segunda-feira, 14 de novembro de 2011

LER NÃO CAUSA L.E.R.* - Malba Tahan


O Tesouro de Bresa (Malba Tahan)




Houve outrora, na Babilônia, um pobre e modesto alfaiate chamado Enedim, homem inteligente e trabalhador, que não perdia a esperança de vir a ser rico. Como e onde, no entanto, encontrar um tesouro fabuloso e tornar-se assim? Um dia, parou na porta de sua humilde casa um velho mercador da Fenícia, que vendia uma infinidade de objetos extravagantes. Por curiosidade, Enedim começou a examinar as bugigangas oferecidas, quando descobriu, entre elas, uma espécie de livro de muitas folhas, onde se viam caracteres estranhos e desconhecidos. Era uma preciosidade aquele livro, afirmava o mercador, e custava apenas três dinheiros. Era muito dinheiro para o pobre alfaiate, razão pela qual o mercador concordou em vender-lhe o livro por apenas dois dinheiros.

Logo que ficou sozinho, Enedim tratou de examinar, sem demora, o bem que havia adquirido. E qual não foi sua surpresa quando conseguiu decifrar, na primeira página, a seguinte legenda: "O segredo do tesouro de Bresa." Que tesouro seria esse? Enedim recordava vagamente de já ter ouvido qualquer referência a ele, mas não se lembrava onde, nem quando. Mais adiante decifrou: "O tesouro de Bresa, enterrado pelo gênio do mesmo nome entre as montanhas do Harbatol, foi ali esquecido, e ali se acha ainda, até que algum homem esforçado venha encontrá-lo." Muito interessado, o esforçado tecelão dispôs-se a decifrar todas as páginas daquele livro, para apoderar-se de tão fabuloso tesouro. Mas, as primeiras páginas eram escritas em caracteres de vários povos, o que fez com que Enedim estudasse os hieróglifos egípcios, a língua dos gregos, os dialetos persas e o idioma dos judeus. Em função disso, ao final de três anos Enedim deixava a profissão de alfaiate e passava a ser o intérprete do rei, pois não havia na região ninguém que soubesse tantos idiomas estrangeiros.
Passou a ganhar muito mais e a viver em uma confortável casa.

Continuando a ler o livro, encontrou várias páginas cheias de cálculos, números e figuras. Para entender o que lia, estudou matemática com os calculistas da cidade e, em pouco tempo, tornou-se grande conhecedor das transformações aritméticas. Graças aos novos conhecimentos, calculou, desenhou e construiu uma grande ponte sobre o rio Eufrates, o que fez com que o rei o nomeasse prefeito.

Ainda por força da leitura do livro, Enedim estudou profundamente as leis e princípios religiosos de seu país, sendo nomeado primeiro-ministro daquele reino, em decorrência de seu vasto conhecimento.
Passou a viver em suntuoso palácio e recebia visitas dos príncipes mais ricos e poderosos do mundo.
Graças ao seu trabalho e ao seu conhecimento, o reino progrediu rapidamente, trazendo riquezas e alegria para todo seu povo.

No entanto, ainda não conhecia o segredo de Bresa, apesar de ter lido e relido todas as páginas do livro.
Certa vez, então, teve a oportunidade de questionar um venerando sacerdote a respeito daquele mistério, que sorrindo esclareceu:
- O tesouro de Bresa já está em seu poder, pois graças ao livro você adquiriu grande saber, que lhe proporcionou os invejáveis bens que possui. Afinal, Bresa significa "saber" e Harbatol significa "trabalho".

Com estudo e trabalho pode o homem conquistar tesouros inimagináveis. O tesouro de Bresa é o saber, que qualquer homem esforçado pode alcançar, por meio dos bons livros, que possibilitam "tesouros encantados" àqueles que se dedicam aos estudos com amor e tenacidade.

Texto adaptado de OS MELHORES CONTOS, de MALBA TAHAN, Ed. Record. 2002
L.E.R = Lesão por Esforço Repetitivo

41 comentários:

Andre Martin disse...

Eis alguns comentários:

1) esta leitura me remete a outras referências: as coleções "TESOURO da Juventude" e "BARSA" (enciclopédia), ambas grandes fontes do rico saber!

2) Pelo visto, o alfaiate aprendeu outras línguas, mas não o bastante para entender o significado de Bresa e Harbatol... Precisou um veterano sacerdote lhe dizer muitos anos mais tarde (ora, por que não perguntou antes?!)

3) Harbatol lembra a palavra alemã Arbeit (que se pronuncia árbait) e que significa TRABALHO.

