sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

TRABALHAR E COMER

Os glutões, nossos ancestrais tinham uma relação voraz com o alimento. Não importava muito qual fosse ele. Saciar a fome era garantia de mais um dia vivo. Portanto não primavam muito pela seleção. É verdade também que não havia muitas opções. Temperos então, o que dizer? Mas também não havia culpa com relação à quantidade  nem com estética corporal. Sendo o suficiente para repor energia estava bom demais. Afinal, depois iriam precisar sair à caça novamente. E era também esse o seu trabalho. Os aperfeiçoamentos que vieram com o tempo foram no sentido de melhorar seus métodos e diminuir os esforços para adquirir seu produto alimentar.
            O trabalho, na medida do desenvolvimento relacional com a natureza foi ganhando gosto  e especialização. Com isso o prazer ia aumentando. O homem descobrindo que com um instrumento novo, conseguia obter com mais facilidade os meios necessários para a sua subsistência.
            Os preguiçosos (que devem ter gerado os invejosos)  passaram a disputar o produto tecnológico que o outro inventou e a disputa ferrenha entre os homens passou a ser não só pela comida, mas também pelos meios mais fáceis de consegui-la.
            Bom, de lá para cá, muita coisa se passou e muita gente conhece essa história de como chegamos à mesa com toda a sofisticação moderna, com as culpas que vieram junto do ato de comer e do tédio provocado pelo trabalho. Desde que o homem deixou de fazer para si, com gosto  e teve que se sujeitar ao outro e ficar apenas com uma parcela de sua produção, trabalhar e comer não tem mais o mesmo charme lá das cavernas.
O que botamos para dentro e o que botamos para fora?
As angústias decorrentes desse processo histórico, antropológico e sociológico resvalam no estômago e nas crises decorrentes da insatisfação com o trabalho. Para dentro, enviamos alimentos que nos causam prazer momentâneo e culpa imediata. Alguns colocam outros  agentes, menos alimentares e mais tóxicos em sinal de rebeldia. Mas é opcional. Para fora, botamos ruminâncias verbais. Alguns colocam balas e outras formas de agressão. Opção ou doença?
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 Inspirado na crônica PATOLOGIA ASSUMIDA, de Milena Romariz (do  Recanto das letras).


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

FIM DO MUNDO

Os europeus foram os primeiros a desfrutar das maravilhas da civilização.  O império romano teve suas incursões pelo Egito, pela Grécia e se espalhou pelo resto da Europa e depois para o resto do mundo. Aproveitaram o que tinham e o que não tinham direito, através das conquistas e pilhagens de terras dos outros. Riqueza e glória nunca lhes faltaram. Exceto em intervalos de algumas guerras. Acabavam sempre achando gente para ajudar a repor os escombros, afinal, pela posição estratégica no globo, podem ser um aliado em potencial para qualquer demanda bélica ou mesmo humanitária entre os quatro pontos cardeais do globo. Aproveitaram tanto que acho que andam meio enfastiados. Não querem mais saber de reproduzir a população (por outro lado também não querem que ninguém de fora vá pra lá para ficar muito tempo). Se for de país pobre, então, nem pensar! Eles também são os povos que nos dão as primeiras dicas sobre o que vamos fazer depois que chegarmos ao patamar onde estão de evolução humana: voltar às origens, respeitar a natureza, o território alheio, cultivar bons hábitos alimentares, não poluir, etc, etc, etc.

Atualmente andam mais preocupados com o fim do mundo. Podem estar entediados, mas morrer ninguém quer, não é mesmo? O Cofre do Fim do Mundo construído na Noruega tem capacidade de guardar numa profundidade demais de 100 metros, bilhões de sementes de plantas para salvar a agricultura mundial e produzir novos alimentos em caso de catástrofes naturais como derivadas de mudanças climáticas, além de meteoritos, radiação nuclear de guerras ou outras intempéries que destruam a vida no planeta.

 A gente já sabe que é na Noruega, país relativamente pequeno; ótimo, teremos muito tempo para procurar onde fica o “túnel da vida”. Eu, na minha inquietante ignorância fico perguntado aonde a gente conseguirá as chaves das portas da esperança para abrir o lugar caso seja um sobrevivente?

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

PREGUIÇA

“A preguiça é a mãe do progresso. Se não fosse a preguiça, o homem não teria inventado a roda.” (Mário Quintana)

            Existem palavras, expressões e gestos amaldiçoados pela sociedade. A preguiça é uma delas. Com exceção daqueles já acostumados desde muito cedo à indolência, é muito difícil conviver com a preguiça, na mesma intensidade que é com a sensação culposa que ela nos traz. Pessoalmente, acostumei desde muito cedo a ouvir de meu pai ante uma cara feia que fazíamos quando nos mandava executar alguma tarefa: “quem quer faz, quem não quer, manda.” Como não mandava nem na minha fome, aprendi a plantar, capinar a horta, colher e ainda cozinhar antes de comer. Então resolvi pesquisar na internet a frase fenomenal do Quintana e deparei-me com outro monstro sagrado da literatura. Fiquei até com preguiça diante de minha insignificância perto deles. Por isso reproduzo, acima a frase e, abaixo, o texto do Veríssimo. Nunca iria conseguir produzir texto melhor. Nem com todo ânimo do mundo.

