DA BIENAL


Depois de oito dias enfurnado entre o quarto de hotel e o galpão do Anhembi, cá estou para lhes contar as novidades, para mim surpreendentes sob todos os pontos de vista. Surpreendentes não tanto pelo caráter inusitado, novo ou extraordinário, mas pelo fato de eu estar presente no contexto como participante. Então, o olhar se torna mais filtrado do que eu mesmo esperava. No espaço gigantesco formado por 15 ruas cruzando com quinze avenidas literárias e  margeadas por praças gastronômicas aconteceu a bienal do livro de São Paulo. Foram cerca de 350 estandes, representando mais ou menos 900 selos de editoras nacionais e estrangeiras. Pelos meus cálculos estimados,  só de autores nacionais, havia mais de 90.000. Desses, a esmagadora maioria eram autores novos.

Como numa feira qualquer, vale a qualidade do marketing mais do que qualquer outro quesito para se vender algum produto. O quesito da qualidade é restrito aos iniciados, entendidos e amantes da literatura. O grande público vai à bienal como vai a uma feira qualquer: para se misturar à multidão, coisa própria do espírito gregário humano, para comer, para sair da rotina, para encontrar pessoas e para comprar livros também, apesar desse último ato ser limitado pelos preços proibitivos que as editoras praticam ainda no Brasil. A seleção já começa por um estacionamento a 25,00; ingressos a 10,00 e um cafezinho a 3,00. Imaginem o preço dos livros... De qualquer forma, é um evento que coloca quase todas as editoras brasileiras em contato com o público leitor, observador e negociador. São coisas do capitalismo.

Para quem está começando e quer trilhar o caminho da literatura, há que se contentar em ver a bienal como uma espécie de pedágio no trajeto, um ponto de parada importante para continuar a andança pela estrada pedregosa e difícil de ser vencida. Nunca um ponto de chegada. No entanto, é um entreposto importante para deixar a marca do que foi feito até ali e uma impressão do que mais pode ser feito. Assim, ela ( a feira) abre mais portas que serão encontradas à frente com mais facilidades; comparativamente eu diria, barateando os próximos pedágios. Caminhos paralelos também são mostrados e as possibilidades de melhorar as escolhas vão crescendo, desde que o novo autor não se deixe abater pelo desânimo, pela falta de determinação em seguir em frente.


FOTOS DO EVENTO

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

CONVITE

Minha gente querida!
A partir de hoje até a semana que vem, devo me ausentar daqui. Vou participar da Bienal do Livro em São Paulo e farei, inclusive, um lançamento do meu livro. Digo "devo me ausentar" porque não sei se aguento ficar sem marcar presença por aqui durante tanto tempo. Talvez eu dê mas escapulidas para postar alguma coisa. Ler vocês eu vou ler sempre. Aproveito e deixo aqui o meu convite e se puder ter a honra de receber qualquer um(a) de vocês lá, a satisfação será enorme. Deixo o meu abraço e um até breve. Paz e bem a todos.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

MEU ESTADO DE SER FELIZ


Banalidades não consomem meu bem estar interior procurando a enganadora aparência de profundidade naquilo que é um jeito facinho de ser feliz. Não encontro em nenhuma superficialidade algo além do transitório, sinônimo poético de “efêmero.” A integridade que me sustenta as pernas através do que alimenta meu corpo precisa se ajuntar à outra integridade retirada de onde eu busco meu alimento para a alma.

A tentação do consumo não me corrói irresponsavelmente as finanças e não rôo unhas por causa do nervosismo diante de algum bem que não posso ter ou que pude e me arrependi por não ser bem aquilo que me satisfaria além de alguns momentos. O efeito da impulsividade é assim: lembra-nos em poucos instantes que tudo é passageiro em termos de matéria.

Apesar de não ser muito favorável a muitas permanências, elas são fundamentais no quesito satisfação que caminha em direção à tão sonhada felicidade.

