quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ENCHENTES

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"Do rio que tudo arrasta se diz violento. Mas não se dizem violentas as margens que o oprimem." (B. Brecht)






O que mais atraiu o homem para a vida em comunidade, fazendo-o deixar de ser nômade caçador foram as terras férteis nos vales dos rios, depois que eles passavam por um processo de cheias e transbordavam. Os primeiros registros históricos nesse sentido vem do Egito, nos vales alagados do rio Nilo.

Um dia, algum espertinho passava por ali, jogou fora umas sementinhas de frutas que estava comendo e continuou sua caminhada. Algum tempo depois, voltando para procurar mais alimentos viu que elas haviam germinado e se transformado em plantas viçosas. Cansado de tanto andar para poder comer, resolveu chamar a sua turma para uma reunião e mostrou seu grande feito. Estava criada a agricultura de subsistência. Ali mesmo fincaram barraca. Começaram a domesticar animais e a plantar outras coisas. Vendo que o negócio era mesmo bom, construíram em volta as primeiras casas, daí se transformaram em vilas. Outros nômades, vendo a próspera aglomeração foram chegando, chegando e eis a história das cidades começando a engatinhar.

A natureza continuou suas peripécias maravilhosas para manter o seu equilíbrio, mandando ver com sol, chuva, ventos, frio e as demais coisas das quatro estações, inclusive flores na primavera para enfeitarem os romances que iam surgindo no meio daquela gente toda ali reunida. As enchentes continuaram e de vez em quando alagavam algumas casas mais próximas do leito do rio. Como não havia poder público ainda, nem para resolver nem para atrapalhar, cada um dava seu jeito, arredando mais para diante. Alguns incautos acabavam levando a pior, afinal nem tudo era bem pensado. Assim foi se sucedendo e o homem tão logo saturava aquele lugar depois que exauria os nutrientes do solo, ia em busca de outros vales férteis.
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Isso eu acho que acabou se transformando num costume; mais pela necessidade e falta de outros recursos tecnológicos do que por insensatez. Também há que se levar em conta que naqueles tempos havia muito pouca gente no mundo e espaço não faltava. Nem rios, nem lagos nem terras férteis. As águas, depois que o homem aprendeu a encaná-las e a fazer reservatórios deveriam ter ensinado ao homem que ele não mais precisava construir tão próximo desses locais, pois enquanto elas não secarem de vez e a natureza continuar buscando seu equilíbrio, vai haver chuvas abundantes e as enchentes vão tomar proporções cada vez mais catastróficas. No entanto, hoje, se olharmos para a maior parte das cidades do mundo inteiro, veremos que elas estão às margens de um rio, ou melhor, elas agora engoliram os rios, que ficaram prisioneiros em seus leitos canalizados, oprimidos pelo concreto para dar lugar a mais e mais pessoas, casas, ruas e automóveis.

É verdade que nesse meio tempo a desigualdade sócio-econômica foi se acirrando e os mais pobres ficaram sem muita opção de locais para morar. Quem tem mais posses afastou-se das margens, encanou e levou a água para lugares mais altos e com a desvalorização ou o desprezo pelas áreas ribeirinhas, é quase natural que estas camadas de populações fossem se alojar por ali e ficar à mercê do rio que tudo arrasta quando a chuva é torrencial. Ou então procurarem as encostas mais altas, sem, entretanto disporem de um serviço de engenharia que os auxilie na montagem segura de suas residências que desabam como papel, já que as chuvas caem lá em primeiro lugar.

20 comentários:

Norma de Souza Lopes disse...

Isso é que é tratamento poético para essa catástrofe que assistimos na TV todo dia(eu não estou assistindo mais, me cansei de chorar). Umas das partes da história que eu mais amo é a ascensão da agricultura nas Civilizações Fluviais. Seu texto ficou magnífico.
Abraços
Norma

Elayne C.A. disse...

Belo artigo, Cacá. O mais importante é que todos sabem que todos os anos acontece o mesmo. Infelizmente medidas paliativas apenas cobrem os danos, mas não ressuscitam vidas e famílias e até mesmo a geografia do nosso estado. E ano que vem, qual será a próxima tragédia?

maria olimpia alves de melo disse...

Mais que um artigo, uma aula, que eu daria com prazer se ainda estivesse na sala de aula.

Diogo Didier disse...

Gostei do texto, mesmo sabendo que palavras, todas, não serão capazes de abandar os corações das pessoas que perderam TUDO inclusive as pessoas que amam...

Entre ano e sai ano e a história é sempre a mesma: muita chuva, inundações, deslizamentos de barreiras, resultando em perdad, perdas e mais perdas...INFELIZMENTE!

bjoxxxxxxxxxxxxxxx querido!

Thomaz Ribeiro disse...

É injusto supor que meu singelo tenha inspirado este aqui. O que temos aqui é a revolta de mais um brasileiro encerrada em um texto de altíssima qualidade.
Abraços, amigo.

Thiago Quintella de Mattos disse...

Excelente. Fez-nos relembrar a humanidade e primeiro o contato sadio da transformação da natureza e depois a destruição do "progresso".

Tati disse...