 

O que move a Humanidade

 Luis Fernando Verissimo

Existem muitas teorias sobre o que fez o Homem dominar o planeta e construir civilizações - enquanto o joão-de-barro, por exemplo, só consegue construir conjugados - e levar grandes mulheres para a cama - enquanto o máximo que um gorila conseguiu foi segurar a mão da Sigourney Weaver. Dizem que o cavalo é mais bonito do que o Homem e que a barata é mais resistente, mas não há notícia de uma fuga a três vozes composta por um cavalo ou uma liga de aço inventada por uma barata. Tudo se deveria ao fato de uma linhagem particular de macacos ter desenvolvido o dedão opositor, com o qual conseguiu descascar uma banana e segurar um tacape, as condições primordiais para dominar o mundo. A vaidade, outra característica exclusivamente humana (o pavão também é vaidoso, mas não gasta uma fortuna com as penas dos outros para fazer sua cauda), também teria contribuído para que o Homem prevalecesse, pois de nada lhe adiantariam suas façanhas com o polegar, e com as mulheres, se não pudesse contar depois. Daí nasceu a linguagem, e com ela a mentira. E o Homem estava feito.
            Mas eu acho que a verdadeira força motriz do desenvolvimento humano, a razão da superioridade e do sucesso do Homem, foi a preguiça. Com a possível exceção da própria preguiça, nenhum outro animal é tão preguiçoso quanto o Homem. O desenvolvimento do dedão opositor nasceu da preguiça de combinar dentes e garras para comer e ainda ter que limpar os farelos do peito depois. A linguagem é fruto da preguiça de roncar, grunhir, pular e bater no peito para se comunicar com os outros e, mesmo, ninguém agüentava mais mímica. A técnica é fruto da preguiça. O que são o estilingue, a flecha e a lança senão maneiras de não precisar ir lá e esgoelar a caça ou um semelhante com as mãos, arriscando-se a levar a pior e perder a viagem? No que estaria pensando o inventor da roda senão no eventual desenvolvimento da charrete, que, atrelada a um animal menos preguiçoso do que ele, o levaria a toda parte sem que ele precisasse correr ou caminhar? Dizem que a agressividade e o gosto pela guerra determinaram o avanço científico da humanidade e se é verdade que a maioria das invenções modernas nasceu da necessidade militar, também é verdade que o objetivo de cada nova arma era o de diminuir o esforço necessário para matar os outros. O produto supremo da ciência militar, o foguete intercontinental com ogivas nucleares múltiplas, é uma obra-prima da preguiça aplicada: apertando-se um único botão se matam milhões de outros sem sair da poltrona. Uma combinação perfeita do instinto assassino e do comodismo. A apoteose do dedão.

Toda a história das telecomunicações, desde os tambores tribais e seus códigos primitivos até os sinais de TV e a internet, se deve ao desejo humano de enviar a mensagem em vez de ir entregá-la pessoalmente ou mandar um guri resmungão. A fome de riqueza e poder do Homem não passa da vontade de poder mandar outros fazerem o que ele tem preguiça de fazer, seja trazer os seus chinelos ou construir as suas pirâmides. A química moderna é filha da alquimia, que era a tentativa de ter o ouro sem ter que procurá-lo ou trabalhar para merecê-lo. A física e a filosofia são produtos da contemplação, que é um subproduto da indolência e uma alternativa para a sesta. A grande arte também se deve à preguiça. Não por acaso, a que é considerada a maior realização da melhor época da arte ocidental, o teto da Capela Sistina, foi feita pelo Michelangelo deitado. Proust escreveu o Em Busca do Tempo Perdido deitado. Vá lá, recostado. As duas maiores invenções contemporâneas, depois do antibiótico e do microchip, que são a escada rolante e o manobrista, devem sua existência à preguiça. E não vamos nem falar no controle remoto.

(Se você não desistiu na segunda linha e leu até aqui, é porque não tem preguiça. Conheço o seu tipo. É gente como você que causa os problemas do mundo. São vocês que descobrem quando o autor está com preguiça e reaproveita um texto antigo. E isso não é humano!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - Mário Quintana

“Os clássicos escreviam tão bem porque não tinham os clássicos para atrapalhar.”
(Mário Quintana, escritor gaúcho)
In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.



“O sofrimento dos poetas é muito relativo. Pois se um poeta consegue um dia expressar as suas dores com toda a felicidade – como é que poderá ser infeliz? Camões, o velho Camões que o diga – com suas imortais penas de amor. Suas felizes penas de amor!”
(Mario Quintana, Na volta da Esquina)
In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.



As Trinta Linhas

“Um dia Álvaro Moreyra, já avô, contou-me que seu pai ainda lhe dizia: “Mas Alvinho, por que tu não escreves coisas de mais fôlego?” E ele, espalmando as mãos, num gesto de desculpa: “Mas eu não tenho fôlego, papai...” Depois dessa história, eu não precisava dizer mais nada. Contudo, não me sai da lembrança um professor do meu tempo de ginásio que, ao dar-nos o tema para a redação de português, dizia: “Não adianta escreverem muito, meninos, porque eu só leio a primeira página; o resto eu rasgo.” E assim nos dava, ao mesmo tempo, a primeira e melhor lição de estilo, obrigando-nos a reter as rédeas de Pégaso e a dizer tudo (que, aliás, não podia ser muito) nas trinta linhas do papel almaço, contando título e assinatura. A ele, pois, ao saudoso Major Leonardo Ribeiro, a minha gratidão e a de meus leitores.”
(Mário Quintana, Prosa e Verso)
In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.

imagem: lunaeamigos.com.br


“Mas para que interpretarem um poema? Um poema já é interpretação.”
(Mário Quintana, Na volta da Esquina)
In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

SÍNDROME DE SANSÃO *

A culpa que de mim se apossa por ficar à toa
Precisa ser exonerada.
Não fui eu quem lhe forneceu esse status doloso
Nem a nomeei detentora dessa prerrogativa.
Foi um conjunto de valores
onde só presta quem produz para o próprio sistema.
O resultado é distribuído a saber:
Pouco para quem produz muito
e muito para quem detém os meios de produzir.
Não valho nada se produzo com alegria e para minha própria alegria
Trabalhar por prazer é, para esse esquema,
o mesmo que ter prazer sem trabalhar
Mesmo se não pedir nada a ninguém,
mesmo se o que faço me mantém
sou um estorvo, malandro , vagabundo e preguiçoso.

