Há tanta produção literária por esse mundão, tanta coisa que tanta gente tem acesso e muito mais coisa que tanta gente não tem que pelo bem do conhecimento humano e da literatura, acho que toda oportunidade que tivermos para aumentar a visibilidade de textos bons não pode ser perdida. Selecionei alguns que acho que precisam de quando em vez ser divulgados pelas suas qualidades inumeráveis. É só mais uma forma de dar ainda mais vida à sua imortalidade. Só lendo para qualificar. E isso cabe ao leitor.
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“Como em um pêndulo, o mundo oscila, em seu momento mais trágico. Cômico também. Perdemos dinheiro em bolsas, perdemos dignidade na Somália, perdemos o rumo em Darfur.
Somos a antítese, somos o pano grosso da indecência, chutamos o nosso amor próprio para o canto da sala, predomina em nós a uma violenta apatia, como substrato da indiferença.Não pensamos mais, apenas buscamos o nosso tão sonhado final de semana. Vamos sorrir, vale a pena.”
(Este texto foi encontrado no blog do Gerald Thomas, dramaturgo e o autor apenas assinou com o nome Tene Cheba) Abaixo, uma música que foi feita em homenagem a Nélson Mandela.
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LÁGRIMA DO SUL (MILTON NASCIMENTO E MARCO ANTÔNIO GUIMARÃES)
“Reviver
Tudo o que sofreu
Porto de desesperança e lagrima
Dor de solidão
Reza pra teus orixás
Guarda o toque do tambor
Pra saudar tua beleza
Na volta da razão
Pele negra, quente e meiga
Teu corpo e o suor
Para a dança da alegria
E mil asas para voar
Que haverão de vir um dia
E que chegue já, não demore, não
Hora de humanidade, de acordar
Continente e mais
A canção segue a pedir por ti
(a canção segue a pedir por nós)
África, berço de meus pais
Ouço a voz de seu lamento
De multidão
Grade e escravidão
A vergonha dia a dia
E o vento do teu sul
É semente de outra história
Que já se repetiu
A aurora que esperamos
E o homem não sentiu
Que o fim dessa maldade
É o gás que gera o caos
É a marca da loucura
África, em nome de deus
Cala a boca desse mundo
E caminha, até nunca mais
A canção segue a torcer por nós”
terça-feira, 15 de junho de 2010
segunda-feira, 14 de junho de 2010
IRONIA
Assisti a um bate papo com o genial escritor Moacir Scliar na bienal do livro aqui em BH, cujo tema era a Ironia na Literatura. Entre tanta coisa boa que ele disse, uma delas foi sobre a ousadia do ser humano, respondendo a um porque da mediadora, sobre a recorrência de temas bíblicos em suas obras. Falou da fantástica habilidade dos escritores da bíblia, de sua capacidade de síntese, das parábolas e metáfora e outras tantas preciosidades inspiradoras contidas no livro sagrado e o mais lido pela humanidade. Depois citou um exemplo que me deixou pensativo: o cientista americano Craig Venter havia acabado de criar uma célula sintética, referindo-se à ousadia humana. É diferente da clonagem, onde se tira um pedaço de tecido vivo e se faz cópia desse ser. A célula é o princípio de toda a vida no planeta. Então podemos deduzir que o homem agora já pode se colocar no lugar de Deus, segundo a crença religiosa sobre a criação. Apesar de não ter assumido essa capacidade, ele disse, por enquanto, que vai haver a possibilidade de resolver problemas ambientais e energéticos, entre outras aplicações. Mas é uma célula, minha gente. A dedução de que vai se querer criar um ser vivo fica por conta de minha imaginação. Ironia ou não, é uma ousadia que vai dar pano pra manga.
Eu já andava meio desconfiado. Tenho observado que uns alimentos naturais até algum tempo atrás eram mais perecíveis. Não sei também qual a matéria prima ou remédio que usam nas pesquisas científicas, mas tem muita coisa que está com uma durabilidade excessiva. Tenho umas laranjas e um melão aqui na minha casa que já fazem mais de cinco meses que não apodrecem. Estão tão vistosos que quem chega pergunta se é daquelas antigas frutas de plástico que se usava para enfeitar fruteiras. Só não tive a coragem ainda de comer. Por vias das dúvidas, melhor continuarem enfeitando. Isso é genética aplicada à agricultura, suponho. O mundo é mesmo dos ousados, tem razão quem disse isso. Enquanto há uma luta ferrenha para se retornar às coisas naturais, a uma alimentação mais saudável, orgânica, livre de venenos, há um desenvolvimento acelerado de pesquisas para desnaturalizar alimentos para aumentar a produção e durabilidade em menos espaço geográfico por causa da destruição de áreas férteis disponíveis. Ou para aumentar a lucratividade dos produtores? Não sei, mas desconfio de muita coisa. E tenho uma certeza: as cobaias acabamos sendo nós mesmos, depois dos ratos de laboratório, claro. Sem entrar no mérito da causa se o homem está arrogando a se igualar a Deus ou provar que ele não existe, criando vida por conta própria, a ousadia é uma ironia.
O restante da conversa foi sobre os limites da transgressão e a diferença entre a ironia e o humor na literatura. O humor é aceito com certa universalidade. Já a ironia tem um duplo, triplo, ou vários sentidos que , por falta de compreensão do interlocutor ou firme propósito do autor, pode ser apenas deboche ou soar como provocação, acinte ou outra coisa que provoque inquietação. Estou apenas pensando na frase que eu falei que o mundo é dos ousados. Ou então a minha ironia aqui é que passa a ser uma ousadia. E de pensar que o meu maior atrevimento foi ter dado um livro meu de presente para o autor, coisa que nunca achei que fosse possível. E ele aceitou com muita educação. Para mim foi o máximo da ousadia!
domingo, 13 de junho de 2010
SONHEI QUE EU ERA UM DIA UM PLAGIADOR
Eu confesso que não sei fazer poesia. Não sei das regras todas e as poucas que aprendi, não me ensinaram como respeitar, do jeito que muitos poetas de verdade fazem sem comprometer em nada o prazer que causam a si mesmos e aos que os lêem. Mas renitente, faço versos assim mesmo. O azar, infelizmente fica com quem topar com a minha ousadia em alguma publicação que espalho por ai. No mais, tudo o quanto escrevo gosto que seja meu mesmo. Cito trechos de outros autores, sim, mas prezo muito o pensamento próprio, um zelo de originalidade. Às vezes surge na cabeça uma frase de efeito, um bordão, quase gíria e o que faço? Vou lá na busca, onde está o mundo. O google primeiro e o resto depois. O mundo, já reparou que está todinho quase na internet? Quer ser original? Escreva uma frase, crie uma palavra, faça um verso e submeta-o ao teste da busca. Se aparecer fora do seu contexto, é original. Pode publicar. Você terá ainda o benefício de aparecer toda primeira vez que alguém for fazer uma busca semelhante. Já experimentei isso quando fiz uma série sobre músicas com história. Criei a expressão “Aedo Cibernético” e pude ver que eu era o único sujeito no mundo virtual que a havia usado. Podem conferir, só vai dar eu. Que coisa fantástica! Só para mim, no entanto, sem merecimento de louro algum. Afinal, que bem eu fiz para a humanidade? Absolutamente nenhum. Mas me deu uma alegria danada. Ah, isso deu!
Há um bom tempo venho matutando com uma frase com a qual sonhei um dia. Me levantei no meio da noite e deixei anotado nos meus “papelim de bordo”. Me parecia tão familiar que ficou sob suspeita. Mesmo depois de consultar o google, yahoo, cadê, bing e outros menos votados eu acho que já vi em algum lugar. Pensei em fazer um poema, afinal é uma frase digna de andar no alforje de qualquer poeta. Eis a frase:
“Lamento que se apiede de mim em tristes notas de pé de página, mas não deseje que a minha vida se eternize em poesia.”
