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sábado, 10 de dezembro de 2011

DESAVENÇAS

imagem google

Os barulhos tecnológicos parecem gozar de mais prestígio aos ouvidos urbanos do que os antigos sons da natureza. Há quem prefira acordar com um celular apitando freneticamente do que com um galo cantando.

Seu Alberto e Antônio são vizinhos num bairro antigo daqui da cidade. Antônio veio do interior mas o interior não saiu dele. Ponto positivo no meu entendimento, pois o cultivo de alguns hábitos interioranos tempera a louca correria da cidade sem tempo para as pessoas prestarem atenção nas outras. Amistosidades estão se tornando uma coisa cada vez mais rara. Animosidades, por outro lado, são tão comuns que tem gente que até desconfia quando uma aproximação se mostra muito amável, a ponto de virar futura amizade. Pois era assim com os dois. Seu Alberto, nascido e criado em cidade grande, já morou no Rio, São Paulo, Porto Alegre e Salvador. Depois de rodar muitos anos, voltou e disse que logo que se aposentar (em breve) fica quieto por aqui mesmo, já que é de BH e a família nunca o acompanhou pelos trechos por onde circulou a trabalho.

Antônio cultiva uma bela horta em seu pequeno quintal e não foi uma ou duas vezes que distribuiu verduras para a vizinhança. A família de Seu Alberto sempre recebeu muitas couves, alfaces e cheiros verdes fresquinhos do vizinho do lado. Bom sujeito, dizem outros vizinhos. Ele mais o seu Alberto tomavam uma cervejinha toda sexta feira num boteco perto de casa e contavam longas histórias de vida e família. Agora estão numa querela na justiça. E sabe o porquê? Por causa de um galo.

Antônio resolveu incrementar seu acanhado sítio urbano de pouco mais de um are, fez um pequeno galinheiro e cria umas galinhas caipiras para consumo próprio e ovos. Galinha poedeira que se preze não vive sem um galo na sua freguesia e o Antônio caprichou na escolha. Um cantador de primeira, pois segundo os galistas mais entendidos, quanto mais potente o canto, mais eficiente o galo na cobertura do galinheiro inteiro, seja quantas galinhas possuir. Seu Alberto queria que ele matasse o bicho. Matar o galo é extermínio criminoso de animais, defende-se o Antônio.

Nerso da Carpitinga, personagem caipira do humor televisivo tinha o seu Frederico, criado dentro de casa tamanha a estima do dono. E quem não se lembra da Giserda do Chico Bento, companheira de cocoricós e andanças com ele pelo sítio criado pelo Maurício de Souza? Chico fazia até declaração amor pela Giserda.

Seu Alberto e o Antônio viraram inimigos. Seu Alberto, apesar de acordar cedo para o trabalho não aguenta a cantoria do galo, normalmente anunciada uma hora mais cedo do que a sua necessidade. O juiz propôs um acordo amigável solicitando ao Antônio fazer uma cobertura com isolamento térmico, pelo menos para colocar o galo até o dia amanhecer por completo. Ele negou-se alegando cárcere privado e maus tratos aos animais. Seu Alberto mantém-se irredutível: o galo tem que ser silenciado de um jeito ou de outro...

Depois desses argumentos o juiz nem cogitou a segunda hipótese – o plano B - que era a de cozinhar o galo e fazerem um almoço de confraternização das duas famílias. Encerrou a tentativa de conciliação e marcou a sentença para daí a alguns dias (se o galo não sofrer um atentado até lá).

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A MADRUGADA

BH - imagem google

04: 15 da manhã. Uma música alta, ouço apenas o refrão: “Valeu a pena, Valeu a pena, pescador de ilusão...”

Uma sirene. Resgate? Polícia? Tão comuns as ocorrências que o som já está incorporado ao cotidiano. Faz falta o dia que não tem. É tão estranho estar calmo! Como nos dias de longos feriados, a cidade curiosa e contraditoriamente parece ficar mais humanizada quando tem poucas pessoas. A gentileza e a tolerância parecem confirmar serem sentimentos de poucos. Todo mundo fazendo presenças nos lugares de lazer e numa ternura quase palpável como se tivesse data certa para acontecer. Momentos de ver crianças brincando livres como deveriam ser todo dia, de gente dedicando o ouvido ao outro dando a sensação de que estão de fato prestando a atenção, considerando-o semelhante com todas as possibilidades antropológicas sociais.

Uma cidade que dorme em parcelas. O moço da padaria acaba de passar com sua moto de ruído inconfundível. Daqui a pouco tem pão fresquinho e já estará claro o dia. Fico pensando sobre a vastidão do mundo e a insignificância de cada um isoladamente. Caber no mundo todo mundo cabe. O problema é como cada um se encaixa no seu quinhão de área livre para circular e acontecer humanamente. E o mais intrigante ainda é como cada um acontece. Gente cheia de sonhos, gente que nada sonha. Apenas trafega por lugares mais longínquos ou mesmo ao nosso lado cada um exibindo a sua indiferença e alguns com uma indisfarçável demonstração de desejo de reconhecimento.

E eu aqui tentando escrever sobre algo que contemple esse espírito emocionado. Acho que não precisa, sinto que uma paz estranha assim não encontra eco nas palavras que se apresentam disponíveis para mim. Estou saciado por ora. Idiossincrasias da solidão coletiva.
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