terça-feira, 18 de janeiro de 2011

FELICIDADE É UMA CONSTRUÇÃO QUE NÃO PODE TER FIM


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A respeito da felicidade, eu não descobri ainda como defini-la em termos de uma vida plenamente feliz. Na minha definição essa plenitude não existe, para o bem da nossa mobilidade em sua busca. É como se quiséssemos alcançar um fim quando estamos voando para o infinito do universo. Estando felizes, haverá uma sensação de saciedade com o vôo, mas o espaço aéreo continuará a oferecer outros lugares muito bons de se ver e outros inatingíveis. Haverá também turbulências durante o vôo. Quedas também poderão acontecer. Mas enquanto estivermos voando, a sensação de alegria que não se explica fica fazendo-nos companhia. Em alguns momentos, os obstáculos e as quedas são para tomarmos partido: queremos mesmo felicidade? Então é hora de resolvermos enfrentar os problemas ou desistirmos de vez. Nessas horas contamos com as nossas forças próprias e com as que se juntam a nós indispensavelmente através do rol de amigos e de familiares, gente que quer o nosso bem, que caminha conosco e ajuda a preparar nossas asas. Então, eu acredito que essa definição provisória é o máximo a que consigo chegar para explicar a alegria que sinto com a vida quando se realiza algum sonho, se materializa algum desejo interior, quando se está ladeado pelas pessoas que gostam da gente e de quem a gente quer bem. E aquelas que não estando de corpo presente, estão de alma e coração fazendo parte de uma corrente imaginária de bem querer. Quando a família está ao lado de onde nunca deve sair, quando a fome e a sede se tornam apenas um detalhe sem importância vital. A gente se sente alimentado por toda substância protéica e vitaminada em que se transforma aquela alegria. É quando se pensa assim: Deus, o Senhor tem toda razão de fazer de nós seres que precisam buscar continuamente as coisas que nos fazem bem em vez de sentarmos à beira de caminho ora pedindo, ora lamentando os infortúnios. Porque você mostra que a tal da felicidade sempre pode estar em algum lugar ou alguma coisa depois que fizermos a nossa parte para que cheguemos ao final de uma reta, de alguma curva do caminho, depois de subir alguma montanha íngreme. Se um dia eu declarar que sou completamente feliz por tudo que a vida proporciona e oferece, é porque a minha vida terá chegado ao fim também. O infinito está sempre à disposição.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

DEPOIS DE UM PASSEIO NO ZOO


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Não sou criacionista nem evolucionista. Mas creio em Deus bem como na ciência.
Agora, uma pergunta que não quer calar: Será que o elo perdido de Darwin não poderia ser o próprio macaco? Se não, alguém pode me responder por que há macacos até hoje?

sábado, 15 de janeiro de 2011

CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER*

* CONVERSAS COM QUEM GOSTA DE ESCREVER foi uma forma que encontrei de reunir escritores para um colóquio sem ter que proceder diante do impossível, no entanto muitíssimo desejável. Ah, quem dera! Tê-los todos presentes num só lugar para falarem pra gente sobre o que significa escrever e o que sentem diante do ato.  Então saí por ai, vasculhando livros, revistas, jornais, blogs, sites e onde mais encontrei depoimentos e juntei bastantes. Vou publicando aqui através dessa série. Comecei comigo mesmo para que provem o gosto ruim antes de se deliciarem com o bom dos grandes mestres.




Escrever, às vezes, é o que me incide. O que “dá na telha”, como se diz por ai. Ocorre que às vezes escrevo o que dá na telha e não é o que penso. Ai penso e reescrevo. E nem sempre foi o que deu na telha. Entre pensar e ocorrer fico com o que está escrito. Já escorreu. Meço  as palavras? Quase! Se é texto, reconstruo, reescrevo, refaço, repenso. Se é poema, deixo ao vento, ao sol, ao relento. É puro sentimento. Quem gostar que sinta. Quem não gostar que apague da memória. (Cacá- 2009)


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

POEMA

O simbolizando as cinzas, a ema, simbolizando a fenix. E eis que a junção de ambos em “poema” nos faz renascer para a vida.


Lá no Recanto das Letras , onde postei este fragmento certa vez, existe uma divisão dos textos em categorias. Coloquei em teoria literária e pedi para não me levarem a sério. Se não era algo  de validade nem uma definição etimológica, continua a minha dúvida, já que aqui no blog a minha chance de definir é nenhuma. Peço que continuem aceitando como uma descompromissada e bem humorada definição.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

