quinta-feira, 28 de julho de 2011

CONTEXTOS

“Eu sou eu e minha circunstância.” (Ortega Y Gasset)

Eu costumo fazer comentários em textos de outros autores sempre relacionando o texto com um trecho de um poema, de uma letra de música ou qualquer outro excerto que achar que tenha relação com o que li. Acho que isso faz parte do meu pensamento, que funciona por associação. É dialética do pensamento, que de puro não tem absolutamente nada. Relaciono tudo o que estiver ao alcance ou busco alcançar o que estiver longe.

Fora de contexto as coisas precisam ser interpretadas de acordo com o falante escritor ou o ouvinte leitor. Por exemplo, uma frase que caiu no descrédito com a modernidade individualista foi a de Exupery, (aquele do Pequeno Príncipe) “tu te torna responsável por tudo aquilo que cativas.” É um excerto que, bem contextualizado, pega muito bem numa relação de companheirismo e camaradagem, de reciprocidade e amor mútuo. O contexto  pleno, para não desagradar a esta modernidade egoísta seria “Eu não preciso de você nem você precisa de mim, mas se cativarmos um ao outro nos tornaremos responsáveis por manter essa chama sempre acesa entre nós.” Isso não há modernidade que destrua se as pessoas não quiserem prescindir das outras. Aqui não há relação de um se sobrepondo ao outro ou deixando-lhe a obrigação de sozinho garantir que o outro seja feliz.

Dito isso, parto para os assemelhados fora de contexto da vida. Outro dia falei do estro criativo do escritor. O texto que eu lia negava a necessidade da inspiração pra a criação  literária (não a produção de textos). Fui gentilmente  defenestrado da caixinha de diálogo de meu interlocutor. Usei um excerto de uma bela canção do João Nogueira - O Poder da Criação - com o seguinte trecho:

“força nenhuma no mundo interfere sobre o poder da criação,
 não precisa ficar nem feliz nem aflito,
 nem se refugiar no lugar mais bonito,
 em busca da inspiração.
 Ela é uma luz que chega de repente,
 com a rapidez de uma estrela cadente
 e acende a mente e o coração.”

A interpretação do texto literário se dá de forma diferente do texto científico. O primeiro tem uma liberdade que não carece de comprovação de verdades nem de afirmação de mentiras, pois trata-se de manifestação de desejos ou sentimentos e isso é íntimo, pessoal, subjetivo, para ser bastante redundante.

A afirmação de Gasset lá no início, tem um importante complemento, raramente citado. A citação completa é: “Eu sou eu e minha circunstância. Se não salvo a ela, não salvo a mim”. E como assegurar essa “salvação”? Mudando a realidade, em vez de se submeter, passivamente, a ela. Quem não tem capacidade, vontade e determinação para fazer essa mudança, paga, via de regra, um preço altíssimo, em termos de frustrações, decepções de toda a sorte, mágoas, tristezas e fracassos. Ou seja, se afundará na circunstância e não dará sentido algum à sua vida. Eis um contexto em que vivo atormentado.

23 comentários:

Ma Ferreira disse...

Caca.. bom dia!!!

Que beleza de escrita a sua. Digna de publicacao em qualquer
revista de grande circulacao.
Parabens!!

Vou comentar parte do que esta escrito no contexto do seu texto.

A respeito da subjetividade. O olhar de cada um para..

Me fascina esta coisa o subjetivo. as vezes leio comentarios onde cada um interpreta de uma maneira um tema, uma poesia. De acordo com seu olhar, com suas experiencias..
No caso nao existe certo nem errado..

Em relacao a inspiracao..concordo plenamente que nao e lugar, nem leitura... nao h'a um botaozinho que se aperte para que ela apareca.

Eu na minha arte, os melhores resultados acontecem quando eu menos espero, wu wei, sem intencao..
Tudo flui lindamente,,,

A inspiracao forcada.. nao resulta num trabalho em que a alma do artista se mostra..

Mas cada um tem um olhar.. as vezes para grandes horizontes, outras nem para um palmo diante do nariz..

Espero nao ter escrito muita bobagem.

Fico atem eio acanhada diante a comentar um texto tao bem escrito e com um tema tao interessante, como este que v escolheu!

Bj.. dia de paz a vc!!

