quinta-feira, 2 de setembro de 2010

ROÇA (DE NOVO)


A palavra "rural" hoje no seu significado mais inerente está se tornando quase uma ofensa. Contradição das contradições, nunca se falou tanto em meio ambiente, mas na prática quase ninguém quer se ver ligado a uma roça, no sentido mais natural que isso possa ter. Estranho mundo, não é? Parece que a natureza está se tornando exótica, uma espécie de museu a ser preservado.

Estou republicando esta crônica, a propósito de um excelente artigo publicado no blog da Norma (http://pensandoemfamilia.com.br/blog), chamado Reverência à Terra.

EIS A CRÔNICA

            Se perguntar a um americano desses ultra - hiper modernos o que ele conhece como roça, provavelmente lhe responderá:  - Brazil. Tem muita banana, indiada e floresta.  Amazônia is very beautiful! Mais para perto, aqui em casa mesmo em que minha mulher é dessas nascidas e criadas na metrópole e só conhece de televisão e estudo de geografia, com certeza responderá que é qualquer cidade do interior. Os mais novos ainda:  - sei não, véi, deve ser onde ficam os bicho. Se souberem então de onde vem a carne do hambúrguer...  - Nó, véi, doido demais! 

O que me fascina e espanta ao mesmo tempo é que quanto mais distante de sua origem natural, mais estranho o homem se torna para si mesmo e difíceis ficam as relações dele com o mundo aparentemente facilitado por todas as tecnologias disponíveis, inclusive as que o dispensam do saber, das origens e da inter-relação entre as coisas. Não importa se a vaca vai ou não para o brejo, desde que o leite não falte ou não suba de preço. O pão comprado todos os dias pelo menos por considerável parcela da população não tem para ela nenhuma relação com um grão.

- É, véi, sabia que o trigo antes de chegar a ser pão é um grão quase da cor de um bago de feijão? E o mais relevante: tudo isso é produzido num lugar chamado roça. Ou num dialeto mais moderno, regiões produtoras do agronegócio. Já foi  economia agrícola familiar, mas está perdendo seus antigos alqueires para os milhões de hectares dos latifúndios. A natureza ainda vai ser uma coisa reinventada pelo homem. Nada natural, mas pode trazer alguma vantagem se for interativa.

            Tem umas saudades que não largam a gente nem se quiséssemos. A que tenho da roça é um vinco que não sai nem com ferro de braseiro. Banho de rio, dormir depois que o sol se punha, à luz de lamparina, esperando o infalível canto dos galos para avisar daquele cheirinho de café feito no fogão a lenha e adoçado com rapadura, acompanhado de leite tirado àquela horinha, esquentado nas tetas da própria vaca e uma broa de fubá. O angu então era um prato permanente. Aquela panela de ferro tinha lugar cativo numa trempe. Só recebia renovação de água e fubá com sal e gordura de porco.

            Tia Donata e Tio Anselmo,  diziam que acordavam antes dos galos, com os pios dos pintinhos pedindo canjiquinha ou milho para comer. Acabavam eles despertando com os bichos. Mas era mesmo para nos fazer todos os agrados. E faziam com uma ternura seca ou com uma secura terna que nem dá para explicar. Como fazer carinho sem precisar pegar no colo, sem ter que dar beijo na testa. Aqueles chamegos de pegar na mão e dizer Deus bençõe com uma honestidade de desfazer qualquer cara feia, mau humor ou birra de menino da cidade, acostumado com luz elétrica e banheiro com chuveiro quente. O Tony (assim mesmo com ‘Y’; ele dizia que gostava e entendia muito inglês), a Mirinha e a Vera eram os primos mais novos que nos acompanhavam nas brincadeiras e ensinavam os segredos da roça para a gente. 

            Os confortos da modernidade estão chegando na roça. Isso não é mau. Tragédia será se conseguir acabar com o sotaque da fala, com o gosto  do frango caipira e com o cheiro de bosta de boi. Ou, melhor ainda, como já ouvi, um toque de celular com som de berrante.

7 comentários:

Chica disse...

que linda crônica essa que trouxeste, com esse texto vindo lá da Norma.

Grande verdade isso.

Que venha a modernidade, mas não se perca aquele jeitinho de campo que tanto agrada...abração,chica

Tati Pastorello disse...

Oi Cacá, não passei na Norma ontem, li aqui a crônica.
É uma verdade contundente... Eu trabalho com produtores rurais (não sempre, algumas vezes) e quero tornar isso meu dia-a-dia. Na verdade, por algumas férias infantis na roça, nunca me adaptei bem à cidade, mesmo tendo nascido nela.
Não vejo a hora do dia da mudança... E sei que meu filho terá muito o que viver por lá. Tratei, é claro, de escolher roça universitária, por que a gente precisa juntar as coisas, né? Viver de plantar ou cuidar de vaca já "não dá camisa para ninguém" (palavras de um dos produtores com os quais trabalhei...
Beijos.

Flor da Vida disse...

Querido poeta e escritor José Claudio (CACÁ)

Hoje é o teu dia!!!
Hoje é teu aniversário!
Estou muito feliz por você
e agradeço a Deus por tua existência...
Peço a Deus Nosso Senhor,
que sempre lhe dê proteção.
que lhe dê muitos e muitos anos de vida
regando-os com muita paz,
saúde e amor, e que ele
ilumine sempre o teu caminho...
Feliz aniversário!!!!!!!
Deixo a ti um abraço e meu carinho...
Paz e luz

Celina disse...

Oi amigo Cacá, parabens por mais um aniversário, saúde e paz vc tenha durante toda a sua vida que ela seja longa,que vc realise todos os seus sonhos. A crõnica é muito boa,. trais recordações a todos aqueles que tiveram a sorte de desfrutar umas férias no interior. um abraço fraterno. Celina.

lis disse...

Oi Cacá
Ainda sob o efeito devastador que é a perda de amigos, e principalmente em situações virtuais em que pouco podemos fazer pra confortar os parentes , venho deixar aqui meu abraço.
Penso que não é seu leitor, um amigo inc´rvel! deixei homenagem do blog dele lá no flor de lis.

Li seu texto da Roça e adorei , cheguei a sentir o cheirinho bom de cafezinho forte , moido e torrado na hora, do galo que canta na janela anunciando um novo amnahecer e até incomodando rsrs
e senti saudades!
Sou urbana ,mas nao dispenso a atmosfera que se tem no campo.
boa noite Cacá, abraços fortes

Mari disse...

Cacá querido,

Pelo que disseste ontem no Cantinho, hoje é seu aniversário não é?
Então meu amigo, feliz aniversário, que Deus te cubra de alegria, paz, saúde e amor.
Beijos

Neca disse...

Lendo tua crônica, me lembrei de uma música muito conhecida aqui nos pampas gaúchos que começa assim:

"Mas que pampa é essa que eu recebo agora com a missão de cultivar raízes, se desta pampa que me fala a história não me deixaram nem sequer matizes...?".

É véi..rsss..., infelizmente, foi-se o tempo em que ser 'de fora' (que é como a gauchada aqui se refere ao pessoal da roça) era motivo de muito orgulho. Mas, nem tudo está perdido, sempre vão existir pessoas como você para docemente relembrar como é bom cultivar raízes.
Beijin

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