* Síndrome de Sansão – Não  se trata do personagem bíblico, mas do cavalo, no romance “A Revolução dos Bichos”, publicado em 1944, pelo escritor, jornalista, ensaísta e militante político George Orwell.  O lema  de Sansão era “trabalharei mais ainda”. Depois do levante, foi mão de obra, sempre atuante nos canteiros do novo governo. Incansável, simbolizava o proletariado. Após sacrificar a própria saúde pelo ideal do animalismo, foi sacrificado pelos porcos, donos do poder. Ou os donos do poder, os porcos. Tanto faz.
Orwell nasceu  Eric Arthur Blair. E morreu assim também, com apenas 46 anos de idade. Mas a vida curta não impediu que, com o famoso pseudônimo, publicasse, entre outras coisas,  duas obras raras: 1984, que dispensa apresentações, e Animal Farm.
A fonte de onde tirei esta explicação veio de: Um elefante Caiu do Teto


Confúcio: "Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida."

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

ANAGRAMAS

Se uma vírgula faz muita diferença no significado de um texto, já pensou uma letra trocada de lugar? Uma perda pode virar pedra. Veja bem:

Imagine o extremo de trocar dois pontos cardeais. Basta uma troca das primeiras letras de leste e oeste e olhe aonde mandamos a pessoa? Se o erro for trocar o oriente pelo ocidente, será um acidente de percurso. O contrário vai deixar a pessoa precisando de quem a oriente.

Uma fragrância flagrante é surpresa cheirosa. Já um flagrante fragrante pode ter um terrível mau cheiro moral, dependendo do produto que estava sendo surrupiado ou contrabandeado.

Se você cair e fraturar mas escrever  ou disser que flatulou, vai ser difícil arranjar auxílio. Ficará com a dor (sem odor), porém com a pecha de porco e mal educado.

Uma carta magna cuja função é botar ordem nas coisas todas pode virar uma carta manga (ou na manga). Aí pode ser um simples blefe de jogador, uma estratégia de um competente profissional ou pode virar ofensa nacional se, por exemplo, forem os congressistas aumentando os próprios salários para quase o dobro e estão de saída, quase no último dia de seus mandatos. Os outros que estão chegando recém eleitos, em tese, não tem culpa (mas aceitam de bom grado). Quando a vida é limitante, só virando militante a gente concerta conserta.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O EGITO ESTÁ UM AGITO SÓ.

Os faraós costumavam morrer muito novos (suspeita-se que muito mais por problemas congênitos do que por esforços malsucedidos de guerras). Acho que o único que durou mais de  trinta anos no poder foi Ramses II. O tal do Mubarak já está lá há trinta anos. Ele já está bem próximo de se transformar numa múmia! Será que vai querer também construir uma pirâmide para si?

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

BUSCAS

Somos mesmo produto do meio como se afirma tão facilmente no senso comum, pouco afeito a questionamentos interiores e exteriores? Na verdade, o “sim, senhor”, o “a vida é assim mesmo”, o “sempre foi assim” são expressões corriqueiras que podem nos dar uma pista na direção a favor do resultado da equação:

meio + influências = produto.

Quero concentrar-me aqui no aspecto sociológico da reflexão, que inclui o lado psicológico também, da sociabilidade que estabelecemos a partir do momento que desgarramos para a estrada, a ter a nossa existência garantida por nossos próprios recursos materiais. Não quero falar se me tornei um mecânico, depois um historiador, um cozinheiro e escritor por influência do meio em que vivi anteriormente. O que me fascina observar é o que sou no dia a dia, meus medos, minhas apreensões, minha audácia, minha bondade, meu índice de maldade, minha indiferença, a minha solidariedade, minha capacidade de doar-me, minhas angústias, meus remorsos, minhas dores, minhas alegrias, minhas tantas idiossincrasias, esta palavra que finalmente é a síntese que mais me aproxima de um auto retrato.

Se ajo assim ou assado diante de uma circunstância é por causa do efeito que o uso de meu livre arbítrio gerou para julgar a minha capacidade de resolver as coisas que se apresentam em minha vida. Não, senhoras e senhores, não é a perfeição. Aqui entram as intempestividades, os arroubos, as ações que podem, num primeiro momento, ser consideradas desequilibradas. Mas o meu jeito de ser e levar a vida vai corrigir ou não mais à frente o que fiz. Ou na hora mesmo em que as coisas aconteceram, posto que estamos falando de relações humanas e então haverá sempre uma reação do outro lado.

