sábado, 15 de outubro de 2011

MÚSICA DA DOR DE COTOVELO

Esse negócio de buylling é bem antigo na humanidade, minha gente. Não que eu seja tão antigo assim, mas a minha infância já ficou para trás faz tempo. Ah, tinha uma diferença com agora: os pais não permitiam de jeito nenhum que saíssemos humilhando as pessoas por causa de um defeito físico, uma feiúra, uma gordurinha a mais.  Se vissem ou soubessem que fazíamos troça disso, a coisa ficava feia. Um castigo, no mínimo, era garantido, além de levar a gente à presença da pessoa e nos fazer pedir desculpas. Mesmo assim, colocávamos apelidos, mas era só na miúda. A pessoa nem ficava sabendo na maioria dos casos.

A dona  G, muito robusta e grandona era proprietária do bar e mercearia Gorda (aí o buylling). O seu marido ganhou o apelido de sr Gemeu (aí, de novo). Ele era bem franzino, um tico de gente perto dela. Que eu tenho notícia, nunca souberam da chacota. O seu bar era o paraíso de todas as crianças do bairro. Não somente por ser o único, como pelas balas, chicletes, paçoca, maria-mole, pipoca doce e pirulito, guloseimas que criança não passava sem. Não tinha uma moedinha que a gente ganhava que deixava de ser trocada lá, quando não eram bolinhas de gude ou figurinhas para álbuns.

Ela ia prosperando ali e resolveu ampliar o negócio. Como tinham um carro apenas e naquele tempo não tinha perigo algum deixar carros na rua, ela colocou umas mesas na garagem e à noite, os rapazes iam tomar suas cervejas e ouvir o som das músicas que vinham da vitrola lá de dentro de sua casa.

 Evaldo Braga foi um cantor romântico que fez uma carreira meteórica, quase com a mesma velocidade que deu fim à sua vida. Ele morreu em um acidente no auge do sucesso, com vinte e cinco anos. Hoje, lembrando de umas canções suas, dá até uma dor no peito de tão sofridas eram as letras, tanta desdita, tanto desengano amoroso. Isso ainda é comum, mas a interpretação que ele fazia com a voz grave fazia muita diferença para os românticos desamados.  Só para se ter uma ideia do dramalhão, ele dizia “na terra, aqui se faz, aqui se paga, hoje eu sei que estou pagando, hoje vivo a lhe amar. Meu Deus, eu pergunto a todo mundo por onde anda o meu amor, eu não sei...” (Sorria, Sorria). Ou então esta outra: “Sinto a cruz que carrego bastante pesada... quem de amor me chamava na hora da ceia, quem de mim tanto gostava, agora me odeia.”  Isso era uma espécie de arrependimento tardio por ter desprezado uma mulher que o amava e ele viu a situação virar de cabeça para baixo quando ela resolveu dar um basta.

Foi assim que tive o meu primeiro contato, digamos, impactante com as chamadas músicas de dor de cotovelo. E foi também a primeira vez que vi uma pessoa tomar sozinho umas 10 cervejas e se inundar de lágrimas por causa de um amor perdido ou desfeito, sei lá. O rapaz chegou à garagem-bar e foi tomando avidamente e pedindo a toda hora para repetir o disco. Isso chamava a atenção da meninada que brincava ali por perto ouvindo aquele chororô todo. A turminha achando que ele estava sofrendo algum ataque, que tinha morrido alguém da família, todo mundo condoído mas sem jeito de chegar perto para perguntar o porquê de um choro tão sofrido num marmanjo daqueles. Só fui saber quando a dona apareceu e falou para ele ir para casa, que “a vida é mesmo assim, alguém tem que perder pra outro entrar no jogo” (isso eram versos de uma outra canção de dor de cotovelo, A Vida é Mesmo Assim). Mas aí ela já estava falando do ponto de vista feminino, pois a música é de Cláudia Barroso.

