Mostrando postagens com marcador depoimentos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador depoimentos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 30 de maio de 2011

LER NÃO CAUSA L.E.R. * - Miriam de Sales Oliveira **

Publiquei aqui uma série de excertos de pensamentos de escritores sobre escrever. Agora, o mais importante, creio, e um combustível para a escrita, publico outra série sobre o ato/hábito da leitura.


imagem google

Quando eu era criança minha mãe me presenteou com as obras completas de Monteiro Lobato.
Eu era uma criança solitária, filha única e vivia numa pequena cidade do interior, sem diversões nem vida cultural interessante.
Pela mão de Monteiro Lobato descobri o mundo e as pessoas; D. Benta,a vovó carinhosa que contava belas estórias,Tia Nastácia,e a sabedoria popular transmitida às crianças Pedrinho e Narizinho e a destrambelhada boneca Emília,que depois virou gente,atrevida,irreverente,inconveniente como eu mesma.
Sempre digo que Lobato foi o meu pai espiritual, mas depois vieram muitos outros livros.Livros à man’cheia como queria o poeta,fazendo a criança pensar.

Nunca mais me senti solitária. Estou sempre rodeada de livros e tanto aos cinco anos quanto agora aos 68 os livros são a minha companhia.
Não temo a morte, mas,receio morrer sem ler todos os livros que desejo.
Mas, o propósito dessas reminiscências é lembrar aos pais e professores o quanto a leitura é importante para o bom desenvolvimento da criança.
Nesta nossa era cibernética, do computador,da Internet,dos games e até mesmo dos livros digitais que estão surgindo – e-books,e-readers – cabe a nós fazermos com que nossos garotos não percam o interesse pelo bom livro impresso,seu conteúdo e sua magia.
O livro é o tapete mágico que nos transporta a mundos diferentes, que nos abre portas para outras culturas e pessoas diversas e nos faz compreendê-las.

A Literatura deve ser levada às crianças e adolescentes de uma forma fácil, interessante, para que possa ser entendida por eles.
Um adolescente me confessa detestar Machado de Assis; acho apenas que Machado lhe foi apresentado de modo errado.
Talvez esse interesse que não veio, tenha sido prejudicado pela leitura em português castiço, antiquado para a nossa época ou essa leitura tenha sido obrigatória e o garoto não pode captar a beleza desses livros.
Pois os temas são os mesmos desde o começo dos tempos: amor, solidão, ciúme, traição, família, interesses escusos ou não; os personagens vivem até hoje em outros corpos; quem não conhece alguma Capitu ou Bentinho, ou José Dias ou Escobar ou o Ayres?
São eternos, puxa!
Poderiam ser nossos vizinhos, amigos próximos, parentes até.

Uma coisa parece certa; se os pais têm o hábito de ler os filhos terão também.
Se a criança receber livros de presente e esses livros forem interessantes, adequados às suas idades e explicados de forma informal pelos pais e professores, com certeza estaremos formando futuros leitores.

No Brasil temos um probleminha; os livros não chegam à senzala, ou seja, crianças pobres de escolas públicas quase nunca têm acesso aos livros, principalmente porque o livro é caro para o bolso da maioria.
Porque não colocar um livro na cesta básica visando alimentar o espírito?
No meio de bolsa-escola, bolsa –família  etc porque não criar o vale-livro,formar bibliotecas nas escolas e centros comunitários,estimular o contador de estórias ,discutir a leitura, “fazer o povo pensar”?
Porque não  interessa aos donos do poder. Povo que pensa escolhe melhor seus governantes. 