As tais qualidades de caráter mais significativas tem sim, tudo a ver com um acumulado de essências que transitaram em nós, por nós e para nós em algum momento do passado. Desvios? Há. Tanto os provenientes de nossas escolhas, quanto da falta de capacidade de discernimentos. Há também um mundo de oportunidades não disponíveis e há um mundo de oportunidades desprezadas. Isso faz muitíssima diferença quando se chega a uma certa idade ou a um grau de amadurecimento e a gente para, a fim de fazer umas confabulâncias interiores.

Fico pensando no tanto que “puxei” pelo lado de minha mãe e de meu pai, do tanto que alguns tios me ensinaram e outros que me deram mal exemplo pra caramba! O tanto que as professoras de minha infância foram importantes na minha formação. Meu amigos todos os que passaram por mim e os que permaneceram, bem como os que hoje me chegam. Meus relacionamentos afetivos, o tanto que aprendi com a paternidade e se tenho ensinado. Isso com olhos de agora, de lá da galha alta da árvore, esse fruto “de vez” (aquele que está com potencial para amadurecer) que em algum momento vai ter cumprido o seu ciclo.

O tempo com sua inclemência avassaladora é nosso aliado ou algoz de acordo com o alcance que a nossa vista vai atingindo com esta tal maturidade de que falo e busco tanto. Quero não ter que me preocupar com o processo de envelhecimento de minhas células. Não se o processo me garantir vitalidade física e mental. A física, em forma de boa saúde. E a mental , se se mantiver nesse fino equilíbrio entre a sanidade e a loucura transformadora, já estará bom demais.

Reinventarmos o meio é a maior prova de que amadurecemos. Bem ou mal vamos modificando o produto. Se amadurecemos bem, aprimoramos. Se amadurecemos mal ou não amadurecemos, vamos vivendo feito isso que somos considerados em última instância: mercadoria descartável, peça de reposição neste gigantesco mecanismo humano de quase sete bilhões de  componentes.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

AEDO CIBERNÉTICO * - DUELO MUSICAL

Há tempos (bons tempos), quando as brigas ainda eram líricas, contavam que Paulinho da Viola havia criticado o Benito de Paula por estar matando o “samba” (ele, o Benito, só compunha ao piano). Então o Benito fez essa música em resposta à afronta.

OSSO DURO DE ROER
(BENITO DE PAULA)

Estão querendo tirar meu nome do samba
Tirar meu tempo de bamba
Dizendo até que eu já me despedi
Mas ainda não chegou minha vez de ir embora
Deixa essa gente falar
É inveja que eles sentem
Estão querendo acabar comigo de vez
Eu não ligo, eu não sou freguês
Vou ficar com meu samba osso duro de roer
É que ainda não chegou minha vez de ir embora
Deixa essa gente falar
É inveja que eles sentem
Canto mais um samba
Que é pra todo mundo ver
A minha bandeira do samba
Deus ajuda a defender




Bem, aí, como bom desafiante, o Paulinho deu a resposta e cravou no peito do Benito um
ARGUMENTO

Tá legal
Tá legal, eu aceito o argumento
Mas não me altere o samba tanto assim
Olha que a rapaziada está sentindo a falta
De um cavaco, de um pandeiro ou de um tamborim

Sem preconceito ou mania de passado
Sem querer ficar do lado de quem não quer navegar

Faça como um velho marinheiro
Que durante o nevoeiro
Leva o barco devagar




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* Na antiguidade, como a escrita era pouco desenvolvida, o AEDO cantava as histórias que iam passando de geração para geração, através da música. Depois, veio o seu assemelhado na idade média que era o trovador. Hoje, juntado tudo isso com a tecnologia, criei o AEDO CIBERNÉTICO.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - Carlos Ceia

UM APARTE: com esta postagem estou homenageando o MÁRCIO JR do blog Abismo das Vaidades.  Hoje é dia de seu aniversário e não vejo, daqui de longe, uma melhor forma de abraçá-lo, de desejar-lhe muita saúde e alegrias senão através daquilo que é substância vital para ele: a leitura e a escrita. Claro que gostaria de lhe dar o abraço, de tomar com ele um café e cantar-lhe os parabéns. Mas isso aqui fica sendo oferecido com festa, pois bem sei que ele vai apreciar. PARABÉNS, meu amigo Márcio! De todo o meu coração e com todas as letras possíveis. 
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Da importância de ler e escrever
   LER
1.   “ Acredita-se que a leitura é uma aprendizagem desde os primeiros dias de vida. Ler a uma criança por ser, ainda no útero, pode ser benéfico, mesmo que a ciência não consiga provar que espécie de benefício possa ser esse. Sabemos, isso sim, que em qualquer dos casos ler é um alimento do espírito sem o qual ficamos incompletos. 
2.    Ler às crianças durante os seus primeiros anos de vida, ajuda-as a crescer não só intelectualmente como do ponto de vista da compreensão do mundo. A medida da imaginação de cada um na vida adulta, a meta que cada um de nós consegue atingir no exercício da mais espantosa e complexa das nossas capacidades — o ser capaz de pensar — é determinada pela forma como nos moldaram a nossa imaginação durante os primeiros anos de vida. Somos o que lemos. Quem nunca leu ou quem leu muito pouco, não conhece nem o mundo em que vive nem os mundos que podemos sonhar.
3.    Quem lê, vê mais; quem lê, sonha mais; quem lê, decide melhor; quem lê, governa melhor; quem lê, escreve melhor. Poucos são os atos que valorizamos e que praticamos que não possam ser melhorados com mais leitura.
4.    Recomendar a leitura de livros é tão importante e tão inútil como recomendar que se beba muita água. É bom leitor quem transformou o ato de ler numa necessidade e num instinto primários.
5.    Ler é um remédio santo para a mais complexa das doenças que é a solidão. Ninguém está só, havendo um livro para ler. E se tivermos um livro para escrever, então somos muitos. “
 