IORRAN SEBASTIÃO BASTOS

18 comentários:

Marly Bastos disse...

Pois é né Claudio? Antigamente eram as musicas "dor-de-cotovelos" hoje são as músicas de "cornos". E a gente vivendo cada época!
Eu me lembro desse cantor e até sabia uns pedaços da música:
[...]
Lembro-me ainda as rosas
Que ofertei para você
Jurando amor eterno
Sem saber
Que o amanhã fosse o começo
Do meu fim
Pois do seu caminho
Me perdi
A vida passando por mim
Que vou fazer?
Se o amor desejado por mim
Está com você
Já nem sei mais quem sou
Nem para onde eu vou
Saudade, saudade, saudade
Foi que restou
Saudade, saudade, saudade
Foi que restou.
Beijokas doces e um bom fim de semana querido!

Eva disse...

Cacá querido, desculpe a demora em aparecer, por mim, não sairia daqui, eheh, eu amei teu post, me perdi nas lembranças da minha infância, com as tais músicas de cotovelo do rádio da vizinha que era o "som" da quadra eheh, parabéns pelo seu dom maravilhoso, adoro ler o que você escreve, beijos, bom final de semana.

Rô... disse...

oi Cacá,

lembro tão bem dos casais amigos
dos meius pais que se reuniam todos os finais de semana para aperitivos comunitários(como eram chamados)
os encontros para beber e comer petiscos antes dos almoços também comunitários,
morávamos numa vila e ali tudo acontecia,
esses encontros tinham trilha sonora totalmente dor de cotovelo,
já ouvi de tudo e isso marcou um tempo muito bom...

beijinhos

Cynthia disse...

A música dor de cotovelo não conhecia. Aprendi um pouco aqui, abraço Cynthia.

Nice Bacchini disse...

Cacá, realmente antigamente nossos pais mandavam a gente pedir desculpas as pessoas que a gente ofendia, hj são poucos os pais que fazem isso.

Particulamente nunca gostei muito das musicas de "dor-de-cotovelos", é muito deprimente rsrrs, mas tudo bem, gostei do texto, pincipalmente quando fala do barzinho e dos docinhos que me fez voltar no tempo e tbm do cantor Evaldo Braga com sua dor de cotovelo rsrsr aliás gostei dele todo.. bom FDS....

Tunin disse...

Boas lembranças, Cacá! Ai de nós se colocássemos algum apelido em alguém. Era motivo de severo sermão por parte de nossos pais. Quanto às músicas dor-de-cotovelo, quem não se lembra de Valdick Soriano, Cláudia Barroso e outros mais que com suas músicas melodramáticas faziam as apaixonadas irem às lágrimas? Hoje são chamadas de bregas. Abração.

Tatiana disse...

Cacá querido....aii...essas dores de cotovelo....graças a Deus ha muito tempo não sei o que é isso e não quero nunca mais saber...rs!!
"O" dorzinha insuportável!!!!
Maria mole....ha quanto tempo não escutava essa palavra....quantas lembranças vieram agora...rs.
Beijocas!!!

Sam disse...

Meu querido, gosto dos teus textos, das suas abordagenns sempre repletas de verdades e bom humor.

Obrigada pelo seu carinho sempre comigo.

Te gosto e admiro muito.

Beijo na alma, querido meu :)

lis disse...

Até os sentimentos tão devastadores de antigamente perderam a força Cacá rs
as tais dores de cotovelo já nao inspiram mais sambinhas nem os chorinhos de mesa de bar.
O que vemos são os raps e funks que desvalorizam o amor e o jogam no lixo com palavrório ridiculo.
Gostava mesmo era das clássicas dores de cotovelo inspirados em paixoes avassaladoras do tipo:
"minha vida era um palco iluminado
E eu vivia vestido de dourado...
a porta do barraco era de zinco e a lua furando nosso zinco salpicava de estrelas nosso chao !"
que tal? rs
um prazer vir te ver e te ler Cacá
deixo abraços e muitas estrelas a salpicar seu chão rs
boa madrugada ,hoje mais cedo...

