terça-feira, 9 de novembro de 2010

O CRONISTA

        
                                                           
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O CRONISTA

O cronista é um entornista. Não entenda como aquele que entorna. É um neologismo que uso para explicar que é aquele que vive no entorno dos fatos mesmo participando deles. Se o poeta é um irmão das coisas fugidias como disse a Cecília Meireles, o cronista é um parente bem próximo também.

A maneira de cada um aproveitar os eventos da vida pode ser singular. Há os que gostam dos olhos e outros que gostam do olhar. Por exemplo, outro dia a minha filha me pediu que a levasse ao Mineirão. O sonho dela era entrar lá e assistir a um jogo de futebol do Cruzeiro. Enquanto ela torcia nervosa, gritava, esperneava e roia as unhas, minha atenção estava mais voltada para a “ôla”. Acho uma maravilha aquela onda humana coreografada sem ensaio. Não dá errado, ninguém sai da harmonia. A mesma coisa eu observava com relação às músicas e bordões cantados em uníssono por uma metade do estádio e respondidos pela outra metade logo em seguida numa espécie de desafio de rimas não muito líricas nem elogiosas, às vezes até impublicáveis, de corar faces mais pudicas. Parecem corais afinadíssimos de tenores, baixos e barítonos. E hoje em dia ficou ainda mais bonito com o crescente número de mulheres nos estádios, acrescentando sopranos e contraltos. Sem contar o fato do enfeite que elas dão no meio daqueles marmanjos.

Em festas, bailes, feiras, shows e outros eventos menos alegres, como velórios e hospitais, o  cronista costuma ter um desvio de conduta. Muita gente diz que ele está ali calado, parecendo ausente, outros que ele está dando atenção apenas a uma pessoa ou a um acontecimento específico mas para mim, ele está é recolhendo matéria prima. Dificilmente sai do lugar sem um esboço mental do que vai colocar no papel. E se for dos que carregam seu bloquinho de rabiscos, esboça ali mesmo, indo ao banheiro, saindo do aglomerado, ou anota em atitude pública, às vezes tachada de maluquice ou suspeita de um infiltrado. Vai colocar o que as pessoas que estavam presentes só de corpo não notaram e que ele observou com o espírito perscrutador. Acaba fazendo depois uma outra fotografia, captando ângulos e trejeitos que máquina fotográfica ou filmadora nenhuma conseguiu. Estará completado então o registro alegre ou triste.

19 comentários:

Beth/Lilás disse...

Olá, Cacá!
Pois então, sou também uma cronista, descobri agora! hehe
Enquanto as pessoas estão ligadas nisso que você detalhou, ou seja, o jogo, eu sou daquelas que me ligo no todo, tudo à minha volta me interessa e penso depois em relatar, contar através de palavras.
Não sou lá muito boa para essas coisas, pois não tenho e nunca tive intenção de ser escritora, deixo isso para os mais corajosos, mas quando tenho que escrever em meu blog sobre algo que participei, vejo que conto as coisas com este olhar que disseste - um olhar de cronista.
Legal seu texto, adorei!
bjs cariocas



(Também adoro a ola!)

Yasmine Lemos disse...

Boa tarde Cacá!
Maravilhosa crônica. Sou muito observadora também, as vezes passo por desligada como se não estivesse ali,mas estou muito mais do que imaginam.
perceber coisas intrigantes e simples é um exercício de adaptação e construção de um mundo só nosso.
Adorei!
abraços

Adh2bs disse...

Meu dileto cronista,
Muito perspicaz a sua própria observação sobre o cronista, uma espécie de biógrafo da sociedade. E um papel voando no vento às vezes lhe basta.
Grande abraço,
Adh

pensandoemfamilia disse...

Oi Caca

Gostei da forma como descreveu o cronista. Nunca me considerei desta forma, mas sempre fui muito observadora e registrei minhas próprias fotografias internas do que acontece a minha volta. Às vezes escrevo, outras não, mas sempre me acrescentam pontos novos.
Obs. Estava sentindo falta destas suas crônicas.
Abços

Poemas Tecidos disse...

Você é um cronista muito talentoso e merece nossos aplausos. Eu, por minha vez, sou poetisa. Embora eu não escreva poemas enormes, não quer dizer que meus poemas são de má qualidade. Espero que volte ao meu blog, mesmo que seja só para ler meus poemas pequenos.

Abraços.

Chica disse...

Rsssssssssssss...me vi direitinho aí pois os meus olhiiiiiiiinhos tuuuuuuudo veem,rsrsrs...Linda crônica!abração e tudo de bom,chica

Toninhobira disse...

Uma correta definição para os mestres desta arte.Os olhos e ouvidos afinados para sua materia final.O exemplo de estadio é perfeito, como eles conseguem esta harmonia principalmente no jocoso. A mistura das vozes o fechamento das oxitonas ao dirigente da pelada, não tem preço mesmo, é de corar.Meu pai dizia que num velorio temos dois tipos definidos, um que chora(o bobo) e um que abre as gavetas(o esperto) e cata as joias. Diria para ele hoje que tem um terceiro o mal educado do cronista,kkkkkkkkk.Um abraço amigo.Senti sua falta, mas tambem ando fora um pouco devido trabalho.Mas vamos dando um jeitinho.Dias de luz.