   ESCREVER
1.   “ Um escritor não tem/não deve ter nada para ensinar sobre os seus livros. Muitos podem pensar que sim, por isso dão muitas entrevistas, onde explicam e interpretam aquilo que escreveram, como se os livros estivessem incompletos ou como se receassem que uma leitura alheia os possa desvirtuar. Um livro publicado não pertence mais ao escritor. E de certeza que a interpretação da obra de arte não passa por quem a criou ou não depende de quem a criou. O que é histórico ou sempiterno já ultrapassou o seu criador.
2.    É possível falar das motivações da escrita. Porque escrevemos? Como escrevemos? É tudo o que de interesse público deve um escritor revelar. O resto é um espetáculo que não merece ser aplaudido.
3.    “O que é mais difícil não é escrever muito; é dizer tudo, escrevendo pouco” (Júlio Dantas); hoje escreve-se pouco, com o pretexto de que se diz muito. A sociedade da informação na qual somos obrigados a viver não tolera o muito que podemos dizer quando escrevemos mais do que esperam de nós. Continuamos a fazer o elogio do minimalismo literário. Quanto mais aforístico for o nosso pensamento, maiores serão as probabilidades de sermos ouvidos ou lidos. Ninguém se importa hoje com o fato de que aprendemos a escrever pelo esforço, pela repetição, pelo treino desta alta competição que é a de ser escritor.
4.    Escrever é um desporto único de alta competição: pratica-se ao longo da vida, exige um treino intensivo diário, e tem a grande vantagem de ser arbitrado pelo público.
5.    Quando Harold Bloom publicou How To Read And Why (2000), uma obra escrita para elogiar o poder da leitura literária contra o impoder de certos fenômenos juvenis como Harry Potter, acreditou que era possível trocar precisamente o Harry Potter por Shakespeare, Cervantes, Oscar Wilde ou José Saramago. E disse numa entrevista: ''Para pensar melhor, precisamos da memória do que foi ensinado, lido e escrito. E isso só se encontra nos grandes livros.'' A questão que se coloca é: se não temos muito tempo para ler, o que devemos ler? J. K. Rowling ou William Shakespeare? Consta que na primeira semana em que o livro de Bloom esteve à venda, recebeu mais de 400 cartas protestando contra a crítica aos milhões de leitores de Harry Potter.
6.    Bloom não gosta de Harry Potter, porque, diz, é uma colecção de lugares comuns que em nada enriquece os jovens. Recomenda como alternativa o clássico Alice no País das Maravilhas (1865), de Lewis Carroll, e o excelente Contos de Shakespeare (1807), de Charles Lamb. Ora, eu aprendi a ler através da literatura oral e popular e devorando todos os livros de banda desenhada que o meu pai colecionava. Aprendi a ler através dos lugares mais comuns da própria literatura. Aprendi que ler tudo é o melhor remédio para saber hoje o que é que vale a pena ler. A pergunta J. K. Rowling ou William Shakespeare? nunca devia ser ser colocada perante ninguém. O importante é o compromisso que cada um de nós estabelece com aquilo que sente que deve ler. Errado é pensar que J. K. Rowling é suficiente. Harry Potter é apenas um cantinho do mundo. As tragédias de Shakespeare estarão certamente do outro lado do mundo, mas a nossa imaginação, se estiver predisposta a isso, pode viajar para todo o lado e não deixar ninguém de fora.”

In: Carlos Ceia, O professor Sentado: Um Romance Acadêmico. Ed. Duarte Reis, Lisboa, 2004

domingo, 30 de janeiro de 2011

BRINCADEIRAS COM PALAVRAS *

Gosto de brincar com o significado das palavras. Escolho umas que “soam” meio esquisito aos ouvidos ou mesmo que tenham uma grafia engraçada. Aí dou a elas o significado  que  poderiam ter se acompanhassem exatamente o som que fazem aos nossos ouvidos ao serem lidas ou pronunciadas. Estão abertas novas possibilidades para você também, leitor(a).
OBS: ao final de cada brincadeira está a definição correta da palavra.


ANTIPIRÉTICO: É um remédio para não deixar a gente pirar
(medicamento para combate à febre)

BISCOITO: Uma relação sexual tão boa que pede repetição.
(Bolinho de farinha de trigo, de maisena, queijo, etc)

CORNUCÓPIA: Clone de alguém que levou um chifre
(símbolo mitológico, atributo da abundância, símbolo da agricultura e do comércio).

DIACRÍTICO: Aquele dia terrível! Pode ter sido tenso, limite para algum prazo, estressante, etc.
(Diz-se de sinal e/ou sintoma tido como característico de uma doença).

