terça-feira, 24 de novembro de 2009

ESTANQUEI DE REPENTE OU FOI O MUNDO QUE CRESCEU?

“...Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande...” (Mundo Grande, Drummond)

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MUDANÇAS

Desde pequena eu vivo mudando de cidade, de jeito, de estado,de forma.
Com 4 anos, de Mariana mudei para Belo Horizonte.
Com 4 anos depois da separação de meus pais, mudei para Piumhi.
Com 5 anos eu fui de Piumhi para Itirapuã.
Com 6 anos eu era uma criançinha.
Com 7 anos mudei para Abaeté.
Com 9 anos voltei para Piumhi.
Com10 já não sou mais criança,sou pré-adolescente.
Na 5º série já não sou mais boba.
Mas no mundo sou uma poeirinha.

(Clara, minha filha de 11 anos)



O mundo de repente parece que cresceu. Ou vejo-o diferente Foi a velocidade da informação que fez essa aproximação. O que antes era ameaçador quando eu tomava conhecimento agora espanta se não tiver sido visto. Como se ficasse aguardando a tragédia do dia, o estupro, o roubo inédito, o escândalo do momento, a fama repentina de mais um desconhecido, a dica do último especialista e outras efemeridades que passeiam ao meu alcance numa velocidade inimaginável há vinte, trinta anos. O sobressalto deixou de fazer parte do contato com o noticiário para se transformar em oportunidade para alguns, indiferença para os de sempre e escárnio para outros. A indignação coletiva revertida em alguma ação transformadora continua em último lugar, como sempre foi desde que o mundo é mundo.


Para quem está habituado com o mundinho de sua cidade, de sua rua, de seu bairro, de seu país, o mundo cresceu muito. Para quem nascer agora, não vai haver nenhuma surpresa quando chegar a uma idade de compreensão mais abrangente das coisas. O susto é meu. É agora.


Há uma inquietação permanente rondando o meu imaginário. Fatos que chamamos atualmente de banalização de desgraças aconteciam, sempre aconteceram, porém ficavam restritos a um local, a uma região, agora se espalham pela terra num clique no mouse. Vêm em forma de pacotes diários, causam profundos choques, abalam convicções sólidas, geram anúncios apocalípticos, suscitam religiões, confundem mais que esclarecem e têm adoecido psiquicamente uma boa parte das pessoas que não se dão ao trabalho fazer uma digestão lenta de tanto alimento fornecido em forma de abertura de portos, cortinas, aeroportos, bibliotecas e canais de comunicação, tendo a internet como o boi que puxa essa carroça com tudo que está sendo considerado novidade.


O mundo diminuiu. E me diminuiu também diante de seu gigantismo todo agora colocado sobre os meus ombros, meus olhos, minha consciência habituada ao provincianismo das metrópoles. Isto mesmo: se considerar tudo o que está ao alcance em tempo real e fugazmente, sou provinciano. Pelo menos nas idéias.



“...mundo, mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima não seria uma solução.” ( Poema de Sete Faces - Drummond)


4 comentários:

Thomaz Ribeiro disse...

Entender o que se passa ao nosso redor parece uma das mais difíceis tarefas. Se uma bomba explode em Tel Aviv em menos de cinco minutos sei da notícia sem sair da sala de minha casa. Meu vizinho ao lado mora na minha rua há cinco anos e sequer sei seu nome. O Admirável Mundo Novo de Huxley já não é mais ficção. Acho que nasci na época errada, desde menino olho para as coisas com um olhar de saudade. Sua crônica me faz pensar em que ponto estão as nossas relações. Belo texto.
P.S - A sua filha vai longe. Parabéns.

Murilo Rafael disse...

Adorei o texto, meu caro. Questões que sempre nos fazem refletir sobre o conteúdo desse novo mundo; dessa nova realidade. Estranha e dura.

Um abraço,
mR.

P.S: Também gostei muito desse espaço e pretendo voltar. Tornei-me um seguidor.

Miriam de Sales Oliveira disse...

Meu querido cláudio,às vezes o bombardeio de informações me deixa tonta.Concordo com o Thomaz,pois,eu n/sei o nome da vizinha da esquerda,mas,estou a par de tudo q/se passa a anos luz da minha casa.
Esta aldeia global,de repente,fica dificil de encarar,Principalmente,porque as más notícias se sobrepõem às boas.É ruim ver q/todas as espécies evoluem exceto os homens.
bjs

shintoni disse...

Cacá:
Seu Aedo Cibernético já foi postado no Duelos, ok?
Valeu mesmo!!!
Abração e tudo de bom!

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