quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

DEPOIS DE UM PASSEIO NA FEIRA HORTIFRUTI

Quanto mais a tecnologia avança mais a natureza vai perdendo a credibilidade. É impressionante como há uma dissociação da vida prática com os conceitos de preservação tão defendidos por aí. “É que há distância entre intenção e gesto”, já dizia o Chico Buarque.

Por exemplo, um alimento orgânico se torna a cada dia um produto exótico, uma espécie de “intruso bem vindo”. Aliás, chamar um alimento que vem da terra de orgânico é uma redundância, não é mesmo?  O normal passou a ser a gente consumir aquele monte de frutas, verduras e legumes cheios de agrotóxicos e o orgânico virou uma elite da comida, disponível apenas para quem pode pagar muito mais caro.

Quem tem mais dinheiro vai direto ao panteão sagradado da saúde, que são as  gôndolas onde ficam os produtos chamados orgânicos. É uma espécie de templo onde estão depositados, não os restos mortais, mas o que resta de vital para uma existência saudável.

Outro exemplo: desde quando o frango saiu de seu habitat e passou a frequentar incubadoras, sofreu intervenções hormonais para se reproduzir rápido. Aqueles que não o acompanharam, passaram a ser chamados de frangos caipiras. Até então, todos eram apenas frangos. Podemos dizer que temos hoje o frango urbano, moderníssimo e com um adorável gosto de isopor bem temperado e o frango caipira que, para quem não está acostumado com seu sabor, é um alimento estranho. Na minha própria família tem umas crianças e jovens que acham o sabor muito “forte”, dá dor de barriga. Mutações genéticas que ocorrem com os alimentos e com o organismo humano por tabela.

Mas o exemplo mais interessante foi quando eu juntei uma roda de crianças dos seis aos dez, onze anos e falei acerca do hambúrguer. Eu havia escrito um texto falando sobre a roça e o espanto foi geral quando expliquei o processamento da carne desde o nascimento do bezerro até o pai ou a mãe de uma delas ir ao supermercado e comprar uma caixinha de hambúrger. Foi uma incredulidade geral. Teve criança que chegou a me dizer que nunca mais comeria quando soube que tinha que matar o boi para a fabricação. Outros quase me enxotaram por falar mentira tão deslavada. A menorzinha, brava, me disse: “Tio, hambúrger vem das fábricas lá dos Estados Unidos, não tem nada a ver com boi ou vaca não, viu?”

17 comentários:

Chica disse...

Num passeio desses para quem é observador como tu, tem muito a ver e realmente vemos de tudo.Muito legal e verdadeiro o fato das crianças descnhecerem o sabor das coisas naturais e não saberem a procedência dos produtos que consomem.
Legal!( caímos da cama hoje cedinho,heim?rsrs) Lindo dia!abração,chica

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

Excelente! Realmente o natural é que se tornou estranho, "artificial".
Galinha que cisca, folha que o bicho come, tudo isso é coisa do outro mundo!
Vivemos mesmo num mundo pausterizado e irreal. Esses dias meu sobrinho pegou nojo de leite, ao saber que o leite sai das tetas de uma vaca. Nem quero explicar pra ele por onde então o ovo passa...
abraços

Aleatoriamente disse...

É meu amigo, parece até que o verdadeiro virou lenda para o consumo daqueles menos favorecidos de verbas.
Tudo tão mais caro e a saúde embalada para quem pagar o preço, é absurdo, mais infelizmente a maioria sofre com isso.
Muito bem aplicada a frase de Chico viu?
O que deveria ser normal, hoje virou preocupação quando se trata de verduras na mesa e seus venenos acompanhados Aff!
O hambúrguer passou a ser consumido em demasia.
O artificial passou a comandar mais que o verdadeiro.

Beijo Cacá.
Fernanda

Elayne C.A. disse...

