quinta-feira, 21 de outubro de 2010

VIAGENS E DELÍRIOS




Você já imaginou combinar uma dose de erudição com um jogo de cintura tipicamente brasileiro? Mais ainda, tipicamente carioca? Ler a obra de Jorge Luis é trafegar por estes férteis e prazerosos caminhos. Férteis pelo profundo assentamento histórico sociológico e psicológico do perfil das histórias e personagens. E prazerosos pela relaxante e bem humorada harmonia que ele consegue fazer do sério com do irônico. A impressão que se tem é que a realidade é historiografada, mas quase sempre é uma ficção, pois ele usa como poucos este recurso literário que deixa a imaginação (ou a pesquisa) do leitor determinar os limites entre o ficcional e o caso verídico.  Tanto na prosa como na poesia, pois é assim a divisão do seu  VIAGENS E DELÍRIOS. Metade composta de pequenos contos e a outra metade de poesia cristalina e leve como uma água que tem sabor quando é pura e estamos sedentos.

Livro: VIAGENS E DELÍRIOS
Autor: Jorge Luis da Silva Alves
Sobre o autor:blog Gato Vadio

DOR DE COTOVELO

Eu tinha feito um poeminha sobre a dor de cotovelo há um tempo a acho até que já havia publicado. Mas como agora encontrei umas versões bastante interessantes para a origem desse termo, trouxe de volta com a devida fonte de onde fiz a pesquisa. A seguir o poeminha e depois a matéria do site brasilescola.


VERSINHOS DA DOR DE COTOVELO

Expressão maior de maldade,
Vou lhe dizer a verdade
É quando um amor tão querido
Se faz de bandido
Nos deixando apenas a queixa
Dá saudade como efeito
E uma dor que não deixa
Parar de arder o peito.
                                                Cacá – abril/10

imagem google
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A MATÉRIA DA REVISTA BRASIL ESCOLA

Ao revisitarmos a história do samba, vemos que grandes nomes que fizeram parte da trajetória do gênero compuseram letras em que o amor era tematizado. Em geral, as relações amorosas eram pintadas por uma frustração ou infortúnio que impedia a consumação de uma relação bem sucedida. De acordo com alguns biógrafos do samba, a tal desilusão amorosa cantada, muitas vezes, se apresentava como uma extensão das decepções experimentadas na própria vida do compositor.

Lupicínio Rodrigues, famoso compositor gaúcho, foi um dos mais reconhecidos autores desse tipo de letra melancólica. Em muitas delas, dizia que o bar era o lugar ideal para curar os descaminhos da vida afetiva. Na canção “Taberna”, por exemplo, ele constrói um curioso eu-lírico que passou o dia inteiro no bar observando o movimento da freguesia e esquecendo a ingratidão dirigida à amada entre cada um dos tragos ingeridos.

Apesar de não ser possível apontá-lo como o autor da expressão, foi Lupicínio que cumpriu a função estética de popularizar a lendária “dor de cotovelo”. A alegoria que dá sentido ao termo faz justa alusão a quem encosta-se ao balcão de um bar para esquecer o amor perdido e se embriagar. Seguindo a explicação, de tanto ficar recostado no balcão, em completa inapetência, aquele que já sofre por amor acaba “contraindo” uma terrível dor de cotovelo.

Sendo amante de várias mulheres e, por isso, vivendo muitas desilusões no campo sentimental, Lupicínio chegou a desenvolver uma teoria sobre a dor de cotovelo. A dor de cotovelo federal era aquela que só poderia ser curada com embriaguez total. Já a dor de cotovelo estadual era suportável e com o passar do tempo tudo se ajeitava. Por fim, havia a modalidade municipal da dor de cotovelo, que não poderia nem mesmo servir de inspiração para um samba.


