quarta-feira, 16 de julho de 2008

MOBRAL

Até pouco tempo era comum, numa atitude para desmerecer alguém por dificuldade de entendimento de palavras, expressões ou compreensão de algum fato, chamar as pessoas de Mobral. O Brasil, numa época em que estava à espera de um milagre econômico criou o Movimento Brasileiro de Alfabetização para fazer as pessoas funcionarem melhor. O país estava de vento em popa na economia sob um governo militar. As coisas iam funcionando bem mas as pessoas não. A taxa de analfabetismo era de quase metade da população. O Mobral destinava-se a fazer com que todos pudessem ler e escrever, fazer contas e assinar o nome. Principalmente assinar o nome e fazer contas de mais, menos, dividir e multiplicar, como acabou acontecendo. Gente que não tivera a oportunidade de freqüentar a escola no tempo certo tinha a chance de freqüentar grátis, as aulas que eram ministradas em salões de igrejas, clubes recreativos e outros espaços cedidos na marra para esse fim. O ufanismo que tomou conta do país não era espontâneo. Foi estimulado para dar credibilidade a um governo que não havia sido escolhido pela população e mesmo com a força das armas queria alguma legitimidade. Se desse certo poderia se perpetuar no poder. Conseguiu, a trancos e barrancos sobreviver por mais de vinte anos.

Uma de minhas irmãs chegou a ser professora do Mobral. Tinha apenas dezesseis anos e já era professora de gente de trinta, quarenta e mais anos. Havia no programa uma proposta embutida de controle de natalidade para pobres e iletrados. A população ignorante estava crescendo muito e isso não era aceitável. O mal da desigualdade tinha que ser cortado pela raiz. Distribuíam para as freqüentadoras um leite em pó contendo um remedinho que emperrava a fertilidade das mulheres. Minha irmã tinha o hábito de tomar do leite no salão da igreja onde dava aulas e isso lhe custou anos mais tarde um tratamento de mais de cinco anos para conseguir engravidar.

O orgulho de ser brasileiro era vendido em slogans, propaganda maciça, música e muita bordoada para os descontentes. Os maiores ídolos desse ufanismo chamavam-se Dom e Ravel, uma dupla que cantava os valores e possibilidades do povo brasileiro. Alguns defensores dizem que eles eram assim mesmo e que suas músicas foram usadas pela ditadura. Outros, que eles estavam a serviço do sistema. Mas ficou a obra e a gente aprendia e cantava na escola, na rua e ouvia no rádio e TV, todos os dias. Para o Mobral, compuseram uma canção comovente (clique no link abaixo para ouvir) que empurrou centenas de milhares de pessoas para as salas de aula na esperança de serem agraciadas pelo milagre econômico depois de aprenderem que dois e dois são quatro e fazerem as garatujas de seus nomes.


2 comentários:

nVqvNv disse...

Fiquei perplexa ao ver que não havia nenhum comentário sobre o texto e tive de vir aqui apenas expressar a minha indignação por essas e outras heranças da ditadura militar e dizer que eu adorei o jeito que você escreve! Parabéns!

uai, mundo? disse...

Obrigado pelo comentário e principalmente por ter lido o meu blog. É um estímulo para continuar.

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