quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A MADRUGADA

BH - imagem google

04: 15 da manhã. Uma música alta, ouço apenas o refrão: “Valeu a pena, Valeu a pena, pescador de ilusão...”

Uma sirene. Resgate? Polícia? Tão comuns as ocorrências que o som já está incorporado ao cotidiano. Faz falta o dia que não tem. É tão estranho estar calmo! Como nos dias de longos feriados, a cidade curiosa e contraditoriamente parece ficar mais humanizada quando tem poucas pessoas. A gentileza e a tolerância parecem confirmar serem sentimentos de poucos. Todo mundo fazendo presenças nos lugares de lazer e numa ternura quase palpável como se tivesse data certa para acontecer. Momentos de ver crianças brincando livres como deveriam ser todo dia, de gente dedicando o ouvido ao outro dando a sensação de que estão de fato prestando a atenção, considerando-o semelhante com todas as possibilidades antropológicas sociais.

Uma cidade que dorme em parcelas. O moço da padaria acaba de passar com sua moto de ruído inconfundível. Daqui a pouco tem pão fresquinho e já estará claro o dia. Fico pensando sobre a vastidão do mundo e a insignificância de cada um isoladamente. Caber no mundo todo mundo cabe. O problema é como cada um se encaixa no seu quinhão de área livre para circular e acontecer humanamente. E o mais intrigante ainda é como cada um acontece. Gente cheia de sonhos, gente que nada sonha. Apenas trafega por lugares mais longínquos ou mesmo ao nosso lado cada um exibindo a sua indiferença e alguns com uma indisfarçável demonstração de desejo de reconhecimento.

E eu aqui tentando escrever sobre algo que contemple esse espírito emocionado. Acho que não precisa, sinto que uma paz estranha assim não encontra eco nas palavras que se apresentam disponíveis para mim. Estou saciado por ora. Idiossincrasias da solidão coletiva.

36 comentários:

Chica disse...

Estamos aqui na madrugada...

Lindo teu texto e as cidades apesar de ficarem mais quietas, não dormem...

Há sempre o ir e vir...abração,lindo dia!chica

Marcio JR disse...

Bom dia, Cacá.

Creio que a madrugada exerça um certo fascínio em algumas pessoas. estou tão acostumado com ela, que acho que não saberia mais escrever em outro horário.

E realmente, tão estranha a forma que as pessoas têm de se ambientar ao mundo em que vivem, de interagir, cada um a seu modo, com sua parcela de espaço.

Quem dera o restante do dia se passasse calmo, exatamente como está agora.

Excelente crônica, como de hábito.

Abraços.

Marcio

Isadora disse...

Oi Cacá gostei muito da reflexão. Aliás isso é o que não falta por aqui. Ainda que madrugada e muitos estejam dormindo (como eu estava) a cidade pulsa, mas as pessoas pilsam ou apenas passam por essa vida, seguindo sem muito rumo deixando que os momentos as levem?
Ainda que no dia-a-dia o tempo seja curto sempre há espaço para a escuta e para a partilha, pelo menos assim penso.
Um beijo

Marli Borges disse...

Cacá,
Você disse tudo nesse texto tão bonito. E fechou com chave de ouro. Concordo contigo, a solidão coletiva potencializa nossas idiossincrasias. Para mim, a madrugada tem sido uma boa companheira, sem contar que ela vem sempre acompanhada da inspiração, outra amiga muito querida. E, pelo visto, essas duas também andam de braços dados com você!!! \o/.
Bjsss

Thatica. disse...

Nossa, lindo texto..

com tanta violência, ouvir o silêncio da cidade é algo muito precioso.

Beijos e parabéns pelo escrito.

Elayne C.A. disse...

O que dizer? Bem, primeiro que estou devendo um texto assim ao meu Rio de Janeiro, segundo que você é tão observador, tão sensível e humano. Terceiro que tenho tentado dormir cedo e não consigo, pq também gosto de escrever na madrugada, mais paz...e quarto, para descontrair: O teu Jogo do 7 tá rodando o recanto todo, já viu? rsrsrsrsrssrsr Virou corrente...bjos!

