sábado, 23 de julho de 2011

O CASO DA INTERPRETAÇÃO


imagem:artes visuais.blogspot

 Na sua primeira ida ao parque foi com o sono atrapalhado num domingo de manhã, mas conformado, afinal, queria sempre aprender coisas que o ajudassem a melhorar de vida. Ouviu um anúncio meio atravessado do concerto de uma orquestra e lá se foi com caderninho e tudo para tomar nota de cada detalhe. O certo seria dar ouvidos a cada nota. Quando se apresentaram os músicos abrindo com Bolero, de Ravel, já começou o xingatório em alto som:
- Mas cadê a aula pra gente aprender?
O conserto que ele queria não seria ali e mesmo assim instrumentos musicais quando dão defeitos há que se ter alguém muito sensível e afinado com música para fazer a manutenção. De qualquer forma terminou de ouvir o concerto até o final pois acabou gostando da música. Já era algo mais no seu currículo de aprendiz: música clássica faz bem aos sentidos. Ia apurando-os, prometera a si mesmo.

Da segunda vez que o inusitado confirmou a sua sina foi quando precisou entregar uma encomenda lá na cidade de Igaratinga onde nasceu. Chegando à casa da destinatária, a placa bem grande no portão advertia: “tome cuidado com os cães” e ele já foi logo abrindo e ao se deparar com dois bem grandes, do tipo pastor alemão, tentou cuidar com carinho fazendo um afago na cabeça de um deles. Foram mais de 180 pontos ao todo pelos braços, rosto e pernas, segundo o pessoal do posto de saúde onde foi atendido E depois alguém explicou que o cuidado com os cães significava não descuidar. Foi nesta época que Manoel Umbelino ganhou o apelido de Mané dos Cachorros.

Um boletim de ocorrência curioso foi a última notícia que tive do Mané: preso por derrubar todas as árvores de uma rua, só não concluiu o arboricídio* porque alguém chamou a polícia diante do comportamento estranho daquele homem com sua moto-serra. A companhia de eletricidade da cidade estava fazendo uma campanha educativa para prevenir acidentes na rede elétrica e colocou anúncios por toda a cidade, especialmente nas áreas mais arborizadas. Uma frase dúbia, convenhamos:
NUNCA PODE ÁRVORES PERTO DA REDE ELÉTRICA.

O verbo transitivo direto “podar” no modo imperativo foi interpretado erroneamente como sendo o verbo transitivo direto “poder”. Deu cana.


* arboricídio: extermínio indiscriminado de árvores (um neologismo que criei)

16 comentários:

Jardim das poesias infantis/Magia em versos disse...

Bom dia Cacá!
Adorei o texto.
Caramba o que um erro de interpretação pode trazer de transtornos não?
Concerto de música clássica é algo reenergizante para o corpo e alma.
um excelente fim de semana para ti.
abração

Lúcia Soares disse...

Tadinho do Mané! Quantos e quantos existem, que bem conhecemos!
Reflexo das nossas pobres escolas, ou o moço é duro de entender as coisas, mesmo? rsrsr
Gostei dele! Um dia aprende...
Bom fim de semana!

Eva disse...

Oi meu amigo querido, seus textos são sempre humoradamente políticos e sociais, refletem a nossa vida brasileira,na qual se cria uma nova língua que existe de fato de tantos erros cometidos e por tantos, que sem saber vão formando um dialeto que causa acidentes de todas as formas literal e na praxis da palavra, quem é o dono de quem nessa lingua portuguesa cada vez mais de uma maioria brasileira infelizmente com um nível cultural baixo e falar correto torna-se muitas vezes, constrangedor, dependendo do ambiente em que se está.Mas é assim mesmo. beijo grande. Ótimo final de semana.

Renata Diniz disse...

Muito bom. Eu tenho um texto (ainda não publicado) que chamei de Malabarismos semanticos. Abraços, Caca!

Toninhobira disse...

Meu amigo este seu humor lhe faz unico com estas belas cronicas, estou morrendo de rir do personagem.Mas confesso que os verbos são perigosos por demais.
Um abração de paz e luz.

CESAR CRUZ disse...

Esplêndido, Cacá! Invejei seu conto, criativo e bem humorado.

abraços e parabéns!

Cesar

C. disse...

Perfeito essa "interpretação" dada as nossas más interpretadas.
Eu acho difícil essa arte, e mais ainda de quem escreve, porque a partir do que se lê que se interpreta certo ou nao. Ou seja, ambas as práticas sao complicadinhas, e vistas por esse ângulo é até engracado, mas por outro... é uma catástrofe, como aconteceu com o pobre do Manoel!!!!
Já dizia meu pai: português não é o que você fala, mais o que o outro entende e é isso que torna a tarefa de informar tão difícil.

beijocas de cá, Cacá

Lívia Azzi disse...

Cacá, esse caso do Mané combina muito bem com os casos da "Cadeira de balenço" de Drummond! Lembrei-me da minha sobrinha quando me chamou para ler a placa que meu irmão tinha acabado de colocar no portão: "cuidado cão bravo", daí ela perguntou para ele: "Pai, é o cão que tem que tomar cuidado"?! E ela estava certa, faltava uma vírgula na frase.

Um abraço e uma ótima semana!

Lena disse...

OI Cacá
Por essas e outra é que vemos a quantidade de anlfabetos funcionias que existem por aí.... E esses é que formam a mairia do eleitorado. Estamos literalmente ferrados, sem conserto!!!rsrsrs...
Bjs e um ótima semana!

pensandoemfamilia disse...

Só com o seu humor para darmos conta das interpretações várias entre nós, pobres seres humanos.
bjs

LILIANE disse...

Oi Cacá...
puxa, que judiação.
O pobre do Mané só entra em confusão
alfabetização e educação nao são levadas a serio.

Certamente, ele vai precisar aprender apanhando na escola da vida, não é.

Feliz dia do Escritor pra você, querido.

vim pra trazer o meu abraço bem cheio de amor pra vc.

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