Celina disse...

Oi cacá, sentí a sua falta, pensei até que tivesse chatiado comigo ( aquela velha mania de sentimento de culpa) agora estou feliz e agedecida pela sua visita e comentário, a sua crõnica está ótima como sempre. Um abraço carinhoso Celina.

Isadora disse...

Cacá tenho uma grande queda pelas crônicas, talvez por retratarem nada mais nada menos que a vida real.
Eu, decididamente, seria uma péssima cronista - rs, pois não sou observadora, por isso vivo mais no mundo dos sonhos e contos que ainda assim carregam um pouco da vida real.
Já você é um daqueles de mão cheia.
um grande beijo

Denise disse...

Ler e criar imagens, dar vida ao texto...acho que protagonizei uma cronista recentemente, ao encaixar-me na descrição que fez, Cacá.
A observação é fundamental pra gente construir as ideias, e isto sempre fui, e te lendo, chego a crer que meus mapas (a forma como vejo, e concebo o que vejo) passam bem perto do que vc apontou.
Intrigante tua abordagem, gostei muito...
Um beijo

lis disse...

Oi Cacá
Gosto dos observadores, geralmente são calados porque se falar muito perde o foco rsrs
gostei da cronica Cacá e essa palavrnha "entornista" vou precisar dissecá-la mais pra entender rsrs
entornos são o que está ao redor , é isso , olhar com olhos de entornista rs
abraços Cacá
fique bem

Helena Frenzel disse...

Uma objetiva descrição do cronista você nos apresenta nesta 'crônica'. Saber observar é uma parte da arte; a outra é saber pôr na tela, na fotografia ou no papel as coisas que vemos (ou pensamos que vemos). O mais interessante de tudo isto é que o olhar de quem escreve, pinta, fotografa, enfim o olhar de quem 'artista' (faz arte) de alguma forma, jamais pode ser um olhar forçado, e sim fruto de um impulso natural - penso eu. É um olhar por natureza livre, que não teme criar ou recriar o absurdo. Aliás, essa pergunta sempre me faço: o que é absurdo, o que é 'o' absurdo? Como separar o que se diz ser 'absurdo' daquilo que se pensa ser ou se convencionou chamar de 'natural'? Bela crônica, Zé, que ótima leitura e inspiração me proporcionou. Meus parabéns!! Um abraço fraterno e muito mais inspiração prucê também :-)

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

então me identifiquei com um cronista. Mesmo que não saiba fazer belas crônicas...
mas gosto de observar a vida, o cotidiano... o que vi, o que vejo.
E depois tenho vontade de contar e relatar o que vivenciei.

Seu post tá muito bacana, vc escreve muito bem! um jeito fluido e gostoso de ler
bom dia

Elaine Barnes disse...

Voc~e é um grande cronista amigo. A vida real sempre tem um toque de subjetividade que pessoas perspicazes como você captam com maestria. Amei! Montão de bjs e abraços

Conexão CD disse...

Mais uma vez você entorna seu humor e talento nos meus dias.
Amei
Um Abraço
Norma

Thatica. disse...

Bom dia!

primeiro quero lhe agradecer pelos comentários em meu blog. Simplesmente agradeço pelo carinho de passar por lá e pela paciência de ler meus posts, isso é muito importante pra mim!

detalhista? vc só pode ser virginiano não?

eu me considero uma pessoa que só reparo no que quero e costumo enxergar como um todo, geralmente capto as coisas do ambiente.

um forte abraço!

Lúcia Soares disse...

Acho que quem gosta de escrever, mesmo não tendo a intenção, acaba sendo um cronista.
O cotidiano pode ser rico, às vezes me pego imaginando como contar o que estou observando, mas como sou prolixa, não dá muito certo.
Não sei falar em poucas palavras. Não mesmo.
A crônica foi ótima!
Bj

DEVA disse...

Ai Meu Deus! Cacá, comecei a fazer isso! Quer dizer que não tô pirando?! Ufa, que alívio!
Um jantar desastroso, uma cena na rua, a conversa de um amigo, até missa! Muita coisa não é passada para o papel, mas as frases ficam ali, povoando a cabeça.
Um dia eu viro isso aí que você falou.... Cronista.
A esquisitice do ofício já ta pegando em mim... rsrs

Alguns são mestres nisso e transformam seu dia dia em obras de arte. Certamente o efeito contrário acontece, passam a viver com muito mais arte, humor e beleza.
Extraem o melhor dos momentos vividos.

Continue recolhendo informações por aí. É muito bom ler.

Beijos

Deva

Vendramini disse...

Olá Cacá.

O cronista é exatamente tudo isso que você colocou.Muitas vezes tem pessoas que nos ficam olhando e perguntando sobre alguma coisa,e demoramos a responder, ma é que nesse momento, nossa mente está divagando, quase que meio escrevendo o texto, em cima de um fato ou uma coisa qualquer que nos chamou atenção.
Um abraço.

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