EXPANSÃO: Um cara sarado, que já teve uma pança muito grande.
(difusão espontânea)

FLATULAR: O Cebolinha queblar algum osso do corpo
( o mesmo que soltar pum)

GLOSSA: “Áspela”,  “ignolante”
(Projeção mediana dos lábios dos insetos)

HAGIOTERAPIA: Tratamento clínico para agiotas
(Cura de doentes por intervenção de santos ou por ocorrência de milagres)

ISQUIAGRA: Remédio estimulante que criaram para excitar a pessoa que pretende esquiar
(Dor fixa nos quadris, dor ciática)

JENIPAPADA: Essa é mais uma daquelas maldades típicas do ser humano. Na minha terra havia uma mulher chamada Jenivalda (isso mesmo, com “J”). Era naquela época em que o sal de cozinha ainda não vinha adicionado de iodo. Então era muito comum as mulheres sofrerem de bócio. Ela foi acometida e seu pescoço ficou com um papo enorme. Daí, o apelido de Jenipapada.
(doce feito com jenipapo cortado em pedacinhos e misturado com açúcar)

LEUQUEMIA:  Descobriu a onomatopéia do gato através da leitura.
(o mesmo que leucemia)

MOSSAMEDINO: Uma moça (mineira) tirando as medidas de alguma coisa.
(natural ou habitante de Mossâmedes, GO)

NOÉTICA: Código de conduta que foi estabelecido na arca de Noé
(Estudo das leis gerais do pensamento)

OVISSACO: Dois componentes  do órgão genital masculino
(formação serosa do ovário, que contém o óvulo)

PADECENTE:  Um instrumento de trabalho do pedreiro em boas condições de uso. Uma boa pá.
(que padece, que sofre)

QUEROMANA: Desejo de ter uma irmã.
(Antigo bailado campestre – espécie de fandango)

RITARDANDO: Demorando a rir (Dizem que  quem ri por último é ritardado)
(Atrasando pouco a pouco o andamento do ritmo musical; trecho musical executado lentamente)

SUSTENTAR Ficar na fila do Sistema Único de Saúde a fim de conseguir algum procedimento médico.
(suportar, manter)

TURCOMANO: Um brother turco
(indivíduo natural ou pertencente  ao povo turco que vive na Rússia, Usbequistão, Afeganistão e Irã)

UFANISTA: Aquele que vive dizendo Ufa!, exprimindo alívio, ironia, admiração ou cansaço.
(aquele que se orgulha de algo, que se jacta, que honra)

VOLUTA: Uma avó que batalha
(arquitetura - ornato espiralado de um capitel de coluna)

XAINXÁ: Muito comum (dizem) na Academia Brasileira de Letras, todos os dias às 17 horas - o famoso chá das cinco -, os imortais vão provando, na mesa do lanche, de chá em chá.
(o soberano dos soberanos, no Irã)

ZOOTAXIAR: Um avião taxiando (manobrando) em meio a animais na pista do aeroporto
(ato de classificar metodicamente o reino animal)

* Fazem parte de meu livro As coisas do Avesso.

sábado, 29 de janeiro de 2011

PLANO FUNERÁRIO

Bem diz o Zé Simão que “esse é o país da piada pronta.” Ligaram-me  de um serviço funerário vendendo um plano para garantir segurança a mim e à minha família. Depois da inevitável gargalhada eu resolvi ouvir, já que agora estou dando o troco aos telemarketings baseado num vídeo gravado pelo Benvindo Siqueira (assista abaixo, é hilário). Não podia perder a oportunidade de colher uma matéria prima para uma crônica, já que eles vão colher a mim como matéria prima para o  pó depois que eu partir desta para uma outra dimensão. Por menos de 1 real por dia, segundo a moça, eu poderia garantir este conforto na hora do desconforto
- Mas, minha filha, eu não vou me preocupar com isso, é coisa para os outros que vão ficar...
- O senhor sabe como é, nos momentos mais difíceis ninguém tem “cabeça” para essas providências, é um constrangimento... E a gente cuida de tudo, basta uma ligação e daí pra frente é tudo por nossa conta.
- Mas, minha filha, se alguém tiver que ligar pra vocês, o desconforto já estará estabelecido. Ou a própria partida já não é um desconforto? (Pra vocês deve ser um conforto, né? Pensei mas não disse). 

- Como seria? - Alô, é da funerária? Olha, pessoal, o fulano de tal, contrato número tal acaba de ser agraciado com seus serviços de segurança contra constrangimentos. Faleceu em tal lugar. Podem ir lá e tomar todas as providências. Isso eu disse.

- A gente precisa pagar antecipado para isso? E tem mais: eu vou ter que ficar me lembrando todos os meses que tenho uma prestação do meu enterro para pagar até o dia que eu não precisar mais me lembrar e alguém fazer isso por mim? Isso também eu disse.

- Sei que é uma situação delicada, senhor, mas, pense bem, o senhor ou qualquer membro da família que for contratado terá direito ao caixão, uma coroa de flores com nossas “homenagens”, suporte, um par de castiçais com velas, o transporte e o sepultamento sem que algum familiar tenha que desembolsar mais nada além desses 29,90 por mês.
- Tá bem, já anotei o nome de sua empresa aqui. Vou avisar pra todo mundo que conheço que não quero as suas “homenagens.” Não quero nem de graça! Pelo menos nos próximos 40 anos!



sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

INOCENTES ÚTEIS

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Aqui na cidade dizem que há a proporção de um ônibus para cada 548 passageiros, de acordo com a demanda atual. Vem a prefeitura e diz que vai dar um jeito de remanejar os horários das linhas mais problemáticas. Mandar os donos comprarem mais ônibus, nem pensar! Afinal, isso oneraria os custos das empresas e aumento nas passagens. E quem pagaria a conta? Melhor continuarmos pagando com atrasos, ira e “ensardinhamento”, porque a grana é curta para quem precisa de transporte público.
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Vivemos um permanente processo de “refenização” por esse Brasil afora. Veja o que acontece com a TV a cabo: a gente paga para ter canais de programação exclusiva e já enfiaram propaganda comercial como na TV aberta. E isso quer dizer que agora a gente além de ter que engolir mais esse sapo, ainda pagamos por ele. Segundo a desculpa que deram aos Procons, se não fizerem isso, a TV a cabo fica inviável no Brasil, devido ao baixo número de adesões. E nós com isso? No capitalismo não vale a máxima “quem não tem competência não se estabeleça?” 
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Veja o que está acontecendo com os aeroportos. Todos os dias ao ouvir ou ler notícias há um destaque para atrasos de voos. As empresas alegam sempre problemas meteorológicos. O que a gente bem sabe é que há uma venda de passagens maior do que a capacidade que os aviões (overbooking). E eles não aumentam a frota, porque senão vai aumentar custos e repassar aos consumidores.