PRESSÁGIO

            Coceira nas mãos: dinheiro; coceira no dedão do pé: chuva; coração apertado: mau presságio; uma orelha quente: alguém falando mal; duas orelhas quentes: alguém falando mal e outro alguém defendendo (ou então pode ser febre mesmo). Esses conhecimentos   antigos vão  sobrevivendo no tempo das adivinhações modernas e continuam a ter seus adeptos. A tecnologia não acabou ainda com o folclore, graças a Deus.
             O que não perde espaço por nada desse mundo é o presságio. Tem pessoas que se sentem avisadas por algum mensageiro do além ou por uma força extra-sensorial de que realizar determinada tarefa ou praticar um ato qualquer deve ser evitado quando sentem um aperto no peito, indicando que algo pode dar errado. O contrário também faz parte desse contrato informal com o subconsciente. Em ambos os casos, não é raro haver algum interesse escondido por trás do pressentimento. Uma desculpa para se ver livre de alguém ou de alguma situação desagradável cai bem com uma saída diplomática dessas. Afinal quem será capaz de ir contra um mau presságio? E se der errado mesmo? O remorso, o sentimento de culpa... É o tipo do argumento no qual ao mesmo tempo se descarta logo de cara qualquer possibilidade de se fazer aquilo que não se tem vontade, sem desagradar a quem quer que seja. E de quebra, ainda sair agraciado com a fama de predestinado, caso ocorra alguma coincidência com o que foi pressentido. Do contrário,  se nada de ruim ocorrer ganha-se pelo menos o respeito e a garantia da continuidade das relações, a velha política da boa vizinhança. Desde tragédia com avião até ganhar prêmio de loteria, todo mundo já ouviu algum caso de que alguém foi avisado antes. Se não conseguiu evitar ou tirar a sorte grande foi por não terem lhe dado ouvidos ou deixado de apostar. De vez em quando ocorrem problemas de interpretação que, como se fazem com os sonhos, a coisa se dá ao contrario do pressentimento ou não tão bem à maneira decifrada pelo pressagiante.




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Já estava com tudo preparado para aquela viagem de férias que me consumiu ansiedade de um ano e me fez reduzir gastos até onde não mais poder para que não tivesse que fazer essa redução durante o descanso na praia. Uma vez por ano, pelo menos dava para dar uma esbanjadazinha. Passei o dia inteiro entre uma tarefa e outra no trabalho trocando idéias com os colegas sobre a viagem, minha expectativa, o aluguel da casa para quinze dias, e nas rodas, o Waldemilson, só observava a tudo calado e com reticências no olhar a cada frase que ouvia. Disse no final de expediente que precisava falar em particular comigo e propus após o trabalho. Não deu as caras até a manhã seguinte, quando bem cedo arrumava as coisas no carro, que bagagem de pobre tem que começar a ser arrumada é com muita antecedência para caber tudo direitinho. Aí ele aparece antes do sol. Até assustei e achei que pudesse ser algo grave mesmo a ponto de ter que  interromper ou adiar o passeio.
-Rapaz, você tem mesmo a certeza de que precisa fazer esta viagem?
- Ô Waldemilson, precisar, assim de necessidade urgente, não, mas, cê sabe, férias são só trinta dias... Por que a pergunta?
-Desde o primeiro dia que te ouvi falando dessa praia que tem uma coisa me incomodando...
- O quê, quer ir também? Já fui logo de gozação.
- Falo sério, é um sentimento esquisito, umas coisas querendo e não querendo me dizer ao mesmo tempo, um aperto danado, um sufoco.
Pensei logo, agora vai minha viagem pro ano que vem. Deve estar precisando de algum emprestado, recebi as férias...
-Tá precisando de algum para emergência?
- Que isso, cara, graças a Deus, tá tudo em ordem. É sobre a sua viagem mesmo. Melhor você não ir...
-Tá doido, sô, se eu falar isso aqui em casa vão me internar e arranjar outro motorista. Tá todo mundo esperando isso faz tempo!
- É que eu gosto muito de você e de sua família e fico com medo de acontecer alguma coisa ruim...
- Só se for chuva os dias todos, vira essa boca pra lá.
Nisso já estava todo mundo acomodado e minha filha começa a se impacientar
 -Ô pai, anda logo, que eu quero pegar uma onda hoje ainda!
Despedimos ali não sem seus conselhos premonitórios de: vá devagar, cuidado com as crianças no mar, não exagere na bebida e pá, pá, pá. Fui tentando não pensar naquilo, mas com uma pulga atrás da orelha e com a vigilância redobrada, porque independente do receio,  o cuidado é que nem canja de galinha...

Foi um dos melhores passeios que já tinha feito e  por cima, sucedido de um achado. Lá pelo terceiro dia, voltando da praia para a casa num fim de tarde, vi uma sacola esquecida na areia com uma linda máquina fotográfica dessas profissionais, com uma objetiva do tamanho de luneta. Como não havia mais ninguém por ali, levei-a comigo e tornei a trazê-la durante o resto da permanência para ver se aparecia o dono reclamando sua falta. Não acorreu e acabei tendo que ficar com ela sob o risco de dar a algum esperto que se proclamasse proprietário, como quase sempre ocorre com os objetos encontrados à mercê da sorte. Tirava fotos com uma nitidez de dispensar fotógrafo profissional, a não ser para um melhor ângulo.

De retorno à cidade, nem esperei pela volta ao trabalho para lhe contar as novidades. Como fez comigo, fui até sua casa – não tão cedo como ele – relatei a calma viagem e mostrei o achado. Espantado com minha integridade morena, sem um arranhão sequer, foi logo dizendo ao olhar a bela máquina:
- Eu sabia! (Com cara pensativa e procurando uma saída honrosa).
- Sabia o que Waldemilson?
- Uai, vai ver, então, que o que eu senti foi o dono dela se afogando.

domingo, 9 de janeiro de 2011

MINIMALISMO

imagem wikipédia



Com tantos movimentos artísticos surgidos no mundo moderno o minimalismo pode ser considerado como uma dissidência de algo com que não houve um rompimento para um recomeçar do novo. É próprio dos movimentos artísticos fazerem brotar ondas ou tendências, creio que por causa do estro criativo humano e da inquietação do criador, que quer enquadrar a obra em sua própria intimidade, no seu estilo e para a sua originalidade. Começou nas artes plásticas e foi encontrando adeptos e adaptadores. Passa para a música, para a arquitetura, para o cinema - com os curtas metragens - e para a literatura, fundamentalmente.

