domingo, 2 de agosto de 2009

UMA DENTADURA

A dignidade humana não tem uma definição única aceitável como sendo um padrão. Cada época, cada conjunto de valores que permeiam o cotidiano das pessoas estabelece um modelo de dignidade a ser seguido. Pelo menos para a maioria. Essa mesma maioria que é dada a aceitar de bom tom e pouco ruído crítico aquilo que escorre pelos canais de televisão, que rumina das bocas dos entendidos ou poderosos. Vira coisa de todos. O diferente é indigesto. Ou é excluído, ou é marginalizado, ou é ridicularizado. Para clarear esse nublado pensamento, exemplifico com a modernidade.

A dignidade padrão da atualidade é medida pela quantidade de bens que consumimos. Quanto mais coisas se pode ter, mas se é considerado digno. Já houve ocasiões em que ética, moral, bons costumes, conferiam alguma dignidade pública. Agora, no máximo uma admiração tímida e velada. Nada que possa ser alardeado. A menos que esteja em companhia de dinheiro ou fama.

Pois bem, o Seu Zé Antônio tinha uma dentadura. Um par, exatamente. Dessas tratadas a água potável na hora do descanso noturno para higienização e repouso das mandíbulas oprimidas o dia inteiro. Fazer o quê, é preciso sorrir com dignidade! Sem contar que também se faz necessário mastigar.

Ele foi à fossa fazer sua eliminação das coisas mastigadas e demorou demasiado. Peão de obra não pode demorar no banheiro. Mas a demora estava preocupando acima da implacável punição àqueles que fazem corpo mole ao pesado serviço de obra. Podia ter se sentido mal. Seu chefe era um pouco condescendente com ele. Sabia de sua dignidade profissional, já trabalhavam juntos há muitos anos. Foi lá uma comitiva conferir. Batem à porta e ele sai, então, cabisbaixo, quase num choro convulsivo. A dentadura havia caído lá embaixo, enquanto ele fazia força para defecar. Teve uma vergonha enorme que chegou a lhe causar confusão mental. Não sabia se resolvia sozinho ou se pedia ajuda. Manchara a sua dignidade de cal e fezes. Embora não tivesse dinheiro para mandar fazer outra. E, diante da vergonha e da necessidade optou pela necessidade. Arranjou uma escada, desceu em meio à cal que cobria o odor das fezes múltiplas e buscou a dentadura. Colocou-a num copo com álcool. Ali ficou até o fim do expediente se purificando. Acreditou estar esterilizada após uma lavada em forte jato de água com sabão e recolocou a sua dignidade na boca.

3 comentários:

Enrique Andres disse...

Mas Cacá, que situação.
Se perguntares a diversas pessoas qual seria a sua atitude, seriam as mais diversas, desde procurar até a abandonar.
Muito bem exemplificado esse incidente, com a suficiente simplicidade de ser bem compreendido sem cair no desmérito do vulgar.
Uma explanação perfeita, bem dossada propria das melhores de tuas escritas.
Gosto de ler tuas matérias, são simplesmente ótimas!!
Parabéns Cacá!!

Thiago Quintella disse...

Moral da História: mesmo na merda devemos procurar nosso sorriso! A humanidade procura sempre os padrões de perfeição, mas ainda não se tocou que a imperfeição humana nos faz justamente humanos!

SIMEI disse...

Grande Cacá!

Um desses dias atrás levei minha princesinha numa clínica dentária, aproveitei e perguntei sobre a possibilidade de resolver minha dignidade com um implante. O chute foi tão bem dado, que minha dignidade esta correndo risco... (rs).

Abs.

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