Por Rainer Sousa

Graduado em História
Equipe Brasil Escola

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

DATAS CRÔNICAS

Resolvi começar algumas de minhas crônicas temporais com Um dia ou Outro dia. Era uma vez fica meio fabuloso.  Esse é o melhor meio termo que encontrei entre transformá-las em uma possível fonte historiográfica sem a menor credibilidade ou em fábulas sem final feliz nem moral da história. Tomei esta decisão depois de constatar que alguns textos bíblicos começam por “Naquele tempo” e isso não prejudicou em nada a notoriedade nem a credibilidade da bíblia. Não que eu esteja querendo estabelecer alguma disputa, longe disso. Mas é que a crônica ficará sempre atualizada. Tática de marketing literário apenas.

E que o meu antigo mestre Vidigal não me leia, pois serei excomungado como herege dos cânones da historiografia. A propedêutica do cônego Vidigal era uma heresia contra a hermenêutica do próprio cônego Vidigal. Afinal ele estava ensinando para futuros historiadores e não para seminaristas, dou esse desconto. Ele foi meu professor da disciplina de Introdução aos Estudos Históricos, a primeira, a matéria-mãe do curso de história de qualquer universidade. A precisão das datas para ele era a mais fidedigna e indiscutível certidão de verdade de um documento. Mesmo sendo um padre que se formou entre a bíblia e outros pergaminhos apócrifos. Então tenho a salvaguarda da teologia. E uma crônica prescinde do rigor de um documento que vai passar para a posteridade a fim de provar algum fato. A maioria, com o tempo acaba se enquadrando na categoria de causos do cotidiano.

Aos teólogos, peço clemência, pois isso aqui é uma crônica sem nenhum fim de blasfêmia. Não há mais fogueiras  mas a danação eterna ainda circula no imaginário da religiosidade coletiva. Já, já, começam a dizer que eu estou duvidando de Deus, da bíblia e outras baboseiras radicais.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

VIROSES

imagem:doctorvitor.blogspot.com     

Tem uns surtos de vez em quando que não chegam a se transformar em epidemias mas levam muita gente aos hospitais. Alguns vírus ou bactérias desgarradas do controle da saúde pública que afetam muita gente. Vão todos correndo para os atendimentos de emergência e na emergência de atender a todos ou por falta de maiores cuidados com uma pesquisa mais apurada, alguns médicos costumam diagnosticar virose. Um diagnóstico tão cheio na resposta e vazio de significados que a gente até assurta. Assurtar é assustar e surtar ao mesmo tempo.

O que é uma virose? Nada demais. Algum grupo de vírus subversivos que resolvem sair de sua redoma ali das bandas da sala de anticorpos, seu  lugar determinado e dar uma volta pelo corpo da pessoa, causando-lhe desconfortos de toda espécie, a ponto de minar as resistências. Vão e voltam depois para o seu devido lugar sem precisar medicação nem nada. Basta repouso. Vai ver que é esse o motivo da rebelião interna. Reivindicam que aquele corpo que os pertence se aquiete. Uma forma de fazer reféns crianças agitadas e gente que trabalha muito ou abusa do esforço físico ou mental. Isso tudo que eu disse é levando-se em conta o diagnóstico que foi dado.

Nesse meio aparecem pessoas com os mesmos sintomas, porém com problemas muito diferentes, muitas vezes sérios que acabam sendo enquadrados na tal da virose. Daí a pouco se vê uma reportagem na imprensa de algum parente lamentando a morte. E na mesma matéria, ouvindo o outro lado da tragédia, a velha desculpa de que “todos os procedimentos necessários foram feitos.” “Talvez o problema tenha se agravado depois que a pessoa deixou o hospital ou posto de saúde.” Então a gente chega a conclusão que o problema estava lá no posto de saúde ou clínica ou hospital que não diagnosticou corretamente. Tarde demais ou umas vidas de menos.