4) conheci Malba Tahan no excelente clássico livro O Homem que Calculava.
Há outros livros deste professor escritor brasileiro que adotou este pseudônimo árabe para poder escrever livros e nos contar histórias interessantes do/no/sobre oriente médio.

Cartas de Julieta disse...

Cacá,

Um texto interessante sobre a maior riqueza que alguém pode ter: o saber.

Pena que vivemos em um país que pouco incentiva o hábito da leitura. Em consequência, os nossos jovens gastam cada vez mais nos shopping´s da vida e quase nada em livrarias.

E, dessa forma "O Tesouro de Bresa" fica cada dia mais distante...Bjs

Obrigada, pela partilha desse maravilhoso texto.

Georgia disse...

Cacá. bom dia!!!

A sabedoria do saber ler e entender o que se lê á algo mágico.

Gosto muito de uma passagem na Biblia que Felipe pergunta a um
homem etíope, eunuco, mordomo-mor de Candace, rainha dos etíopes, o qual era superintendente de todos os seus tesouros, e tinha ido a Jerusalém para adoração, regressava, e assentado no seu carro, lia o profeta Isaías".

E ai a pergunta de Felipe:

" Entendes tu o que lês?"

Cacá, fez a Paella? Tô curiosa.

Boa semana

Adh2bs disse...

Prezado amigo!
Quando a internet "explodiu" como se fosse a janela para o mundo que temos dentro de casa, alguns pessimistas disseram que o livro impresso estava fadado a desaparecer. Ledo engano. Há pouco incentivo "publico", por assim dizer, para a leitura, mas quem lê é fiel e contagia os outros. Pra mim, a internet agregou mais fontes, tanto é que a gente se conheceu assim... Já pensou se o alfaiate do conto tivesse isso? Ia acabar virando o próprio rei!
Grande abraço,
Adh

Adh2bs disse...

Em tempo: o hábil autor do texto usou as mesmas letras de "saber" (Bresa) e "trabalho" (Harbatol) para criar as palavras misteriosas, que nada mais são do que anagramas do que significam. Simples, por isso mesmo genial.
Adh

Yasmine Lemos disse...

Caramba esse gostava de ler viu?! rs
bom dia Cacá
tenha um feriado em paz
abraços

Ma Ferreira disse...

Oi Caca..tudo bem..

Olha muito interessantes estes textos que voce tem postado sobre o halito de ler.
Amei esta "estória" e o comentário que o André fez em relação ao autor ser brasileiro.
Ele lê..rsrs

Eu diria..querendo fazer uma brincaderia: LER NÂO CAUSA L.E.R., e nem cauca LERDEZA.
Muito pelo contrário.
Uma semana iluminada a vc!!

Néia Lambert disse...

Cacá, que outra palavra eu poderia dizer sobre esse texto senão "fantástico"?

Um abraço.

Tati disse...

Meu amigo Kk, corri para cá quando li o nome Malba Tahan, isso por que o livro "O homem que calculava" foi um dos grandes tesouros da minha infância (apesar de continuar péssima em matemática... rsrs). Este conto é fantástico! Para levar para a vida mesmo. Chegou em ótima hora. Estou tendo a oportunidade de decifrar alguns tesouros de Bresa. Vamos ver se fico mesmo mais esperta! rsrs Beijos amigo. Estava com saudades de passar por aqui.

Celina disse...

OI Cacá, vim agradecer a tua visita e o comntário sempre gentil. O primeiro livreo que li de Malba Tahan foi o homem que calculava, se não me engano era um conto, faz tanto tempo. Cacá desejo-te um inicio de semana bem legal, um abraço amigo. Celina.

Tunin disse...

Cacá, texto espetacular. O Malba, escritor e professor de competência comprovada. Delicio-me quando leio seus escritos.Bem lembrado aqui em tua página. Abração.

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Malba Tahan! Você me fez voltar à adolescência, Cacá, quando devorei um livro dele - não me lembro exatamente qual. Valeu! Bom feriado.

Lúcia Soares disse...

Cacá, fui lendo e à medida que via o progresso do homem, entendi que o tesouro estava exatamente naquela leitura.
Que delícia de texto! Tudo parece tão simples, porque complicamos tanto, saimos tanto à procura do que pode estar à frente dos nossos olhos?
Vale a pena estar aqui, e aprender uma lição a cada texto.
Boa semana!

Andre Martin disse...