Cacá,
Gostei muito. Falar sobre o 'começo' de tudo, mostrando o lado dessas pessoas, muito bom mesmo. Infelizmente não é a primeira vez que vemos esse tipo de coisa, não é? Engraçado como as coisas são, o verão deveria ser a época do ano mais feliz, no entanto é tão infeliz para algumas pessoas. Pior é ouvir de alguns: "Pô, mas ele não sabia que lá era zona de risco?" Falar é sempre muito mais fácil do que tentar ajudar...
Vamos torcer por dias melhores!
Beijos!

Celina disse...

Oi Cacá, isso me faz lembrar o meu tempo de criança , quando a cheia dos rios chegavam a cidade todos iam olhar, as únicas perdas que aconteciam eram as arvores arrastadas alguns animais pequeno, cobras,etc. e as pequenas pontes tambem não resitiam, mais logo eram reconstruídas. não havia mortes, a minha tia plantava bem longe do rio , pertinho da casa.Porque respeitava as proximidades do rio. A sua crõnica veio a calhar, com tantas mortes enlutando todos nós que sentimos a tristeza de cada um. que Deus os abençõe consolando os que ficaram. Um abração amigo. Celina

Renata Diniz disse...

A culpa é do outro. Uns acusam o poder público, outros culpam os pobres. De verdade, uma sucessão de erros que dizima centenas de pessoas. Se a política fosse estrutural ao invés de paliativa, poderia ser evitado. Do contrário, só um milagre, por exemplo a alteração da geografia do Rio de Janeiro, poderá evitar estas tragédias. Abraços.

Felipe Faverani disse...

Oi, Cacá, tudo bem?
Concordo com a Maria: esse seu texto é uma aula! Triste perceber que quase mil vidas precisam ir embora para que comecem a notar o que está errado.
Abraço.

Celêdian Assis disse...

É meu amigo, a ambição humana não tem limites e por conta dela a consequente insensatez conduz o homem para ser seu próprio algoz. Se na história das civilizações, as ocupações ribeirinhas se deram pela necessidade de sobrevivência, hoje a coisa se inverteu drasticamente; é a natureza que luta para sobreviver e parece querer recuperar o que lhe surrupiaram. A disparidade sempre haverá, enquanto o homem não se conscientizar que viver é melhor que sonhar com castelos construídos em areia.
Seu artigo é espetacular.
Um grande abraço, Zé.

Lis disse...

Oi Cacá
Passando cheia de saudade pra te dar um abraço e dizer que passei os olhos nos textos maravilhosos e volto quando o acesso estiver ok e leio tudo pacientemente e atenciosamente.Na verdade estou naquele locais que tem Wi-Fi , entao não fico muito à vontade pra demorar, entende?
Voce está cada dia melhor na prosa .
Parabéns
grande abraço Cacá

Chica disse...

Maravilhosa crônica sobre um tema que nos assusta e entristece...abração e aqui na praia, onde estou em férias, nomomento chove pra alegrar sapos e até jacarés,rsrs...chica

Marli Borges disse...

Pois é, Cacá, essa catástrofe anunciada sempre esteve escrita nas estrelas, mas ninguém quis dar-se ao trabalho de ler. E agora, deu no que deu.

Teu texto é brilhante, e tua prosa poética me encanta, mas vou abster-me de comentar, pois você já disse tudo. E muito bem.

Bjsssss

Yoyo Pizy disse...

Até quando fala em tragédia tem poesia em suas palavras, amigo
bjs

Elaine Barnes disse...

Uma beleza de texto como sempre. Acredito que a geografia não com porta tanta agressão. A natureza até permite ser invadida,mas, o preço que ela cobra depois são vidas. Montão de bjs e abraços

DEVA disse...

Custamos a aprender com a nossa própria história.

A história da humanidade, ensinada nas escolas, especulada por estudiosos, deveria servir para aprendermos com o passado e não repetirmos erros. Quanto menor o espaço que temos, maior a necessidade de planejar esse espaço, não? A falta de planejamento urbano e as suas conseqüências afetam a sociedade toda, mas a corda sempre arrebenta no lado mais fraco. As tragédias anunciadas deste ano só ganharam atenção pública depois de acontecerem. Muito pouco foi feito até hoje para evitá-las. E se repetirão com maior intensidade se nada ou pouco for feito para prevenção, ou pelo menos para amenizar seu impacto.

Vi uma reportagem sobre o Japão e como eles se preparam para tragédias ambientais. No país todo há obras de drenagem, galerias de escoamento de água, as casas são adaptadas para amenizar os danos em possíveis terremotos, a população passa por treinamento para situações de emergência. Tiveram de se adaptar às imposições da natureza.
No Brasil, considerado um paraíso tropical, quase nunca precisávamos nos preocupar com isso. Mas os tempos são outros, e nós homens, somos os principais responsáveis.

Beijos
Deva

Maria Rita disse...

O grande ponto é...nada muda se o bicho homem não mudar!

Obrigada pelo seu carinho em meu Blog, tenha um ótimo final de semana.

Beijos pra Ti

Toninhobira disse...

Olha Zé esta Genesis das cidades ficou um espetaculo amigo,gostaria de ve-la no Jornal O Trem de Itabira,bem como nestes Jornais de nossa Belô.Amigo com sua capacidade de pesquisa e observação isto ficou magistral, com a perfeita descrição das fases.A critica social e comportamental aqui é de uma lucidez maravilhosa.Meus parabens Zé por esta oportuna cronica aula sobre estes horrores que vamos assistindo entra ano e sai ano,cada vez pior.Um abraço de paz amigo.

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