** Miriam de Sales Oliveira é escritora Baiana, autora de CONTOS E CAUSOS,  BAHIA DE OUTRORA e CONTOS APIMENTADOS. Dona dos blogs: http://wwwfiatluxblogspotcom.blogspot.com/ - http://contosecausos24x7.blogspot.com/ - http://miriamcafecompimenta.blogspot.com/ - http://abahiadeoutrora.blogspot.com


 
* L.E.R. = Lesão por Esforço Repetitivo





segunda-feira, 9 de maio de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - DRUMMOND

imagem google
“Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.
Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos  outros verbos. O dedo sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir à marginalia, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.”
(Carlos Drummond de Andrade, Para Gostar de Ler)
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - LIVROS

Gabriel Garcia Márquez
imagem google
 “Hamingway dizia que todo livro terminado é como um leão morto. E eu penso exatamente da mesma maneira: a angústia e a tensão estão na máquina de escrever, uma vez que o livro terminou preocupo-me muito pouco. A pior coisa da literatura é começar a escrever.”
José Saramago
imagem google

“Tenho uma disciplina que consiste em escrever duas páginas diárias. Formalmente não escrevo mais do que isso. Pode parecer pouco, mas duas páginas diárias, ao, fim de um ano, serão um livro com 800 páginas. Mesmo que pudesse continuar depois da segunda página, não continuo. Apenas acabo a oração, o período ou a frase, o resto fica pra amanhã.”

Philip Roth
imagem google
“Começar um livro é desagradável. Fico completamente indeciso quanto ao personagem e sua situação, e é com um personagem em determinada situação que tenho de começar. Pior do que não conhecer o assunto é não saber como tratá-lo porque, definitivamente, isso é tudo. (…) Com freqüência tenho de escrever cem páginas ou mais, antes de conseguir um parágrafo cheio de vida.”

Vladimir Nabokov
imagem google
“O esquema vem antes da coisa. Preencho os claros da palavra cruzada, em qualquer parte, com toda liberdade. Anoto os trechos em fichas, até terminar o romance. Meu esquema é flexível, mas sou bastante exigente quanto aos meus instrumentos de trabalho: fichas de cartolina com pauta e lápis bem apontados, macios, com borracha.”

Rachel de Queiroz
imagem google
“Detesto escrever. Não me lembro de escrever voluntariamente nada. O romance não é voluntário. É uma jornada que você inicia e que não se pode deixar no meio do caminho. Morro de preguiça”.

In: Como Escrevo, mistérios da criação literária, de José Domingos de Brito.



segunda-feira, 25 de abril de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - V. S. Naipaul

imagem google
“Na verdade, eu não sei como me tornei escritor. Posso citar algumas datas e alguns fatos de minha carreira. Mas o processo em si continua misterioso. É misterioso, por exemplo, o fato de a ambição ter vindo primeiro – o desejo de ser um escritor, ter essa distinção, essa fama – e que essa ambição tinha vindo muito antes de eu pensar em alguma coisa sobre a qual escrever.
Todo escritor sério tem que ser original; não pode se contentar em fazer ou oferecer uma versão do que já foi feito antes. E todo escritor sério, em conseqüência disso, torna-se consciente dessa questão da forma; porque sabe que, por mais que tenha sido educado e estimulado pelos escritores que leu ou lê, as formas combinavam com a experiência desses escritores, e não servem estritamente à sua...
O conhecimento ou experiência que um escritor busca transmitir é social ou sentimental; leva tempo, pode levar grande parte de uma vida humana processar essa experiência para compreender o que viveu; e requer muito cuidado e tato, assim, pois a natureza da experiência não se deve perder, não se deve diluir pelas formas erradas. As formas dos outros serviram aos pensamentos dos outros. Eu sempre me preocupei com esse problema da forma, do vocabulário, porque muito cedo compreendi que entre a literatura que eu conhecia e lia, a literatura que fertilizou a minha ambição, entre essa e minhas origens havia uma divisão, uma dissonância. E tornou-se logo claro para mim que não se trata simplesmente de imitar as formas.”
(V.S. Naipaul, Escritor britânico, Nobel de Literatura em 2001, no Jornal do Brasil, 1987)
------------------------------------------------------------------------------
In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - Monteiro Lobato

planetaeducacao.com.br

I

“Escrever pode ser um ato puramente imitativo ou uma exigência orgânica. Sempre escrevi por uma exigência orgânica, isto é, quando qualquer coisa em meu organismo exigia e impunha a fixação do pensamento em palavras – para alívio interno. Nunca escrevi por sugestão externa. O livro mais interessante que poderia fazer seria sobre a história de meus contos...”

