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segunda-feira, 21 de março de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER – George Orwell

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À parte a neces­si­dade de ganhar a vida, penso haver qua­tro gran­des moti­vos para escre­ver, segu­ra­mente para escre­ver prosa. Exis­tem em dife­ren­tes graus em cada escri­tor, e no mesmo escri­tor vari­a­rão com o tempo, e de acordo com a atmos­fera em que ele está a viver. São eles:
  1. Puro egoísmo”.
O desejo de pare­cer esperto, de ser falado, de ser recor­dado depois da morte, de con­se­guir a des­forra dos adul­tos que nos des­pre­za­ram na infân­cia, etc., etc. É ridí­culo fin­gir que isto não é um motivo, e forte. Os escri­to­res par­ti­lham esta carac­te­rís­tica com os cien­tis­tas, artis­tas, polí­ti­cos, advo­ga­dos, sol­da­dos, empresá­rios de sucesso, em suma, com a camada supe­rior da huma­ni­dade. A grande massa dos seres humanos não é pro­fun­da­mente egoísta. Depois dos trinta anos aban­do­nam quase por com­pleto o sen­ti­mento de indi­vi­du­a­li­dade e vivem apenas para os outros, ou dei­xam sim­ples­mente abafar-se pelas suas labu­tas. Mas há tam­bém a mino­ria de pes­soas dota­das, espe­ran­ço­sas, que estão deter­mi­na­das a viver as suas vidas até ao fim, e os escri­to­res per­ten­cem a esta classe. Os escri­to­res sérios, devo acres­cen­tar, são de forma geral mais vai­do­sos e egoís­tas que os jor­na­lis­tas, embora menos inte­res­sa­dos no dinheiro.
  1. Entu­si­asmo esté­tico”.
A per­cep­ção da beleza no mundo exte­rior, ou, por outro lado, nas pala­vras e na sua pre­cisa dis­po­si­ção. O pra­zer do impacto de um som em outro, da firmeza da boa prosa ou do ritmo de uma boa estó­ria. O desejo de par­ti­lhar uma expe­ri­ên­cia que se con­si­dera de valor, e imper­dí­vel. A moti­va­ção esté­tica é muito débil em inú­me­ros escri­to­res, mas mesmo um pan­fle­teiro ou um autor de manu­ais terá pala­vras favo­ri­tas e fra­ses que lhe ape­lam por razões não utilitárias; ou pode ainda ser sen­sí­vel à tipo­gra­fia, ou à lar­gura das mar­gens, etc. Acima do nível dos horá­rios dos com­boios nenhum livro está com­ple­ta­mente livre das con­si­de­ra­ções estéticas.
  1. Impulso his­tó­rico”.
O desejo de ver as coi­sas como são, de des­co­brir os fa­tos verí­di­cos e preservá-los para uso da posteridade.
  1. Pro­pó­sito polí­tico
Usando a pala­vra “polí­tico” no seu sen­tido mais lato. O desejo de empur­rar o mundo numa certa dire­ção, de mudar as ideias das pes­soas sobre o tipo de soci­e­dade pela qual devem lutar. Mais uma vez, livro algum está livre de uma ten­dên­cia polí­tica. A ideia de que a arte não deve ter nada a ver com a polí­tica é, em si mesma, uma ati­tude política.
É fácil ver como estes vários impul­sos se anta­go­ni­zam entre si e como devem flutuar de pes­soa para pes­soa e de tempo para tempo.

George Orwell – ensaio
In: blog do joaonunes.com - 2007

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - Ernest Hemingway

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“Gosto de escrever de pé porque não deixa a barriga crescer e porque um tipo tem mais vitalidade quando está de pé. Já se viu alguém durar mais de dez rounds sentado de papo para o ar? Escrevo as partes descritivas à mão porque é o que me custa mais e está-se mais perto do papel quando se escreve à mão, mas escrevo o diálogo à máquina porque as pessoas falam da mesma maneira que uma máquina trabalha.”

(Hemingway, citado por A.E. Hotchener, em Papa Hemingway)


 “Só há um segredo para vir a ser-se um escritor famoso se se tem talento: conservar a saúde.”
(Hemingway, citado por A.E. Hotchener, em Papa Hemingway)


“A maioria dos escritores descuida-se com a parte mais maçadora mas mais importante do seu trabalho – a revisão: apurar e afiar o material de maneira a ficar como o estoque dum matador.”

(Hemingway, citado por A.E. Hotchener, em Papa Hemingway)
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In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.

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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - Mário Quintana

“Os clássicos escreviam tão bem porque não tinham os clássicos para atrapalhar.”
(Mário Quintana, escritor gaúcho)
In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.



