domingo, 10 de maio de 2009

ENTRANDO NA VARA

- Amor, tô indo lá na Vara! Gritou a mulher na porta.

- Opa, pera aí, que negócio indecente é esse?

- Calma, meu bem, é na Vara de família.

- Piorou, além de corno ainda tenho que passar por esse constrangimento? E com alguém da família? É algum irmão meu? Sobrinho? Ou é da sua família? Que é isso, onde estamos?

- Achei que você soubesse. Vara é a separação das especializações judiciais. Tem vara de família, vara criminal, vara civil, entendeu agora? Vou lá buscar um processo. Preciso fazer um laudo pericial.

Ah, bom, meu coração já tava aqui se despedindo. Não iria aguentar um sofrimento desses.

- Se você fosse se despedir de mim por esse motivo, teria que entrar na vara junto comigo. Mas na de família, pois é onde se fazem os divórcios, explicou ela, saindo e batendo a porta impaciente.


Há algumas denominações que nos deixam assim, intrigados, por combinarem a sua função nobre com situações cômicas. E podem se tornar trágicas se não vier uma explicação razoável para que a ignorância no assunto desapareça.


No Brasil colonial, lá no séc XVII, quando ainda nem existiam cidades, as vilas eram administradas por um regime de nomeações de pessoas de posses e títulos concedidos pela coroa portuguesa. Juízes, vereadores e homens da segurança portavam cada qual uma vara que, pelas suas características, distinguia o cargo e conferia autoridade e dignidade. O juiz (que não era do lugar, daí a expressão Juiz de fora) empunhava a sua, branca, com uma cruz sob a qual prestava juramento. O vereador levava outra, vermelha, com as figuras das armas do reino e a dos quadrilheiros (uma prévia do que viriam a ser os policiais), era verde, usada para separar briguentos de rua e efetuar prisões. 1


Não sei por que somente a justiça permaneceu com essa denominação. A polícia perdeu a vara, mas o cassetete continuou garantindo as bordoadas. Já os vereadores, mesmo sem as varas, continuam com o condão, multiplicando-se em número e benefícios, sob a égide da justiça e a proteção da polícia.

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1 – In: Donato, Hernani, História dos Usos e Costumes do Brasil – 500 anos de vida cotidiana. Ed Melhoramentos, São Paulo, 2005.

3 comentários:

Groo Veiga disse...

Eita, é por isso que é bão passar por aqui! E quem não teria curiosidade em saber da vara? Ops! Tá vendo, só serve mesmo para fazer trocadilhos infames!

Bem interessante saber disso.

E quanto aos vereadores...claro, continuam como fadas madrinhas deles mesmos. Aliás, para que diabos serve um vereador mesmo??? Salário mínimo pra essa cambada já!

abs!

SIMEI DE ALMEIDA disse...

Cacá!

Independente da sua "vara" ou melhor: da Vara que ocê explicitou, ocê não gosta de pegar numa vara deveis em quando? Num é bom pegar numa prá dar umas pescadinhas num final de semana?

Também tem Vara de porcos (Coletivo)

Abs.

Ops... Tô ligadinho direto aqui numa Rádio "Viola Viva" - Uberlândia.

Vitor disse...

Rs. Muito bom. Termos jurídicos são ótimos pra trocadilhos. Contribuo agora com um causo. Diz que durante uma audiência em que se estava ouvindo uma testemunha de um crime de estupro, o Juiz, em início de carreira, vai e pergunta pra testemunha: "Então Senhor João, o Senhor foi arrolado como testemunha para esse julgamento". O Senhor João, pessoa muito humilde, pensa, vira para o Juiz e responde: "Não Doutor, quem foi arrolada nessa história toda foi só a Mariazinha, eu to aqui só pra contar o que aconteceu", rs. Muito embora os termos jurídicos não sejam cerveja, devem ser usado com moderação, rs.
Té mais.

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