M. Sueli Gallacci disse...

Oi Cacá, lindo isso que vc escreveu sobre a madrugada.

Apesar de morar no silencio quase absoluto, seja dia, seja noite, a madrugada sempre foi especial pra mim. Aqui ela parece ter um outro significado que me convida à uma boa leitura, assistir aquele mesmo filme antigo que eu já vi 200 vezes rsrs. Me sinto mais produtiva, também, eu quase troco o dia pela noite rsrs.

Às vezes saio pela madrugada só para olhar o céu salpicado de estrelas. Tem dias que a noite é tão escura que assume um tom violeta profundo, e eu fico pensando na paleta que usaria, caso fosse retratá-la.

Vc fez uma relfexão sobre os sons da "tua" madrugada, eu tenho algo escrito sobre a falta deles na "minha" madrugada.

Adorei teu texto, como tudo que vc escreve.

Beijokasss

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

seu texto é perfeito, lindo mesmo.
eu adoro a madrugada, me traz a inspiração, uma tranquilidade. sem o agito do dia a dia.

e muitas vezes tb me pergunto isso. no mundaréu de gente, casas, prédios, quem somos e o que fazemos?

abraço meu amigo! bom dia

Neca disse...

Como é que podemos ser tantos, se no fundo sentimos que estamos entre tão poucos?
Coisas da vida e das madrugas mais insolentes... rsss
Bjinnnnnnnnnnn!

Denise disse...

Não precisava mesmo, Cacá, tua emoção ficou quase palpável...essa cidade que dorme em parcelas e abriga uma multidão que, do seu jeito, se encaixa, pertence, coube.
Muito bonita tua visão da madrugada e da cidade humanizada - podia ser sempre, não é?
Adorei a reflexão!
Bjos

Lúcia Soares disse...

Cada um disse, a seu modo, o que eu quero dizer.
Não acordo cedo, mas quando acontece, aprecio muito.
O "som do silêncio" me acalma.
Como ando custando a dormir (2:00 da madrugada) custo a acordar e ando perdendo muita coisa boa da nossa BH.
Vamos ver se com o verãozão consigo acordar mais cedo.
Bj

Celina disse...

CACÁ TUDO DE BOM PARA VC , PAZ PARA TODOS . UMA CRÕNICA MUITO BOA, VC TORNOU-SE UM CRONISTA ,ÓTIMO, OLHA ACHO QUE JA NASCESTE ASSIM ,UM CRINISTA NATO, CONTINÚE A NOS PRESENTIAR COM COISAS QUE GOSTARIA DE DIZER MAIS NÃO SABEMOS COMO. UM ABRAÇO CARINHOSO CELINA.

Yasmine Lemos disse...

A madrugada é tão solitária quanto olhar do homem sensível. O silêncio que tudo diz e dispensa palavras só alguns ecos perdidos de outras pessoas que nem sabem que são observadas pela sua simples maneira de ser.
adorei seu post
um abraço enorme Cacá

Mari disse...

Madrugada insone, ouvir o silêncio...
Às vezes ele dói nos ouvidos, em outras, como você relata nos remete à paz.
Que assim seja, paz na terra, pelo menos um pouquinho!
Beijos

Felipe Faverani disse...

Oi, Cacá, tudo bem?
Você despertara, a cidade fora despertando, ganhando vida aos poucos assim como as suas palavras e mais uma vez o seu espírito emocionado nos proporcionara a leitura de uma composição agradabilíssima.
Parabéns!

pensandoemfamilia disse...

Bonito seu texto sobre a madruga, silêncio e inspiração.
Eu gosto da noite, mas há muito não "madrugo".
bjs

Renata Diniz disse...

Quando me casei, meu marido e eu moramos em BH por pouco mais de 2 anos. Confesso que nos mudamos sem que eu me acostumasse com o barulho das sirenes que por demais perturbavam meus dias e noites. Daí fomos para Timóteo, uma pequena cidade do Vale do Aço. Esta sim, cidade dormitória! Noites calmas para mim que não madrugado. Se desperto-me às 7 h da manhã é porque minha "despertadorzinha", Laura de 1aninho e 8 meses, não falha! Na verdade, sou vespertina. Abraços.

