sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

NO FIO DO BIGODE

De vez em quando a gente vê uma reportagem sobre uma pessoa de modos simples, de renda mais baixa, de profissões poucos valorizadas em matérias supervalorizadas, indo na contramão do pensamento de pessoas hipócritas como o Boris Casoy. É sobre honestidade. Parece que esse adjetivo tornou-se raro, não inseparável do caráter e, portanto, caro à sociedade. A imprensa dá tanta ênfase ao assunto que é possível que eu duvide até de minha própria. O sujeito acha um objeto de valor ou dinheiro, procura o dono e devolve. E tome louvação da mídia! Pensando bem, com a roubalheira fugindo ao universo da bandidagem anteriormente chamada de “malandragem de rua”, dar exemplos de coisas boas sempre cai bem. Então “ouça um bom conselho, que eu lhe dou de graça” (obrigado Chico Buarque):


Quando eu morava em Mariana, certa noite saímos uma turma de amigos para tomar umas lá num distrito chamado Furquim. Foi ficando tarde e o dono do bar (que funcionava em sua própria casa) nos disse: "Eu vou dormir, quando vocês terminarem, contem o que consumiram, deixem o dinheiro ai e puxem a porta para mim." Era ainda a época do fio do bigode.


Fui trocar umas moedas que eu junto todos os anos no meu cofrinho. Somei 1025 reais. Deixei lá no supermercado de Itabira, que oferecia uma caixa de bombons para cada 250 reais em moedas trocadas. Foi próximo do natal que passou. A moça me deu um papel com meu nome e o valor que informei e me mandou voltar no dia seguinte. Sai, fui para casa de minha filha e só depois que lá cheguei e com muita gente me dizendo que eu era doido é que me dei conta que o papel não tinha nenhum valor legal . Se ela quisesse até alegar no dia seguinte que eu não havia deixado dinheiro nenhum poderia, afinal aquilo não valia como recibo. Não só estava correto como me agradeceu, me deu os bombons e ainda disse que havia uma diferença de um real e oitenta a meu favor. Fiz a conta errada.


3 comentários:

Miriam de Sales Oliveira disse...

Sua crônica fala ao coração de quem é honesto e gosta de trazer a cabeça erguida.E,me parece,é a índole do brasileiro comum,q,desconhece o Brazil q/quer tirar vantagem em tudo.
Muito bem pensado e postado,querido amigo. bjs

Adh2bs disse...

Ah, que delícia de mundo... Que bom que existe gente assim!
Corria o ano de 1984 - ou 85, não lembro mais. Um sábado, apressado, bati meu carro em outro no estacionamento próximo à faculdade. O manobrista, que estava sozinho, não viu. Fui até ele avisar que havia deixado um bilhete no limpador de para-brisa do outro carro para que o dono entrasse em contato comigo. O sujeito consertou o carro, me mandou a conta pelo mesmo meio (colocou no meu carro); depositei a quantia que (avaliei justa pelo estrago causado) e o camarada me ligou, agradecendo - aliás, a única que vez em que nos falamos. Nunca vi a cara dele. Mas não fiz mais do que minha obrigação. Tenho a tendência de confiar sempre, raramente falharam comigo aqueles que fizeram negócio na base da confiança. E já tomei muito calote com papel passado e tudo!
Abç,
Adh

Lisa Alves disse...

é a crise de valores de nossos tempos. Sempre nos surpreendemos com a honestidade como se a mesma fosse uma especie de heroísmo.

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