“O sofrimento dos poetas é muito relativo. Pois se um poeta consegue um dia expressar as suas dores com toda a felicidade – como é que poderá ser infeliz? Camões, o velho Camões que o diga – com suas imortais penas de amor. Suas felizes penas de amor!”
(Mario Quintana, Na volta da Esquina)
In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.



As Trinta Linhas

“Um dia Álvaro Moreyra, já avô, contou-me que seu pai ainda lhe dizia: “Mas Alvinho, por que tu não escreves coisas de mais fôlego?” E ele, espalmando as mãos, num gesto de desculpa: “Mas eu não tenho fôlego, papai...” Depois dessa história, eu não precisava dizer mais nada. Contudo, não me sai da lembrança um professor do meu tempo de ginásio que, ao dar-nos o tema para a redação de português, dizia: “Não adianta escreverem muito, meninos, porque eu só leio a primeira página; o resto eu rasgo.” E assim nos dava, ao mesmo tempo, a primeira e melhor lição de estilo, obrigando-nos a reter as rédeas de Pégaso e a dizer tudo (que, aliás, não podia ser muito) nas trinta linhas do papel almaço, contando título e assinatura. A ele, pois, ao saudoso Major Leonardo Ribeiro, a minha gratidão e a de meus leitores.”
(Mário Quintana, Prosa e Verso)
In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.

imagem: lunaeamigos.com.br


“Mas para que interpretarem um poema? Um poema já é interpretação.”
(Mário Quintana, Na volta da Esquina)
In: Escrever Sem Doer -  Ronald Claver, ed. UFMG, 2006.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER - Carlos Ceia

UM APARTE: com esta postagem estou homenageando o MÁRCIO JR do blog Abismo das Vaidades.  Hoje é dia de seu aniversário e não vejo, daqui de longe, uma melhor forma de abraçá-lo, de desejar-lhe muita saúde e alegrias senão através daquilo que é substância vital para ele: a leitura e a escrita. Claro que gostaria de lhe dar o abraço, de tomar com ele um café e cantar-lhe os parabéns. Mas isso aqui fica sendo oferecido com festa, pois bem sei que ele vai apreciar. PARABÉNS, meu amigo Márcio! De todo o meu coração e com todas as letras possíveis. 
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Da importância de ler e escrever
   LER
1.   “ Acredita-se que a leitura é uma aprendizagem desde os primeiros dias de vida. Ler a uma criança por ser, ainda no útero, pode ser benéfico, mesmo que a ciência não consiga provar que espécie de benefício possa ser esse. Sabemos, isso sim, que em qualquer dos casos ler é um alimento do espírito sem o qual ficamos incompletos. 
2.    Ler às crianças durante os seus primeiros anos de vida, ajuda-as a crescer não só intelectualmente como do ponto de vista da compreensão do mundo. A medida da imaginação de cada um na vida adulta, a meta que cada um de nós consegue atingir no exercício da mais espantosa e complexa das nossas capacidades — o ser capaz de pensar — é determinada pela forma como nos moldaram a nossa imaginação durante os primeiros anos de vida. Somos o que lemos. Quem nunca leu ou quem leu muito pouco, não conhece nem o mundo em que vive nem os mundos que podemos sonhar.
3.    Quem lê, vê mais; quem lê, sonha mais; quem lê, decide melhor; quem lê, governa melhor; quem lê, escreve melhor. Poucos são os atos que valorizamos e que praticamos que não possam ser melhorados com mais leitura.
4.    Recomendar a leitura de livros é tão importante e tão inútil como recomendar que se beba muita água. É bom leitor quem transformou o ato de ler numa necessidade e num instinto primários.
5.    Ler é um remédio santo para a mais complexa das doenças que é a solidão. Ninguém está só, havendo um livro para ler. E se tivermos um livro para escrever, então somos muitos. “
 
