quarta-feira, 16 de setembro de 2009

VIDA DE PEÃO - MOTEL


Modorrenta demais aquela vida. Trabalhar, casa; casa, trabalhar. De vez em quando levar a companheira para uma esticada em um barzinho da cidade ou ao clube que ficava em frente à sua casa e só. Resumia-se a isso a diversão daquele casal feito “Eduardo e Mônica” 1 às avessas. Ele gostava de uns papos-cabeça, ela nas aulinhas ainda para terminar o primeiro grau na escola pública.


Um dia resolveu fazer um afago diferente. Convidou-a para irem a um motel. E na capital. Era um acontecimento e tanto. As duas coisas. A viagem à capital e a aventura mágica, recheada de todo o clima romântico imaginável. Vieram no ônibus que saía às seis da manhã. Antes, gostariam de dar uns passeios bucólicos e gastronômicos. Passear no parque municipal, cartão de visitas obrigatório de todos que vêm do interior pela primeira vez e comer num restaurante bacana. Peão, quando bota um décimo terceiro salário no bolso e ainda não fez dívidas, segura que é um esbanjamento só.


Do centro pegaram um táxi rumo ao anel rodoviário. O seu entorno possui em todas as saídas para outros estados, motéis para todos os gostos e bolsos. Escolheu pela indicação do motorista do táxi, que estava acostumado a esse transporte de passageiros afoitos e inexperientes no assunto (claro que ganhava uma comissãozinha do motel onde levasse clientes). Mas não tinha problemas. O lugar era bom mesmo. Bonito que só vendo!


Deslumbramento total. Piscina, sauna, frigobar, hidromassagem, tv com filmes eróticos, música ambiente, cama redonda e espelho no teto. E, no cardápio, comidinhas para antes e depois do amor. Precisava mais em um ambiente poético moderno? Pois o meu amigo não deixava de tirar proveito de nada. Era um gole no uísque on the rocks, uma entradinha na sauna, um pulo na piscina. Liga a música, põe um filme, toma mais uma, pede um tira-gosto e ela esperando ansiosa, já devidamente ornamentada de lingerie de seda, arranjando uma posição que ficasse mais sensual diante daquela imensidão de espelhos. De vez em quando ele se lembrava e ia lá lhe dar um selinho, ou um beijinho na ponta do nariz. Uma cara de felicidade que mal cabia em seu rosto. E ela, lá, agora já chamando-o insistentemente para um encontro libertino. Desejava ardentemente encerrar aquela outra “lua de mel” com um inesquecível, memorável, inolvidável e prazeroso sexo com seu amado. Depois de tanta insistência e nada do amigo “comparecer”, ela apela aos seus brios:

- Como é, vai ficar aí só nessa regalia? Vem logo, não estou me aguentando! Ele tomou mais uma tragada generosa, olhou a tabela de preços, o tempo que ainda dispunham para permanecer sem pagar mais uma diária e disparou:

- Olha amor, vamos aproveitar tudo isso aqui bastante! Sexo a gente faz lá em casa, tá bom?

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1 Eduardo e Mônica são os personagens da música (de mesmo nome) de Renato Russo.

1 comentários:

Anônimo disse...

Grande Cacá!

A versatilidade de suas escritas é algo impressionante. Mais uma bela postagem, você resgata em mim coisas que ficou no passado.

No inicio da década de 80, eu metalúrgico, sindicalizado e militante político não fazia nada a não ser estar nas práticas ora citadas. Quase não havia tempo para uma boa namorada, mas inté que apereceu uma "Mina" na minha vida.

Nosso relacionamento era um pouco complicado, eu queria falar de Sindicato, Perestróika e Lenim e ela do que lia nas revistas "Carina, Sabrinas e outras do gênero como também horóscopo. Eu queria roda de fogueira com violão cantando: "Ô o Mandio Fly" (sei que não é assim que escreve, mas sei que você sabe qual é a música)e ela ouvir LP Michael Jackson, ela queria algo mais próximo que organismo humano exigia, alem, da necessidade fisiológica; algo mais na intimidade, e eu queria leva-la nas reuniões do sindicato ou política. Bem, ela me deixou com os camaradas e as camaradas do "suvado" cabeludo.

Meu querido, tem pouco a ver com sua postagem, mas você me fêz lembrar disso!!!

Perdão pela demora em aparecer na sua confortável casa, espero repetir mais vezes a visita....

Muitas felicidades.

Abs.

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