sábado, 1 de maio de 2010

CONTO DE UMA MINA APENAS

“En la mina El Tarancón



se mataron onze obreros


Mira madre, como viengo



Se mataron cuatro picas


con sus hermosos rampleros


Mira madre, como viengo





Vengo bañao de sangre


De esos pobres compañeros


Mira madre, como viengo





Moreda y Caborana


De luto se vestio entero


Mira madre, como viengo





Mañana son los entierros


De esos pobres compañeros


Mira madre, como viengo” *



*O nome do grupo, Tarancón, era também o nome de uma mina de carvão na Astúrias, Espanha que desabou ocasionando a morte de onze trabalhadores (história contada na canção En la mina el tarancón).

Fonte: wikipedia (pesquisar por Grupo Tarancon)



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Ele havia chegado atrasado. Durante quase dezesseis anos participou de quase todos os encontros naquele recinto. Se faltou duas ou três vezes era por qualquer motivo de força maior. Nem só pelo fato de ter sido diretor, mas por achar importante fazer parte dos eventos onde uma coletividade se unia em voz e pensamento (além de votos, claro) para decidir seus rumos, fazer suas reivindicações, expandir os conhecimentos que podem caber em mentes tão fecundas mas tão pouco utilizadas, feito latifúndios improdutivos. Naquele dia, por incrível falta de coincidência, a reunião começara no horário certo. Talvez as coisas tenham entrado nos eixos depois que saiu. Afinal agora já são passados nove anos desde a última vez que compareceu. No imenso salão havia umas centenas de cadeiras enfileiradas e muita gente teve que assistir de pé, ou se quisesse e tivesse pernas com joelhos ainda maleáveis, poderia se sentar no chão. Fizera isso tantas vezes nos primeiros tempos, quando todos ainda eram mais jovens... Muitos até mesmo preferiam o contato do chão para dar lugar aos mais velhos ou mais cansados depois de um dia suado no batente da mina. Mas agora, aquele evento era exclusivamente para os aposentados e as pensionistas. Então, de pé, correu os olhos num ângulo giratório com o pescoço para observar a todos e rever as velhas caras com as quais havia convivido por mais de vinte ininterruptos anos, dia a dia ou noite a noite, dependendo do turno de trabalho em que estava escalado. A empresa sempre funcionou diuturnamente. Nisso, o pensamento começou a girar no ritmo em que a cabeça com os seus olhos pasmos iam vendo um a um dos seus antigos companheiros de trabalho. Muitas calvícies, muitas barrigas enormes, muitos óculos de grossas lentes e, na medida em que o olhar ia se deslocando do centro da multidão para as beiradas do enorme salão, o cenário ia ganhando um visual mais medonho, não chegava a ser estarrecedor, mas também não deixava de assustar.



Um Iuri, que havia sido seu supervisor nos primeiros tempos, apoiado em uma espécie de andador de criança, com uma parte da perna direita amputada; dois colegas que não o reconheceram, lhe perguntando o nome e alegando que a idade estava pesando nas suas memórias. Nos seus cinqüenta e poucos, no máximo sessenta anos, aquilo parecia ser mais um sinal de um Alzheimer se instalando. Aqueles dois homens que passaram vinte, até quase trinta anos apertando botões de liga e desliga e vigia. Liga, vigia, desliga. Desliga, liga, vigia. Vigia,... E não se aprendeu outra coisa senão pensar em ligar, desligar e vigiar máquinas peneirando, lavando e selecionando pedras de minério por tamanho e teor de pureza. Bem à frente, nas primeiras filas de cadeiras o Zé Demais e o Toni interrompendo a fala do orador a todo momento, perguntando exatamente o que estava sendo falado. Era talvez efeito da surdez adquirida por anos e anos a fio submetidos a dezenas ou mais que uma centena de decibéis de barulho das máquinas. A proteção para os ouvidos com os abafadores de ruído é coisa recente, comemorada pelas empresas como um grande avanço nos seus cuidados com a sua “mão de obra”. Apenas o cumprimento de uma lei que levou anos para “pegar”. Agora já nem são mais tratados como mão de obra: são todos colaboradores ou parceiros. Claro que os donos, esses imaterializados e inominados acionistas, provavelmente estarão na Avenida Atlântica, na Avenida Paulista, na Quinta Avenida e outros endereços onde haja pregões e os peões no chão ou no buraco da mina. Colaboradores e parceiros.



Do outro lado, o Prado saiu em sua direção para um efusivo cumprimento, como quem parecia sentir saudade por longa ausência. Um forte aperto de mãos teve que ser substituído por um abraço que transmitia mais calor, afinal sua mão agora possuía apenas três dedos, os outros haviam sido arrancados numa manobra perigosa de uma guilhotina de cortar chapas há alguns anos. As pessoas não gostam de se cumprimentar apertando a mão esquerda. O assombro maior foi constatar a presença de tantas jovens viúvas: as “pensionistas”, agora tratadas dessa forma pelo instituo da previdência. Tantos antigos colegas que se foram nesse meio tempo e aquela vontade constrangida de perguntar pelos maridos. Tarde demais.



Voltemos ao olhar: Lembrava um hospital de campanha num filme em que a guerra estava ocorrendo lá fora e ali se reuniam os seus feridos, mutilados, enlouquecidos, atormentados por uma depressão que vem não de crises provocados por questionamentos existenciais e sim pela opressão pura e simples. Opressão que garantia a sobrevivência diária em forma de alimentos, escola para os filhos e algum conforto, mas era uma obrigação cumprida quase a ferro e fogo pelas políticas de resultados que a alta direção e os acionistas ditavam lá nos canais de comunicação internos, nas reuniões setoriais e no dia a dia com os chefes, capatazes responsáveis por emitir os boletins de perdas e ganhos de quantas toneladas/homens/hora podiam ser contabilizados nos polpudos lucros e nas bolsas de valores do mundo inteiro. Este outro cenário, absolutamente alheiro à atividade mineraria, de temperaturas amenas, mais ou menos a 22 graus controlados pelo controle remoto do ar condicionado numa sala qualquer de uma corretora de valores ou nos escritórios dos donos, é que alimenta as redações da imprensa com propagandas positivas de responsabilidade social. Tem sido assim a todo momento.

Aquele não era um cenário de um pós-guerra, tampouco um visual de terra arrasada após um cessar fogo. Era apenas uma assembléia de ex-trabalhadores de uma grande empresa de mineração. É que dizem por aí que o mercado interno e as exportações fazem a riqueza da nação. De uma pequena nação de uns poucos homens muito endinheirados.

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