O minimalismo literário não escapa dessa tendência. E me chama a atenção o fato de ganhar mais e mais adeptos, com a poesia minimalista, os mini e micro contos, o poetrix, a incorporação do hai cai, numa espécie de reprodução sintética da sociedade rápida e sem profundidade da descrição do olhar e do pensamento. Já não temos tido muito tempo para a observação contemplativa de quase nada. A contemplação é amiga íntima da paciência e isto reflete tanto no leitor quanto no escritor.

Mesmo assim o olhar não foge da raia. Ele apenas orbita por muitas coisas e muitos lugares ao mesmo tempo captando e reproduzindo as impressões de quem é o dono desse olhar. Provoca mais a perspicácia do leitor ou pode também demonstrar uma falta de recursos lingüísticos do autor. Na leitura atenta e naquilo que é omitido propositalmente é que a gente viaja, com conforto ou aos solavancos.

Com o advento da leitura eletrônica e da celeridade do mundo sem freio, creio ser um caminho cada vez mais a ser perseguido. Há textos que correspondem a uma fotografia e a gente cria a história através da imagem que as poucas palavras nos indicam mentalmente. Se é uma boa ou má aventura literária na formação de novos leitores ainda não se sabe. Prometo que se tiver pistas, rapidinho eu faço uma mini crônica sobre o assunto.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

NA TRAVE!!!

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Ganhar a quina da mega-sena quando ela está acumulada em quase 200 milhões pode ser uma tragédia. Ainda mais se você é daquelas pessoas que quando chega o dia do bolão da virada de ano aposta todas as economias que havia feito para uma viagem ou uma emergência qualquer. Aconteceu com um morador daqui do meu bairro que está hospitalizado depois de um infarto agudo do miocárdio. Ele fez uma aposta de 50 cartões, cada um com dez números. Isso somou uma bagatela de 21.000 reais.

Um cara metido a matemático, (mal)feitor das probabilidades, estatísticas e promessas de felicidade garantida lhe assegurou que com a combinação indicada, seria batata! Ele hesitou, escondeu o feito de toda a família e aguardava para fazer uma surpresa de ano novo. Chegar ruidosamente para anunciar a sorte grande. Quem sabe um cruzeiro marítimo às ilhas gregas, quem sabe uma aventura em Machu Pichu ou uma inesquecível viagem ao Caribe? Qualquer lugar, afinal, o dinheiro daria para ir com sobra e soberba.

A quina que ele acertou pagou a ninharia de R$ 17.722,09. O prejuízo de três mil e poucos reais não foi o motivo do ataque segundo me contou o seu irmão. Ele ia sofrer de qualquer forma, pois segundo o relato, na hora de conferir os jogos, ele passou mal no último dos cartões e quando estava acertando o quarto dos cinco números do total. Sorte ou azar? Espero que se recupere rápido pra voltar ao trabalho e repor o dinheiro das economias familiares. Estão todos acompanhando os boletins médicos que garantem alta para breve e a coisa vai ficar feia quando voltar para casa.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O SONO R O M (ronc)

Sono Rem-imagem google

Os especialistas depois de seu último congresso internacional vêm nos acordar para nos deixar ligados nas novas descobertas que têm feito acerca do sono. A quantidade, a qualidade, as causas e os efeitos das boas e péssimas noites de nossa pausa para o corpo descansar.

Descansar na nossa idéia, pois, segundo eles, a gente está, na verdade é com uma parte relaxando e outra continuando o seu trabalho de revitalização, realimentando as células e renovando o corpo e a mente para o dia seguinte. Entendi popularmente que é como dormir com um olho fechado e outro aberto, próprio das pessoas desconfiadas ou de rabo preso com algum mal feito. Xi! O mundo só deve dormir pela metade e olhe lá!

Descobri que existem basicamente na ciência sonológica, os sonos REM e não-REM. O primeiro, profundo, relaxante, com a guarda totalmente aberta e o outro, o tal de não-REM, é o vigilante.
Sono ROM - imagem google

Entre eles, incluo o ROM, que é o ruído meu e de muita gente boa que costuma não deixar ninguém ter o seu REM e às vezes acordar-se com o próprio barulho do ROM, de tão alto.

Tenho guardada até hoje comigo (nem sei para quê), uma fita cassete com a gravação de um ronco de um colega de quarto nos meus tempos de estagiário. Ele não acreditava que fosse possível emitir um urro tão leonino e eu não acreditava que iria ter que passar os próximos seis meses sem conseguir dormir. A casa só tinha um quarto e o chão da cozinha era gelado demais para colocar o meu colchão. O banheiro só me cabia em pé. Posição que não é lá muito agradável de se dormir. A gravação foi uma prova contra a sua descrença e  uma vingança ao mesmo tempo, já que o esperava adormecer e ligava o toca-fitas. Ele acordava para me xingar que o barulho o estava  incomodando. Não ficamos inimigos por isso. Passei a beber algo forte antes de deitar e aí um ronco passou a combater o outro. Assim dormíamos.  Se bem ou mal, não sei até hoje, mas continuo roncando.