(Monteiro Lobato, escritor paulista)
In: Por que Escrevo? – Mistérios da Criação Literária, José domingos de Brito. Ed. Escrituras, 1999.

II

“Ando com idéias de entrar por esse caminho: livros para crianças. De escrever para marmanjos já me enjoei. Bichos sem graça. Mas, para as crianças, um livro é todo um mundo. Lembro-me de como vivi dentro do Robinson Crusoe, do Laemmerte. Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Não ler e jogar fora; sim morar, como morei no Robinson e  Os filhos do capitão Grant...

A coisa tem de ser narrativa a galope, sem nenhum enfeite literário. O enfeite literário agrada aos oficiais do mesmo ofício, aos que compreendem a beleza literária. Mas o que é beleza literária para nós é maçada e incompreensibilidade para o cérebro ainda não envenenado das crianças... Não imaginas a minha luta para extirpar a literatura dos meus livros infantis. A cada revisão nas novas edições, mato como quem mata pulgas, todas as literaturas que ainda a estragam.”
Monteiro Lobato
In: Construirnotícias.com.br (org. Luciana Sandroni)


PS: Abril é o mês da Literatura Infantil. Dia 02 é a sua comemoração internacional, em homenagem ao escritor dinamarquês Hans Christian Andersen; e 18 é a data nacional, que marca o nascimento de Monteiro Lobato.


 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - Marguerite Duras

imagem google
"Comecei a escrever num ambiente que me obrigava ao pudor. Escrever, para eles, era ainda, imoral. Hoje muitas vezes escrever pode parecer não significar nada. Por vezes sei disto: a partir do momento em que não for, confundidas todas as coisas, ir ao sabor da vaidade e do vento, escrever é nada. A partir do momento em que não for, sempre, a confusão de todas as coisas numa única essência inqualificável, escrever é nada mais que publicidade. Mas na maioria das vezes não tenho opinião sobre isso, vejo que todos os campos estão abertos, que não haverá mais nada onde se esconder, se fazer, ser lida, que na sua inconveniência fundamental não será mais respeitada, mas nem penso mais nisso."
(Marguerite Duras, O Amante)

In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.



segunda-feira, 28 de março de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - Eduardo Galeano

imagem google
“A gente escreve a partir de uma necessidade de comunicação e de comunhão com os demais, para denunciar o que dói e compartilhar o que dá alegria. A gente escreve contra a própria solidão e a dos outros. A gente supõe que a literatura transmite conhecimento e atua sobre a linguagem e a conduta de quem a recebe; que ajuda a nos conhecermos para nos salvarmos juntos... A gente escreve, em realidade, para a pessoa com cuja sorte ou má sorte nós nos sentimos identificados, os mal dormidos, os rebeldes e os humilhados dessa terra, e a maioria deles não sabe ler.”

(Eduardo Galeano, escritor uruguaio).
Galeano nasceu em 3 de setembro de 1940 em Montevidéu em uma família católica de classe média de ascendência europeia. Iniciou sua carreira jornalística no início da década de 1960 como editor do Marcha, influente jornal semanal que tinha como contribuidores Mario Vargas Llosa e Mario Benedetti. Foi também editor do diário Época e editor-chefe do jornal universitário por dois anos. Em 1971 escreveu sua obra-prima As Veias Abertas da América Latina. Em 1973, com o golpe militar do Uruguai, Galeano é preso e mais tarde forçado a se exilar na Argentina, onde lançou Crisis, uma revista sobre cultura. Em 1976, com o sangrento golpe militar liderado pelo general Jorge Videla, tem seu nome colocado na lista dos esquadrões de morte e, temendo por sua vida, exila-se na Espanha, onde deu início à trilogia Memória do Fogo. Em 1985, com a redemocratização de seu país, Galeano retornou a Montevidéu, onde vive ate hoje. A obra mais conhecida de Galeano é, sem dúvida, As Veias Abertas da América Latina. Nela, analisa a História da América Latina como um todo desde o período colonial até a contemporaneidade, argumentando contra o que considera como exploração econômica e política do povo latino-americano primeiro pela Europa e depois pelos Estados Unidos da América. O livro tornou-se um clássico entre os membros da esquerda latino-americana.
Fonte: wikipedia

In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.