T h i a g o MORET disse...

Bom dia Cacá! Sabe o que é engraçado?! Estava lendo um agorinha mesmo, antes de entrar no seu blog, um texto que comentava algo que tem muito a ver com o que você escreveu. Falava sobre o momento de reflexão que cada um deve ter no decorrer do dia, apenas para saber que existe, que faz parte de algo maior... Bem, foi uma ''coincidência'' muito bacana. Belo texto, parabéns! THiago.

José María Souza Costa disse...

Cacá, lendo o inicio do seu texto. Deu-me vontade de pegar uma varinha magica, e parar a Avenida Paulista, das 06 da manhã até as 10:00 hs do dia só para eu andar a pé sozinho e Deus. kkkkkkkk ....., essas Cidades agitadas nas quais moramos, nos permite esse tipo de sonhos.Eu adoro andar a pé na Avenida Paulista, nas primeiras horas da manhã do domingo.Na madrugada seria legal, se os filhos dos bacanas desta terra Tapuia, não lhes atacassem com lampadas fluorescente, e depois os pais dizerem na delegacia que " os meus meninos são educados". Imagine se não fossem, hein ? Cacá, o seu texto está Avassaldor, belissimo, muito bom para reflexão. Tanto que me trouxe logo a lembrança das minhas caminhadas mirambolantes. Bom mesmo seria, se as cidades fossem todas, como é o campo. Faça a magia e depois me conta. Abraços meu querido, e fique com DEUS.

Lis disse...

Oi Cacá
curiosamente hoje venho mais cedo pra estar com voce uns minutinhos , porque é nas madrugadas que passeio por aqui e por todo esse universo de corações entregues na noite silenciosa.
Nem tão silenciosa assim, rsrs o silencio da nossa casa, luzes apagadas os meninos dormem , lá fora sirenes geralmente de polícia rs e agora nessa confusão de ataques a cidade o que mais ouço é sirene dos bombeiros apagando fogo por aí rsrs
tudo muito estranho Cacá e sinistro tão diferente da paz que reina na
minha casa particular principalmente na alma da gente
Adorei seu texto , até deu pra divagar rs
abraços amigo

Maria disse...

Oi amigo, adorei a sua reflexão. A madrugada tem realmente um fascinio especial.
Aproveito para agradecer o ter-se juntado a mim na comemoração do aniversário do meu marido. Amigo, é aquela pessoa que nos apoia nos momentos bons e menos bons da vida, independentemente de estar perto ou longe de nós. OBRIGADO por me acompanhar na minha caminhada pela vida.
Beijinhos
Maria

Toninhobira disse...

Na calada da madrugada um belo olhar sobre a cidade, onde a vida nao pára,cada som, cada movimentos carrega uma vida.E os poetas ficam a escrever seus sentimentos extraindo belas reflexões sobre comportamento e vida moderna.Muito bom Zé e que faça uma boa viagem a querida cidade e que tenha sucessos no lançamento.Um abraço itabirano de toda paz.Sucessos sempre amigo.

´Flor* disse...

Excelente texto Cláudio*Mas sabe o silêncio da madrugada as vezes me incomoda ,outras adoro,mas deve ser pelas noites insonas,que passo a compor..Mas a sirene de polícia e ou bombeiros,ambulâncias,elas mexem com meu Eu..Logo mentalizo Deus**Ampare este irmão que esta em aflição*Moro perto do HC_Clinica Pierro e é frequente aqui.Mas dizem que ainda a noite é uma criança.Bem se é mesmo verdade,deve ser uma criança malcriada..Parabéns.Bjuss\Flor***Ah,adorei o comente..safadinho..rsrsrs

Diogo Didier disse...

ADOOOOOOOOOOOORO a madrugada! Tenho hábitos noturnos e produzo bem melhor no silêncio da noite. A madrugada parece ter algo mágico, uma força mística que envolve minha mente e me faz flutuar...