As raivas que sinto, sinto exaustivamente, feito um estóico que busca no sentido da dor o aprendizado. Azar, se dizem que não é necessário. Que posso fazer se assim é que me sinto fortalecido? Me aquieto até digerir bem e depois fazer uma espécie de dreno em forma de superação, compreensão e resposta escrita ou falada, mas não vaga. Nem o famoso deixa pra lá, nem a ofensa de revide. Vejo depois de um balanço que 99% dessas raivas eram desnecessárias. Senti, não me exaltei, não fui impulsivo a ponto de reações explosivas, de resultados catastróficos. Então a minha saúde cardíaca e mental acabam agradecendo em forma de depurada calmaria. Sou um obstinado combatente das urgências cujos efeitos colaterais nas minhas ações diante delas me adoecem o corpo e o espírito.

Assim chego a um lugar onde pode ser o topo: um bem elevado estado de auto estima; e assim sendo, eu me amo. É verdade, me amo sabendo que esse é o condicionante inseparável para que eu possa amar o outro. Sem esse composto organo-psíquico tudo o mais é balela se insistir para dentro ou para fora em dizer que amo algo ou alguém. Terá sido uma manifestação de carências sobrepostas tentando encontrar amparo disfarçadamente em quem nada tem a ver com isso.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

ACONCHEGO


“São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar”
(Gente Humilde, de  Garoto)


Tem uma crônica minha chamada Esquisitices, onde trato de um tema que muito me apraz: o comportamento das pessoas da porta para fora de suas casas. Isso pode me livrar da pecha de fofoqueiro porque não falo de ninguém em particular. Por outro lado, pode me carimbar como boca nervosa por falar genericamente de todo mundo. Eu afirmei que as pessoas que se mudam do interior para a cidade grande em vez de influenciarem nos modos de ser da cidade, acabam absorvendo dela seus modos de ser, a meu ver menos amistosos do que os hábitos que elas possuíam antes.

Na antiguidade havia muitas invasões e o povo dominado depois de muito apanhar como escravizado que se tornava, influía significativamente nas hordas de bárbaros sem modos nenhum de civilidade depois que passavam a conviver no mesmo lugar. Uma espécie de tapa de luvas sem intenção.

Morei no interior, vim para a capital, voltei para o interior e voltei novamente para a capital. Nessa peregrinação laboriosa deu para observar muita coisa interessante. As pessoas na cidade grande já estão chegando naquele estágio onde um desejo de bom dia, em vez de alvíssaras, está se tornando uma provocação. Abordar alguém para pedir uma informação pode se tomar uma porta na cara, uma despistada ao celular, uma cara de paisagem ou a transformação do abordado na própria paisagem, poste, por exemplo. Isso sem falar nos xingamentos eternos no trânsito, nas faltas de educação no comércio, nas casas fortificadas que, se a gente precisar pedir uma água, morre de sede na maioria dos casos. Tem muita falta de educação, por exemplo, escondida por trás da desculpa de medo da violência urbana.

No interior não quer dizer que as pessoas não tenham seus medos e desconfianças; hoje em dia isso está contaminando irremediavelmente a sociedade, mas lá ainda é uma escola de delicadeza e generosidade humanas. A minha companheira de viagem da última que fiz ao interior, que pouco conhece fora de Belo horizonte, precisou entrar numa casa próxima da entrada da cidade para ir ao banheiro. Não aceitou fazer no mato de jeito nenhum, nem encarar os banheiros de beira de estrada, que equivalem a um potencial de insalubridade em escala exponencial. Demorou tanto que cheguei a pensar que fosse uma daquelas dores e barriga intermináveis. Fui até lá bater á porta para saber o que se passava. Para minha surpresa, estava num animado bate papo com a dona do lar, numa mesa com um café, bolo de fubá, queijo e uns biscoitinhos caseiros. Uma delícia que acabei provando ao mesmo tempo em que a avisava do horário de nosso compromisso. Muito contrariada, ela se despediu da senhora aos beijos a abraços entusiasmados. No carro me disse se sentir a pessoa mais importante do mundo, pelo tratamento tão hospitaleiro que recebeu e na volta deveríamos passar lá novamente para agradecer mais um pouquinho ao jeito que ela chamou de simples daquela boa mulher, mesmo eu dizendo que isso era muito comum. Acho que isso alterou alguma coisa no modo dela enxergar as relações humanas. Toda vez que a vejo novamente ela não deixa de tocar no assunto com uma satisfação a olhos vistos.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O PONTO G