Agora começo a achar que foi uma autocomiseração. Não descobri, não fiz poema e ela ficou servindo para registrar alguma originalidade. Mas, por favor, se isso foi um lapso de meu subconsciente relapso e você já ouviu, leu ou é dono dela, pode dizer que eu retifico. Se não, eu registro.
sábado, 12 de junho de 2010
DESASSOSSEGO
“Ter opiniões é estar vendido a si mesmo. Não ter opiniões é existir. Ter todas as opiniões é ser poeta.” (Fernando Pessoa – Livro do Desassossego)
Ultimamente ando me encantando com pouca coisa que dê consistência ao meu modo de encantar. Não é desesperança, nem desilusão. É desassossego. A inquietação que me acompanha dia e noite, noite e dia vai gradativamente sendo substituída pelo desassossego. Me encanto atualmente com dois livros: A Genealogia da Moral, de Nietzsche e o LIVRO DO DESASSOSEGO de Fernando Pessoa. O do Nietzsche eu vou falar depois que terminar e o do Pessoa vou falar, creio que para sempre. Eu tenho o hábito de ler até três livros simultaneamente. Principalmente quando os assuntos são correlatos. No caso atual são desassossegos da alma, o espírito inquieto e as idiossincrasias humanas que estão nesses. Mas o do Pessoa eu acho que vou lê-lo pelo resto de minha vida, até o tanto de vezes que a senilidade me permitir. Ele lança luzes nos cantos obscuros do espírito em uns momentos e joga na escuridão convicções em outros. Se o autor estivesse vivo, provavelmente ia estar ainda mais desassossegado, com medo que sua obra máxima (humanamente falando) caísse nas prateleiras de auto ajuda pelas mãos gananciosas de editorialistas de vender palavras a qualquer custo. Mas ele cabe. Cabe no desassossego de qualquer escritor, de qualquer poeta, de qualquer pensador que viva naquele estado de imersão e emersão. Que não se contente com a superfície rasa do cotidiano das coisas dessa vida. Aqueles mergulhos que nos fazem pessimistas. Se bem que o pessimismo em doses moderadas funciona como um motor humano em busca de melhorar-se. Eu imagino ele pensando assim: daqui a alguns anos pode nascer um tal de José Cláudio no Brasil e o menino vai ser desassosegado quem nem eu. Não vai ser nunca um poeta do meu quilate, mas vai ter umas inquietações que se um dia esses escritos forem parar em suas mãos vão virar um livro de cabeceira até que a morte os separe. Acertou na mosca, mestre! O livro não é desses que se lê linearmente (Eu, falando sozinho: posso recomendar mas não posso querer direcionar a leitura de quem quer que seja. Sossega, rapaz!) Vou lendo-o por onde abro, pois tem questionamentos existenciais de toda a espécie que um cidadão procura, se equilibrando humanamente em idiossincrasias. De trás para frente e de frente para trás. Vai da espremida máxima do pensamento à distensão extrema. Vai da filosofia que permeia os pensamentos a emoções que vasculham a alma e deixam o coração ora palpitando loucamente, ora em batidas firmes e potencializadas pelas coincidências de gozos entre palavras. Pode aparecer algum outro, mas por enquanto é esse o livro da minha vida.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
ENTRE COPAS E BEIJOS
Das minhas lembranças e do meu gosto pela arte do futebol ou futebol arte como preferirem, elegi as seleções de 70 e 82 como as melhores que já tivemos na história das copas. Não é assunto para polêmica uma vez que eu mesmo não me disponho a render assunto sobre isso. É só um gosto pessoal e pronto. Assisto meu futebolzinho caladinho no meu cantinho. Já temos técnicos demais no meio das torcidas que a meu ver poderiam repetir aqueles momentos de catarse coletiva dos estádios para resolver outros problemas graves que a gente vive no dia-a-dia e não consegue juntar gente nem para protestar nem para escalar outro time de dirigentes nas nossas administrações. Na hora do voto, a torcida sempre acaba jogando contra si mesma.
Pois foi em 82 que o meu amigo Joaquim se enamorou da Mariza pra valer mesmo. Paixão pra casar. O namoro engrenado nas noites Itabiranas foi parar na casa dela, afinal filha de família tradicional tem logo que levar o moço para ser apresentado aos pais e namorar ali, bonitinho no sofá da sala. Bonitinho mesmo era na rua. Em casa era apenas certinho, conforme o desejo e principalmente as exigências de moral e bons costumes de Seu Chico e Dona Maria, de saudosas memórias. Joaquim sempre foi um apaixonado pelo futebol, e pela Mariza, claro! Naquela época, o Brasil inteiro achava que a gloriosa seleção de Telê Santana traria o caneco, que desde a Jules Rimet não dava o ar de sua graça e enfeite nas cristaleiras de troféus da CBF. O time era imbatível na opinião quase unânime dos brasileiros. Não podendo fazer muita coisa libidinosa no sofá da sala, o negócio era acompanhar as novelas e programas da televisão, sentados na companhia de Seu Chico e D. Maria. O futebol também era do gosto do sogro, que estava aprovando com muita alegria e esperança aquele namoro cheirando a casamento. Rapaz honesto, trabalhador, o “home da caneta”, segundo as definições de D. Maria por causa do seu preparo intelectual e sua função na empresa onde começara a trabalhar recentemente. Isso, no entanto, não dava a ele o direito de folgar na casa. Folgar na minha terra é quando o genro já pode chegar aos fins de semana de chinelos, bermuda, almoçar na cabeceira da mesa oposta ao do sogro, xingar o cachorro impertinente e outras regalias, só permitidas quando o casório já está marcado.
Era um jogo das semi finais, daqueles eletrizantes e decisivos. Ganhando que fosse, o Brasil disputaria a final tão almejada do mundial. D. Maria, com seus conhecimentos futebolísticos manifestava-se com desdém. Não gostava e a única coisa que entendia era que a bola entrando lá dentro da rede significava gol. Não ficava, entretanto sem a companhia do seu Chico. E também não se conformava em assistir calada. O jogo nervoso e ela enervando a platéia:
- Óia lá, Chico, esse bando de vagabundo, devia era caçar um serviço, trabaía, que nem o Joaquim aqui, ó. Fica tudo correndo aí à toa atrais da bola e nem gole eles faiz!
- Mio ocê calá a boca, Maria, deixa a gente vê o jogo!
Primo e Mariza namorando “mais à vontade” depois que eles cochilam e de repente D. Maria acorda e o chama para irem para a cama. Ele se levanta põe a mão no televisor:
- Mió desliga. O apareio tá quente.
Primo tinha que sair correndo pra casa a fim de assistir ao final da partida. E Mariza ficava furiosa tanto com ele quanto com o pai.
A tv já não era mais daquelas de válvulas que esquentavam e tinham que ser desligadas de vez em quando para esfriar, mas o namorado não precisava saber disso. Era hora de acabar com as pegação pros donos da casa irem dormir. Não podiam ficar a sós para não fazerem “bobice” antes do casório.
Uma homenagem aos meus amigos-irmãos Joaquim Primo e Mariza.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
OS SÁBIOS
Tive a grata satisfação de conviver mais com um vizinho. Apesar de isso estar se tornando cada vez mais raro, é sempre bom. Pude perceber que ele é um sábio. Eu considero sábios todos aqueles que ensinam a viver de alguma forma. Mas sou maniqueísta nesse aprendizado. Tudo o que aprendi com ele em três dias de convívio eu não quero para minha vida. Os seus ensinamentos começaram com a avareza. O muro do lado da minha casa estava dando uma umidade que passou para a sua garagem. Ele pediu para trocar o reboco e assim combinamos. Ele contratou um pedreiro mas não concordou em pagar-lhe um auxiliar a fim de economizar. Foi ele mesmo o ajudante. Fez massa de cimento nos velhos moldes da mistura com enxada. Colocava nos baldes e carregava no ombro até o local do reboco para o pedreiro. Acontece que ele tem apenas 78 anos. A coluna lhe fez gastar não sei quanto com médico e remédios. O que eu sei é o que ele me disse depois: uma semana sem conseguir sair da cama por causa das dores. Areia e cimento ele não permitia que sobrasse depois da “grande obra”. É muito gasto, então comprava no pequeno varejo, aos quilos, sacos e latas. Só que eu contei, ele foi nove vezes ao depósito de materiais. Mais um prejuízo à combalida coluna. Fora o gasto de combustível e a sujeira no carro pelo menos três vezes ao dia. Deve ter dado uma despesa e tanto nas lavagens. Se a coluna não tivesse atrapalhado, no entanto, acho que ele mesmo iria lavar pra economizar.