Tive uma tia  a quem admirava muito e, quando criança mais ainda, na hora em que ela dormia. A diversão em casa era ir ao quarto quando ela pegava no sono para curtirmos a sinfonia. Ela dava um assobio antes do gutural groaarrrrrr (vou ver se descubro uma onomatopéia melhor), essas dos quadrinhos (ronc, ronc, ronc,), não estão com nada em termos de representação de ruído de sono.

Consegui com os especialistas (ah! os especialistas, sempre eles) um alento para minha autopunição por gostar de dormir durante o dia. Sempre achei uma justificativa de que o hábito veio de anos trabalhando em regime de revezamento de turnos, não querendo nunca admitir que fosse preguiça mesmo e eles, de novo, dizem que há certa hereditariedade nos sucessos e transtornos do sono. Há dorminhocos e insones por culpa exclusiva de seus ancestrais. Quer ver meu pai dormindo? Coloque-o sentado em frente a uma televisão. Antes achava que dormia por enfado da programação. Mas não, dorme até em jogo do Flamengo, seu único time do coração. Se estiver em uma mesa ou numa roda qualquer e a conversa parar, não resiste a cinco minutos do silêncio. Não chega a roncar sentado, mas dorme com a boca aberta até os cantos das orelhas. Eu também já dormi até em cadeira de dentista, em túnel de tomografia e em mesa de bar. Nesse último caso houve ajuda externa ao metabolismo basal.

E, por último – palavra dos especialistas – a morte é igualmente inevitável para quem dorme mais ou menos. Não vive mais quem dorme muito e vice-versa. O que importa é a qualidade que o sono tem. Só  ofereço o meu lamento a quem vive com um(a) companheiro(a) com sono ROM. Esses não dormem nem bem nem mal.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

ANO NOVO

As mudanças que quase todos alardeamos são uma espécie de alheamento. Se não começarmos de dentro para fora, nunca ultrapassaremos os meros rituais.

domingo, 2 de janeiro de 2011

DE GENIAIS

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Começo o meu primeiro domingo do ano de uma maneira que aprecio muito. Abro o jornal de manhã e leio a crônica do Luis Fernando Veríssimo e depois a da Martha Medeiros no jornal Hoje em Dia. Ele falando sobre futebol, de ídolos desconhecidos e saudosismos de times para os quais torceu durante a juventude. Para quem está habituado a ler suas crônicas fica parecendo que ele estava padecendo de uma falta de assunto num domingo onde, creio, pouca gente vai ler os jornais diante da ressaca do ano novo, da viagem ou do simples descanso, já que amanhã, espera-se, o Brasil volta ao normal. Mesmo sendo esse normal que estamos acostumados a arrastar com a barriga até depois do carnaval.
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 Em seguida, vou para a Martha, falando sobre um momento mágico em que saiu de casa para ir aos correios, quase foi atropelada e presenciou uma cena poética depois que um caminhão deixou cair na rua um saco com umas lâminas de isopor. Os carros passaram por cima, moeram tudo e transformaram aquilo num espetáculo fantasioso de neve de isopor pelas ruas, ajudado pelo vento, em pleno verão de Porto Alegre. Pode ser imaginação dela, que estava meio sem assunto e criou isso a partir de uma visão simples. Pode ser, mas isso sou eu interpretando os dois.

Da falta de assunto para dias sem muito significado fazer uma coisa dessas, passa a ser coisa de geniais, transformando preguiça, resto de feriado em boa literatura, animando ate mesmo a mim que acabei entusiasmado para escrever alguma coisa. Um bom dia, leitor(a)!

sábado, 1 de janeiro de 2011

DE PASSAGEM...

PROPOSTAS PARA 2011

Eu não farei uma lista como habitualmente se faz. O que pode me melhorar como pessoa? E o que pode me contentar a ponto de eu chamar de felicidade, que permaneça em mim por mais tempo do que conquistas traduzidas em aparência e satisfação que precisa estar em constante substituição, pois foi embora tal como veio (desprovida de permanência)?

Na medida em que vou amadurecendo vou substituindo o desejo pelo sentimento instalado. Só passarei a desejar a coisa quando sentir que estou realmente apto para obtê-la. Não mais me encantam tantas conquistas materiais. Já tenho quase tudo de que preciso. Vou me concentrar mais no sentir. Partir para o pertencimento da coisa antes de obtê-la. Essa coisa menos palpável, no entanto com gosto que me satisfaça o espírito. É uma árdua tarefa essa do desapego material. Difícil a gente dissociar o desejo na nossa sociedade sem ele estar relacionado com a posse física das coisas.

Então, acho que meus rituais vão ser mais meditativos, vão estar mais voltados para a contemplação, vão precisar de um grande esforço, sem dúvida. Um exemplo: eu tenho uma boa câmera fotográfica e a uso tão pouco! Quero registrar mais e mais momentos de grande significado para mim e para alguma história. Se não for de eventos, que seja de coisas que me emocionaram pela beleza, pela situação em si ou simplesmente se for para dar alguma contribuição em geral. De contribuição também eu quero muito participar. Quero servir muito mais do que ser servido. Quero não ficar apenas na reciprocidade das relações. Doar-me sem esperar que em troca eu receba alguma espécie de recompensa que ultrapasse o reconhecimento e, principalmente, servir para multiplicar, se o meu ato for algum exemplo de virtude. Não se trata de tornar-me “o bonzinho”, apenas desinteressado de pagas que não deixam  rastros. Quero é fincar mais raízes.

