“Eu me considero classe econômica, do tipo que viaja pela vida em poltrona apertada, sem direito a muitas esticadas e sem banco reclinável. Aliás, de bancos eu tenho muita pouca coisa boa pra falar. Para quem possui um dinheirinho, os bancos são os piores lugares para ele ficar assentado em nome de alguma segurança.. Já fui fundos-C e já morei também em casa geminada. Dá uma sensação de igualdade, morar lado a lado e no mesmo lote do dono do imóvel, mesmo sendo de aluguel. Hoje eu virei namoradinho do Brasil. Não me tornei celebridade nem nada. Apenas a menina dos olhos dos donos da indústria e do comércio e propaganda da mídia toda. Não sou mais fundos-C, sou a própria classe que resolveram denominar de C. Fico entre uns poucos salários mínimos que nem chegam perto anualmente daquilo que um deputado ganha, por exemplo, em um mês mas entrei definitivamente na seara do consumo de primeira linha. Mesmo sendo mal atendindo, com aquelas caras de desconfiança. Vê se pode, o dono do estabelecimento costuma nem ser ainda classe A e o atendente está lá pela faixa D ou E; como é que se entende uma coisa dessas?”
(Depoimento colhido pelo Arcanjo Isabelito Salustiano, o Filósofo das Ruas, num belo shopping de BH)
Eu estudei um pouco de economia política entre Adam Smith, Marx e Keynes os três principais teóricos desta matéria que hoje considero a rainha má da nossa sociedade. A divisão de classes se dava basicamente pela classe dos donos das coisas e dos donos das energias e forças (de trabalho). Havia no meio uma classe intermediária que nem era dona do capital, máquinas e instrumentos, nem era somente uma força de trabalho disponível. Geralmente autônoma ou nos altos escalões de assalariados que administrava o dinheiro dos ricos e negava suas próprias origens, querendo ultrapassar a barreira da renda e pulando para cima. Era a classe média. Fala-se muito também hoje em dia, de pessoa que pertence à classe baixa e à alta. Eu fico sem saber se isso é um desmerecimento social ou se está se falando da renda da pessoa. Aí, o negócio é prestar atenção em quem está falando, se tem intenção pejorativa, se é por desconhecimento da composição da pirâmide ou se é arrogância.
Eu não sei de quem foi a ideia maquiavelicamente brilhante de reduzir o número de saltos nessa mobilidade de classes e fragmentou com números e renda a classe média. Ou seja, para ser considerado rico, o sujeito tem que ultrapassar mil e uma barreiras, ou melhor, uns cinco degraus de classes*. O topo não é para todo mundo, mas alguém determinou que também não deve ser para muitos. O que desespera muita gente é uma perspectiva de igualdade, mesmo que remota.
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*divisão estabelecida pelo IBGE, Ipea, FGV, Empresas de Publicidade e outros organismos de estudos e estatísticas sócios econômicas.
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