Eu não vou falar nada a respeito do carrinho de mão. Vocês podem achar que aí já seria uma implicância minha e que eu não aprendo nada. Foi só um pneu furado. Também o que é uma dor na coluna diante de 8 reais que custa uma câmara de ar nova, não é mesmo? Melhor deixar pra lá. Tem coisas que a gente aprende mas não precisa ficar esnobe por causa disso.
Ele ainda me ensinou que não devemos ter preconceitos. Numa de suas idas ao depósito chegou espumando de raiva porque o rapaz colocou areia a mais na embalagem impedindo de fechar o porta-malas de seu carro. Disse que o rapaz, sendo negro, não sabia fazer os serviços direito. Racismo os sábios nos ensinam que não devemos cultivar. O rapaz colocou areia a mais do que a medida sem cobrar. No dia anterior o outro rapaz havia colocado de menos. Mas era branco, portanto, ponto para ele.
Aprendi também que quem trabalha em um serviço tão pesado por oito horas diárias precisa se alimentar mais do que apenas almoçar. Um lanchinho e água fazem bem. Mas isso eu já sabia, afinal eu também trabalhei muito com serviços pesados. Ô fome que dá na gente! Providenciei isso para ele e o pedreiro.
Ah, eu ia me esquecendo, teve um dos dias que o agente de saúde da prefeitura veio verificar as áreas abertas da casa para orientar sobre os cuidados preventivos com a dengue. Tá feia a coisa aqui na região. Eu abri o portão para a inspeção e na saída do rapaz ele me disse:
- Uai, você deixa eles entrarem assim em sua casa? Na minha eu nem abro o portão. Não resolvem nada!
Não basta a atuação dos poderes públicos na prevenção de doenças e epidemias. Temos que fazer a nossa parte. Nisso eu aprendi com ele que a ignorância atrapalha bastante. Só a sua esposa teve dengue na nossa rua. Pura coincidência.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
NEGÓCIO
Sendo negócio na etimologia a “negação do ócio”, o homem negocia é para ganhar dinheiro e ficar à toa. Para que negar então o ócio, se trabalhar não é sinônimo de ganhar dinheiro? Me parece que quanto mais se trabalha nesse mundo, menos dinheiro se ganha. Já tem até quem dissesse que o tempo gasto com trabalho é inversamente proporcional ao tempo para pensar em como ganhar dinheiro sem trabalhar. Isso sim, pode ser um grande lance. Tenho uma implicância não é com a palavra negócio, mas todos os atos de subtração que derivam dele. Inclusive transformar em oportunidade de negócio, uma satisfação que é o trabalho. Vai dizer que quem inventou o negócio é gente que gosta de trabalho construtivo, aquele que erige alguma coisa além de pilhas de barras de ouro ou de dinheiro? Hoje em dia tudo é um negócio. Viver só não é um grande negócio porque não se pode generalizar. Fala para um morador de rua, um faminto, por exemplo, que viver é um grande negócio...
Eu peguei a etimologia para explicar minha necessidade de saber também a origem das coisas que estão por trás das palavras. Lá no início da civilização, quando o homem se fixou em algum lugar da terra plantando, caçando e gerando sua prole alegre e tranqüilo, teve alguém que começou a produzir além daquilo de que necessitava e começou a oferecer em troca com um outro que tinha também produzido algum excedente. Isso foi gerando um acúmulo de bens e despertou a ambição de um terceiro. O terceiro, vivia no ócio mas pensava numa forma de ganhar alguma coisa, portanto tinha tempo de sobra para elaborar táticas e estratégias. O primeiro então precisou de se assegurar que não iria ser pilhado nem morto para ser roubado (foi quando do apareceu o latrocínio?). Aí ofereceu uma parte de seus bens como pagamento a um quarto para lhe fornecer segurança pessoal. Estavam criando os impérios. Esse quarto, que não queria encarar nenhum agressor no braço transformou sua ferramenta de corte de carne em arma branca, a famosa faca. Estavam criadas as armas de defesa pessoal. Daí para o revólver, só faltava o Marco Pólo espalhar pelo mundo a pólvora que os chineses tinham inventado. Nasceu então, o negócio das armas (a princípio clandestino e depois incorporado aos exércitos dos reis) Com a clandestinidade, nasce a fiscalização e com ela, a corrupção. De lá para cá a única coisa que fizeram foi modernizar o sistema e dar monopólio ao estado criado para proteger os que ganham muito. E a gente numa democracia escolhe quem vai ser o gestor de tudo. Negócio é isso?
terça-feira, 8 de junho de 2010
A CONFERÊNCIA DO ACABA MUNDO
E eis que depois de Kyoto, Rio e Compenhagen, o mundo não chegou a um acordo quanto às mudanças climáticas. Também não chegou a acordo nenhum depois de Davos, entre os países e homens mais ricos do mundo. E o fórum social mundial reunia separada a turma que não concordava com as deliberações daqueles foros. Então foi marcada uma conferência já que o mundo estava na iminência de acabar de verdade. Derretimento de geleiras, um calorão danado em alguns lugares, frios cortantes em outros, inundações em todo o globo terrestre e o mar mandava avisar na Califórnia e algumas partes do Mediterrâneo que ia invadir as praias nos calçadões, monumentos e tudo o mais que encontrasse pela sua frente, inclusive os quiosques da cervejinha e água de côco. O mar quando não tá pra peixe, segura-lo, não é moleza não!
Estavam lá banqueiros de toda sorte e moedas, industriais das petroquímicas, de fertilizantes e agrotóxicos e todos os mais significativos representantes do lado poluidor, além dos donos dos maiores meios de comunicação do mundo. Os diálogos foram travados:
- Bota a culpa no povo. Porcaria tem limite. Temos que educar essa gente.
- Não tem problema, já inventamos um produto, o “spray general clean”.
Chiadeira dos americanos:
- Com esse nome, o pessoal do fórum social vai dizer que a culpa de tudo seria nossa! Isso é nome de produto americano. Então, um outro propôs um nome latino, que aí não teria problema. O povo acredita.
- Tranqüilizem-se senhores, a gente ainda vai lucrar muito com isso. Agora, é preciso que imprensa faça a sua parte em campanhas nos seus jornais, programas, e principalmente massacrem de propaganda que estimulem o sentimento de culpa e que vendam a redenção. É infalível. No fim, vão continuar acreditando que a responsabilidade é deles mesmos.
Um representante parecendo lúcido protestou:
- Mas quem polui mais, a ponto de causar o tão falado efeito estufa, reduzir a camada de ozônio são os grandes.
- Ora, de onde é mesmo esse homem? Protestaram quase todos em uníssono.
- No mínimo é comunista ou de algum país pobre que conseguiu entrar aqui sem autorização. Era um especialista contratado por eles mesmos.
Era preciso achar uma saída para depois que a porta de saída do evento de abrisse. A imprensa mundial estava ávida, lá fora, esperando para dar novidades em tempo real - não climático - para a população. Aquela tradicional briga de repórteres se acotovelando para garantir um furo, uma entrevista exclusiva, uma informação bombástica, algo impactante tanto quanto a questão discutida com tanta “seriedade e resolução”. Protocolos e cartas de intenção não colam mais. Lá dentro, os donos das redes de comunicação combinaram com os presentes para cada um falar uma posição diferente, quer dizer, uns contra , outros a favor das medidas discutidas. Até as polêmicas serem entendidas pelo mundo já ia estar próxima a data da outra reunião dos líderes mundiais para discutirem novamente o assunto. E o mundo não deverá acabar antes disso.
P.S: O fato de esta crônica não ter sido publicada no dia mundial do meio ambiente não quer dizer que o cronista empurrou com a barriga a discussão do problema, como é feito com a questão ambiental.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
BOM EM QUALQUER ÉPOCA - COMO SERIA?
Há tanta produção literária por esse mundão, tanta coisa que tanta gente tem acesso e muito mais coisa que tanta gente não tem que pelo bem do conhecimento humano e da literatura, acho que toda oportunidade que tivermos para aumentar a visibilidade de textos bons não pode ser perdida. Selecionei alguns que acho que precisam de quando em vez ser divulgados pelas suas qualidades inumeráveis. É só mais uma forma de dar ainda mais vida à sua imortalidade. Só lendo para qualificar. E isso cabe ao leitor.
