quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

UMA CRÔNICA DE FICÇÃO DOENTIA

E foi assim que o homem, vendo que não evoluía mesmo naquilo que deveria ter de mais essencial - a essência -, resolveu oficializar em seus cursos de medicina a disciplina que reúne um caldinho de todas as outras, mais potente e eficaz. A intenção era acabar de vez com todo sentimentalismo que atrapalhava o progresso da humanidade. A matéria passou a se chamar “anatomia fisiológica das emoções.” Se não haveria mais bondade, por outro lado a maldade também cessaria. E a vaidade também esvairia-se. Tudo devidamente dissecado, esmiuçado, escarafunchado e desvendado de dentro para fora dos cérebros e corações dos homens.

A medicina avançou muito depois daquele estágio que já vinha demonstrando uma tendência quando foi realizado o projeto genoma. No século XXI desenvolvia-se a passos largos a fim de tornar o homem mais instrumentalizado para lidar com problemas que o cérebro insistia em mostrar ao vivente que estavam ligados a sentimentos. E ela tratando com produtos químicos. Cada vez mais fortes; tão fortes quanto eram as manifestações dos pacientes. Isso estava atrapalhando muito a produtividade humana como um todo. Descobriram uma peça solta na cabeça e deram-lhe o nome de ínsula (isolada). Ela seria a responsável por essas absurdas e ousadas e ameaçadoras manifestações humanas do ponto de vista que mais interessa ao homem do terceiro milênio: a economia.

A ciência médica passou a ter muita facilidade com os tratamentos. Os hospitais viraram verdadeiras oficinas, as queixas eram bem fáceis de se localizar, não havendo mais nenhuma interferência de neurônios transmissores de sensações que desembocam em doenças. Aquela coisa de somatização virou passado sanado. Agora era só dizer onde doía, onde incomodava e estaria feito o reparo em instantes. Uma economia e tanto com os gastos públicos em saúde.

NOTA PARA O FUTURO: Este texto está autorizado a ser corrigido caso venha cair nas mãos de quem discordar, afinal foi escrito ainda numa época em que havia resistências emocionais, portanto não é possível se falar de felicidade humana no futuro, pois esse é um sentimento que deixou de fazer parte dos homens juntamente com todos os demais. Tudo agora é sensação.

1 comentários:

Adh2bs disse...

Mestre!
Que utopia amorfa! Me fez lembrar de "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley (ou algo assim - perdoe a ignorância deste macaco), onde as pessoas eram "produzidas" para não ter reações nem defeitos, mas apenas p/ obedecer. Ótima crônica, valeu!
Abção,
Adh

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