ARCANJO* E O PONTO G

A começar por uma questão semântica, o G pode perfeitamente ser confundido em uma hora completamente imprópria, com  um lugar genérico, sem gosto de alguma coisa surpreendente. Quando se percorre um caminho desconhecido, o melhor é perguntar a quem o conhece, que seria o(a)parceiro(a). É dos dois gêneros, pois andam dizendo por ai que os homens também possuem o tal ponto clímax. Arcanjo foi às ruas, o lugar ideal para pesquisar sobre o assunto, já que entre quatro paredes só interessa a quem está lá dentro. E se achar, jamais alguém vai sair falando por aí onde é para não fazer uma propaganda que depois pode gerar desgosto ou ciúme se o(a) parceiro(a) resolver mostrar pra todo mundo. Eis alguns depoimentos:

1
- Moço, pela hora (eram 18 hs), o meu ponto G deve estar chegando em casa.
- Como assim, chegando em casa?
- É o Genival, moço, aquele  homem é uma fera. Parece um rei Midas da lascívia. Tudo enquanto é lugar que ele toca em mim arrepia. Uhhh! Tchau.

2
- Olha a que ponto eu cheguei, meu rapaz. Eu já estava tão desencantado com isso que eu fui procurar o ponto G na literatura. Então li em algum lugar, depois de muita bobagem que andam escrevendo por ai, que o tal ponto era na nuca da mulher, bem abaixo de onde termina o couro cabeludo e começa o pescoço propriamente. Sabe ali atrás, onde estão aqueles pelinhos fininhos, onde parece ser o lugar onde a mulher tem o cabelo mais liso? Pois é, Diziam que ali, com um leve sopro, ou mesmo uma fungada, não haveria resistência a ser vencida mais. Quase consegui. As mulheres que tive depois disso foram todas unânimes em negar. Teve até uma que me disse que eu havia chegado mais ou menos no D, mas que faltava ainda muito empenho e desempenho para atingir o G.

3
- Não falo disso em público não, meu senhor.
- Mas por que? É por timidez, para preservar a privacidade?
- Não! É que eu descobri mesmo. Infalível. Mas vou ganhar algum dinheiro com a divulgação inédita em um livro que estou preparando.
- Já não tem livros demais tratando desse assunto e até hoje permanece um mistério, pelo menos para a maioria?
- Aí é que está o “pulo do gato”: é pelo título e pela sinopse que se atrai a maioria. Já combinei com o editor. O livro virá lacrado que é para não quebrar o encanto nem o editor, claro, e as pessoas vão continuar comprando como sempre fizeram. Não estou querendo dizer com isso que seja um engodo. Apenas reservo a surpresa que vai revolucionar a vida sexual e evolucionar a minha vida financeira.

4
- Já ouviu falar em sexo tântrico, moço? Essa modalidade leva em conta que temos mais de seiscentos pontos de sensibilidade na nossa pele. Então, quanto mais tempo e exploração, mais você descobre que o corpo possui um alfabeto erógeno inteirinho. A gente nessa correria do dia a dia acaba achando que eficiência no sexo também é chegar e levar o parceiro a orgasmo o mais rápido possível, quando é exatamente o oposto. Teve uma época que eu achava que minhas mãos e minha boca é que eram o ponto G. Até aprender, cheguei atrasada no trabalho umas vezes, quase fui demitida.

5
- Lá em casa esse tal de ponto G se chama ponto Ó. A gente combinou, vai namorando, se roçando, se relando e um vai falando pro o outro:
- É aqui, ó! É ali, ó. Entendeu?

