quinta-feira, 25 de novembro de 2010

BOM EM QUALQUER ÉPOCA - O ANÔMALO

Há tanta produção literária por esse mundão, tanta coisa que tanta gente tem acesso e muito mais coisa que tanta gente não tem que pelo bem do conhecimento humano e da literatura, acho que toda oportunidade que tivermos para aumentar a visibilidade de textos bons não pode ser perdida. Selecionei alguns que acho que precisam de quando em vez ser divulgados pelas suas qualidades inumeráveis. É só mais uma forma de dar ainda mais vida à sua imortalidade. Só lendo para qualificar. E isso cabe ao leitor.



O anômalo
(Léo Borges)
(escreve em revistasamizdat.com)


Uma aula de antropologia nunca me saiu da cabeça. Foi quando a professora comentou sobre como o preconceito procura brechas no famigerado “politicamente correto” para se perpetuar. Ela citara o exemplo de jovens alemães que espancavam tunisianos, turcos e marroquinos com a ideologia de que estavam sendo cívicos, isto é, inibindo a presença de estrangeiros que queriam tomar seus empregos. Preconceito? Que nada. Estavam apenas exercendo um ato soberano, digno de defesa da pátria.
O respaldo em questão é necessário para que não haja uma conduta violenta sem fundamento. Assim, tudo é justificado convenientemente e as raízes do preconceito não são abordadas e muito menos discutidas, mas ao contrário, mantidas e propagadas. As conseqüências dos atos advindos de uma cultura preconceituosa são normalmente discriminatórias e violentas, mas tanto o preconceito quanto a influência retórica que a suportam são amplos e sutis, delicados como a própria hipocrisia humana.

Nessa mesma aula a professora ainda comentou sobre um suposto episódio ocorrido entre neonazistas tupiniquins e europeus. A polícia havia descoberto uma conexão entre eles em que os tais novos nazistas brasileiros solicitavam aos congêneres da Europa verbas para que pudessem dar continuidade ao combate contra os negros, índios e homossexuais no Brasil. O bando europeu achou a idéia bastante interessante e apoiou o trabalho. Entretanto, não liberou o dinheiro por um entrave burocrático sinistro: na lista de execrados dos nazis do Velho Continente apareciam também os latino-americanos.
A biologia evolutiva especula que o ser humano é um animal naturalmente preconceituoso. Nesse sentido, a experiência cultural apenas encobre tal característica que, segundo essa tese, foi essencial para a nossa sobrevivência e evolução. O ranço discriminatório é impossível de ser extirpado, mas a maneira como lidamos com ele poderia ser abordada de outra forma, já que o modo superficial com que é tratado – principalmente em campanhas e projetos governamentais –, além de não eliminar o problema, o deixa latente, acuado em algum ponto da subconsciência esperando uma chance para emergir.

De acordo com a Anti-Defamation League (organização americana que combate ações preconceituosas) até os seis anos de idade praticamente metade das crianças já proferiu algum termo pejorativo em detrimento de alguém que não possuísse traços semelhantes aos seus. Sem cerimônia, algumas delas apontam diferenças e, não raro, achincalham parentes obesos ou pessoas que tenham algum detalhe que não lhes pareça comum. Diante disso, são admoestadas por seus pais, que, por sua vez, na luta para melhor se ajustarem a uma digna conduta social, compartilham um sentimento que forja uma noção de justiça – frágil ante sua essência –, mas que visa, com alguma nobreza, conter a sanha racista da qual somos portadores.
imagem google

Mas foi conversando com conhecidos num bar que tirei algumas conclusões sobre a profundidade da coisa. Começou quando alguém comentou sobre o capítulo de uma novela. Um dos presentes, ao ser inquirido, simplesmente disse que não assistira porque não possuía televisão em casa. Bom, o espanto (meu inclusive) foi geral, pois em princípio pensamos que ele não tinha recursos para isso e houve um efêmero sentimento de dó em relação ao cara (primeiro conceito concebido sem esclarecimento). Mas logo se viu que ele não tinha TV porque não queria ter TV, e não por não ter dinheiro para comprar uma. De pena, o sentimento passou a ser de perplexidade em rota migratória para o inconformismo (segundo conceito concebido sem base fática). Como alguém poderia não querer ter um aparelho de TV hoje em dia?