Confesso que adoorooo aquela prateleira de orgânicos, mas essa cultura de consumir estes alimentos aqui no Brasil ainda está elitizada e cara, acaba se tornando meio inatingível para a maioria, começando por mim, pois vontade e prazer eu tenho em comprar e comer, mas nem sempre é possível! rsrs
Qto ao "fast food" americano, aqui também já está nitidamente inserido. Nuggets, hambúrguer, batata frita de saquinho, pré cozida, enfim... Vou confessar a você que até eu mesma adoraria mergulhar numa piscina cheinha de doritos sabor queijo nacho! rsrs

Elaine Barnes disse...

Belo texto e vivência amigo. O natural realmente tornou-se irreal para todos, a criança não tem culpa nenhuma apenas é expontânea e segue o que os adultos ensinam. Tenho certeza que sua "aula" atingiu a mente de algumas e não foi em vão rs...Bacana demais o post! Obrigada pela letra no Milton,escrevi o poema em 2008,ando repostando, meio sem inspiraçção e tempo. Obrigada viu! Montão de bjs e abraços

Sabor de Pitanga disse...

Excelente texto! Vivemos todos num mundo invertido... em todos os sentidos!

Os produtos "orgânicos" sao bem-vindos sempre e somente eles deveriam existir. Mas que interesse tem a raca humana em manter-se saudável? A saúde, nao gera financas e assim, vivemos todos, envolvidos nesta corrida de "ganância" sem ao menos nos dar conta de que,
os cifroes, nao caberao na nossa última morada...

Abracos

Yasmine Lemos disse...

O preço da modernidade é alto.Mari falou tb sobre este tema hj em seu blog.
Geração programada a aprender a "emburrar" .Triste isso viu Cacá ,porque se ficasse só no hambúrger...
abraço meu amigo

Thiago Quintella de Mattos disse...

O objetivo das indústrias de alimentação é fazer algo semelhante ao profetizado por grandes autores futuristas: compilar o negócio num invólucro, classificar em cores e dar a grande sensação do (antigo) goto das comidas! hehehe

Sam disse...

Querido Cacá,

Cá entre nós, você esplanou o assunto de forma espetacular em poucas palavras e de forma bem simples.

Eu defendo a tese de que "Vivemos e morremos pela boca", sendo que boa parte dos nossos problemas de saúde atuais advém do fato de não estarmos mais "comendo comida".

Isto, comida de verdade... aquela que nossos avós estavam acostumados. No idioma inglês eles cunharam um termo bem apropriado para este tipo de alimento: ”junk food” ou, literalmente, alimento lixo. Muitas calorias,muitos aditivos, poucos nutrientes. Não vejo melhor definição que esta para um monte de itens com que a indústria de alimentos tem abarrotado os nossos supermercados.

Essa preocupação pela quantidade e não pela qualidade dos alimentos. Esse consumismo exagerado que nos rodeia e nos entope por todos os lados, nas propagandas de praticidade, de facilidade e o bem-estar, o estar saudável, hoje em dia é realemnte considerado "coisa de elite"

Como o simples pode ser tão caro?

Em anos recentes nossas rotinas alimentares tem sido alteradas pela introdução de um número cada vez maior de alimentos processados, que podem ter um impacto francamente negativo em nossa saúde. E tem.

E nossas crianças, lamento que em tão pouca idade, idade em que estão descobrindo como as coisas REALMENTE funcionam (ou deveriam) se assustam, se surpreendam com uma galinha, com um pato e praticamente se aterrorizam, pensm ser algum ET.

Hoje em dia, se não aplicarmos um referencial de "vida como ela é", de mostar como é um bicho... elas não vão conhecer nada além de um pedaço de "cadáver"( o que não deixa de ser) bem temperado.

Lamento que nossas crianças estejam tão inseridas nesse tipo de "lavagem cerebral"

Enfim, isso dá pano pra manga.

"Se os matadouros fossem de vidro, o mundo seria vegetariano"
(Paul MacCartney)

Isso é só uma gancho para um próximo assunto...

Sugestão apenas! rs

Beijo querido meu!
------------
E seu irmãos, espero e desejo que esteja se recuperando, que tudo se mantenha tranquilo e sereno para todos os seus.

Toninhobira disse...