   ESCREVER
1.   “ Um escritor não tem/não deve ter nada para ensinar sobre os seus livros. Muitos podem pensar que sim, por isso dão muitas entrevistas, onde explicam e interpretam aquilo que escreveram, como se os livros estivessem incompletos ou como se receassem que uma leitura alheia os possa desvirtuar. Um livro publicado não pertence mais ao escritor. E de certeza que a interpretação da obra de arte não passa por quem a criou ou não depende de quem a criou. O que é histórico ou sempiterno já ultrapassou o seu criador.
2.    É possível falar das motivações da escrita. Porque escrevemos? Como escrevemos? É tudo o que de interesse público deve um escritor revelar. O resto é um espetáculo que não merece ser aplaudido.
3.    “O que é mais difícil não é escrever muito; é dizer tudo, escrevendo pouco” (Júlio Dantas); hoje escreve-se pouco, com o pretexto de que se diz muito. A sociedade da informação na qual somos obrigados a viver não tolera o muito que podemos dizer quando escrevemos mais do que esperam de nós. Continuamos a fazer o elogio do minimalismo literário. Quanto mais aforístico for o nosso pensamento, maiores serão as probabilidades de sermos ouvidos ou lidos. Ninguém se importa hoje com o fato de que aprendemos a escrever pelo esforço, pela repetição, pelo treino desta alta competição que é a de ser escritor.
4.    Escrever é um desporto único de alta competição: pratica-se ao longo da vida, exige um treino intensivo diário, e tem a grande vantagem de ser arbitrado pelo público.
5.    Quando Harold Bloom publicou How To Read And Why (2000), uma obra escrita para elogiar o poder da leitura literária contra o impoder de certos fenômenos juvenis como Harry Potter, acreditou que era possível trocar precisamente o Harry Potter por Shakespeare, Cervantes, Oscar Wilde ou José Saramago. E disse numa entrevista: ''Para pensar melhor, precisamos da memória do que foi ensinado, lido e escrito. E isso só se encontra nos grandes livros.'' A questão que se coloca é: se não temos muito tempo para ler, o que devemos ler? J. K. Rowling ou William Shakespeare? Consta que na primeira semana em que o livro de Bloom esteve à venda, recebeu mais de 400 cartas protestando contra a crítica aos milhões de leitores de Harry Potter.
6.    Bloom não gosta de Harry Potter, porque, diz, é uma colecção de lugares comuns que em nada enriquece os jovens. Recomenda como alternativa o clássico Alice no País das Maravilhas (1865), de Lewis Carroll, e o excelente Contos de Shakespeare (1807), de Charles Lamb. Ora, eu aprendi a ler através da literatura oral e popular e devorando todos os livros de banda desenhada que o meu pai colecionava. Aprendi a ler através dos lugares mais comuns da própria literatura. Aprendi que ler tudo é o melhor remédio para saber hoje o que é que vale a pena ler. A pergunta J. K. Rowling ou William Shakespeare? nunca devia ser ser colocada perante ninguém. O importante é o compromisso que cada um de nós estabelece com aquilo que sente que deve ler. Errado é pensar que J. K. Rowling é suficiente. Harry Potter é apenas um cantinho do mundo. As tragédias de Shakespeare estarão certamente do outro lado do mundo, mas a nossa imaginação, se estiver predisposta a isso, pode viajar para todo o lado e não deixar ninguém de fora.”

In: Carlos Ceia, O professor Sentado: Um Romance Acadêmico. Ed. Duarte Reis, Lisboa, 2004

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

FELICIDADE É UMA CONSTRUÇÃO QUE NÃO PODE TER FIM


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A respeito da felicidade, eu não descobri ainda como defini-la em termos de uma vida plenamente feliz. Na minha definição essa plenitude não existe, para o bem da nossa mobilidade em sua busca. É como se quiséssemos alcançar um fim quando estamos voando para o infinito do universo. Estando felizes, haverá uma sensação de saciedade com o vôo, mas o espaço aéreo continuará a oferecer outros lugares muito bons de se ver e outros inatingíveis. Haverá também turbulências durante o vôo. Quedas também poderão acontecer. Mas enquanto estivermos voando, a sensação de alegria que não se explica fica fazendo-nos companhia. Em alguns momentos, os obstáculos e as quedas são para tomarmos partido: queremos mesmo felicidade? Então é hora de resolvermos enfrentar os problemas ou desistirmos de vez. Nessas horas contamos com as nossas forças próprias e com as que se juntam a nós indispensavelmente através do rol de amigos e de familiares, gente que quer o nosso bem, que caminha conosco e ajuda a preparar nossas asas. Então, eu acredito que essa definição provisória é o máximo a que consigo chegar para explicar a alegria que sinto com a vida quando se realiza algum sonho, se materializa algum desejo interior, quando se está ladeado pelas pessoas que gostam da gente e de quem a gente quer bem. E aquelas que não estando de corpo presente, estão de alma e coração fazendo parte de uma corrente imaginária de bem querer. Quando a família está ao lado de onde nunca deve sair, quando a fome e a sede se tornam apenas um detalhe sem importância vital. A gente se sente alimentado por toda substância protéica e vitaminada em que se transforma aquela alegria. É quando se pensa assim: Deus, o Senhor tem toda razão de fazer de nós seres que precisam buscar continuamente as coisas que nos fazem bem em vez de sentarmos à beira de caminho ora pedindo, ora lamentando os infortúnios. Porque você mostra que a tal da felicidade sempre pode estar em algum lugar ou alguma coisa depois que fizermos a nossa parte para que cheguemos ao final de uma reta, de alguma curva do caminho, depois de subir alguma montanha íngreme. Se um dia eu declarar que sou completamente feliz por tudo que a vida proporciona e oferece, é porque a minha vida terá chegado ao fim também. O infinito está sempre à disposição.
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