Segundo uma sentença proferida recentemente pelo 2º Juizado Especial Cível de Campos, no Norte do Estado do Rio de Janeiro, é, realmente, impensável alguém ficar sem este tipo de aparelho em casa. Não é um eletrodoméstico supérfluo, como bem deixou claro o juiz na sentença do caso de um homem que reclamou da longa espera pelo conserto de sua TV. O magistrado disse que “o aparelho é considerado essencial aos lares brasileiros”, e citou ainda, como referência, o fato de o pobre indivíduo ficar sem poder assistir “jogos do Flamengo e o ’Big Brother Brasil’” (Processo nº: 2008.014.010008-2). Ou seja, o nosso camarada que desprezava o singelo eletrodoméstico contrariou, ainda por cima, uma decisão jurídica.
Ele argumentava que não tinha o aparelho por não gostar de ver televisão, de não gostar do que a TV exibe. E não queria gastar dinheiro para ver a barbárie nos telejornais ou as assépticas tramas novelísticas. Não queria ver seriados, programas de auditório e talk shows. Sua alegação era a de que filmes ele via no cinema; esportes ele ia ao estádio. Notícias? Lia jornal ou acessava a internet (cujo computador ficava em outro cômodo que não o seu quarto, conforme frisava). O sujeito começou, então, a ser visto como um eremita e muitos passaram, a partir daí, a boicotá-lo nas conversas, mesmo com provas irrefutáveis de que ele possuía plena condição de debater qualquer assunto. E esse era o seu diferencial: gostava de viajar, de ler, de interagir, se recusando a participar como pólo passivo - sentado, mudo e sonolento – diante de um ruidoso aparelho de TV.
imagem google

Uma senhora comentou entusiasmada que achava "muito bacana" a atitude dele, mas que não tinha "coragem de fazer o mesmo". Aqui podemos observar como é interessante o termo "coragem" empregado por ela. É como se ficar sem TV fosse um vertiginoso salto em queda-livre sem a proteção de uma grade televisiva. Outro freqüentador da roda comentou, posteriormente, que acreditava que esse tal “Sem-TV” era algum tipo de “metido a intelectual”, que queria passar a imagem de “alternativo”, mas que no fundo era, sim, “um anômalo”. Ele usou essa palavra com uma sinceridade aterradora. Seria anomalia uma pessoa não querer gastar uma grana num aparelho de TV? A máquina de consumo não iria gostar se muitas pessoas agissem como ele, pois algumas lojas e indústrias teriam de enxugar seus quadros e demitir. O Poder Judiciário também iria ter de rever suas decisões. Tudo por causa de um anômalo irresponsável que não quis comprar um televisor, aparelho este que já existe, inclusive, em modelos ultrafinos, de plasma ou LCD, podendo ser adquiridos em módicas prestações.

É. O tal sujeito que relutava em ter um aparelho de TV talvez fosse mesmo um anômalo, pedante, subversivo, indolente, desrespeitador, um elemento altamente nocivo à engrenagem capitalista, essa mesma que seduz as crianças com o Papai Noel de gorro vermelho, todo encasacado no verão de 42 graus brasileiro, exibindo os "pleisteichons" a preço de banana no canal de compras da TV por assinatura. Mas, o que mais me intrigou nisso tudo não foi o fato de termos entre nós um indivíduo que resistia em comprar um aparelho de televisão, mas como aquilo, discretamente, transtornou o comportamento dos demais. As pessoas nitidamente, nos encontros em que ele estava presente, não abordavam mais assuntos que pudessem criar algum possível embaraço (terceiro preconceito enraizado). Outros, que faziam a vez de defensores do Homem Sem-TV (como se ele precisasse de advogados), diziam que ele estava certo mesmo, que a programação da TV apenas cria na cabeça do espectador necessidades supérfluas, que proliferam injustiças e "idiotizam a massa". O cidadão em questão não desenvolvia o assunto quando estava no centro do debate. Ficava sem jeito, pois não queria ser um "anômalo", um bicho de circo dos horrores por não ter uma simples televisão. Queria apenas conversar. Desde que não fosse sobre o último capítulo de alguma novela, pois sobre isso ele não teria a mais vaga idéia.

11 comentários:

Diogo Didier disse...

PERFEITO CACÁ! Acho que também sou um ANÔMALO, pois não assisto tv ahá anos rsrsrsrs...

Não vejo TV pelos mesmos motivos que você acabou de relatar, mas também porque não tenho tempo e prefiro ver o que acontece no mundo pela internet.