Como seria?
Um país sem falsos guias, sem a odiosa demagogia, sem dinheiro nas cuecas, desmarginalizando as periferias, como seria?
Um país sem mais bravatas, sem conluios e promessas falsas, sem tantas falácias, sem jogos de cartas marcadas, onde quem ganha é a burguesia, como seria?
Um país sem ideologias vãs, sem conchavos, sem escabros, sem o ganhar do pão roubado, daqueles que acreditaram em vocês um dia, que depositaram em uma urna, toda a fé em um melhor dia, como seria?
Um país com mais decência, sem escândalos que arrepia, sem um juiz que não se contenta e mete a mão onde não devia, sem um governador gaiato, que faz a prece a luz do dia,agradecendo a propina, para bancar a mordomia, tirando de milhões que tem fome, e precisam de moradia, enquanto que quem roubou um pão, foi preso na padaria, foi chamado de ladrão, e no presídio foi passar seus dias,como seria?
Um país com uma justiça realmente cega, como aprendemos nos livros, os defuntos do Vigário Geral com seus prantos mal ouvidos, a dama de vendas absolveu, os bandidos mais temidos, os sob a tutela do Estado, está tudo invertido, como seria?
Um país com mais pão que circo, com apologia aos livros, sem tanta alienação, sem carneirinhos entretidos, se esquecendo que carneiros são o prato preferido, dos locupletadores de sonhos, que em um palanque falam bonito,os que em troca de tostão, sepultam quaisquer princípios, como seria?
Um país sem religião que vende chão no paraíso, se esquecendo que Deus não se vende, para que assim seja sentido,a teoria do se dar bem, virou moda e é um perigo, não nos esqueçamos que quem fere,mais adiante será ferido, como seria?
Um país sem tanta safadeza, sem tanta maledicência, sem tantos filhos da puta no poder, que só se preocupam com seus gananciosos bolsos e definitivamente com os seus, em detrimento do sofrimento de um já tão sofrido povo cujos anseios são apenas viverem uma vida mais digna e serem tratados como cidadãos que são,como seria?
O poeta perde a pose em meio a tanta hipocrisia, esquece o rebuscado das palavras e da fina poesia, chuta o balde das letras e parte pra baixaria, pois, ele em papel esboça o país que tanto queria, sem tanta opressão e tanta dicotomia, sem nepotismos disfarçados, e promessas de apenas um dia, nos unamos em um só brado, e indaguemos com ousadia, uma pergunta tão sensata que há de ser feita um dia: como seria?
AUTOR: Felipe Padilha di Freita (O Poeta do Deserto),grande poeta recifense. Escritor também do site Recanto das Letras, onde pode ser acessado através do link: http://recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=52265
domingo, 6 de junho de 2010
NO MEIO DO CAMINHO TEM UM MOSQUITINHO
No período medieval, surgiu uma corrente avassaladora, podemos dizer, de pensamentos que se propunham a lançar luzes na obscuridade em que a sociedade vivia. Foi do Iluminismo que brotaram ideais do desenvolvimento econômico industrial, o fim da servidão humana e o desenvolvimento capitalista. Daí para frente, só experimentamos desenvolvimento atrás de desenvolvimento de condições materiais de vida, de facilidades para a vida humana através de invenções de toda espécie. Não que isso tenha provocado uma isonomia na distribuição das riquezas e benefícios produzidos. O sistema é capitalista e ele não pressupõe igualdade de nenhuma espécie antes da morte. No campo do pensamento, da cultura e das idéias, o desenvolvimento é pouco significativo, muito pouco, infelizmente. Uma lástima para bilhões de pessoas e um paraíso para alguns milhares de abastados que sobrevivem da exploração humana. E que não me venham com a ladainha da oportunidade que foi deixada escapar, que o esforço individual basta para superar todas as dificuldades e que a sua perda (da oportunidade) é a responsável pela miséria humana. Isso me soaria como discurso de capacho e serviçal do sistema que usa de mentes que “se acham” para poder perpetuar o status quo que existe. Precisamos mesmo evoluir muito mais do que desenvolver.
A ironia que mais chama atenção no momento, no entanto é que, a despeito de todo o avanço tecnológico há um “mosquitinho de nada” que está atazanando a vida da gente, correndo o risco de fugir ao controle das porcas políticas dos governantes em todas as esferas e do pouco cuidado que as pessoas têm em fazer a sua parte. Um bocado de ignorância e um montão de irresponsabilidade. Um ato de “empurrar com a barriga,” tão corriqueiro em nosso meio. Barrigas para isso é o que não faltam. A dengue está aí mais ameaçadora do que nunca. O mosquito morre fácil, fácil, desde que haja um envolvimento efetivo de todo mundo e uma seriedade dos mandatários.
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P.S: A Edna Lopes fez uma crônica “Dengue: Estamos Perdendo a Guerra?” sobre o crescimento da doença em Alagoas (veja no link) http://recantodasletras.uol.com.br/cronicas/2291271. Há relatos de crescimento assustador no Rio e em São Paulo. Aqui em Belo Horizonte a situação é alarmante. Não vi estatísticas de outros estados.
sábado, 5 de junho de 2010
PÁSSAROS E AVIÕES
Tem um homem que fica na cabeceira da pista do aeroporto da Pampulha treinando um gavião para atacar outros pássaros. Nem precisaria se fosse para ele se alimentar apenas, já que a rapina é a sua maior especialidade na cadeia alimentar. É um sistema de prevenção que a administração descobriu para diminuir o número de acidentes com aeronaves na hora do pouso. No intervalo entre um pouso e uma decolagem, lá vai ele, afastar as aves que ficam por ali, achando que os aviões são irmãos seus mais crescidinhos. Só que de vez em quando dão uma trombada com seu irmãozão e aí é possibilidade de fatalidade. No mínimo atropela a manobra. Dizem que uma ave entrando por uma turbina de avião é como um impacto de mais de uma tonelada de peso. Chega a derrubar uma aeronave, como já ocorreu muitas vezes. Risco constante para muitas pessoas. Fico observando os helicópteros que passam por sobre o meu bairro diariamente e, principalmente pela manhã, as aves gostam de acompanhá-los. Será que elas pensam que é um igual de sua raça, de tamanho maior? E ainda por cima trazendo alguma comida, já que os pássaros urbanos têm que suar muito mais nos seus vôos para garantir um rango? É muito bonito de se observar o trabalho do gavião solitário. Ele, que já está com seu almoço e jantar garantidos todos os dias, não executa a sua costumeira caça. Apenas afugenta urubus, garças, pombos e outros pássaros menores da rota de descida e subida dos aviões. Só deve ter que ser treinado novamente a caçar quando ficar mais velho e cansado, pois já deve estar acostumado com a recompensa do treinador. Vai perdendo a habilidade natural . Ou será que eles fazem com os pássaros o mesmo que fazem com a gente quando fica velho e não tem recursos para resolver mais as coisas sozinho? Ainda não ouvi dizer que tem asilo para bichos.