Ma

✿ chica disse...

Sempre legal te ler e dentro ou fora de contextos, isso faz bem...abração,chica

Pedrita disse...

é muito bom qd concordamos com alguém, mas sempre que algo é público, vai ter quem concorda e quem pensa diferente. a interpretação vai do referencial de cada um e da percepção de cada um. alguém pode interpretar exatamente diferente do q o autor pensou. acho engraçado q uma percepção pode ser totalmente contrária ao q o autor pensou, mas quem interpretou achar q foi exatamente o q o autor pensou. acho isso fascinante. tb gosto de relacionar textos aos meus pensamentos. beijos, pedrita

Geyme Lechner disse...

Caramba, Cacá!!! Mexeu fundo, uma salva de palmas pra vc!! Esse texto é digno para figurar em uma Veja!!
E o que é a inspiracao? Acho que é um processo unico e individual, porém necessário quando se trabalha com qualquer arte! E quanto ao cativar e ser responsável pelo que geramos no outro, estou mais com o seu conceito, do seu lado em concordancia, pois de acordo como a coisa vai, nem renascendo novamente somos capaz de dar um sentido maior à vida que a nós mesmos e nosso umbigo... Pra nao dizer que a coisa tá f.... eu digo que a coisa tá feia...

Beijo grande amigo, bom final de semana!!!

zelia maria disse...

Eu vou usar as palavras da Ma Ferreira para qualificar o teu texto: " QUE BELEZA DE ESCRITA A SUA. DIGNA DE PUBLICAÇÃO EM QUALQUER REVISTA DE GRANDE CIRCULAÇÃO. PARABÉNS, ZÉ, BEIJO DE ZÉLIA

Nice Bacchini disse...

Gosto da simplicidade e da clareza que escreve seus textos, Cacá, prendendo sempre a atenção dos leitores. Esse texto ficou maravilhoso, muito bom mesmo...
Quanto a inspiração é algo que vem, não sei de onde, e me faz escrever coisas, que não sei porque algumas pessoas gostam e se identificam e para isso não é preciso se isolar, apenas observar...rsrs.. Por isso prefiro o texto literário ao texto científico. Show seu texto Abraços

pensandoemfamilia disse...

Caca
Este texto nos coloca diante de muitas reflexões: sobre a subjetividade, sobre a coresponsabilidades, a inspiração e contexto.
Eu trabalho na minha prática com as subjetividades, mas em referênciia a contexto e as influências recíprocas.
No que toca a inspiração concordo que é algo que nos chega e que transborda naturalmente, vem da alma.
O último parágrafo deste seu excelente texto deixa-me aqui a refletir sobre um momento que vivencio e preciso decidir e que certamente vc me forneceu mais para refletir.
bjs

Renata Diniz disse...

Eu também vivo atormentada pelas "coisas" embaçadas e nebulosas da vida que diz respeito à tênue linha do falar ou silenciar, fazer ou esperar. Confesso que tenho andado mais de braços dados com o silêncio. Sempre aprendo muito aqui. Abraços, Cacá!

Rô... disse...

oi Cacá,

nossa amigo,
você escreve de uma maneira tão clara,
tão objetiva e tão lindamente,
que fico até sem jeito,
mas vamos lá,
adoro ler comentários,
adoro tentar entender
a maneira que cada um viu o escrito,
seja ele qual for,
e inspiração acho que é muito pessoal,
e não deve ser julgada na minha opinião,
cada um tem a sua...
exemplificando com pintura,
imagina só se a inspiração correta
fosse a de Renoir,
o que faríamos com o talento de Picasso?

beijinhos

Luria Corrêa . disse...

Até mesmo quando estamos debatendo nossas atitudes e o que pensamos a respeito delas, exigimos de nós mesmos dedicação. É tanta informação e tanta mudança constante que aptos á tanto, nos contradizemos em ser. Mas como citou Ortega, somos nós e nossas circunstâncias.

Grande abraço Cacá.

Lena disse...

Cacá,
Estarei "fora do ar" até dia 1º de agosto, quando virei com novidades na coluna da direita, uma vez que é virada de mês. Me aguardem! Eventualmente, se for possível,postarei alguma texto interessante, mas as idas aos blogs de meus queridos amigos, só terei condicões para fazê-las na segunda-feira. Beijos e até a volta!!!