Sobre a temática do seu texto, é impressionante saber que existam pessoas tão preconceituosas. É evidente que o preconceito é algo inato ao ser humano, pois em algum momento da nossa vida, às vezes inconscientemente, agimos de forma preconceituosa numa determinada situação ou com relação a alguma pessoa.

Acredito que isso seja o reflexo do desconhecido, do diferencial, já que a engrenagem que move o preconceito está ligada ao que não faz parte do senso comum, no qual os valores da moralidade pregam as suas prerrogativas.

Tudo o que é diferente incomodo: se você não assiste TV é intelectual; se assiti TV demais é alienado; se tem uma opinião contrária a da maioria é subversivo...

As pessoas têm que entender que a graça da vida está nessas diferenças. Que cada ser vivo é singular e detem particularidades unicas. É como eu sempre falo: os problemas do mundo estão fincados unica e exclusivamente na intolerância, na qual anda lado a lado com a ignorância!

PARABÉNS AMIGO!

bjoxxxxxxxxxxxxx

Chica disse...

Não vou mentir.Essa novelinha italiana(sou chegada em italianos,rsrs...tá tri boa!).. Lindo texto que trouxeste!


Mas assisto pouca tv, não sou fã dela...
abração,tudo de bom,chica

Felipe Faverani disse...

Oi, Cacá, tudo bem?

Sou um anômalo inveterado e me orgulho disso. Aos 20 anos eu não tenho um Ipod, não tenho um Mp3, Mp4, Mp5, muito menos um celular ultramoderno e ficar longe da TV até às 22:00 da noite é um alívio pra mim. Gosto apenas dos documentários da TV Cultura durante a semana e os finais de semana e há alguns que sequer me disponho a assistir pois ficar frente a TV é extremamente "boring" pra mim. Sou uma pessoa muito agitada. haha
Citei os outros objetos tecnológicos porque fazem parte a meu ver da mesma realidade dos televisores LCD, dos que mudam de cor. E todas estas maravilhas modernas significam absolutamente nada sem a evolução das pessoas que as compram e acabam sendo hipnotizadas por elas, tendo suas personalidades afetadas por elas.
A questão do preconceito se encontra no fato de a maioria das pessoas pensar que o que é bom pra elas tem de ser obrigatoriamente bom para as outras pessoas. Não há espaço para as diferenças simplesmente porque ter estes aparelhos representa status e o brasileiro é um povo que sabemos ser interesseiro demais. Quando surge alguém que não tem absolutamente nada disso por escolha as pessoas piram, vão à loucura porque ela está - segundo o ponto de vista das pessoas - tentando sobressair-se por essa escolha. Não se enquadrar na normalidade é o fim do mundo pra elas. Devemos dar graças ao apreciarmos o diferente e vivermos tão bem sem superficialidades.
Grande abraço, meu amigo.

Carla Diacov disse...

ótimo..



espero tua visita!
beijo grande.


carladiacov.blogspot.com
larcavodica.blogspot.com
odesimundasdoneochiqueiro.blogspot.com
carlacarlacarlac.multiply.com

Renata Diniz disse...

Esta história poderia ser engraçada. Mas dá pena perceber, por vezes, que o diferente não é admirado e sim invejado. Hoje aproveitarei de sua sugestão acerca do jogo dos 7 e o farei no meu blog! Abraços.

Mari disse...

Muito interessante este artigo...e a mais pura verdade.
Como o ser humano julga as coisas, desenvolve preconceitos de uma forma fácil e rápida.
Quão anômalos podemos ser todos nós?
É pra gente parar para pensar!
Um beijo

Cristina Lira disse...

Olá! Tudo bem?
te encontrei no blog Memória reveladas da amiga Renata...

Se possivel me visita em
http://passossilenciosos.blogspot.com

Bjos...

maria olimpia alves de melo disse...

Acho legal essa sua preocupação em divulgar bons textos. Estou de volta a atividade de blogueira, ainda um pouco sem idéias, mas pretendo estar sempre por aqui. Obrigada pela visita a minha irmã, ela é super talentosa mas bastante insegura e eu estou tentando dar uma força.

Aleatoriamente disse...

Bom dia Cacá!
Amei teu texto.

Gosto de documentários e jornal, mas não tenho quase tempo para assistir então não vale muito hehhee..

Beijinho amigo.
Fernanda.

Yasmine Lemos disse...

Eita que texto danado de bom. Não gosto de TV,fico impaciente, inquieta. Mas igual ao menino mijão , vou confessar: só me rendo aos episódios da "Grande Família".
rss bom dia Cacá ! abração

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