quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

MARIA DELFINA

Mãe, a senhora vai fazer mesmo é 76 ou 77? Tinha o hábito de esconder umas coisas de nós quando crianças, para proteger ou sei lá pra que... Dizem que a senhora mudou a idade para entrar na escola antes do tempo. Só lembro de ver em sua identidade o ano de 1931. Tinha lá também a origem: Cuiabá. Nem olhava a unidade da federação, mas achava muito chique pensar que a senhora tinha nascido em outro estado. Falava pra todo mundo que a minha mãe era de Mato Grosso. Outra descoberta tardia, mas alegre ao mesmo tempo: saber que tenho, além do sangue lusitano, um pouquinho de africano, italiano e índio botocudo. Que mistura boa virou essa nossa família! Foi bem recentemente que eu e o Thiago, seu neto de enfrentar, passamos nesse lugarejo chamado Cuiabá, ali, entre Caeté, Sabará, Nova lima e Raposos, bem abaixo da Serra da Piedade. Tinha lá antes de o progresso expulsar, uma tribo dos botocudos que remontam suas origens e as nossas. Fico pensando se o fato de a senhora gostar tanto, tanto de ir para o Espírito Santo na praia era motivado pela facilidade de transporte e preços mais em conta da colônia de férias do sindicato ou se tem a ver com um retorno às suas raízes. Contam uma história, que os botocudos vieram para Minas expulsos daquele estado e foram se espalhando pelo Brasil afora, mas a maioria se fincou aqui nas Gerais.


Mãe, o estoque de sua presença em nossas vidas não se esgota. Seja nas bravezas, nas carícias, nos ensinamentos, nos olhares que falavam ou nas palavras que calavam; acho que nunca vão ser esquecidos nem mesmo por aqueles de nossa descendência que nem te viram em vida. Maioria deles fala e pergunta de você como se estivesse aqui ainda entre nós. A senhora ultrapassou os limites que são reservados aos simples mortais.


Eu não te homenageio no dia das mães, não, que isso pra mim é coisa inventada para vender presente. A gente sempre comemorou o seu dia junto com o Natal e é tão bonito! Até hoje dá para ver direitinho a sua cara de satisfação diante de toda a família reunida. A senhora até tomava uns vinhos de leve para poder soltar mais o seu afeto e esquecer a dura trabalheira dessa cria enorme. E ainda comia bastante aquelas coisas que não podia por causa da pressão alta e do diabetes, mas dizia que se morresse, ia ser de felicidade e barriga cheia.


Nós continuamos a fazer as festas na comilança e bebedeira, mas falta a Senhora, falta o Zé João e sempre tem faltado um ou outro. A Senhora mesmo dizia que isso ia acontecer. Mas um que falta numa festa, às vezes tá em outra e assim vamos nos encontrando todos para dar um drible nessa sua predição e matar as saudades, claro. Tantos filhos que deixou e tantos netos, que muitos a senhora nem chegou a conhecer de perto. Estivesse a senhora aqui, já ia estar de bronca até com os bisnetos. Eles tão uma belezura, que só vendo. Eu também estou vivendo uma nostalgia danada, tentando conservar algum viço, já que a senhora vivia me iludindo, dizendo que eu parecia com o Kadu Moliterno, da televisão. Fala sério, né, mãe, era ou não era só para me agradar? Tem uma turma aqui que diz que tô mais para Cauby Peixoto. Se a Senhora ouvisse uma barbaridade dessas, soltava os xingos nesse povo de olho torto, tenho certeza.


Qualquer que fosse a idade, o seu aniversário é especial demais. Olha o dia!


A sua bênção para sempre.

2 comentários:

Ana disse...

Que envolvente Zé! Tão terno! Fiquei construindo toda uma história em minha cabeça, nela, sua mãe, tinha o rosto e o sorriso de satisfação da minha avó... Dá uma saudade boa, uma lembrança que não dói - tem lembrança que dói, né? Essa não! Adoro ler você! Sempre me envolvo... Beijos, Ana.

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