Leninha disse...

Oi amigo Cacá!Bom DIA!!!
Sou deste tempo em que os pais não admitiam o desrespeito à outras pessoas e a gente obedecia...hoje os pais obedecem aos filhos.
E,também gostava de ouvir Evaldo Braga,cantando junto,com o rádio ligado bem alto.Meu pai chegava do trabalho e ficava muito bravo:-Parece rádio de botequim!
E o que eu mais cantava?
Sorria meu bem, sorria
Da infelicidade que você procurou
Sorria meu bem, sorria
Você hoje chora
Por alguém que nunca lhe amou
Sorria meu bem, sorria
Eu sempre lhe dizia
Quem ri por último, ri melhor
Chorar pra que? Chorar!
Você deve sorrir
Que outro dia será bem melhor
Querida, o seu erro você vai pagar
Entenda, que eu não posso mais te aconselhar
Confesso que você foi o meu grande amor
Sempre sorria, sempre sorria
Assim como estou
Sempre sorria, sempre sorria
Sim meu amor.

Isto enquanto arrumava a casa,pois menina(adolescente)não podia ficar átoa,tinha que ter uma ocupação.(dá uma postagem este assunto)
Bjsssss e um lindo domingo,amigo,
Leninha

Maria disse...

Amigo com essa designação " música da dor de cotovelo" não conhecia, mas é claro que conhecia esse genero de música.
Bom domingo e uma excelente semana.
Beijinhos
Maria

Sabor de Pitanga disse...

Agora lembrei daquele outro cantor que dizia assim: "Tempo que na volta mais..."

Quando as pessoas ainda tinham respeito pelas outras... Nós obedeciamos nossos pais e um simples "desculpe" significava muito...

Abracao.

Tretswelt disse...

Oiiiiii Caca!...menino,so me lembro do meu tempo...foi bom vc lembrar da educacao de antigamente,hihi,vc acredita q meu pai me obrigava a devolver dinheiro achado na rua?E... a educacao era pesada...mas me ajudou muito hoje a agir corretamente.
No falar sobre as musicas...eta trem bao era ouvir aquelas musicas bregas,hihi.A gente sempre pe apelido nas coisas que nos impressionam,seja negativo ou positivo.Vc se lembra da musica Fernando?Pois e eu era apaixonada pelo meu vizinho que tinha olhos verdes e tinha esse nome...ah como a gente era besta(como diz o mineiro),mas ate hoje somos assim ne?E so o cotovelo doer ai comeca...hihi.Obrigada pela visita.
Muitos beijos de fim de semana.Lu.

Renata Diniz disse...

Gosto muito das demasias da memória. E como era de se esperar o amigo do Arcanjo veio com o senso crítico ligado na tomada. Abraços, Cacá!

Toninhobira disse...

Ai,ai,ai.Que lembrança amigo! O bar da esquina a mulher toda gorda, as moedas fuindo.Dá até saudades.E voce sabia que Evaldo Braga morreu logo após um show num circo na sua cidade?
Outro dia estava lembrando das musicas dele no ano de 1972,quando ensaiava minhas primeiras incursões amorosas,e mal sucedidas,kkk.
Mas eu nunca pensei que era lixo,para fora jogar.
Bela cronica,belo saudosismo.
Uma bela semana de paz e luz.
Meu abraço.

pensandoemfamilia disse...

As reminiscências, quando tão bem alinhavadas como estas que nos oferta, trazem a representação de um época. Hoje, eu pergunto, por onde andam as dores de cotovelos?Eu gostava de algumas músicas cheias de romantismo e eu adorava cantá-las.
Nosso tempo!!!
bjs

MARILENE disse...

Essas músicas não têm época, pois sempre haverá alguém chorando a dor de amor (rss).
Sua abordagem ficou excelente!

Bjs.

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