E não é que com a tecnologia moderna tem muita coisa mal explicada também? Virose então, nem se fala! Pela segunda vez me ocorreu de meus textos no word apagarem sozinhos e o diagnóstico é virose. Por módicos 80,00 a gente manda formatar o computador, apaga-se tudo o que  está nele (salvando-se o essencial antes) e depois reinstalando-se tudo de novo. Mas e quando se faz isso e o problema volta sem que você tenha acessado qualquer coisa que possa conter um vírus? Aí, a gente mesmo diagnostica o que o fabricante e quase ninguém das assistências técnicas admite: defeito no programa da Microsoft. Igualzinho lá no hospital. Esses são os casos onde o cliente nunca tem razão por ignorância nos assuntos. O cliente é que não sabe mexer, o paciente é não sabe se cuidar. Como ficou muito fácil diagnosticar vírus, vamos gastando de vez quando 80 reais e começando novamente. Ainda bem que esses vírus pelo menos não matam (ainda).

domingo, 17 de outubro de 2010

POEMINHA TOSTADO

Cozinhando e pensando

Vou lembrando de escrever

Deixo a panela. Lavo as mãos

Sento. Esqueço

A comida vai queimando

E vou perdendo a batalha

Do fogão e da palavra.

sábado, 16 de outubro de 2010

LAMENTO

Ora canção triste de minha boca
ora lamento opaco de tinta de minha pena.
Não sai palavra que não seja
alívio de alguma dor sem ensejo
dessas que invadem o peito
e não acatam  a voz
e não alcançam ouvintes.
E assim vou seguindo
também indiferente 
à dor que me rouba o encanto
Na paz que o silêncio me concede.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O CÔNCAVO E O CONVEXO

Quinta das Conchas-google

“Se queres escrever para o mundo, então canta a tua aldeia.” ”Se queres ser universal, então começa por pintar a tua aldeia.” Estas e mais algumas versões livres foram adaptações de um pensamento de Tolstoi, um escritor muito além de seu tempo. A pessoa começa a se tornar imortal por esse caminho. Não estou dizendo somente se tornar imortal falando de sua aldeia, mas de ser à frente do seu tempo também. Muitas elaborações mentais levam seus produtores a serem chamados de visionários. São na verdade, pessoas que olham com olhos de lince o que as pessoas à sua volta costumam olhar com viseira. Como desvirtuam do senso comum, acabam sendo proscritos, marginalizados pelo ridículo da ousadia ou, dependendo da cultura onde vivem, sendo ungidos pelos óleos da reverência subserviente ou da bajulação. No entanto não deixam de ser especiais, senão creio que a humanidade não caminhava. Não haveria contraponto de idéias, um pensamento único se estabeleceria e seríamos uma civilização de um só rei. Ainda bem que divergimos em muitas coisas e com isso conseguimos ter vários reis. A democracia possibilitou-nos até escolher a qual ou a quais queremos nos submeter. E assim vamos lutando para justificar nossas vidas com bastante autonomia nas nossas desculpas esfarrapadas.

Como não escapo duma idolatria, pelo menos vou escolhendo o melhor possível os meus gurus. Os da insistência comercial da mídia não me atraem nem um pouquinho. Prefiro aqueles dos contra-sensos e por isso, obrigado, Tostoi, pois eu tenho aqueles momentos de querer ficar metido a escrever umas coisas mais complexas, “me achando”, pensando que tudo aquilo que é trivial e corriqueiro já foi dito e acabo quebrando é a cara.

Se eu quiser falar de Deus, oh, meu Deus, quanta incompreensão intolerante tem sido dito em sua pretensa defesa! Falar de amor? Complexo demais, e já aprendi com o Drummond que “amar o perdido, deixa confundido este coração e que as coisas findas, muito mais que lindas essas é que ficarão”. Falar do nosso lugar no universo, já se fala especulativamente por demais, criam-se hipóteses e teses e, a despeito de toda a caminhada a passos largos da ciência, com todo respeito, fico com a definição dos poetas: Evo!