PS: ESTA SEMANA VOU PUBLICAR TEXTOS E MÚSICAS DE MEMÓRIA HISTÓRICA





segunda-feira, 21 de março de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER – George Orwell

imagem google
À parte a neces­si­dade de ganhar a vida, penso haver qua­tro gran­des moti­vos para escre­ver, segu­ra­mente para escre­ver prosa. Exis­tem em dife­ren­tes graus em cada escri­tor, e no mesmo escri­tor vari­a­rão com o tempo, e de acordo com a atmos­fera em que ele está a viver. São eles:
  1. Puro egoísmo”.
O desejo de pare­cer esperto, de ser falado, de ser recor­dado depois da morte, de con­se­guir a des­forra dos adul­tos que nos des­pre­za­ram na infân­cia, etc., etc. É ridí­culo fin­gir que isto não é um motivo, e forte. Os escri­to­res par­ti­lham esta carac­te­rís­tica com os cien­tis­tas, artis­tas, polí­ti­cos, advo­ga­dos, sol­da­dos, empresá­rios de sucesso, em suma, com a camada supe­rior da huma­ni­dade. A grande massa dos seres humanos não é pro­fun­da­mente egoísta. Depois dos trinta anos aban­do­nam quase por com­pleto o sen­ti­mento de indi­vi­du­a­li­dade e vivem apenas para os outros, ou dei­xam sim­ples­mente abafar-se pelas suas labu­tas. Mas há tam­bém a mino­ria de pes­soas dota­das, espe­ran­ço­sas, que estão deter­mi­na­das a viver as suas vidas até ao fim, e os escri­to­res per­ten­cem a esta classe. Os escri­to­res sérios, devo acres­cen­tar, são de forma geral mais vai­do­sos e egoís­tas que os jor­na­lis­tas, embora menos inte­res­sa­dos no dinheiro.
  1. Entu­si­asmo esté­tico”.
A per­cep­ção da beleza no mundo exte­rior, ou, por outro lado, nas pala­vras e na sua pre­cisa dis­po­si­ção. O pra­zer do impacto de um som em outro, da firmeza da boa prosa ou do ritmo de uma boa estó­ria. O desejo de par­ti­lhar uma expe­ri­ên­cia que se con­si­dera de valor, e imper­dí­vel. A moti­va­ção esté­tica é muito débil em inú­me­ros escri­to­res, mas mesmo um pan­fle­teiro ou um autor de manu­ais terá pala­vras favo­ri­tas e fra­ses que lhe ape­lam por razões não utilitárias; ou pode ainda ser sen­sí­vel à tipo­gra­fia, ou à lar­gura das mar­gens, etc. Acima do nível dos horá­rios dos com­boios nenhum livro está com­ple­ta­mente livre das con­si­de­ra­ções estéticas.
  1. Impulso his­tó­rico”.
O desejo de ver as coi­sas como são, de des­co­brir os fa­tos verí­di­cos e preservá-los para uso da posteridade.
  1. Pro­pó­sito polí­tico
Usando a pala­vra “polí­tico” no seu sen­tido mais lato. O desejo de empur­rar o mundo numa certa dire­ção, de mudar as ideias das pes­soas sobre o tipo de soci­e­dade pela qual devem lutar. Mais uma vez, livro algum está livre de uma ten­dên­cia polí­tica. A ideia de que a arte não deve ter nada a ver com a polí­tica é, em si mesma, uma ati­tude política.
É fácil ver como estes vários impul­sos se anta­go­ni­zam entre si e como devem flutuar de pes­soa para pes­soa e de tempo para tempo.

George Orwell – ensaio
In: blog do joaonunes.com - 2007

segunda-feira, 7 de março de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - Lygia Fagundes Telles

imagem google
“A função do escritor? Ser testemunha do seu tempo e da sociedade. Escrever por aqueles que não podem escrever. Falar por aqueles que muitas vezes esperam ouvir da nossa boca a palavra que gostariam de dizer. Comunicar-se com o próximo e, se possível, mesmo por meio de soluções ambíguas, ajuda-lo no seu sofrimento e na sua esperança.”