MARILENE disse...

Felizmente, compartilha esse seu mundo que, até agora, era um espaço desconhecido para mim.
É uma felicidade ler um texto tão bem escrito e fundamentado. Gostei da forma como tratou a já repetitiva frase de Exupery, e o digo sem qualquer demérito, pois seu livro ficou gravado em minha memória, já que o li em outra época de minha vida.

Mudar a realidade sem submissão já é ato de extrema coragem, realmente. E sempre julgamos que uma única semente não produzirá o esperado resultado. Podemos, no entanto, buscá-lo, individualmente.
Tenho grande admiração por Gasset.

Parabéns pelo blog!

Catia Bosso disse...

Caca, Lindo Escritor!!!

Mudar a realidade pode ser, aparentemente, difícil, porem, se feito isso sair despretensiosamente imune, dai já era! Apto!

Texto interessante... (,)

Bjs meus

Milla Pereira disse...

E, dentro desse contexto de escritor e escrita, levanto-me e te aplaudo, Cacá.(que novidade!)
Bjs

Aleatoriamente disse...

Cacá eu estou maravilhada.
Tua maneira de narrar é de uma intensidade.E o texto inteiro é muito interessante.
Gosto de vir te ler, aqui eu sempre aprendo muito e gosto disso.

Obrigada por ter ido "abraçar" meu paizão.
Beijinho querido.
Fernanda.

Yasmine Lemos disse...

Seus textos merecem reflexão e aplauso, inspiração é peculiar a cada olhar observador e sensível.Parabéns.
vim desejar um fds com muita paz
abraços Cacá

Solange Maia disse...

Cacá...

no contexto, por associação, ou fora dele, as coisas nos são pelo que nos vai por dentro, é a nossa "riqueza", ou não, que inevitavelmente imprimimos no "outro"...

adoro teus textos...

vim deixar um beijo carinhoso e dizer que são queridos demais os teus comentários lá no eucaliptos... sorrio quando os leio, SEMPRE.

obrigada, viu ?!?!

Flor da Vida disse...

Seu texto é sábio e muito rico!
Concordo com Ma Ferreira, essa escrita é digna de publicação em qualquer revista de grande circulação!
Aplausos mil pra ti!!!

"Amigo querido, as palavras que me deixou, o carinho que me ofertou, foram imprescindíveis pra me ajudar nesse meu momento de intensa dor... Muito obrigada por sua solidariedade."
Deus te abençoe eternamente!
Abraço de Luz

Miriam de Sales Oliveira disse...

Somos dois atormentados,amigo.Quero mudar alguma coisa,pelo menos,algumas cabeças,mas,sinto-me como o Príncipe do romance de Lampedusa:
"é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique no mesmo".
Do romance "O Leopardo",magistral livro do Lampedusa sobre as mudanças das sociedades e das épocas. bjs

C. disse...

O texto todo é uma beleza, e o jeito que falou sobre a frase enjoativa de Exupery muito me fez pensar.

Um ótimo fim de semana!

JGCosta disse...

Eu também sou (ou ao menos tento ser) a minha circunstância, somar e (quase nunca) subtrair, em todos os sentidos.

Como bem citado pelo amigo, isso é de cada um, de acordo com a profundidade de seu desenvolvimento cultural e humano.

E no mais, entendo eu, o que nos torna especiais não é a (imaginada por alguns) superioridade em relação aos demais, pois para mim ela inexiste, o que nos torna 'caros' aos outros são essas nossas peculiaridades, que acabam nos tornando tão diferentes, ao mesmo tempo que tão iguais!

Abraços meu caro amigo!

Diogo Didier disse...

Muito bom! Copiando uma citação sua deixada um vez no meu blog "tenho procurado exercer essa máxima ao máximo". Isto por que, Cacá, acredito na força transformacional existente na mentalidade humana. Quando ela é despertada e, sobretudo, usada para o bem, conseguimos mudar a realidade circunstancial das nossas vidas e das pessoas com as quais vivemos e nos relacionamos. Mas, para isso, é preciso encontrar dentro de nós os elementos necessários para nos tornarmos instrumentos dessa transformação...

bjoxxxxxxxxxxxx no coração

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