Primeiramente porque eu não tô com essa bola toda de querer complexificar a vida e em segundo lugar, é do comezinho, é do cotidiano, da observação apurada e da vivência trágica ou serena que brotam os mais interessantes conhecimentos e prazeres.

Falar das coisas simples, eis a grande sacada. Então  junto o convexo  com o côncavo no sentido de concha e me conforto na literatura mais simples que eu conseguir.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O AUXÍLIO LUXUOSO

Estava por aí entre crônicas e poemas, Recanto e blogs sorvendo ora cheiros de flores distribuídas aos montes em saudação à primavera, ora perscrutando corações apaixonados uns, desiludidos outros em tanta poesia romântica, e lendo textos de prosa de variada cepa, gama, alfa (e beto) inteiro, quando me vi envolvido com uma reflexão da nossa grande Zélia Maria Freire. Eu sei gostar daquele espaço, viu gente! Cada dia uma tema filosófico da mais alta relevância e substância para ajudar a preencher o nosso vazio existencial, o que não encontramos muito facilmente nessa vida cheia de confusão aventuras e muito pouca satisfação para fincarmos no peito como permanentes. O dia a dia é isso que se vê, que se faz por obrigação, a contra gosto muitas vezes e fica a sensação de sempre estar faltando mais alguma coisinha. No meu caso, a literatura tem conseguido ocupar esse vão com uma competência que até agradeço a Deus, de tão alegre e contente que fico. Mas vamos entrar no assunto senão vocês nem chegam ao final da leitura. Vira divagação sem substância que nem pão sem manteiga.

Já começo citando. Ela falava na crônica (Contrariando o Pai de Nero) sobre as citações que a gente costuma a fazer de outros autores. Sêneca seria contrário. Segundo o texto, ele afirmava que o saber divulgado através de citações seria próprio dos incompetentes. Lembrei-me de Schopenhauer. Nessa direção, ele afirmava que ler demais atrapalhava a produção de idéias próprias*.  Acho que, no caso era um recado aos seus detratores da época, pois no contexto onde afirmou, ele fala mal pra caramba dos literatos e filósofos contemporâneos seus. Isso eu é que depreendi lendo todo o livro.

Se você pegar um trabalho científico, uma tese ou uma dissertação, dificilmente vai se ver livre das intermináveis citações de outros autores que contribuem para uma homogeneização daquele pensamento que está sendo proposto ali. Ou também pode ser que os outros autores citados contribuam para a heterogeneização das ideias, se tiverem sido usados para contestar tal ou qual verdade ou assertiva. Vale dizer, então que os pensamentos se entrelaçam. Isso não se dá apenas em trabalhos científicos. Não ocorre também na literatura, na música e na poesia? Quantas vezes a gente se identifica com um texto em prosa ou verso e pensa assim: “por que eu não escrevi isso antes?” A formação do nosso pensamento se dá pelo nosso próprio pensamento (graças a Deus, isso acontece pouco, mas acontece) e com a contribuição mais diversificada que o nosso livre arbítrio e senso apontam ao tomarmos conhecimentos do texto alheio. Tomar conhecimento, porém não pode significar copiar, colar, nem mascarar, alterando uma coisinha aqui, outra ali e vendendo um peixe que não pescamos. Não estou falando de plagio e trapaça, isso é outro papo (muito ruim, por sinal).

Não vejo nenhum problema na utilização de outros autores: é um “auxílio luxuoso” às nossas idéias próprias e não lhes tira a originalidade , aliás, deixe-me citar aqui o grande Luiz Melodia, que auxílio luxuoso é daquela música dele, “lava roupa todo dia, que agonia...”