(Lygia Fagundes Telles, Leia Livros)

In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - Fernando Sabino

imagem google
         
imagem google
POR QUE ESCREVE?

 “Tenho a impressão de que se eu soubesse responder a essa pergunta deixaria de ser escritor. Não haveria condição. Não saberia dizer, não. Está além de minha compreensão. Esta pergunta é tão grave como se perguntassem: “Por que vive? Por que ama? Por que morre?” Talvez eu escreva para atender a essas três presenças que são as únicas que existem na vida de um homem.”

“Para mim, o ato de escrever é muito difícil e penoso, tenho sempre que corrigir e reescrever várias vezes. Basta dizer, como exemplo, que escrevi 1100 páginas para fazer um romance no qual aproveitei pouco mais de 300.”

(Fernando Sabino, escritor mineiro)

_________________________________________________________________
In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - Clarice Lispector

imagem google

“Quando eu era criança, durante muito tempo pensei que os livros nascessem como as arvores, como os pássaros. Quando descobri que existiam autores, pensei: também quero fazer um livro.”
(Clarice Lispector, escritora brasileira/ucraniana)
________________________________________________


“Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, podia-se com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não-palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é ler “distraidamente.”
(Clarice Lispector, Para Gostar de Ler)
_______________________________________________

In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - Ernest Hemingway

imagem google
“Gosto de escrever de pé porque não deixa a barriga crescer e porque um tipo tem mais vitalidade quando está de pé. Já se viu alguém durar mais de dez rounds sentado de papo para o ar? Escrevo as partes descritivas à mão porque é o que me custa mais e está-se mais perto do papel quando se escreve à mão, mas escrevo o diálogo à máquina porque as pessoas falam da mesma maneira que uma máquina trabalha.”

(Hemingway, citado por A.E. Hotchener, em Papa Hemingway)


 “Só há um segredo para vir a ser-se um escritor famoso se se tem talento: conservar a saúde.”
(Hemingway, citado por A.E. Hotchener, em Papa Hemingway)


“A maioria dos escritores descuida-se com a parte mais maçadora mas mais importante do seu trabalho – a revisão: apurar e afiar o material de maneira a ficar como o estoque dum matador.”

(Hemingway, citado por A.E. Hotchener, em Papa Hemingway)
____________________________________________________
In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.

imagem google

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - Mário Quintana

“Os clássicos escreviam tão bem porque não tinham os clássicos para atrapalhar.”
(Mário Quintana, escritor gaúcho)
In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.



“O sofrimento dos poetas é muito relativo. Pois se um poeta consegue um dia expressar as suas dores com toda a felicidade – como é que poderá ser infeliz? Camões, o velho Camões que o diga – com suas imortais penas de amor. Suas felizes penas de amor!”
(Mario Quintana, Na volta da Esquina)
In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.



As Trinta Linhas

“Um dia Álvaro Moreyra, já avô, contou-me que seu pai ainda lhe dizia: “Mas Alvinho, por que tu não escreves coisas de mais fôlego?” E ele, espalmando as mãos, num gesto de desculpa: “Mas eu não tenho fôlego, papai...” Depois dessa história, eu não precisava dizer mais nada. Contudo, não me sai da lembrança um professor do meu tempo de ginásio que, ao dar-nos o tema para a redação de português, dizia: “Não adianta escreverem muito, meninos, porque eu só leio a primeira página; o resto eu rasgo.” E assim nos dava, ao mesmo tempo, a primeira e melhor lição de estilo, obrigando-nos a reter as rédeas de Pégaso e a dizer tudo (que, aliás, não podia ser muito) nas trinta linhas do papel almaço, contando título e assinatura. A ele, pois, ao saudoso Major Leonardo Ribeiro, a minha gratidão e a de meus leitores.”
(Mário Quintana, Prosa e Verso)
In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.

imagem: lunaeamigos.com.br


“Mas para que interpretarem um poema? Um poema já é interpretação.”
(Mário Quintana, Na volta da Esquina)
In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - Carlos Ceia