Pois é amigo, no caminho mda feira, os olhos atentos pelo caminho vejo hortas em caixotes de uvas, ate mesmo pimentoes em vasos de concreto.Fico a lembrar a exuberancia de nossas hortas adubadas com a melhor fezes bovina, onde a gente tinha a função de catar e cuidar.E pela manha colher tudo verdinho e fresquinho para almoças.Eta tempo bom moço!
Meu filho quando viu um colega meu matando uma galinha caipira para mim, sentiu um terrror...Moral ele nao come galinha caipira e se esbalda na congelada frita.Meu abraço amigo,bela observação com este humor privilegiado.

Inaie disse...

tudo tao verdade. outro dia fui comprar uma perna de carneiro para dar para o meu porteiro. Pedi a perna de carneiro, ela veio assim mesmo..inteira, com osso, parecendo uma perna. Quase infartei!
O acougueiro, compreendendo o meu desespero, levou a tal perna de volta pra dentro, desossou, fez uma bolinha e me entregou um pacote perfeitamente aceitavel, que nada se assemelhava a uma PERNA DE CARNEIRO!!!

Beth/Lilás disse...

Ai, Cacá, este seu texto está ótimo!
Eu também já pensei um monte de coisas a respeito dessas novas tecnologias empregadas ou empurradas para nós nas comidas de hoje em dia.
Noutro dia, lendo R.Alves, ele dizia que um menino da cidade ao ver na fazenda alguém tirando o leite da vaca, disse ao pai que não queria daquele leite não, queria o de caixinha. Pode, um negócio desses? haha
Agora eu fico pau da vida com os preços que cobram para estes produtos orgânicos!
Assim como as roupas de marcas famosas que, para se mostrarem engajados na ecologia, cobram os tubos por uma ou outra peça feita de, garrafas pet, por exemplo.
Ahhh, que consciência ecológica é esta, sô!
abração carioca


(Estou torcendo pelo seu irmão e tenho certeza que dará tudo certo com seu tratamento. Dê a ele, doses diárias de amor.!

Celina disse...

Amigo, podes ficar tranquilo pois não foi erro de navegação não!! Rsrs
Como falei antes a minha filha vai postar algumas mensagens já feitas ou escolhidas por mim no período que eu estiver em recuperação da cirurgia, sendo que a mesma se equivocou na postagem e logo em seguida apagou, em breve a postagem GANHANDO RESISTENCIA será publicada. Desejo feliz recuperação ao seu irmão. Abraço carinhoso
Paz Celina

pensandoemfamilia disse...

Caca
este passeio é de arrepiar pois é pura realidade. Eu sou do tempo em que se comia frutas,verduras e legumes direto do p´´e. É lamentável nossas crianças serem tão alienadas do que é bom.

Obs; estamos na corrente de fé e amor na recuperação do seu mano.
Abços

Renata Diniz disse...

Sobre as crianças percebo, infelizmente, o amor dos pais esmagando a realidade em nome da verdade do outro. Gosto daqui porque nesta casa encontro palavras destemidas, ideias articuladas e linguagem não convencional. Mais um ótimo trabalho. Abraços!

Helena Frenzel disse...

Crônica apetitosa: nada light e sim com gordura natural mesmo, que é mais gostosa e saudável. Olha, Zé, e o pior é que é a pura verdade. Desde que vim morar pras bandas de cá é uma enxurrada de congelados que vejo parar nos carinhos. Já faz tempo que não vejo um peixe fresco... Agora sério: as questões levantadas na sua crônica são importantíssimas e quase ninguém quer saber, pois comida saudável virou sinônimo de comida caríssima. Somos o que comemos e não é à toa que grande parte da população mundial apresenta problemas relacionados a uma alimentação pouco saudável, até mesmo a fertilidade das pessoas sofre as consequências disso. Taí, lembrei daquela sua crônica sobre o leitinho... Será que tudo isso não é planejado? Uma forma inteligente e barata de diminuir a população mundial? Eu não duvido de mais nada! Um abraço fraterno, meu caro!

JGCosta disse...

Formidável Cacá, o mundo se perdendo dentro do mundo!

Abraços renovados!

Web Statistics