Zélia, minha doce amiga, o Sêneca creio ter falado isso porque na época dele muito pouca gente sabia ler, e os que sabiam deviam ser preguiçosos para escrever. Quanto ao Schopenhauer, se ele afirmou que quem lê muito não cria as próprias ideias eu gostaria de perguntar a ele (uma pena que não vai mais poder me responder) por que então ele escreveu tanta obra, quase vinte livros?  Não atrapalharia a gente?

* A arte de Escrever – A. Schopenhauer

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O LEITE DAS CRIANÇAS

imagem: mulher sexogragil.com(google)

A minha filha mais velha nasceu através da superação. Aos oito meses e pesando apenas 1kg,250g, tinha em seu código genético um gene chamado superação. O que ela passou de lá para cá confirma minha hipótese de geneticista amador e pai coruja. As outras superações eu conto numa outra oportunidade, talvez em livro, pois dá muitas páginas. Lá no início ela precisou ficar 35 dias internada dentro de uma incubadora tomando apenas leite materno vindo de doações dessas mães que a gente até perde adjetivos para acomodar a sua inaudita bondade.

A mãe dela, até que tinha bastante leite, mas a menina era tão frágil que não tinha forças para fazer sucção. Ficava numa canseira de dar dó. Então tinha que retirar o leite e colocar numa chuquinha com o furo do bico aumentado a fim de sair maior quantidade. E a mãe tinha que amamentar outras crianças porque a produção não parava e o leite podia empedrar.

Por outro lado, o hospital recolhia doações e a gente mesmo é que buscava nas casas onde tinha mães recentes na cidade de Itabira. Isso foi em 1986. Eu trabalhava em outra cidade e ajudava aos finais de semana. A Dona Tereza, um anjo que se casou com meu pai depois de sua viuvez e a própria mãe dela faziam o trabalho durante a semana.

Foram 35 mães de leite que a minha filha teve. Até que completasse 2 quilos, peso mínimo que os médicos admitiam para liberar a criança para ir para casa e sobreviver sem precisar ser monitorada. Era uma espécie de provação. O acompanhamento era diário. Dias em que ganhava 50 gramas, 90 gramas, dias em que perdias alguns gramas. Um torneio de sobrevivência.

Valeu a pena, êh,êh! Valeu a pena...

ilhadigitalseliga.blogspot.com

Marilda era uma mãe de um menino da mesma idade de minha filha e doava leite para ela. O seu menino perto da minha menina parecia um gigante com seus mais de 4 quilos. Também pudera, a mulher era uma fabricante natural de primeira grandeza. De toda a alegria que me contagiava quando saía buscando os vidrinhos de leite pela casas, na da Marilda era para mim uma festa. Todas as outras foram cruciais, reconheço e agradeço infinitamente. Mas Ela enchia, em menos de meia hora um vidrão de meio litro, sem precisar daquelas bombinhas de sucção dos seios, só nas massagens. Isso, logo depois de seu filho ter terminado a sua mamada. E ainda dizia. “Se você quiser voltar aqui mais tarde, eu posso tirar mais”, com o sorriso mais honesto a satisfeito que faz parte da reserva emocional de uma mãe de duplo amor.

A notícia (leia AQUI) que eu li sobre uma mãe que bateu recorde de doação de leite em São Paulo (100 litros de leite materno por mês) não me espanta e com todo respeito e veneração que passo a nutrir pela Gildilene, a protagonista do feito, digo que a Marilda não foi incluída nas estatísticas. Também não se trata de uma injustiça. Taí a minha filha fortíssima e saudável para atestar que a Marilda era mãe de uns 200 litros de leite por mês sem fazer muito esforço.