Quem tem uma curiosidade meio de economista e lê resultados de balanços dessas empresas vê que os lucros estão subindo na mesma proporção da indignação geral. 
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Não saímos do cativeiro econômico. Afinal, os empresários financiam as campanhas dos políticos para que eles venham até os mais longínquos e pobres lugares, obtenham os votos da maioria e mantenham uma forma de não trazer aborrecimentos para eles (empresários).
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CANDIDATO: Pessoa que obtém dinheiro dos ricos e votos dos pobres para proteger um do outro depois de eleito. (Do Anedotário Popular)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

VIVER O PRESENTE

Passando o passado num presente sem futuro (frase e imagem: akiazero.blogspot.com)

Muitos afirmam que o importante é viver o presente. Concordo. Mas ele tem que ser vivido de forma a se construir algo. Senão, quando chegarmos à vida madura, sem nenhum passado digno de registro, a tristeza, a depressão e a angústia vão nos devorar. Muito mais que nos devoram a louca vida de competições, a pressa e  o egoísmo.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

TERRORISMOS DOMÉSTICOS

Já houve uma época em que se exercia um terrorismo doméstico com apoio ou pelo menos cumplicidade estatal estadual, municipal e federal de toda espécie. Criança desobediente virava potencial vítima do bicho papão, da mula sem cabeça, do boi da cara preta. A este último concedam perdão para Dorival Caymmi. Dizem que a belíssima canção Acalanto* ele fez em homenagem à sua filha Nana, a quem ajudava a fazer dormir de vez em quando. Eu a cantei muitíssimas vezes ninando as minhas duas filhas. A letra e a melodia toda são muito lindas e só peca no momento de invocar o ser medonho para a menina. Se bem que um bebê de colo sequer associa as palavras com imagens. O que conta para eles é a melodia. Se o cantador que estiver ninando a criança for muito desafinado, creio que assusta muito mais do que um boi da cara preta propriamente, que a criança nem sabe o que seja.

Eram as formas de que se dispunha antigamente, através do mistério e da intimidação para manter as crianças sob obediência cega. Diante do mistério, se a gente não possui conhecimento ou defesa, o jeito é enfiar a coragem entre as pernas e ir dormir calado ou chorando sob as cobertas. Não deixando apagar a luz do quarto, por vias das dúvidas. Hoje em dia a letra seria diferente por exigência de um movimento de purificação que ronda a educação dos filhos por ai afora.

Há ainda outros terrorismos e me prendo aqui às aulas particulares que costumamos arranjar para os filhos que estão com dificuldade escolar em alguma matéria. Alguns pais normalmente antes de procurarem uma terapia de casal, de questionar a metodologia da escola, o temperamento do professor, já imputam aos filhos a culpa pelo “fracasso” e lhe matriculam em uma aula particular. Desconheço um adulto que foi vítima desse terror na infância a passou a gostar da matéria em que foi obrigado a fazer aulas de reforço.

Eu, ex-terrorista doméstico, um dia dei um jogo eletrônico de Sudoku para a minha filha que já era refém das aulas de Kumon. A menina abriu o brinquedo com um sorriso mais amarelo que se pode imaginar, com aquele olhar de subtração e o encostou em um canto para não me fazer desfeita. Nunca mais brincou com o troço e até hoje tem horror à matemática. A sensação que tenho do que ela sentiu à época é como se eu desse a um preso injustamente numa cela um par de algemas prendendo seus braços para ele ir brincando de aprender a abri-la durante a sua pena.


*ACALANTO
Dorival Caymmi


É tão tarde, a manhã já vem
Todos dormem, a noite também
Só eu velo por você, meu bem
Dorme anjo, o boi pega neném


Lá no céu deixam de cantar
Os anjinhos foram se deitar
Mamãezinha precisa descansar
Dorme anjo, papai vai lhe ninar
Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Pega essa menina
Que tem medo de careta

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - Willian Blake

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“Tudo que escrevemos é fruto da memória ou do desconhecido. Se tiver uma sugestão a dar, respeite o desconhecido, e busque nele sua fonte de inspiração. As histórias e os fatos permanecem os mesmos, mas quando você abre uma porta no seu inconsciente e deixa-se guiar pela inspiração, verá que a maneira de descrever o que viveu ou sonhou é sempre muito mais rica quando o seu inconsciente está guiando a caneta.”

Willian Blake,  poeta ingles

domingo, 23 de janeiro de 2011

O MEU JARDIM

Nasceu um girassol, é lindo!
Onde plantei sementes de pimentão
E tem gente que ainda diz
Que passarinho só serve para fazer cagada.