Quem sabe eu não faça mais passeios Socráticos? Talvez visite mais o interior do meu estado ou do país. Isso faz muito bem. Tanto o contato mais estreito com a natureza como o contato mais caloroso das pessoas, ainda sem tantas restrições como nas grandes cidades. Quem sabe eu não vá mais vezes à orla marítima para ficar contemplando e medindo meu diminuto tamanho? Ali está a vastidão do mundo, já que no espaço sideral eu não tenho possibilidade de ir e nem sei se gostaria de vagar sem gravidade, isso tiraria minha pouca substância, creio. É assim que vou caminhar desde a entrada de 2011.






“Tudo é ousadia na vida daqueles que a nada se arriscam” (F. Pessoa).

“A ambição torna os homens audazes. A audácia sem ambição é privilégio de poucos” (C.D.A.).

Saúde, alegrias, muita paz e muito bem em 2011




(este texto está também no blog Pensando em Família, da Norma Emiliano)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

LEGADO

O meu legado, Maria
Não terá pompa nem hipocrisia
Não comportará heresia
Também não gerará mais-valia
Pois só o que tenho é poesia

Quando for ter contigo, Maria,
Terei já deixado por aqui o melhor que havia
Amor, trabalho e alegria
Poemas e prosas de vária serventia
Menos dinheiro, menos matéria, menos algia



À minha mãe
24/12/1931
18/06/1983.








Desejo a todos um lindo Natal, cheio de alegrias, saúde plena e generosidade humana. Muita paz e muito bem.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

UM APAGÃO

O desastre foi como um terremoto vindo de fora para dentro. A terra não tremeu em seu interior, foi uma espécie de desalinhamento orbital que gerou uma sacudidela muito leve. Mas o suficiente para desorganizar toda a vida da superfície. E o primeiro efeito e o mais visível, paradoxalmente, foi a falta de energia. Apagam-se todas as luzes, as transmissões de televisão, rádio e internet. Não há noticias as não ser pelos velhos radinhos de pilha, mesmo assim daquelas emissoras cujos geradores movidos a combustível funcionam. Dá para se ter algumas noticias localizadas. Um apagão geral.

As imagens voltaram a ser mentais norteando os desejos e vontades de todo mundo. O que é visto é cobiçado mais do que qualquer outra sensação humana. As pessoas não estão acostumadas a formar, a idealizar a partir de imagens mentais. A leitura dos olhos é que guiou desde sempre os anseios. Então, todo mundo novamente teve que reaprender, assim como as crianças antigamente iam vendo o mundo e perguntando os porquês. A visão é dos nossos sentidos, o que mais imediatamente nos privilegiou para a contemplação das coisas. O bombardeio de imagens feitas pelo homem fora do mundo da arte nos turva, nos agride, nos ceifa a capacidade contemplativa. Provoca uma espécie de dormência fazendo o tato e a audição suplantarem o nosso estro criativo. Tudo o que se nos mostra é para aguçar o desejo de possuir a coisa mostrada, ou o que estiver por detrás dessa coisa mostrada.

Um cenário de apaziguamento é o que se vê por todos os lados por causa da necessidade que uns passam a ter dos outros. E então os olhares se voltam de pessoa para pessoa. Quantos diálogos olho no olho! Quanta gente reunida em esquinas e ajudando-se mutuamente. Diminuem-se as desavenças, diminui a indiferença, aumenta o potencial humano de todo mundo, pelo menos até voltarem as luzes que devolveriam a artificialidade ao mundo encantado de sons, imagens, anúncios luminosos, dos comerciais, dos vídeos, do sonho dos computadores.  Downloads mentais eram tudo o que estava ao alcance da criação humana. A cópia, por outro lado, não estava ao alcance, que bom! Se nada se criava, nada também se copiava. Mas tudo se transformava. A propaganda toda voltava a ser cinza e com voz chamativa por detrás. Quem queria vender tinha que escrever em papel e usar a fala direta no convencimento. Quem queria se mostrar, tinha que desfilar aos olhos individuais para ser submetido ao crivo dos gostos agora não tão uniformes, não tão manipulados para a formação de um senso comum.

Então, embora as coisas não pudessem voltar a um primitivismo de ralações, adquiriram  um primitivismo de não sujeição. Uma relativa horizontalidade nas relações. Pelo menos até voltar a energia que nos conduz ao que nos coloca limites. É como se voltassem todos a ser crianças, porém sem adultos que desvirtuassem sua imaginação e fantasia de observadora e portanto, de criadora de sua própria realidade. É incrível como somos guiados pela sistemática das recompensas. Como passou todo mundo a depender de todo mundo, deu para sentir uma demasiada mostra de humanidade no ser humano. A luz do dia e a penumbra mal iluminada pelas velas, lanternas e faróis devolveram ao homem a capacidade contemplativa. Com ela veio de volta a tolerância, os significados passaram de objeto para não-coisa, gente.
Uma pena que a luz foi restabelecida às vésperas do Natal

domingo, 19 de dezembro de 2010

DICAS PARA EVITAR O ESTRESSE ANTECIPADO

Com as novas tecnologias, vêm também novas formas de antecipar as coisas, obter vantagens, benefícios e... estresse. Como vantagens e benefícios são poucos que se oferecem e estresse tem de sobra, aqui vão algumas dicas para se evitar. Não desaparecendo os efeitos, recomendo chá de camomila quatro vezes ao dia.