Numa sociedade onde a competição por futilidades de bundas, peitos e máscaras ganha tanta notoriedade na mídia, até que seria bom se fosse estimulada essa de quem faz mais para salvar vidas.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

MINHA FÉ


Da fé sou tributário.
Há um Deus que não se explica
nos livros dos homens.
Não sou um conjunto, apenas
parte de um elemento que, se não é divino
busca para além da ciência
o que ela por si não elucida.
Cria hipóteses
se assombra com testes
resultando em tão mágico feito,
que lança nova partida a cada chegada.
As religiões de que serviram à humanidade?
Não aproximou os homens,
Do contrário:
os põe em posição de defesa e ataque,
com garras feitas de versículos.
Sou aprisionado em mim se escolho uma criação feita de um toque celeste
não consigo ser libertado nem libertário se nego todo esplendor que a natureza
por osmose  não consegue fazer sozinha.
Nesse dilema, Deus é  meu pensar e agir.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

BYE, BYE, TRISTEZA

Que todos os tédios do mundo caibam tão somente na poesia, que é seu melhor abrigo.

TÉDIO

imagem google                      




Onde tudo é previsibilidade, o enfado faz morada rapidinho.

domingo, 10 de outubro de 2010

FRAGMENTOS

imagens google



Juntando pedaços
Faço uma soma, afinal
sou um múltiplo incomum.
Subtraído de tantas coisas
de tantos passos vacilantes

Sem rumo, sem firmeza
Fui ao rés do chão
E fui deixando acumular os cacos
O cálculo da vida foi que exigiu por si mesmo
Por mim era para dar uma peça inteira
ao fim de tantas jornadas, de tantas mazelas.

sábado, 9 de outubro de 2010

SOBRE A CANÇÃO DA VIDA

Outro dia, viajando no ônibus lotado em direção ao centro da cidade, trânsito caótico e muita lentidão, aproveitei para tirar da capanga um Quintana de bolso, desses livrinhos que  não precisamos estar sentados ou deitados para ler. Em pé e com apenas uma mão disponível, o prazer que causam é o mesmo. Sem contar que a gente até se esquece da tormenta do trajeto. Quando assusta, chegou ao destino. Então fiquei muito (bem) impressionado com o poema A CANÇÃO DA VIDA e comecei a falar sozinho (baixinho para não acharem que eu estava doido). Acharam que estava maluco mesmo foi quando desci e me sentei na calçada em pleno centro da cidade para escrever o que se segue. Maluco eu ia ficar se tivesse esquecido de anotar a minha divagação.


SOBRE “A CANÇÃO DA VIDA”
(de Mário Quintana)

(Eu, falando sozinho no ônibus)

Quintana, Quintana
Que da lápide ou túmulo me escuta
Tu és mesmo filho do elfo luminoso da selva de pedra
O ser que rege o décimo terceiro signo do zodíaco
O astro dos gênios e dos poetas.
Só mesmo um elfiano, nascido das luzes
Para rimar Renoir com poluir
E eu, esse grosso, rude e bronco literário
Filho da picareta das minas
Para procurar razão no dicionário.

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A CANÇÃO DA VIDA
(Mário Quintana)

A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio...
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim,
como em uma tela de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí...
como um salso chorando
na beira do rio...
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

DEPOIS DE UM PASSEIO NO SHOPPING


Nesse mundo do consumo
De tanta tentação
Melhor aprender com Sócrates*, o sumo
De quase tudo, não preciso não.

Ou então eu corro o risco
De entrar em depressão
Me isolo em um tonel
Numa síndrome de Diógenes**
E Adeus mundo cruel.

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* Sócrates, filósofo grego, que morreu no ano 399 antes de Cristo, gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro  comercial de Atenas. Quando vendedores o assediavam, ele respondia: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser  feliz.”

imagem wikipedia
Diógenes, de John William Waterhouse 

** Diógenes, um filósofo da Grécia antiga, foi exilado de sua cidade natal e se mudou para Atenas,  onde teria se tornado um discípulo de Antístenes, antigo pupilo de Sócrates. Tornou-se um mendigo que habitava as ruas de Atenas, fazendo da pobreza extrema uma virtude; diz-se que teria vivido num grande barril, no lugar de uma casa, e perambulava pelas ruas carregando uma lamparina, durante o dia, alegando estar procurando por um homem honesto. Eventualmente se estabeleceu em Corinto, onde continuou a buscar o ideal cínico da auto-suficiência: uma vida que fosse natural e não dependesse das luxúrias da civilização.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