6
- Moço, vou lhe contar um caso de um colega. Ele se acha o próprio ponto G. Só porque a amada dele (que ele diz ser muito gritadeira) na hora de partir pro inferno**, urra muito palavrão e outras coisas. Mas o que ele mais gosta de ouvir são os elogios com g, tipo vem meu garanhão, meu gostosão, meu galinha, meu glutão... O cara agora diz que o ponto G é ele. Pode?

_____________________________________________
* Arcanjo Isabelito Salustiano, o filósofo das ruas é um personagem que eu criei.
**partir pro inferno é uma expressão popular para o momento do orgasmo.


P.S: Esta crônica é baseada na notícia divulgada no endereço abaixo:

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

ECA!!! *


ESTE ARTIGO É UM ENSAIO SOBRE AS MUDANÇAS PROPOSTAS NO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE (ECA) QUE ESTÁ COMPLETANDO 20 ANOS DE VIGÊNCIA COM INCLUSÃO DE PENAS PARA PAIS QUE DEREM PALMADAS NOS FILHOS.

Pouco a pouco o estado vai assumindo aquela condição do fantasma do monstro abominável de um passado não muito distante. Representaria o comunismo no seu estágio mais extremista. Ele seria as mãos e os pés dos homens e mulheres para que estes pudessem se dedicar a seu serviço. Um monstro do tamanho de um bairro, de uma cidade, de um estado, de um país.

A ameaça campeava solta pelo imaginário popular disseminada pelo seu inimigo mais temido: o outro lado do maniqueísmo que representava o capitalismo, onde o estado era apenas um agente regulador de pequenas normas de conduta gerais e o resto era a liberdade plena, absoluta. Tanto a liberdade de ir e vir como a de estabelecer meios de se ganhar a vida como cada um achasse melhor. Tanto que os mais radicais desse lado, na sua anti-propaganda diziam que comunistas comiam cabeças de crianças. Não era mais o “vou chamar tutu pra você.” Era vou chamar um comunista pra você, se não se comportar.

O comunismo sequer chegou a ser implantado tal como foi preconizado pelos seus teóricos. Foi uma aventura onde a sede de poder do homem tomou o lugar dos princípios de igualdade ampla geral e irrestrita. Os modelos que o mundo experimentou foram um mal sucedido engessamento das liberdades individuais e uma igualdade onde quem mandava era mais igual do que quem obedecia. Foi tentando se manter a ferro e fogo e não podia dar em outra coisa: a resistência interna nos respectivos países e uma pressão externa que o tornou insustentável. Chegaram a construir muros para tentar isolar-se das tentações do mundo maravilha do capitalismo também desigual, mas onde o homem era livre. Livre pelo menos para poder escolher a qual dono ia se submeter. Lá atrás dos muros era um só dono, o estado totalitário.

Nas suas teorias, Marx** chegou a dizer que a idéia era uma sociedade onde o homem pudesse caçar de manhã, pescar à tarde e fazer crítica literária após o jantar, numa metáfora da suma e perfeita liberdade, das possibilidades de escolhas e da associação do trabalho com o prazer naquilo que não ultrapassasse as necessidades de sobrevivência. Não haveria riqueza extrema nem pobreza absoluta em termos materiais. O prazer viria como consequência, ao final de cada jornada, quando o tempo seria dedicado ao ócio que alimentasse o espírito. Bonito, né? E eu ainda acrescento aqui o que ele esqueceu de dizer: poderia namorar também nas horas livres, afinal, ninguém é de ferro!