- A receita federal tem oferecido, quase imediatamente após você ter entregado a declaração do imposto de renda, a oportunidade de saber se a sua foi processada através do seu site. Nunca faça isso. Uns três dias após a entrega, você já pode saber se está na malha fina. O pior é que não se pode saber quando vai receber a restituição. Vá somando pontos como sedativo se você não caiu em tentação.

- Achei uma resposta infalível para o telemarketing: Depois de umas oito negativas de adquirir um produto que queriam me empurrar, resolvi disfarçar-me de Ricardão (espero que ele não leia isso): Atendi e disse que o Sr José Cláudio havia falecido em um terrível desastre.
- Aquele do avião? Perguntou-me a moça.
- Não, mas foi bem trágico também. E o pior, o desgraçado deixou a viúva aqui cheia de dívidas. Eu achando que ia ficar no bem bom, vou ter que ralar para ajudá-la a pagar.
Ela pediu mil desculpas ofereceu suas condolências e nunca mais ligou. Creio, inclusive, que falou com outras empresas. Ninguém mais tem me ligado para oferecer o paraíso em suaves prestações.
(P.S.: contra o gerúndio nos atendimentos não tem remédio ainda)

- Para quem pensava que o rádio estava em desuso, obsoleto, experimente carregar na bolsa ou no bolso esses aparelhinhos de mp3,4,5... Não há nada melhor para filas intermináveis, ônibus, metrô e outras paradas indesejáveis. Mas, atenção: tem que ser rádio, não música gravada. É que entre uma musiquinha e outra, sempre tem uma notícia, uma agenda cultural, um caso inusitado que inspiram um poema, um causo, uma crônica, um pensamento criativo. Cuidado com os programas de curas e rádio polícia. O efeito é inverso.

- Em cidades medias e grandes, use o carro somente em casos fortuitos de força maior. Calma! O transporte público é uma  porcaria, eu sei. Mas nada se compara ao trânsito de carros particulares. Nenhum inferno é mais quente. Em todo caso, qualquer dos meios de transporte que for usar, sempre saia de casa uma meia hora antes do habitual. Leve um biscoitinho ou uma maçã. A gente nunca sabe...

- Se você é usuário involuntário e necessitado do SUS, não precisa ler esse tópico. Se tiver um plano de saúde, sugira aos médicos (eu tenho feito isso) para pararem de colocar a revista Caras na sala de espera. Ou, no mínimo variar! Estou começando a desconfiar que os médicos é que gostam daquela porcaria. Como eles podem supor que todos os pacientes gostam de ficar vendo aquelas futilidades com calma e terem que esperar uma, duas horas para a consulta que havia sido agendada com uma semana de antecedência? E ainda por cima, revistas de seis meses, um ano atrás? Podia ser pelo menos Mônica, Cascão, Cebolinha.... A gente tem alguma coisa para ler e nem vê o tempo passar.

Em todos esses e demais casos, não faça cara feia ou de raiva como deve estar fazendo ao terminar essa leitura. Mantenha o bom humor sempre.

sábado, 18 de dezembro de 2010

SE SOBRAR UM TEMPINHO...

O tempo é uma categoria abstrata inventada pelo homem para medir entre outros afazeres, o seu próprio vazio existencial.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

SOBRE PRIVILÉGIOS

imagem:opiniaopublica3.zip.net



Diz a constituição: “todos são iguais perante a lei”.

Exceto os que possuem foro privilegiado?

Quem fez as leis e quem as julga são os detentores desse privilégio.

Me faz lembrar de uma esperteza que a gente usava inocentemente na infância: “quem parte e reparte fica com a maior parte.”  

Será que os legisladores e juristas levaram isso a sério?

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

NOTA DE ESCLARECIMENTO


ALTERAÇÃODE PERFIL

Tive que alterar meu cadastro aqui Blog e no Recanto das Letras (RL), incluindo mais um nome. Para aqueles que não gostam muito de mim deve ser uma tristeza. Ter que agüentar Cacá e José Cláudio ao mesmo tempo será um suplício.

Explico: estou sendo acusado repetidas vezes de plagio descarado, cópias do tipo Ctrl+C  e  Ctrl+V, sem mudar uma vírgula ou sequer o título.Tenho recebido mensagens  ofensivas com frequência. Mas dou razão a quem as enviou, embora muitos não fizessem uma identificação ou deixassem um endereço onde eu pudesse responder. Plágio é mesmo uma abominação imperdoável.

Antes de me ingressar no RL eu já possuía esse blog, onde uso Cacá. Quando tentei me cadastrar assim no Recanto, não foi aceito por já existir esse nome ou apelido. Fiquei meio furioso momentaneamente, afinal, Cacá é como sou chamado desde priscas eras. Só passei a gostar de usar o José Cláudio por causa de minha mãe. Um dia, poucos meses antes de vir a falecer ela me disse que passaria a me tratar pelo meu nome de batismo novamente, pois era assim que ela havia escolhido.

O lado bom das ofensas é que sempre que as recebo a pessoa está defendendo um ou  outro. Dizem que gostam do que o José Cláudio escreve e o Cacá seria um engodo, uma falácia, um trapaceiro, uma fraude em pessoa. O oposto também ocorre do mesmo jeito.