Deu vontade de usar uma boa desculpa para falar dos aviões para esconder o medo que tenho deles; admiração e medo. O tanto que me atraem me apavoram. Toda tragédia em outros meios de transporte são menos ameaçadoras do ponto de vista das possibilidades, exceto os aviões. Se você andar de trem, carro, ônibus, navio ou a pé, sabe que corre riscos, mas nenhum dá tanta certeza de que não poderá se repetir como o avião. Já ouviu alguém contar que sobreviveu a mais de um acidente de avião? Se já, o milagre realmente existe. Imagine uma pane em pleno ar, o avião balançando, em parafuso ou pegando fogo. Quem será que pensa que vai sair vivo? Se descontarmos os acidentes em que houve explosões, em todos os demais as pessoas foram acompanhando a morte desde sua chegada na cabine do avião até a queda final. Não dá tempo de deixar bilhetinho, nem de ligar para se despedir de alguém, de arrependimentos ou declarações tardias. Isso não é terrorismo. É o medo que me acompanha desde a primeira voada e não sai mais nem a poder de calmante. Quando eu bebia, não me importava. Só viajava “chapadaço”. Agora estou pressentindo que vou ter que encarar um vôo em breve, então colocar para fora alivia. Se não, no mínimo fica avisado de que eu queria ter ido a pé mesmo. Até a volta.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
AOS ANTIGOS AMIGOS IDEALISTAS
Primeiro fomos embalados. Uma grande onda de dimensões continentais passava querendo lavar os chãos da pátria e construir um novo passeio público. Emergiam sonhos, vontades que impulsionaram tantos para uma frente de combate. O sistema que nos oprimia continua oprimindo e agora muito mais, com armas menos visíveis, mas com poder de dilacerar tão potentes quanto muitas bombas de gás lacrimogêneo e paus de arara com efeitos nas células da alma. Agora sucumbimos a uma avalanche de desmerecimento, diante de uma minoria ruidosa, com seus cristais finos e carros luxuosos. A pergunta era: o que pode nos derrotar, lembram-se? Foi o descaso com o ideal, ou o abandono de princípios? Ou o dinheiro que governa o mundo? Terá sido a tentação do poder? À maioria silenciosa negamos a vez que tanto lutamos para dar.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
UMA RESENHA DO MEU LIVRO - POR GEYME LECHNER MANNES
A vida do bebe - De 40 para frente
by José Cláudio Adao
Quando comecei a ler o livro do José Cláudio Adão, carinhosamente por mim, conhecido como: Cacá, pensei que ali encontraria escrituras sobre a metamorfose masculina após os 40, mas fui surpreendida quando gradativamente (e acidentalmente), reconheci que ali também estava um pouco de mim (mulher) e minha própria mutação, meus receios, anseios... Dúvidas de todo ser humano que se auto-questiona, ou ainda que não, é forçado, de forma encantadora, a refletir e ponderar através das palavras do autor sobre o inimaginável deleite da vida após os 40.
O livro é de um gracejo e sabedoria que só quem sentiu, pensou e ponderou sobre as minúcias da vida, seria capaz de criá-lo. Isso quer dizer, não basta apenas chegar aos 40, ou passar dessa idade para saber o que na “A vida do bebe” está “desenhado”! Quase todos tem chance de chegar lá, mas uns apanhando mais que outros! Tem gente que alcança e ultrapassa essa etapa, cometendo os mesmos erros, as mesmas falhas e fazendo tudo igual, dia após dia, permitindo que a própria vida consuma o tempo sem alcançar a evolução intelectual e a plenitude superior. Não refiro-me a divindades ou estado de perfeição, mas afirmo com letras garrafais, que na obra do Cacá, há um mundo a ser descoberto, e só quem se auto-questionou durante o cotidiano das mais de 350.000 horas vividas, num ângulo distante do “comum”, é capaz de retratar com o respectivo brilhantismo.
“Se cada pessoa pudesse se despir de preconceitos, palavras e atos difamatórios e denegridores; se as pessoas considerassem o todo e não o individuo como centro da vida e sua razão maior de existência...; certamente isso aqui; se cada um ou cada uma espalhasse um grãozinho de ternura, desapego, altruísmo, sem abrir mão de suas vicissitudes, claro, mas com firmes propósitos de elevar a alma humana para além do aqui e agora; certamente isso aqui não terá sido ufanismo, mas uma crença e uma religião.”
Que fácil atirar a primeira pedra, mais fácil sermos expectadores distantes e metralhar um bombardeio de palavras aquilo ou aquele que nos é diferente, inferiorizar terceiros, sobrepondo-nos num pedestal de diamantes! É com imensa habilidade que solucionamos outros problemas enquanto nos afogamos nos nossos próprios... Quanto tempo dedicamos a depreciar o que não nos é de direito? E quanto tempo necessitamos para frear a língua com julgamentos medíocres?
Ah, o tempo...
Embora o título seja “A vida do bebe – de 40 para frente”, a obra deve ser indicada a todas idades e sexos, pois remete ao comportamento passado, tem carisma e humor, nos transporta do como éramos, ao, como poderemos ser. É uma leitura deliciosa, rica, envolvente! Imaginei-me como filha, mãe, mulher. Ser humano de verdade, em carne e osso, que nasce, cresce e amadurece. Cresce e aparece! Fui levada pra cá e pra lá, lembrando de gente que não teve essa habilidade juvenil de envelhecer!
Confesso que tive que fechar o livro algumas vezes, parar e voltar, pois ademais de conter um retrato bem-humorado do nascimento, ou renascimento aos 40, há também filosofia e reflexões que mereceram um tempo extra para decodificar o que o autor quis dizer, daquilo que me fez pensar (e olha que não foi pouco...)
”Somos como carros muito rodados”
Se não cuidamos desse “veículo”, poderemos ter um carro velho antes do tempo para manutenção, e este meus amigos, não podemos trocar!
Ser, deixar de ser ou parecer ser! Eis das muitas questões que nos deparamos no livro, reflexões que nos remetem ao passado e nos fazem rir, outras, que nos levam a um tal ponto de equilíbrio que chegamos a dizer em voz alta (antes mesmo dos 40): “Poxa vida, quero ser uma pessoa equilibrada agora”! Por que preciso ser radical, do contra a favor, direita ou esquerda, expressar minha opinião a ferro e a fogo, unhas, tapas e dentes? Cade nosso equilíbrio? Eu o quero agora! Por que já não nascemos com ele?
Passagens no livros nos trazem Dejà vu, no estilo: “Putz, também fazia isso!” ou ainda: “Putz, ainda faço isso!”, o que é pior, porém, remediável!
Estados de lucidez se alcançam apenas com sabedoria e retrocesso, esse passinho atrás de voltar e rever caminhos, mudar o status quo... Equilíbrio é uma questão fundamental apresentada na obra, mas não adianta espernear, o leitor pode até tentar ser um ser humano precoce, antecipadamente evoluído, mas ainda será necessário esta bagagem de experiencia bem vivida, não sermos essas máquinas do sistema, é preciso pensar e refletir, ou seguir:
“repetindo falas, conceitos, atos, gestos..”
Gostaria de desmembrar o livro, página por página, mas tenho receio de contar demais....
Fico feliz por ter lido a obra e ter espaço para comentar e dividir o meu deleite!
Sucesso sempre!
Geyme Lechner Mannes.
(Autora do livro Meninas Bonitas Não São Para Casar
geyme.blogspot.com
quarta-feira, 2 de junho de 2010
MENINAS BONITAS NÃO SÃO PARA CASAR
O livro surpreende o leitor em todos os aspectos. O título Meninas Bonitas Não São Para Casar, não é um axioma como pode parecer à primeira vista, mesmo sendo o autor, uma autora jovem. Também não é um compêndio de lições de moral, mesmo sendo ambientado nos anos 50 do século passado quando as meninas eram todas para casar, sendo ou não bonitas. E podem também ir se desiludindo aqueles ou aquelas que acham que se trata de uma lista de aconselhamento para as meninas bonitas. Nada disso. No entanto, qual a surpresa? Essa eu deixo para ser satisfeita por cada um. O que e tenho a dizer é que desde a primeira até a última página desse livro, a autora tem algo a dizer nesse momento em que estamos numa crise sem precedentes no mundo da criação em geral. Ela tem muito a dizer sobre idiossincrasias humanas, sobre o cotidiano das cidades, sobre história recente do nosso país, sobre as mais comezinhas e mais presentes emoções que nos guiam e também as mais profundas e belas reflexões filosóficas e psicológicas dos personagens, cada um esmiuçado escancaradamente para o leitor se identificar ou não, amar ou odiar.
É uma história de amores e tragédias, de carreiras e de golpes que entre sucessos e fracassos compõem a nossa cena comum, às vezes invejável do ponto de vista pessoal, íntimo, às vezes execrável e odiável do ponto de vista ético. O que posso dizer é que a autora Geyme Lechner é uma escritora de todos os tempos. Apesar da pouca idade (ela é bem jovem) parece que isso não lhe impõe nenhuma barreira que possa deixar de alçá-la à galeria dos grandes escritores da literatura. A desenvoltura e firmeza com que conduz as tramas, a não linearidade narrativa, o processo descontínuo e alternado de mostrar cenas e histórias, locais e conjunturas é algo impressionante. Vi essa narrativa alternando suspense e descrições monologais e extração dos dilemas pessoais em Rubem Fonseca, sem querer aqui fazer comparações. Apenas dizer que o talento dela é único e o livro imperdível. São cerca de 400 páginas que gostaríamos que fossem 800 logo no começo. Histórias boas, a gente nunca quer que terminem. Mais não digo. Apenas recomendo.
