sexta-feira, 12 de março de 2010

RECORDAÇÕES

“Amar o perdido deixa confundido este coração.

Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não.

As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão.

Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.”

(Drummond – Memória)



A nostalgia eu a considero um libelo contra um futuro que se faz de presente na vida sem pedir licença, sem nos dar tempo de aceitá-lo. Resisto a todo novo que não se justifica em oferta de felicidade. Se estamos em algum lugar diferente do usual, chega um momento em que queremos retornar. Se estamos em uma condição de vida não muito agradável afetivamente, também chega um momento de desejo do retorno. Retornar para onde? Retornar para que? Normalmente para a segurança por vezes insuportável da nossa rotina.

Isso me faz lembrar algo. Estive em casa de meu pai durante as festividades de natal durante 4 dias e por melhor que estivesse o ambiente, toda a família reunida, bateu uma saudade de casa. Porque ela é a minha rotina. Escrever, cozinhar, ficar em casa, enfim. E afinal cheguei. E as recordações dos dias que lá passei são o registro mais evidente da minha vontade de voltar. Estava ruim? Ao contrário. É por gostar mesmo das recordações e para que elas não se percam em uma outra rotina é que resolvi voltar. Para ter mais assunto ano que vem, quando nos reunirmos todos novamente e contarmos casos do ano que passou e da infância. Esses são infalíveis. Talvez pelas marcas indeléveis que ela deixou. Talvez por querer que a nova geração de filhos e sobrinhos saiba o quanto foi bom e o quanto serve de estímulo para que eles construam a sua história também. Mas história a gente não constrói com intenção historiográfica. A gente constrói com propósito de satisfação pessoal ou de grupos. Só no momento do pensamento na posteridade é que há desejo de registro. E ele se dá em primeiro lugar com recordações.

Agora, aqui pra nós, a recordação não é um assunto que fica melhor encaixado dentro de uma música ou pelo menos embalado por ela? Não consigo embarcar nos momentos de memória afetiva sem um fundo musical. Na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, até que a morte me separe da matéria pensante, não consigo dissociar recordação e música.

Nesse arrebatamento, essa tal recordação é assunto que nos transforma a todos em poetas. O amor que guia os versos, o pensamento que leva para cantos recônditos, a emoção que cutuca o sentido da lembrança. Sempre que o presente se apresenta insosso e o futuro dá ares de pessimismo, as recordações me acalmam o espírito trazendo esperança diluída em saudade.

(Obs: escrita para o site Duelos Literários como tema do mês)


4 comentários:

Chica disse...

Quando voltamos aos lugares que foram importantes pra nós em alguma fase,temos surpresas, pois nada mais é igual...porém em nós, ocorre uma mágica viagem e,por momentos, nem queremos voltar...Lindo texto,Cacá!abração,lindo dia,chica

Elaine Barnes disse...

Olá! Vim agradecer a gentil visita e conhecê-lo Cacá. Seu texto´retrata muito bem os sentimentos. Achei incrível a facilidade com que traduziu em palavras a ida, a volta e a transformação de tudo em recordações.Eu particularmente quando visito a família ou pessoas que conheci no passado,vejo que nada mudou e eu mudei. Contrui meu canto com meu jeito,meu cheiro,diferente hoje do que me ensinaram.Para quem quer crescer e mudar o trabalho de separar as sementes é árduo,mas, vale a pena descobrirmos o que realmente é nosso,nos pertence.Construir um novo ninho. Claro que ainda há paradigmas que nos colocaram muito mais difíceis,mas, ao menos temos nossa paz e silencio. Nossa rotina para com bom humor trabalharmos a alegria da nossa própria compania. Montão de bjs e abraços

Elaine Barnes disse...

Errei. Companhia rs...Parabéns pela sensibilidade.Adorei seu blog

Miriam de Sales Oliveira disse...

Olha,a viagem,a reunião,os passeios,a família são maravilhosos,mas,confesso:nada como o nosso cantinho. bjks

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