Então, esclarecido o imbróglio, aqui passo a figurar como Cacá - José Cláudio. E no Recanto, como José Cláudio Cacá . E que esta ordem não piore a qualidade.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

BIG BROTHER

http://www.libertar.info/news/big-brother-a-internet-das-coisas-esta-a-caminho/



Depois do Wikileaks ninguém que faz uso da internet vai poder reclamar de não ser um potencial candidato a participar de um Big Brother (em nível mundial). Pode não dar dinheiro mas a pessoa terá seus minutos de fama garantidos .

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

LEÃO

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- Se é verdade que “o cachorro é um ser humano como qualquer outro” (segundo palavras de um ex-ministro do trabalho),

 - E já que ninguém está disposto a acompanhar o “troque seu cachorro por uma criança pobre” (segundo recomendou o Eduardo Dusek em uma  canção),

Estou inclinado a fazer uma solicitação aos deputados e senadores para que aprovem uma lei que permita a gente incluir os cachorros como dependentes no Imposto de Renda. Minha cachorra adoeceu e estou gastando uma fortuna com consultas, exames e remédios, tal como se gasta com humanos.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

CLASSES SOCIAIS

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DEPOIS DE MAIS UM PASSEIO NO SHOPPING

Descobri que a divisão de classes em A, B, C, D e E só serviu até agora para o preconceito, a discriminação e o endividamento progressivo.

domingo, 12 de dezembro de 2010

CHARADA FAMILIAR (I)

Eu havia publicado esta charada faz um tempinho e recentemente, lendo um texto divertido na página da Mari (meu cantinho de Sonhar), não só me lembrei de uma charada das famílias modernas como atualizei a minha. É que, de lá para cá mudou alguma coisa. Está lançado o desafio a todos que quiserem tentar desvendar (a partir do segundo parágrafo).

CHARADA DAS FAMÍLIAS MODERNAS
Conversa de uma mãe com seu filho de quatro anos, reproduzida em programa sobre as famílias novas e complexas, apesar de não mais problemáticas do que as consideradas normais.

- Mãe, o Julinho é seu filho?
- Não, ele é filho do primeiro casamento do seu pai.
- E o Marcelo é seu filho?
- Ele é filho do segundo casamento do papai.
- A Belinha é filha do papai também?
- Não, ela é filha da mamãe, do primeiro casamento.
- (???) Mãe, eu sou seu filho?

MINHA CHARADA
Eu, além de me identificar não resisto e proponho que decifrem a minha charada familiar. Minha família também é diferente, mas não dá mais trabalho por isso. Tentem:

Minha filha mais velha tem três irmãos, sendo que só dois deles são irmãos entre si. A minha filha mais nova tem uma irmã mais velha e não é irmã dos outros irmãos da mais velha. Ou seja, tenho duas filhas, sendo que a primeira tem três irmãos e a segunda tem uma irmã.
PS: A  minha filha mais nova agora tem , além de uma irmã mais velha, um irmão mais novo (atualizado a partir de junho/10)

sábado, 11 de dezembro de 2010

LUTAS MORNAS, QUASE FRIAS

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Sou saudoso de um tempo em que sociedade organizada significava mais do que filas individuais.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

JÚDICE

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Uma vertente da psicologia diz que aquilo que não conseguimos resolver em nós mesmos, colocamos na conta de destino. Pois quis o destino que por uma desavença mal curada entre um casal, o filho viesse a ter o nome que acabou sendo a expressão quase gramatical da pendência. A mãe queria homenagear seu próprio pai, o avô do menino e propôs que se chamasse Juvenal. O pai, dono, senhor da razão e das verbas de manutenção da família encasquetou que seria Lídice. Esse nome era uma homenagem às suas origens ancestrais, lá de uma pequena cidade da antiga Tchecoslováquia de onde sua família havia fugido para o Brasil da perseguição nazista durante a segunda guerra. Não chegaram a ir às raias do tribunal mas o menino veio a se chamar Júdice. Era o resultado de um mal costurado acordo através das junções de sílabas e partes dos dois nomes desejados por cada um.

Não viveu “sub judice” mas  por influência do meio tomou gosto pela encrenca ao longo de sua existência. Durante o seu périplo pelo mundo suas inquietações pareciam ser uma transferência genética do nome para o biotipo, para a psique e para o tipo social em que se transformou. Quanto ao físico, a característica mais marcante era o olhar desconfiado, além de um inseparável boné que usava com a aba sempre virada para trás ou para um dos lados. Para frente, dizia ele, atrapalhava a sua visão apurada. Com isso queria indicar que seu olhar fazia parte da sua perspectiva notória de que para tudo o que olhasse tivesse um potencial de resolução imediata ou questionamento idem.

No aspecto psicológico, exibia um quê de superioridade de conhecimentos acerca de qualquer assunto que lhe caísse aos olhos ou ouvidos. Sempre com a inconfundível exclamação de autoridade: “Péra lá! Deixa que eu resolvo”. Esta expressão antecipava o que ele considerava ser essencial: dar a sua opinião antes de alguém prosseguir com qualquer afirmação, negação, explicação ou até mesmo a continuação de um caso qualquer que estivesse sendo dito, ainda que o assunto não fosse de sua alçada e nem se a conversa não fosse com ele.

Socialmente se engajou no movimento do grupo de jovens da igreja do bairro e não demorou a ser convidado a sair, pois achou que com o tempo e sua argumentação persuasiva podia mandar mais do que o padre. O capelão, desconfiado e experiente, precaveu-se:
- Vai que esse menino daqui a pouco resolve encarnar Jesus...!
Convocou-o para a função de coroinha, o que foi prontamente negado. Júdice achava muita subserviência para sua ampla noção de mundo. Tocar sino, carregar hóstia, vinho e demais apetrechos de missa para ele era função de menor importância.