MONÓLOGOS DE UM CÃO (INFANTIL)

Eu estava lá naquele veterinário que me adotou ainda filhotinho. Tava bom até demais. Primeiro, porque a minha mãe me abandonou logo que os meus dentes nasceram. Não dava mais para mamar nas tetas leitosas dela, sangrava muito com minha falta de jeito. Depois alguém me abandonou lá na roça. Ou melhor, quando vi o movimento aqui na rua, o lugar não era estranho para mim. Acho que nasci por aqui fui é levada para o meio do mato. É assim que as pessoas soltam seus cachorros indesejados. O cara, gente boa foi lá, me trouxe, pirralha, pulguenta, me deu um bom banho, cortou minhas unhas, me vacinou e me deixou numa espécie de gaiola-vitrine. Custei a conseguir quem me levasse. Nem de graça estavam me querendo. O pessoal chega, olha e pergunta: mas não tem nenhum de raça, assim mais bonitinho?

Crianças: êta companhia boa! Foi uma delas que passou na rua. Nos olhamos, eu fiz aquela carinha só acessível aos cães e ela fez a sua mãe voltar e me adotar, de graça. O moço ainda deu, de graça também, uns vermífugos e uma caderneta de vacinação. Acho que estava doido para se ver livre de mim. Durou pouco a minha estadia naquela casa. Problemas de mudança para apartamento e fui eu novamente adotada, dessa feita, pelo pai da menina, que vive em outra cidade. Bem, esta é a história da minha origem, pois agora eu tenho um lar onde já estou há um tempão. Vivo ouvindo com a poderosa audição canina uma discussão entre meus donos, um casal bacanérrimo, quando alguém pergunta a minha idade, um dizendo quatro, outro afirmando ser cinco anos.

Antes que eu me esqueça, eu sou uma cã, fêmea, SRD* com muito orgulho. Já dei até cria de um vira lata sem teto que invadiu a minha residência e me deixou com cinco filhotinhos. Meus donos doaram todos, depois de me verem em pelo e osso de tanto que os bichinhos mamavam. Depois passaram a comer a minha ração. Para que conseguisse me alimentar sem disputar com eles, eu tinha que ser trazida dentro de casa e eles lá fora. Fui ficando sem casinha, sem cama, esmorecendo...Acho que eles ficaram com algum receio de eu não resistir de tanta fraqueza que estava. Não pensem que sou mãe precoce. Os quatro ou cinco anos que dizem que tenho devem ser multiplicados por sete, é a comparação de nossa longevidade com a dos humanos. Minha idade provável, portanto, são 28 ou 35.

Deram-me o singelo nome de Flor. Gosto bem do meu nome. O que eu não suporto é um, de vez em quando me chamar de Lulu, a outra de Bebê. Minha nossa! Bebê? Tem cabimento? Também não gosto de ficarem conversando comigo com aquelas frescuras que fazem com crianças de verdade, falando:
- Dá a patinha, bebê da mamãe,
- Neném, bilu,bilu,
- Vem papá...
Eu já sou adulta, pô! Ah, se não fosse essa minha fidelidade canina de nunca atacar meus tutores... Eu dava uma mordida. De leve, mas dava.

Tomei muito banho frio. Meu dono ligava uma mangueira , me prendia numa coleira e me lavava que nem se lava carro. Humpf! Um dia, fazendo muito frio, minha dona veio dizendo: - vem cá, bebê, que eu vou te levar no pet shop. Minha gente, tomei meu primeiro banho quente e hoje, só de passar perto da mangueira eu já corro e me escondo dentro da minha casa dormitório. Tenho horror a água fria.