UM APARTE: com esta postagem estou homenageando o MÁRCIO JR do blog Abismo das Vaidades.  Hoje é dia de seu aniversário e não vejo, daqui de longe, uma melhor forma de abraçá-lo, de desejar-lhe muita saúde e alegrias senão através daquilo que é substância vital para ele: a leitura e a escrita. Claro que gostaria de lhe dar o abraço, de tomar com ele um café e cantar-lhe os parabéns. Mas isso aqui fica sendo oferecido com festa, pois bem sei que ele vai apreciar. PARABÉNS, meu amigo Márcio! De todo o meu coração e com todas as letras possíveis. 
 ----------------------------------------------------------------------------------

Da importância de ler e escrever
   LER
1.   “ Acredita-se que a leitura é uma aprendizagem desde os primeiros dias de vida. Ler a uma criança por ser, ainda no útero, pode ser benéfico, mesmo que a ciência não consiga provar que espécie de benefício possa ser esse. Sabemos, isso sim, que em qualquer dos casos ler é um alimento do espírito sem o qual ficamos incompletos. 
2.    Ler às crianças durante os seus primeiros anos de vida, ajuda-as a crescer não só intelectualmente como do ponto de vista da compreensão do mundo. A medida da imaginação de cada um na vida adulta, a meta que cada um de nós consegue atingir no exercício da mais espantosa e complexa das nossas capacidades — o ser capaz de pensar — é determinada pela forma como nos moldaram a nossa imaginação durante os primeiros anos de vida. Somos o que lemos. Quem nunca leu ou quem leu muito pouco, não conhece nem o mundo em que vive nem os mundos que podemos sonhar.
3.    Quem lê, vê mais; quem lê, sonha mais; quem lê, decide melhor; quem lê, governa melhor; quem lê, escreve melhor. Poucos são os atos que valorizamos e que praticamos que não possam ser melhorados com mais leitura.
4.    Recomendar a leitura de livros é tão importante e tão inútil como recomendar que se beba muita água. É bom leitor quem transformou o ato de ler numa necessidade e num instinto primários.
5.    Ler é um remédio santo para a mais complexa das doenças que é a solidão. Ninguém está só, havendo um livro para ler. E se tivermos um livro para escrever, então somos muitos. “
 
   ESCREVER
1.   “ Um escritor não tem/não deve ter nada para ensinar sobre os seus livros. Muitos podem pensar que sim, por isso dão muitas entrevistas, onde explicam e interpretam aquilo que escreveram, como se os livros estivessem incompletos ou como se receassem que uma leitura alheia os possa desvirtuar. Um livro publicado não pertence mais ao escritor. E de certeza que a interpretação da obra de arte não passa por quem a criou ou não depende de quem a criou. O que é histórico ou sempiterno já ultrapassou o seu criador.
2.    É possível falar das motivações da escrita. Porque escrevemos? Como escrevemos? É tudo o que de interesse público deve um escritor revelar. O resto é um espetáculo que não merece ser aplaudido.
3.    “O que é mais difícil não é escrever muito; é dizer tudo, escrevendo pouco” (Júlio Dantas); hoje escreve-se pouco, com o pretexto de que se diz muito. A sociedade da informação na qual somos obrigados a viver não tolera o muito que podemos dizer quando escrevemos mais do que esperam de nós. Continuamos a fazer o elogio do minimalismo literário. Quanto mais aforístico for o nosso pensamento, maiores serão as probabilidades de sermos ouvidos ou lidos. Ninguém se importa hoje com o fato de que aprendemos a escrever pelo esforço, pela repetição, pelo treino desta alta competição que é a de ser escritor.
4.    Escrever é um desporto único de alta competição: pratica-se ao longo da vida, exige um treino intensivo diário, e tem a grande vantagem de ser arbitrado pelo público.
5.    Quando Harold Bloom publicou How To Read And Why (2000), uma obra escrita para elogiar o poder da leitura literária contra o impoder de certos fenômenos juvenis como Harry Potter, acreditou que era possível trocar precisamente o Harry Potter por Shakespeare, Cervantes, Oscar Wilde ou José Saramago. E disse numa entrevista: ''Para pensar melhor, precisamos da memória do que foi ensinado, lido e escrito. E isso só se encontra nos grandes livros.'' A questão que se coloca é: se não temos muito tempo para ler, o que devemos ler? J. K. Rowling ou William Shakespeare? Consta que na primeira semana em que o livro de Bloom esteve à venda, recebeu mais de 400 cartas protestando contra a crítica aos milhões de leitores de Harry Potter.
6.    Bloom não gosta de Harry Potter, porque, diz, é uma colecção de lugares comuns que em nada enriquece os jovens. Recomenda como alternativa o clássico Alice no País das Maravilhas (1865), de Lewis Carroll, e o excelente Contos de Shakespeare (1807), de Charles Lamb. Ora, eu aprendi a ler através da literatura oral e popular e devorando todos os livros de banda desenhada que o meu pai colecionava. Aprendi a ler através dos lugares mais comuns da própria literatura. Aprendi que ler tudo é o melhor remédio para saber hoje o que é que vale a pena ler. A pergunta J. K. Rowling ou William Shakespeare? nunca devia ser ser colocada perante ninguém. O importante é o compromisso que cada um de nós estabelece com aquilo que sente que deve ler. Errado é pensar que J. K. Rowling é suficiente. Harry Potter é apenas um cantinho do mundo. As tragédias de Shakespeare estarão certamente do outro lado do mundo, mas a nossa imaginação, se estiver predisposta a isso, pode viajar para todo o lado e não deixar ninguém de fora.”