Nessa queda de braços, estruturas vão se rompendo na marra. Na contra-propaganda, pelo terror psicológico e em último caso, através da violência. Isso altera significativamente o ritmo da vida de todos e a vida doméstica, principalmente. As relações se pautam no que acontece de fora para dentro e não o contrário. E tudo o que resulta de ruptura drástica, deixa perdido um rastro que seria o guia para o novo e deixa um caminho desconhecido à frente. Acho que os valores tradicionais que tanto foram questionados foram rompidos a pretexto de se criar um novo padrão comportamental e não houve um necessário e saudável debate com a comunidade envolvida. O rompimento é executado por rebeldes e a ordenação pelos “iluminados” ou gente de boa intenção que tenta a todo custo colocar as coisas nos eixos e se vê impotente. Não incapaz, mas impotente por que no meio do caminho há pragmatismos e interesses os mais variados. Os pais ficaram literalmente perdidos diante de tantos direitos sem a contrapartida da autoridade que lhe foi de certa forma subtraída pelo clamor geral de liberdades. Hoje até para um cachorro temos que fazer deferência em público sob pena de sermos execrados como maus. Corrigir um filho rispidamente na rua, é risco de linchamento. Nesse vazio psico-pedagógico, surge a figura do especialista. Hoje há especialista até em unha encravada. Gente que se arvora em aconselhar educação de filhos sem nunca ter tido um elabora manuais que são seguidos até mesmo por causa da falta de tempo dos pais de se dedicarem aos filhos. É, creio, uma forma também de expiação de culpas (seguindo-se o que manda o manual e em concordância com o senso comum está se fazendo o certo). Acho que é nesse vácuo que nascem as leis feito o ECA. De um lado, há abusos, de outro, há incapacidades pedagógicas. O estado num esforço de equilibrar as tensões age. É certo? É errado? Acho que são iniciativas. Ainda vamos passar por uma longa transição (que a meu ver vai deixar seqüelas em toda uma geração), mas é o preço que pagamos por acreditarmos mais nas coisas do que pensarmos nelas. 

O tapa passou a gozar de um status da maior violência que se pode cometer contra uma criança. Acho que há violências piores, sem que se encoste um dedo numa criança. Abandono, fome, chantagem, castigos no escuro, palavras de rejeição, enfim, é realmente polêmico e não quer dizer com isso que eu defenda uns tapas. Também sou contra toda espécie de violência. O que eu acho estranho é o legislador não se preocupar com o tecido social inteiro. Vai fazendo remendos que podem não resultar em uma bela colcha de retalhos. É temerário deixar que o estado tome conta de assumir de forma tão acintosa a educação dos filhos. Pode resultar em frangalhos.
Esta é uma opinião ainda em ebulição.


* O título com exclamação é um trocadilho infame que eu fiz
** Karl Marx, A Ideologia Alemã, ed. 1976, pg. 46.

sábado, 7 de agosto de 2010

BOM EM QUALQUER ÉPOCA - ALMA NUA


Há tanta produção literária por esse mundão, tanta coisa que tanta gente tem acesso e muito mais coisa que tanta gente não tem que, pelo bem do conhecimento humano e da literatura, acho que toda oportunidade que tivermos para aumentar a visibilidade de textos bons não pode ser perdida. Selecionei alguns que acho precisam de quando em vez ser divulgados pelas suas qualidades inumeráveis. É só mais uma forma de dar ainda mais vida à sua imortalidade. Só lendo para qualificar. E isso cabe ao leitor.



MINHA HOMENAGEM A TODOS OS PAIS DA BLOGSFERA



ALMA NUA - Vander Lee

Ó Pai,não deixes que façam de mim
o que da pedra tu fizestes
e que a fria luz da razão
não cale o azul da aura que me vestes.

Dá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
lançando acordes e versos
dispersos no tempo
pro templo do amor.

Que se tiver que ficar nu
hei de envolver-me em pura poesia
e dela farei minha casa, minha asa
loucura de cada dia.

Dá-me o silêncio da noite
pra ouvir o sapo namorando a lua

Dá-me o direito ao açoite
ao ócio, ao cio
a vadiagem pela rua.

Deixa-me perder a hora
pra ter tempo de encontrar a rima
ver o mundo de dentro pra fora
e a beleza que aflora de baixo pra cima.

Ó Meu Pai, dá-me o direto
de dizer coisa sem sentido
de não ter que ser perfeito
pretérito, sujeito, artigo definido.

De me apaixonar todo dia
de ser mais jovem que meu filho
e ir aprendendo com ele
a magia de nunca perder o brilho.

Virar os dados do destino
de me contradizer, de não ter meta
me reinventar, ser meu próprio Deus
Viver menino, morrer poeta.

Vander Lee



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