Mais um comentário:

5) Às vezes ficamos tão cegos, insistindo em nossos sonhos mundanos e primordiais, que deixamos de perceber o quanto vamos conquistando ao longo do caminho...
Foi o caso do alfaiate, que na sede de "ser muito rico", deixou de curtir a sua própria evolução, na medida que vivenciava, e só acordou para isto quando já era bem velho! Sua ambição e ganância imediatista e material o perseguiu durante toda sua história, e deixou de valorizar o que tinha de precioso: sua própria curiosidade e esforço.
Sonhos e planejamento, qualquer que seja, precisam ser periodicamente revistos, revisitados e revisados, e, se for o caso, recalibrados, readaptados ou descartados, para dar lugar a outros mais adequados ou convenientes.

Sabor de Pitanga disse...

Cacá, muitas vezes, o "tesouro" está bem diante de nós, e, nós o buscamos por toda a parte, sem nos dá a oportunidade de olhar e perceber as coisas que estao à nossa volta!... O caso do alfaiate é um bom exemplo: Ele galgou muitas coisas e posicoes por estar à procura do SABER. E na ânsia de desvender o "mistério", fez-se cada vez mais sábio. Com saber e trabalho, normalmente, consegue-se tudo ou quase tudo que se quer.

Bom dia para você, pessoa simpática!

Vera Lúcia disse...

Olá Cacá,
Um texto espetacular. À medida que o lia e observava o progresso de Enedim ,pude constatar que o tesouro fabuloso que ele tanto buscava já se encontrava em suas mãos.
A leitura tem este poder, de abrir portas para conquistas inimagináveis.
Ótima segunda-feira.
Abraço.

Jardim das poesias infantis/Magia em versos disse...

Adorei a crônica!
Que belíssima mensagem.
Saber nunca é demais e sempre abre mais e mais portas.
Uma semana de muita alegria, paz e harmonia para ti.
abração com carinho

Jardim das poesias infantis/Magia em versos disse...

Adorei a crônica!
Que belíssima mensagem.
Saber nunca é demais e sempre abre mais e mais portas.
Uma semana de muita alegria, paz e harmonia para ti.
abração com carinho

Valéria disse...

Oi Cacá!
Excelente texto! O ensinamento que nos trás é valioso,que está na nossa frente e nem sempre vemos, como no caso do próprio Enedim. Lindo!
Abraço e uma ótima semana!

。♥ Smareis ♥。 disse...

Oi Cacá, o seu post é fantástico.Por vezes temos esse tesouro nas mãos e nem percebemos o valor que ele representa. A leitura as vezes abre portas que antes a gente desconhecia. Muito bonita a história do Enedim, apenas com um livro encontrou o caminho da sabedoria, e se tornou um homem de muitas posse.

Beijos e ótimo feriado.

✿ chica disse...

Que maravilha isso e ler esse escritor., realmente, não causa LER!Só prazer! abração,chica

pensandoemfamilia disse...

Muito bom ler Malba Tahan e decifrar suas mensagens, Concordo sobre o fato, já aqui comentado, que a NET e veio nos acrescentar na leitura e não substituir os livros.

Bom feriado.

MARILENE disse...

Bastou um estímulo para despertar o interesse. E ele veio de um livro. Isso prova o quanto a leitura pode nos trazer sabedoria. Aprendemos tanto que até nos julgamos confiantes para discordar de quem o escreveu (rss).
Excelente!

Bjs.

Bixudipé disse...

Maravilhoso o conto! Um grande ensinamento!

Adorei; abração,

Rodrigo Davel

Maxwell Soares disse...

Maravilhoso texto, Cacá. Lembrou-me muito a ideia de "quem planta colhe". Enedim soube e muito usar o seu tempo para a construção moral e intelectual de sua vida. O conhecimento quando bem usado é frutífero. Excelente texto para crianças de 0 a 100 anos. Um abraço, amigo...

Jorge Sader Filho disse...

As lendas árabes contêm sabedoria milenar.
Cacá nos presenteou com uma delas.

Abraço,
Jorge

Georgia disse...

Cacá, tenho certeza que a Paella ficou deliciosa. Nao há como errar.

Faca uma outra, assim vc já será craque, rs.

Abracos e fico feliz que uma deliciosa receita juntou a família num almoco gostoso.

Célia disse...

Investimento intelectual - único bem que realmente é propriedade nossa! Feliz aquele que logo percebe isso! Enriquece-se realmente! Abraço da Célia e, parabéns pelo seu artigo sobre Eutanásia no blog da Emiliana.

Cantinho do Neno disse...

Oi Cacá, adorei seu comentário!!!
Mas acho que a tua historia não é "tão" baseada em fatos reais não acha? rsrrs!!!

Bjs do Neno

Geyme Lechner disse...

