quarta-feira, 31 de março de 2010

VIDA DE PEÃO - A PORTA

Os carros brasileiros melhoraram muito de uns tempos para cá. Uns para acompanhar a concorrência cada dia mais veloz e ousada; outros apenas para obedecer uma a legislação que vem evoluindo (devagar) com relação à segurança. Desde pequeno, por exemplo, eu me lembro que eles já vinham com cinto de segurança mas ninguém usava. Não era obrigatório. E no quesito tecnologia , isso não era lá muito observado. Eles não desenvolviam muita velocidade e em quantidade eram poucos. Ainda bem, pois não possuíam muita estabilidade nas curvas nem muita segurança de forma generalizada. Isso já faz um bom tempo.

Dois acidentes que eu vi na infância e não esqueci mais. Nas duas vezes presenciei portas de carros se abrindo em plena curva ou numa virada de esquina e os motoristas despencarem no chão. Cair do carro é mole? Pois é, hoje, não se vê mais gente caindo por ai mas muitos ainda se esquecem de usar o cinto.

Eu trabalhava numa mineradora grande e lá havia daqueles caminhões que transportam mais de 100 toneladas de uma só vez. Para quem não sabe ou nunca viu fica difícil imaginar o tamanho de um bichão desses, né? Pois então saibam que só os pneus têm mais de três metros de diâmetro, quase da altura de uma casa. Do chão até o lugar mais alto do caminhão, são mais de seis metros, da altura de um poste de iluminação. Eu trabalhava na manutenção e a empresa começava a implementar um sistema informatizado de controle. Os caminhões tinham portas bem vedadas e o motorista trabalhava com elas bem fechadas para se livrar do intenso ruído que os caminhões faziam, bem como para se livrar da poeira imensa que era gerada na mina dia e noite. Lá dentro ele tinha ar condicionado. Uma dessas portas estragou a fechadura e o operador fez uma gambiarra e trabalhou ainda o dia inteiro. Ao final do expediente solicitou à manutenção o conserto. Foi feita uma ordem de serviço com os dizeres. “Corrigir porta amarrada com arame.” Com o tempo, rindo muito das curiosidades que encontrava nas anotações que eram feitas nas ordens de serviço depois de concluídos, passei a notar o quanto a tecnologia demora para acabar com hábitos arraigados ou , em outras situações, o quanto o homem convive com ela sem deixar de manter sua ligação com as tradições antigas e com as coisas próprias de sua natureza. Duas que ficaram registradas na memória: sobre a porta, o mecânico escreveu:

“Foi corrigido o problema. Trocado o arame velho por um novinho.”

De outra feita o motorista solicitou que se verificasse um ruído anormal atrás da cabine de comando (da boléia). O mecânico colocou:

“Ora, era só um ninho de passarinhos perto do trocador de calor. Como o lugar é bem quentinho eu fiquei com dó de tirar. Pode trabalhar sossegado e não se incomode com o barulho. Quando der filhotes eles saem sozinhos”.

6 comentários:

Chica disse...

Essas são maravilhosas e a do ninho, quanta sensibilidade do mecânico...O camioneiro que se danasse, mas os passarinhos estavam, segundo ele, garantidos...abração,chica

Elaine Barnes disse...

Nossa adorei!Um arame novinho e um ninho de passarinhos? Sem dúvida bastante pitoresco,rs...Hoje não entendo porque fazem tanta potência de velocidade nos carros,a lei não permite correr e também se quiséssemos, só tem buracos! kkkkkkkkk Montão de bjs e abraços agradecidos pelo voto desejando uma Feliz Páscoa e Renascimento! Se quiser votar de novo...http://simplythebest01.blogspot.com/2010/03/nas-asas-da-coruja.html

SIMEI disse...

Meu prezado Amigo Cacá,

Eu poderia fazer este comunicado por meios mais privado, mas não é o caso, tenho que expor aqui abertamente para que todos possam ver a grande pessoa que você é.

Hoje tenho bons motivos para ser muito grato pela sua amizade, primeiro o comentário que você fez com muita sensibilidade em meu blog onde expus o momento que passo com a educação escolar de minha princesinha. Segundo é eu ter recebido a visita de um agente do correio me entregando o seu livro.

Muito obrigado meu querido amigo, você não tem idéia o quando você é importante para sua vida, para os seus queridos familiares e a este que voz escreve. Tudo na minha vida foi diferente quando tive oportunidade de conhecê-lo.

Este livro eu irei lê-lo sentado em um bando de madeira na sombra de um ingazeiro lá no mato este final de semana, com direito a fundo musical dos gorjear dos pássaros, mugidos das vacas e o assovio do vento nas folhas das árvores. Tenho absoluta certeza que após o ler poderei fazer boas reflexões.

“As coisas não esta do jeitinho que gostaríamos, mas poderia estar muito pior se não pudesse contar com sua grande amizade”

Um grande abraço, paz a muitas felicidades

Obs.: Que postagem maravilhosa !!!

Geyme disse...

Olá Cacá!!!! Adoro ler suas analogias de passado e presente!! Já disse isso, nao???? Pois é, verdade que alguns hábitos o homem nao perde, outros tantos, só com lei e punicao (se nao tivessemos multa por nao usar o cinto de seguranca, ou, regras de adaptacao para fabricar carros, por ex., a situacao continuaria a mesma e as pessoas continuariam caindo por aí). Dizem que o burro só aprende com "varada" nas costas, bem, eu que nao suporto violencia contra os animais, refiro-me mesmo ao "burro homem" nessa citacao!
E ahhhh: Adorei a compaixao do homem, ao final do texto, permitindo que os passarinhos nascessem, hehehe que louco, mas tao bonitinho!!!!!!! Beijo grande!! (Já disse tb que encaminhei o livro, né?) Beijo grande no coracao. Bom final de semana!!

Maria Emilia Xavier disse...

Amigo,
Sabe o que é isso? É o pessoal que trabalha no que gosta,faz com prazer.Veja você, após a primeira linha de suas crônicas - e agora que descobri, de suas poesias, também - vê-se logo que é um mestre exercendo o que sabe e gosta de fazer. Muito boa tua crônica, aliás né...Qual não foi boa?
Bjs.

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