MENINAS BONITAS NÃO SÃO PARA CASAR
Geyme Lechner Mannes
Ed. Livronovo, 2009
UMA GOTA DE ÉTICA
Os veículos de comunicação não costumam se pautar muito pela ética. Mas a democracia faz com que eles deixem pelo menos que ela seja discutida. Uma espécie de metalinguagem por expiação. Eles, no entanto, não fazem isso na sua programação dirigida aos grandes públicos que freqüentam os chamados horários nobres. Horário nobre na televisão quer dizer uma forma de aumentar as vendas de produtos e serviços, não é necessariamente horário de programação nobre. A palavra nobre ganhou uma dupla significação ao longo do tempo. Se levarmos em conta o comportamento das pessoas que fizeram parte de uma certa nobreza secular, por exemplo, o significado é vilipendioso. Portanto, o horário nobre pode ser mesmo algo terrível. Hora de ver desgraças de toda sorte nos telejornais e depois as “educativas” novelas e programas de auditório.
As televisões possuem nos seus contratos de concessão com o estado, uma obrigação de destinar uma parte de sua grade diária a programas educativos e programas com fins sociais. Isso é feito normalmente bem cedinho ou bem tarde da noite, hora em que as pessoas estão indo dormir ou ainda não se levantaram. O canal Futura, por exemplo, foi uma criação da rede Globo para canalizar tudo de bom que ela produz mas para ser visto apenas por quem possui uma parabólica ou tv a cabo; uma parcela que não deve chegar a 5 por cento da população. Ali está tudo de bom, de ético, de digno em qualquer horário. Uma programação limpa, em todos os sentidos, inclusive de propagandas de produtos para a gente comprar entre intervalos comerciais. E é sobre ética que tive oportunidade de assistir a um programa outro dia, falando historiadores, psicanalistas, juristas e gente nas ruas sobre esse valor que circula no meio da sociedade. Um valor de alta importância para as nossas relações no cotidiano, pois dela decorre toda nossa fracassada ou vitoriosa investida humana. Da nossa percepção do mundo e da nossa atuação nele, enquanto sujeitos que constroem uma história. Falava específicamente sobre as pequenas corrupções, pequenos subornos, o “jeitinho” com fins de adulteração e do serviço público. Nos primeiros tempos coloniais, os cargos públicos eram comprados. Um investimento, portanto, para ser remunerado depois que se chegava ao serviço público. Essa herança parece não ter sido modificada pelos concursos públicos, que vieram a substituir o sistema de aquisição. Ainda se trata o público como coisa privada a ser recompensada quando se vislumbra um cargo, seja de representação política, seja cargo de confiança, seja de servidor de carreira. A corrupção e o mau serviço prestado pelos poderes constituídos ainda são uma exceção, para o nosso consolo, mas acho que a raiz da corrupção vem desse gene da aquisição de cargo desde lá em 1808.
No rádio também é muito curioso. Aqui em Minas, a radio de maior audiência e a mais popular, a Itatiaia, possui um programa diário de debates, riquíssimo do ponto de vista dos temas abordados. Assuntos presentes no cotidiano da sociedade e ancorados por pessoas do mais alto nível intelectual, de carreiras sólidas em suas áreas de atuação. A ética, por exemplo, é um assunto que freqüenta amiúde esses debates. Só que, entre um intervalo e outro o que mais se ouve é comercial de remédios milagrosos para artrite, artrose, emagrecedores, impotência, afrodisíacos, e tudo que pode ser adquirido em qualquer estabelecimento do ramo sem nenhuma receita médica. A maioria eles dá até números de telefone para adquirirmos sem precisar sair de casa. Pra quem tem artrite e artrose deve ser uma “mão na roda”! Outro dia eu mandei um e-mail para lá (a gente pode participar com mensagens on line) perguntando ao apresentador se eles não se sentiam constrangidos com esta situação. Não obtive resposta. Sei lá, deve ser por que a ética é um princípio de vastíssimo alcance, pode ser que ainda estejam tentando onde enquadrar uma resposta para me dar ou então preparando uma ação para me processar por calúnia, difamação ou falta de ética.
______________________________________________Fontes: Além dos programas citados do Futura e da Radio Itatiaia, baseei-me também no artigo: A Função Social da TV, disponível em:
http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI194592-EI306,00.html
terça-feira, 1 de junho de 2010
BOM EM QUALQUER ÉPOCA - LER DEVIA SER PROIBIDO
Há tanta produção literária por esse mundão, tanta coisa que tanta gente tem acesso e muito mais coisa que tanta gente não tem que pelo bem do conhecimento humano e da literatura, acho que toda oportunidade que tivermos para aumentar a visibilidade de textos bons não pode ser perdida. Selecionei alguns que acho que precisam de quando em vez ser divulgados pelas suas qualidades inumeráveis. É só mais uma forma de dar ainda mais vida à sua imortalidade. Só lendo para qualificar. E isso cabe ao leitor.
LER DEVIA SER PROIBIDO
Guiomar de Grammont *
Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Dom Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.
Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.
Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?
Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.
Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.
Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.
Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verosimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.
O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incómodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?
É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metros, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.
Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.
Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.
Além disso, a leitura promove a comunicação de dores e alegrias, tantos outros sentimentos… A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna colectivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.
Ler pode tornar o homem perigosamente humano.
* Guiomar de Grammont é historiadora, doutoranda em literatura, autora de vários livros e publicações e foi curadora da II Bienal do Livro de Belo Horizonte-2010.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
APOSENTADORIA
O PROBLEMA ETERNO DA PREVIDÊNCIA
Para quem já se aposentou ou pensa em algum dia se aposentar: entre os muitos problemas da nossa previdência, o que me chama mais atenção quanto ao descaso com aposentados no Brasil é o seguinte:
a) As leis previdenciárias são feitas e aprovadas por quem tem uma aposentadoria que não é paga com o dinheiro da previdência (regime geral) São os deputados e senadores. E não é pouco.
b) Essas mesmas leis quando são questionadas, são julgadas por pessoas que têm seu sistema próprio de aposentadoria e que também é invejável, os juizes.
c) E para executá-las, os funcionários que comandam o sistema também não são aposentados pelo regime geral da previdência. (os próprios funcionários públicos graduados do INSS) E se aposentam com salários gordos.
Dá para confiar que pode vir a mudar alguma coisa em favor dos aposentados e aposentáveis?
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VERSOS PERMANENTES DO SEGURADO
Está chegando o fim do mês,
meu senhor, minha senhora.
Será a minha, a sua, a nossa vez,
de saber quem mais demora,
a gastar o benefício,
a gastar o benefício,
que mais parece uma esmola.
Quem a vida inteira, no sacrifício,
ralou, suou e fez escola,
aprendendo e ensinando ofício,
ajudando a coletividade a andar,
chega a se aposentar,
mas não é recompensado.
É antes, responsabilizado
pela falência de um sistema
que a gente mesmo é dono.
Porém falcatruas, descontrole e fraudes
Isso é um velho problema
E acontece sem o nosso abono,
na nossa cara e aos baldes.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
VERSINHO DA DOR DE COTOVELO *
Expressão maior de maldade,
Vou lhe dizer a verdade
É quando um amor tão querido
Se faz de bandido
Nos deixando apenas a queixa
Dá saudade como efeito
E uma dor que não deixa
Parar de arder o peito.
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Fonte:
http://www.brasilescola.com/curiosidades…
Vou lhe dizer a verdade
É quando um amor tão querido
Se faz de bandido
Nos deixando apenas a queixa
Dá saudade como efeito
E uma dor que não deixa
Parar de arder o peito.
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* A expressão teve origem nas cenas de pessoas sentadas em bares, com os cotovelos apoiados no balcão bebendo e chorando um amor perdido. Muitos atribuem a criação da expressão ao genial compositor Lupicínio Rodrigues.