In: Carlos Ceia, O professor Sentado: Um Romance Acadêmico. Ed. Duarte Reis, Lisboa, 2004

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - Willian Blake

imagem wikipedia
“Tudo que escrevemos é fruto da memória ou do desconhecido. Se tiver uma sugestão a dar, respeite o desconhecido, e busque nele sua fonte de inspiração. As histórias e os fatos permanecem os mesmos, mas quando você abre uma porta no seu inconsciente e deixa-se guiar pela inspiração, verá que a maneira de descrever o que viveu ou sonhou é sempre muito mais rica quando o seu inconsciente está guiando a caneta.”

Willian Blake,  poeta ingles

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - Moacyr Scliar

imagem google
- Você tem algum método para escrever?

- Trabalho muito. Tenho de conciliar minha atividade de escritor com a de médico de saúde pública, e, além disso, meu método de trabalho é complicado. Parto de uma idéia qualquer – originária de uma figura real ou imaginada, de um incidente, de um fato histórico, de uma notícia de jornal – e sobre ela começo a escrever, ao acaso, trechos que podem ser o começo de uma história, ou o meio, ou o fim.  Quando estas anotações chegam a um certo volume, redijo a primeira versão da narrativa. Sempre à mão. Acredito ser a mão um instrumento mais sensível para a palavra escrita. Depois é que datilografo (sic), uma, duas, três ou mais vezes, até que o texto me pareça razoavelmente bom. Sou um perfeccionista que busca a palavra certa no ritmo exato.”
(Moacyr Scliar, escritor gaúcho)
____________________________________________________________
In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.

sábado, 15 de janeiro de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER*

* CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER foi uma forma que encontrei de reunir escritores para um colóquio sem ter que proceder diante do impossível, no entanto muitíssimo desejável. Ah, quem dera! Tê-los todos presentes num só lugar para falarem pra gente sobre o que significa escrever e o que sentem diante do ato.  Então saí por ai, vasculhando livros, revistas, jornais, blogs, sites e onde mais encontrei depoimentos e juntei bastantes. Vou publicando aqui através dessa série. Comecei comigo mesmo para que provem o gosto ruim antes de se deliciarem com o bom dos grandes mestres.




Escrever, às vezes, é o que me incide. O que “dá na telha”, como se diz por ai. Ocorre que às vezes escrevo o que dá na telha e não é o que penso. Ai penso e reescrevo. E nem sempre foi o que deu na telha. Entre pensar e ocorrer fico com o que está escrito. Já escorreu. Meço  as palavras? Quase! Se é texto, reconstruo, reescrevo, refaço, repenso. Se é poema, deixo ao vento, ao sol, ao relento. É puro sentimento. Quem gostar que sinta. Quem não gostar que apague da memória. (Cacá- 2009)


Web Statistics