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Embora o vento ajude a polinizar muitos tipos de árvores e gramíneas, plantas floríferas que não existem em grande quantidade perto de outras da mesma espécie precisam de um método mais eficiente. Como o pólen dessas plantas chega a outras da mesma espécie que vivem a quilômetros de distância? Por meio de um serviço de entrega muito eficiente realizado por morcegos, pássaros e insetos.
(Fonte: http://toni-deolhonasplantas.blogspot.com/2010_05_01_archive.html)

sábado, 22 de janeiro de 2011

O ESPÍRITO (DE PORCO) DAS LEIS

As leis têm o propósito de igualar os desiguais. 

Quando desconsideram as circunstâncias, o seu maniqueísmo é implacável.

O código penal e o civil dizem: isso está certo, isso está errado, sob pena de.... Não importa sua condição sócio-econômica. 

Porém, a sua aplicação é circunstancial. Há uma atribuição de valor aos cidadãos. Uns acabam sendo melhores que os outros. Inclusive aqueles que são  designados para julgar.
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PS:  a propósito das aposentadorias para ex governadores, ex isso , ex- aquilo dos três poderes no Brasil. Leia aqui e indigne-se,  leia aqui e fique revoltado, leia aqui e me chame para ir para as ruas, já  que só denunciar e protestar não tem adiantado absolutamente nada!.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ENCHENTES

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"Do rio que tudo arrasta se diz violento. Mas não se dizem violentas as margens que o oprimem." (B. Brecht)






O que mais atraiu o homem para a vida em comunidade, fazendo-o deixar de ser nômade caçador foram as terras férteis nos vales dos rios, depois que eles passavam por um processo de cheias e transbordavam. Os primeiros registros históricos nesse sentido vem do Egito, nos vales alagados do rio Nilo.

Um dia, algum espertinho passava por ali, jogou fora umas sementinhas de frutas que estava comendo e continuou sua caminhada. Algum tempo depois, voltando para procurar mais alimentos viu que elas haviam germinado e se transformado em plantas viçosas. Cansado de tanto andar para poder comer, resolveu chamar a sua turma para uma reunião e mostrou seu grande feito. Estava criada a agricultura de subsistência. Ali mesmo fincaram barraca. Começaram a domesticar animais e a plantar outras coisas. Vendo que o negócio era mesmo bom, construíram em volta as primeiras casas, daí se transformaram em vilas. Outros nômades, vendo a próspera aglomeração foram chegando, chegando e eis a história das cidades começando a engatinhar.

A natureza continuou suas peripécias maravilhosas para manter o seu equilíbrio, mandando ver com sol, chuva, ventos, frio e as demais coisas das quatro estações, inclusive flores na primavera para enfeitarem os romances que iam surgindo no meio daquela gente toda ali reunida. As enchentes continuaram e de vez em quando alagavam algumas casas mais próximas do leito do rio. Como não havia poder público ainda, nem para resolver nem para atrapalhar, cada um dava seu jeito, arredando mais para diante. Alguns incautos acabavam levando a pior, afinal nem tudo era bem pensado. Assim foi se sucedendo e o homem tão logo saturava aquele lugar depois que exauria os nutrientes do solo, ia em busca de outros vales férteis.
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Isso eu acho que acabou se transformando num costume; mais pela necessidade e falta de outros recursos tecnológicos do que por insensatez. Também há que se levar em conta que naqueles tempos havia muito pouca gente no mundo e espaço não faltava. Nem rios, nem lagos nem terras férteis. As águas, depois que o homem aprendeu a encaná-las e a fazer reservatórios deveriam ter ensinado ao homem que ele não mais precisava construir tão próximo desses locais, pois enquanto elas não secarem de vez e a natureza continuar buscando seu equilíbrio, vai haver chuvas abundantes e as enchentes vão tomar proporções cada vez mais catastróficas. No entanto, hoje, se olharmos para a maior parte das cidades do mundo inteiro, veremos que elas estão às margens de um rio, ou melhor, elas agora engoliram os rios, que ficaram prisioneiros em seus leitos canalizados, oprimidos pelo concreto para dar lugar a mais e mais pessoas, casas, ruas e automóveis.

É verdade que nesse meio tempo a desigualdade sócio-econômica foi se acirrando e os mais pobres ficaram sem muita opção de locais para morar. Quem tem mais posses afastou-se das margens, encanou e levou a água para lugares mais altos e com a desvalorização ou o desprezo pelas áreas ribeirinhas, é quase natural que estas camadas de populações fossem se alojar por ali e ficar à mercê do rio que tudo arrasta quando a chuva é torrencial. Ou então procurarem as encostas mais altas, sem, entretanto disporem de um serviço de engenharia que os auxilie na montagem segura de suas residências que desabam como papel, já que as chuvas caem lá em primeiro lugar.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - Moacyr Scliar

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- Você tem algum método para escrever?

- Trabalho muito. Tenho de conciliar minha atividade de escritor com a de médico de saúde pública, e, além disso, meu método de trabalho é complicado. Parto de uma idéia qualquer – originária de uma figura real ou imaginada, de um incidente, de um fato histórico, de uma notícia de jornal – e sobre ela começo a escrever, ao acaso, trechos que podem ser o começo de uma história, ou o meio, ou o fim.  Quando estas anotações chegam a um certo volume, redijo a primeira versão da narrativa. Sempre à mão. Acredito ser a mão um instrumento mais sensível para a palavra escrita. Depois é que datilografo (sic), uma, duas, três ou mais vezes, até que o texto me pareça razoavelmente bom. Sou um perfeccionista que busca a palavra certa no ritmo exato.”
(Moacyr Scliar, escritor gaúcho)
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In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.
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