Nas primeiras séries da escola e com um talento desse tamanho para a contenda todos apostavam que ia ser um advogado, um juiz, um doutor das leis mundanas. No segundo grau de antigamente, aquela faixa de escolaridade que antecede o ensino superior, resolveu estudar eletricidade para desespero dos pais. O pai, dizia, aflito para a mãe:
 - Meu Deus, esse menino vai incendiar meio mundo! Imagine ele questionando um polo negativo e um positivo que tem de se unir para gerar eletricidade... Se não for de sua concordância, vai ser curto circuito na certa!
Mas ele parou os estudos por ali mesmo. Encantou-se tanto com os mistérios dos elétrons, prótons e nêutrons formando campos magnéticos invisíveis, porém transformando-se em movimentos, luz e calor visíveis e sentidos que abandonou o sonho da família. Assim como o dito destino tem suas ironias, o predestinado também aprende a dar seus dribles na sina. Era mais uma maneira de mostrar sua autoridade, independência e prazer pela querela. Júdice era seu nome tal e qual era seu modo de viver.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

SEGREDOS NO COMPUTADOR (I)


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 Todos os segredos do mundo estão guardados nos computadores. Já houve um tempo em que eram usados cofres. E para manter ainda mais os segredos, eles ficavam embutidos na parede e atrás daquele quadro com um rosto familiar ou uma obra famosa. Para completar, quem tivesse acesso ao cofre tinha que primeiro saber o segredo para abri-lo e só então, ter acesso ao que estava sigilosamente guardado lá dentro. Costumava ser uma grande herança, títulos de terra, promissórias, jóias de família ou barras de ouro. Ali também eram guardados documentos comprometedores. A prova da paternidade daquele filho, a revelação de algum testamento (sempre tinha mais alguém que os herdeiros não imaginavam e acabava dando confusão após a morte do doador).

Entre os poderosos tinha sempre algum segredo de estado, algo que poderia mudar o destino de muita gente e se algum bisbilhoteiro tivesse acesso, ficava com o poder do bem e do mal.
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O velho colchão que outrora cumpriu esse papel foi rapidamente superado. Qualquer um que fosse arrumar a cama direitinho, numa sacudida esbarrava com a dinheirama ou a papelada secreta e tudo estava perdido. O cofre foi seu sucessor nessa função. Deixaram o colchão apenas para o repouso e outros prazeres, além das mijadas, claro!

Hoje o grande guardião se chama PC. Isso mesmo; esse computador ai onde você está lendo. Ah, teve também o telefone para segredos mais pessoais ou que precisavam ser divididos para dar certo ou para comprometer mais alguém. Mas o grampo tem mostrado que não é confiável combinar trapaças, tramóias e maracutaias e traições por via  telefônica. Só mesmo os incautos continuam  com a teimosia de tramar através de conversas pelo fixo ou celular.

O computador (pelo menos se não cair nas mãos da polícia através de alguma denúncia) é que tem guardados todos os segredos do mundo. Mas não pense que na hora do aperto é só dar um Del e seu arquivo vai para o espaço sem rasto. A mesma onda magnética que o levou para dentro da memória o mantém por ai, em algum lugar que só os especialistas e a Polícia descobrem. Esse invento de última geração é um sucesso, mas funciona como os sinais de fumaça ou as antigas batidas de tambor. Uma vez digitados, cheirados ou ouvidos, estão registrados para sempre. Cuidado!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A MADRUGADA

BH - imagem google

04: 15 da manhã. Uma música alta, ouço apenas o refrão: “Valeu a pena, Valeu a pena, pescador de ilusão...”

Uma sirene. Resgate? Polícia? Tão comuns as ocorrências que o som já está incorporado ao cotidiano. Faz falta o dia que não tem. É tão estranho estar calmo! Como nos dias de longos feriados, a cidade curiosa e contraditoriamente parece ficar mais humanizada quando tem poucas pessoas. A gentileza e a tolerância parecem confirmar serem sentimentos de poucos. Todo mundo fazendo presenças nos lugares de lazer e numa ternura quase palpável como se tivesse data certa para acontecer. Momentos de ver crianças brincando livres como deveriam ser todo dia, de gente dedicando o ouvido ao outro dando a sensação de que estão de fato prestando a atenção, considerando-o semelhante com todas as possibilidades antropológicas sociais.

Uma cidade que dorme em parcelas. O moço da padaria acaba de passar com sua moto de ruído inconfundível. Daqui a pouco tem pão fresquinho e já estará claro o dia. Fico pensando sobre a vastidão do mundo e a insignificância de cada um isoladamente. Caber no mundo todo mundo cabe. O problema é como cada um se encaixa no seu quinhão de área livre para circular e acontecer humanamente. E o mais intrigante ainda é como cada um acontece. Gente cheia de sonhos, gente que nada sonha. Apenas trafega por lugares mais longínquos ou mesmo ao nosso lado cada um exibindo a sua indiferença e alguns com uma indisfarçável demonstração de desejo de reconhecimento.

E eu aqui tentando escrever sobre algo que contemple esse espírito emocionado. Acho que não precisa, sinto que uma paz estranha assim não encontra eco nas palavras que se apresentam disponíveis para mim. Estou saciado por ora. Idiossincrasias da solidão coletiva.
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