Então, de tanto ficar naquela posição, as pessoas ficavam com dores no cotovelo. Atualmente, é muito comum utilizar essa expressão para designar o despeito provocado pelo ciúme ou a tristeza causada por uma decepção amorosa.
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Fonte:
http://www.brasilescola.com/curiosidades…
quinta-feira, 27 de maio de 2010
ACRÓSTICO DO A até o Z
Aqui começa a brincadeira
Bem ao gosto de quem lê
Curta letras e palavras
Depois mande tudo às favas
Entre risos e raivas
Faça o que bem entender
Gostando, vai querer guardar
Hediondo sendo considerado
Ignorar é o melhor a se fazer
Junte alegria e enfado, jovialidade e siso.
Kkkkk! Venceu a vontade do riso
Loucura estamos fazendo
Mais eu do que você que está lendo
Nada aqui faz sentido
Ou faz, querida amiga, amigo querido?
Pior que isso eu já vi
Quando eu mesmo invento moda
Rabisco papel, digito tolices
Sai cada coisa que é... fogo!
Termino aqui o meu teste
Um acinte à paciência
Vir aqui me ler contente
Xingue agora, sem clemência
Yes I can, sim eu posso
www quer dizer que o mundo não é só meu, tá vendo? É nosso
Zzzzzz! Dormi primeiro. Obrigado, minha gente!
Bem ao gosto de quem lê
Curta letras e palavras
Depois mande tudo às favas
Entre risos e raivas
Faça o que bem entender
Gostando, vai querer guardar
Hediondo sendo considerado
Ignorar é o melhor a se fazer
Junte alegria e enfado, jovialidade e siso.
Kkkkk! Venceu a vontade do riso
Loucura estamos fazendo
Mais eu do que você que está lendo
Nada aqui faz sentido
Ou faz, querida amiga, amigo querido?
Pior que isso eu já vi
Quando eu mesmo invento moda
Rabisco papel, digito tolices
Sai cada coisa que é... fogo!
Termino aqui o meu teste
Um acinte à paciência
Vir aqui me ler contente
Xingue agora, sem clemência
Yes I can, sim eu posso
www quer dizer que o mundo não é só meu, tá vendo? É nosso
Zzzzzz! Dormi primeiro. Obrigado, minha gente!
quarta-feira, 26 de maio de 2010
UM PAI EM TODAS AS COPAS
PAI,
Era para falar de copas do mundo. Você está acompanhando essa modalidade desde a primeira, em 1930. Era o seu primeiro ano de vida. Mas entre uma copa e outra, quantas histórias vividas, quanta coisa aconteceu nesse mundão nos últimos 81 anos. A saúde que lhe acompanha desde 1929 não é algo que deva ser levado apenas como natural. A começar que naquele ano, o mundo experimentava uma das maiores crises econômicas de sua história. Faltavam inclusive, gêneros alimentícios porque uma especulação financeira de proporções gigantescas derrubou os montes de dinheiro que circulavam no mundo, então muito menos habitado, e que deixou alguns ricos pobres e os milhões de pobres, miseráveis. No Brasil, o abalo foi ainda maior. Uma economia que dependia quase que exclusivamente de um produto, este que lhe ofereço hoje para tomar de manhã e que alguns de seus filhos até o plantam atualmente. O café movia o Brasil e o deixou imóvel e faminto. Ele não faltava, pelo contrário. Havia em abundância sem que ninguém se interessasse em comprar.
Veio a seguir uma rigorosa ditadura, o chamado Estado Novo, capitaneado por Vargas, suprimindo liberdades, sufocando o povo. E logo depois uma guerra mundial. Já era a segunda da história. Ainda bem que o senhor era apenas uma criança, um quase adolescente. Uns aninhos a mais e talvez tivesse ido engrossar as fileiras da Força Aérea ou da Força Expedicionária Brasileira que foram combater na Europa, aliados de última hora dos americanos, soviéticos, franceses e ingleses. Nesse intervalo, o mundo ficou sem milhões de vidas e sem duas copas do mundo. Passada a carnificina humana, caiu também a ditadura e o país parecia encaminhar-se para uma normalidade. Nesse meio tempo, você já rapazinho, entrava na Vale do Rio Doce, naqueles tempos onde a tecnologia maior ainda era o lombo do burro e os pequenos caminhões que transportavam para o trem de ferro e os navios, o rico minério de Itabira para ir para o mundo. Um pouco dele ajudou a fabricar não somente os carros da nascente indústria de automóveis e estruturas de aço nas cidades, mas também tanques e armas de guerra. Entrou a década de 50 com o Brasil sediando a segunda copa depois do período de interrupção. Inaugurava-se o Maracanã, então o maior estádio de futebol do mundo. Porém o Brasil não correspondeu ao investimento absurdo na sua construção com a alegria para o povo. Ouvia pelo rádio entre lágrimas que hoje a tv nos mostra, a seleção sucumbir diante de mais de 100 mil pessoas ao Uruguai., lembra-se? Por outro lado, Getulio Vargas que havia sido deposto ao final da guerra, voltava eleito pelo voto direto e nos braços do povo se redimia da sua condição de ditador mas não deixaria de enfrentar os seus antigos detratores nem o poder econômico ancorado no capital internacional. Suicidava-se logo depois de outra copa do mundo em que o Brasil também havia passado do em brancas nuvens.
Você, no entanto, estava em outras nuvens. A essa altura, já havia a Maria Delfina em sua vida, aquela gloriosa mulher que o acompanharia por mais de trinta anos, gerando uma significativa prole, seus nove filhos que aqui estão. A nossa mãe merece um capítulo à parte e muito generoso por sinal. Não foi muita sombra e água fresca o que vocês tiveram que passar para educar essa turma toda. Estamos muito bem, obrigado mesmo!
Em 58 já deu para você sentir uma alegria como torcedor. Pelé, o menino prodígio da bola encantava o mundo e ajudava o Brasil a trazer o seu primeiro caneco. Junto com as seleções de 1970 e 1982, talvez tenham representado o que de melhor já se produziu no futebol para quem aprecia a arte sem paixões cegas. Apenas o jogar bonito. Não sei se você vê da mesma forma. Aqui já é uma opinião deste filho que lhe escreve. Eu já era um garoto em 70 e em 82 já era um homem feito. A de 58 eu não me canso de ver quando reprisam nos canais de televisão. Ainda ao final da década de 50, veio o que talvez possa ser chamado de milagre econômico no Brasil. Não digo em termos de uma isonomia nas riquezas produzidas, que isso não é coisa que o capitalismo proporcione em lugar nenhum do mundo, mas de uma nova fisionomia que o país ganhou, com a chegada massiva de indústrias de bens de consumo e da construção de Brasília para ser a capital Federal. São os anos JK. Nesse meio tempo, há uma consolidação de uma classe operária pujante e você estava lá, imbuído de princípios de igualdades envolvido com o movimento sindical urbano em crescimento. Em 62 nascia este que lhe dedica estas linhas e o Brasil havia faturado o seu segundo troféu.
Veio 1964 e um pesadelo passou a povoar os sonhos de liberdade. Alegavam que era um combate a um misterioso fantasma comunista que rondava o mundo e, no entanto mergulharam o país numa das mais terríveis páginas de nossa história. Uma verdadeira guerra civil urbana e rural, com torturas, mortes, perseguições de toda sorte e a liberdade se limitava apenas ao direito de trabalhar e pensar, desde que fosse calado. Falar não podia. Manifestar-se publicamente, nesse caso, nem pensar. Você é testemunha quase física dessa perseguição. Digo quase, pois não chegou a freqüentar os porões dos paus de arara e choques elétricos, ainda assim teve seu mandato sindical cassado, seu contrato de trabalho rompido e sua família sob ameaça constante Safou-se por muito pouco. Foi em plena copa de 70. A gente era muito criança e adolescentes ainda e comemorava sem saber que os “noventa milhões em ação, pra frente Brasil” era só um slogan para encobrir o sangue que corria nos bastidores das vidas de tantas pessoas que ousaram discordar da ditadura militar. A sua prole já estava toda crescendo nessa época, felizes e alheios às dificuldades. Tivemos apesar de tudo, uma infância muito feliz. O ideal de felicidade não estava tão necessariamente associado ao conforto e excesso de acumulo patrimonial e de estrelato e brilho individual como nos dias atuais. Os afazeres coletivos, as possibilidades de viver sem medos nas ruas, a necessidade de inventar, de criar as próprias brincadeiras nos permitiam um maior convívio humano e acho que nos satisfaziam mais ao espírito do que hoje, quando parece que só se consegue uma felicidade depois que passamos no caixa de algum estabelecimento.