Acho que estamos num camino bom para atingir O tesouro de Bresa, amigo! Esse tesouro incessante e inesgotável, e porque nao dizer: Ilimitado!!
Grande texto!!!
Cacázito, estou de dedos cruzados para sua vinda em 2013, ainda há muito tempo até lá, mas por via das dúvidas, providencie já o passaporte (se é que vc ainda nao tem) e comece a fazer as malas, pra dar sorte!! Quero ver vc aqui, hein!!! Há uma possibilidade de em 2012 eu estar morando na Coréia do sul, por dois anos máx., mas de qquer forma, ano que vem e em 2013, principalmente, se nada sair do eixo, estarei na feira do livro em Frankfurt e daremos aquele abraco (que vc está me devendo faz tempo)!!

Fiquei feliz em saber sobre essa possibilidade!!! Iupppi!!!!


Beijo enorme, amigo!!!!!!!!!!

Maria Emilia Xavier disse...

Lindo Conto baseado em uma lenda, que vem reforçar o que nós ouvimos de nossos pais e falamos para nossos filhos e esperamos que eles falem para os seus filhos: "Sem trabalho? Ninguém chega lá...HONESTAMENTE e se causar VERGONHA À FAMÌLIA."

Casal 20 disse...

Cacá, vivemos na época em que todos sonham em ser jogador do time profissional e ganhar um milhão como mágico da bola; outros insistem na megasena; outros na corrupção, enfim, todo mundo quer enriquecer e ninguém quer estudar e trabalhar, lutar e suar.

Malba Tahan é o máximo! Aprendi muito com os desafios dele. Gostei muito dessa história, ainda não conhecia.

Abraços sempre afetuosos, meu querido.

Fábio.

Aleatoriamente disse...

Olá Cacá.
Li e reli.
Que legal, ele ganhava cada tesouro da maneira mais linda.

Bela conquista, belo texto meu amigo.

Beijinho

Mimirabolante disse...

Ufa!!!!Consegui te visitar,ler e até comentar!!!Seu blog está show e eu estava com saudades de passar por aqui!!!!Não me pergunte como consegui,pois eu não saberia o que te responder!!!!rsrsrsrs.....

Helena Chiarello disse...

Sabedoria e Trabalho.

Esse é o segredo, a receita, o caminho ou o mapa do tesouro. E a gente sabe que de nada adianta um sem o outro...

Que bacana, Cacá! Fazia tempão que não lia Malba Tahan. E encontrar esse texto aqui me trouxe deliciosas lembranças! E grandes lições, como sempre!

Abração procê!

lis disse...

Oi Cacá
Venho agradecer sua companhia e deixar um abraço mais prolongado, devo demorar mais que o normal rs
Obrigada por leituras e tesouros que voce descobre e nos presenteia.
Bons dias Cacá , que tudo siga em paz com voce e os seus.
com afeto e admiração

Amapola disse...

Boa noite, querido amigo Cacá.

Que maravilha!!
Nas suas postagens, encontramos tesouros.

Paz e bem. Como diz você.

Beijos.

Claudio Poeta disse...

Excelente trabalho, meu amigo! - Adorei! - Parabéns, viu?! - Abração

Rô... disse...

oi Cacá,

passado o casamento e a emoção,
tento retomar minha rotina,
aos poucos é claro...
mas ando correndo mais que o coelho da Alice,
já estou trabalhando até mais tarde, e de domingo a domingo,
paro somente dia 24 as 18 horas,
fica meio complicado qualquer prazer nesse momento,
ler então,
acabo desmaiando em cima do livro,
ainda bem que tem pessoas como você,
que postam essas maravilhas,
e nas minhas escapadas consigo ler um pouco...
bela postagem meu amigo...
obrigada pelo carinho!!!

beijinhos

Mariazita disse...

Cacá, meu amigo
Tenho estado doente desde sábado. (Por sorte já tinha agendado o post para domingo… doutro modo a postagem teria falhado).
Não tenho posto os pés – melhor dizendo, as mãos… - no PC.
Já estou um pouco melhor, mas não completamente bem. Não está a ser fácil, mas há-de ir ao lugar… Ainda não consigo estar aqui muito tempo seguido, tenho que intervalar :)
Aos poucos, vou visitando os blogs amigos, não com a presteza que eu desejaria, mas com a que é possível.

Este delicioso conto, se bem interpretado, revela-nos o segredo para a felicidade.
O saber ler, hoje tão vulgar, já foi um bem raro, só acessível aos afortunados.

Bom restinho de semana. Beijinhos

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