BELO post amigo!

bjoxxxxxxxxxx

Maria Emilia disse...

Eu adoro a madrugada e atualmente ela tem sido uma companhia maravilhosa. Não me cobra,não fala, não aconselha, apenas dá seu espetáculo diário de sons impossíveis de ouvir no burburinho do dia, tinge a vida da cor que preciso ver - mas ando me recusando ao belo - e quando ela sente que preciso, sopra um arzinho gostoso que afasta tudo que me machuca e eu descanso.
Ah, Cacá...eu não resisto aos seus textos...Você sempre me acerta.
Vou aproveitar para te pedir seu dever de casa para o nosso Blog. Madrugadas maravilhosas para você meu amigo.

Adh2bs disse...

Meu nobre amigo, filósofo e poeta!
"Idiossincrasias de uma solidão coletiva"... Profundo, melancólico, consoante as constatações enumeradas no seu libelo a essas estranhas e contraditórias sensações de quem vive nas grandes cidades, que se humanizam quando ela (a cidade) está vazia e calma.
Sobre seu poema - co-irmão das desilusões amorosas - que vc transcreveu ao comentar o "nostalgia", evoca o sentimento da nossa juventude tão cheia dessas desventurosas aventuras que a gente vivia então... Grato por compartilhar! Grande abraço, ótimo final de semana.
Adh

Jaime Guimarães disse...

04:15 da manhã aos 18 anos: hora de ir pra casa.

04:15 da manhã aos 22 anos: maldita monografia!

04:15 da manhã aos 28 anos: benhê, o Juninho tá chorando de novo, é a sua vezzz...zzzz...zzzz

04:15 da manhã aos 32 anos: tenso, é hoje que sai minha promoção!

04:15 da manhã aos 33 anos depois de um divórcio: É melhor eu ir. Daqui a pouco seu marido chega.


( Isso tudo acima é uma besteira, mas o seu texto está muito belo e eu mesmo já fiquei uns vários instantes em varandas e sacadas pela madrugada só ouvindo os silêncios e tentando adivinhar de onde vem e para onde vai aquele errante lá pelas 3 da matina. Abs!)

Cronicando disse...

Cacá, adoro sua escrita. Só mesmo você para mostrar com maestria o que sentimos na solidão da madrugada.
Abraços amigo.

Helena Frenzel disse...

Crônica repleta de passagens para se filosofar... Senti o cheiro e o gosto do pão fresquinho (e quente) derretendo na boca... Gente que nada sonha? Serão esses mais felizes do que nós? Como se vive sem sonhar? Se vive, apenas? Manhãs para filosofar, madrugadas para dormir! Um abraço fraterno :-)

Silviah Carvalho disse...

Penso na importãncia da noite, nela nos chegamos a Deus, a sensação de estar a sós com Deus é única.
Também é a hora em que tiramos nossas conclusões acerca da vida e do cotidiano a hora da inspiração.
o que você sabe aproveitar muito bem.
Bjs. belissimo texto.

JoeFather disse...

Parece realmente qye alguns estão só de passagem, outros vieram para fazer história, assim como existem aqueles como o amigo que tem a sensibilidade der poder enxergar além...

Abraços renovados meu amigo!

Uni ver sos disse...

Caramba, Cacá! Vc escreve umas coisas que remexem dentro da gente,
vc dá forma ao que sentimos e não saberíamos dizer,
poderia sentir a brisa que passa numa madrugada dessas em sampa,
toda indiferença dos passantes e idiossincrasias que a vida coletiva nos impoem,

abraço, amigo!

Ξ ѕ t є я

Yasmine Lemos disse...

Cacá! saia da janela , medrugada acabou e volte a escrever para nós!!! ;)
abraços

Thomaz Ribeiro disse...

Tenho sido tão ingrato! Logo com você que é tão atencioso comigo. Passo tanto tempo sem aparecer aqui, mas quando venho, sou agraciado com um texto repleto de forma. A boa forma. Linda crônica, capaz de fazer com que o leitor se debruce nos abismos da alma. Um grande texto de um grande escritor.

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