Ficamos num jejum de mais de vinte anos sem saborear um título mundial e quanta coisa aconteceu nesse período em sua vida! Os filhos começavam a ter seus próprios trabalhos, suas rendas para diminuir o seu penoso esforço e da nossa mãe de garantirem dinheiro para fazer frente a tanta demanda de alimentos, escolas, roupas, calçados, médicos, dentistas e outras coisas que os pais dão aos filhos. Os primeiros foram saindo de casa e puxando a fila dos outros em busca de seus sonhos, estudando e trabalhando. Começaram em meados da década de 70 a se casarem algumas filhas, outros se formando em alguma coisas.
Entra a década de 80 com o nosso primeiro - e creio convicto -, maior baque humano. Mais do que qualquer fome, mais do que qualquer angústia existencial, mais do que qualquer dificuldade material. A perda de nossa mãe, tão jovem ainda, apenas 51 anos, nos deixando meio acéfalos, meio desnorteados, meio sem chão. Ela tinha uma presença tão importante para todos nós que ainda hoje, após tantos anos de sua partida não conseguimos esquecer o seu significado, o seu aprendizado, a sua sabedoria possível. Falo por mim, mas pelo muito que conheço de meus irmãos todos, não acredito estar exagerando se disser que falo por eles também.
Você nesse intervalo, além de aposentar-se em 82, nunca deixou a sua militância. Não era mais um sindicalista apenas, pelo contrário, expandiu a sua ação para toda a comunidade. Não lutava para melhorar as condições de vida apenas de seus companheiros de mesmo uniforme. Estava numa luta de toda a comunidade Itabirana, como permanece ainda hoje emprestando toda a sua experiência, toda a sua habilidade diplomática e todo o seu carisma para construir uma cidade que dê dignidade no dia a dia de seus habitantes. Assistimos em 94 e 2002 o Brasil ser tetra e penta campeão com esse futebol de resultados e egos muito mais do que arte como era antigamente. Mas de resultados é que mais se fala atualmente. Então estamos aí, a espera do hexa, do hepta... E à espera também de dias melhores para toda a maioria da sofrida e manobrada população brasileira.
Queremos e o senhor também, claro, muito mais do que títulos de copas do mundo. Títulos mais importantes seriam os que laureassem a sua luta em prol de educação, saúde, moradia, saneamento e lazer. Isto sim nos fará um povo mais orgulhoso de ser campeão do mundo em dignidade. A vida segue. . A sua dignidade segue, cada vez mais elevada; seus calos nas mãos e suas rugas cada vez mais respeitados. Temos muito orgulho de poder dizer a quem quer que seja que somos filhos de José Felipe Adão.
Parabéns, PAI.
Aceite esse singelo cafezinho virtual, mas não se sinta liberado da bagunça física. Sábado próximo estaremos toda a família aí, filhos, filhas, genros, noras, netos, bisnetos, sobrinhos, agregados e amigos reunidos para comemorar muito.
terça-feira, 25 de maio de 2010
SIGLAS
Peguei meu CPF e fui à SRF resolver pendências do IR. Caí na malha fina e fui convocado. Peguei o 2212B, a linha do meu bairro que passa lá perto.. Minha senha de atendimento foi 32 AD. Fui falar com o chefe da seção, que me pediu os comprovantes dos rendimentos que declarei, bem como das despesas pagas. Saí de lá e passei no INSS, pois o mesmo não mandou o meu extrato de benefícios (CR). Lá eu sou a matrícula KAV 9196, um beneficiário qualquer. Antes, no entanto, tive que solicitar uma informação a um vigilante cujo crachá não traz o seu nome, apenas Colaborador da SEGUR. Depois passei na CEMIG, a concessionária de energia do estado para obter uma segunda via de CR, que já quer dizer comprovante de residência e não de rendimentos como na previdência. Nessa não me exigiram CPF, mas solicitaram meu RG e o identificador da minha casa. É um código numérico por onde me mandam luz não importando quem eu sou; sou aquele identificador, desde que não atrase o pagamento. Nesse último caso passarei a ter nome. Ou será que me cobrarão a dívida através do meu CPF e no SPC?
E tem gente que diz que a gente não tem boa memória. Já notou a quantidade de siglas e números que somos? Não falei de umas dezoito senhas que possuo para internet de, acesso a páginas onde sou cadastrado, bancárias, números dos telefones fixo e celular, os números do manequim e calçado (embora muita gente por vaidade gostasse de esquecer). Sem contar o outro lado que não tem siglas mas é tudo impessoal do mesmo jeito. Há lugares e situações em que somos contribuintes, consumidores, usuários, beneficiários, devedores, réus, vítimas, transeuntes, passageiros, portadores, cidadãos ufa! Isso é fruto do hábito da redução simplificadora que reina no meio da civilização ou é o desmerecimento com o ser humano? Não importa, não é? Provavelmente os mais reducionistas vão dizer que isso é chatice de um cronista e se perguntarem qual dirão: acho que é um tal de JCA.
E na minha lápide provavelmente estará uma placa assim:
J.C.A
(viveu um pouco no século XX e o resto no XXI)
Baixado no cartório civil sob o nº ....
No de títulos e protestos sob o nº...
segunda-feira, 24 de maio de 2010
LINGUAGENS
Durante um tempo eu morei no centro da cidade. Belo Horizonte oferece aluguéis baratos na região central por possuir prédios sem garagens e apartamentos pequenos. Coisas para gente só ou sem muito dinheiro. Essa última qualidade acaba atraindo muitos estudantes que vêm para capital formar as famigeradas repúblicas estudantis. Ali, ninguém é só, mas quase sempre gente de pouco dinheiro. Tudo fica mais em conta, exceto o ruído e o tumulto. Também, nem tudo é perfeito, não é mesmo?
Na época em que os cinemas ainda não eram igrejas e nem nos shoppings, eu morava bem próximo ao cine Palladium, um cinema mais voltado para filmes de bang-bang e erotismos vulgares. Durante o dia, o seu hall era repleto de pessoas de uma comunidade: os surdos-mudos, que ali se comunicavam freneticamente, numa agitação parecida com uma feira de aflitos. E muita gente ia para lá aprender ou para ensinar a linguagem de sinais. Eu era um desses aprendizes. Quando não tinha o que fazer, ficava ali observando e tentando estabelecer um diálogo de surdos. Aprendi um pouquinho, muito pouquinho. Não havia assiduidade de minha parte.
Se tivesse aprendido tudo, pode ser que eu não ficasse hoje imaginando coisas que talvez tenham sido, talvez não. Por exemplo: outro dia eu estava parado à porta de um restaurante lá perto da escola de minha filha esperando por ela. Chegou um mudo e abriu a mão em minha direção e nela havia duas moedas. Acho que ele queria mais. O gesto que ele fez, eu entendi que era para inteirar o dinheiro para que pudesse almoçar. Eu respondi que não tinha. Fiz um gesto dizendo que eu poderia lhe pagar um almoço com o cartão. Não sei se não me fiz entender ou ele não tinha a intenção de almoçar naquele lugar. Aí a minha dúvida já aumentou. Nem sabia mais se o dinheiro era para o almoço. E gestos para lá, gestos para cá, ele abanava o dedo negativamente e me fazia aqueles movimentos de halterofilista quando se prepara para levantar um peso e a comunicação não se estabeleceu. Notei que ele ficou me olhando de cima abaixo enquanto fazia seus sinais e com um risinho meio irônico de canto de boca. Depois fomos cada um pro seu lado. E eu saí cabreiro e aborrecido quando fui resolvendo o enigma (suponho): e entendi bem depois. Ele quis dizer que eu já estava bastante gordo e não precisava almoçar. Ele sim.
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