Passam muitos cães e cãs aqui na minha porta. De vez em quando um dono ou dona dá uma paradinha com eles e a gente troca umas idéias sobre esse mundo cão. Outro dia uma poodle me disse que me invejava. Ela toda cheia de brincos, laços, até perfumada e eu deitada na frente do portão com uma área enorme, só minha, pra andar, correr e brincar. Só o espaço do carro na garagem é que eu não ocupo, em compensação deixo um xixi perto da roda traseira toda vez que alguém entra com o carro. Preciso mostrar a eles que ali é onde eu não vou invadir. A cadela me disse que na casa dela é um saco. Tem que ficar dentro de casa o tempo todo e só sai para espichar as canelas uma vez por semana, mesmo assim quando um dos donos está de bom humor, o que é raro. Além disso, nunca pode escavar uma terrinha, um hábito milenar dos cães. Se ela resolve passar as unhas no cimento ou na parede, já brigam por causa do som irritante que provoca. Olhei pra ela solidária quando a dona a puxou chamando para irem embora, mas eu nada podia fazer. Eu também não gosto de frescuras além de minha casinha limpa, meus trapos de panos velhos e um pedacinho de terra pra brincar. Quando estou dentro de casa e dou uns latidos, meus próprios ouvidos doem, parece que o som fica mais alto e a gente, ops, a nossa raça tem a audição muito sensível.

Agora, se me dão licença vou exercer o meu mais sagrado ofício que é dar uma cochilada. Tem uma obra aqui em frente com uns caras muito barulhentos e tenho dormido tão pouco! Tem muito mais coisas a serem ditas, depois eu falo...zzzzzz.
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* SRD (Sem Raça Definida) é o mesmo que vira latas e não passa de um eufemismo para amenizar a nossa barra de enjeitados. O advento do politicamente correto já chegou também ao mundo cão.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A OUTRA CANÇÃO

De vez em quando, naquela arrumação de gavetas e descarte de velhos guardados a gente se surpreende com uns achados. Foi uma paródia que eu fiz de um poema de Drummond. Eu o havia publicado no Recanto das Letras faz bastante tempo. Mas lá não dá para postar vídeos como faço aqui. Drummond (não sou de idolatrar, mas esse cara é o máximo, né não?) escreveu CANÇÃO AMIGA e o grande Milton Nascimento musicou.

A OUTRA CANÇÃO

Eu preparo outra canção
Diferente do Drummond
Eu não tenho mãe
Nem velhos amigos
Caminho por um monte de ruas
Que não me levam a lugar algum
As palavras me servem apenas
Para o movimento da caneta
Minha fala só convence a mim mesmo
A verdade para mim
É a insistência da mentira
Acumulada e superada pela vontade
O amor é um espelho
Quem diz que ama, ama só a si
Porque amar é não ser
É aplicar o dar com todos os seus sinônimos
E signos
E alguém já me disse
Que viver é não pensar na própria insignificância
Pensar é o exercício da solidão
O mundo gira em si mesmo,
Avança, progride
Imobiliza corpos e mentes
Corrompe a dignidade
Cultua a lógica, o óbvio
A morte remedia os fracos
Nascer é entrar na concorrência
Por isso eu preparo outra canção
Para adormecer os homens
E acordar as crianças.
30/07/90


terça-feira, 5 de outubro de 2010

PÉ NA JACA

Conheci uma garota,
no inicio era uma graça
mas o tempo foi passando
e o tom dela é de ameaça,
só conversa na pedrada,
vai dizendo: vem pra ver
o que lhe vai acontecer.

Ai meu Deus, que desgraça,
foi com ela que eu casei,
foi vacilo, dei mancada.
Agora eu tenho que ficar
Com uma trena nas palavras,
pra não arrumar confusão,
de outro modo, já vem ela
com as pedras na mão,
parece até uma cilada.

Tem um corpo de sereia,
 mas a cabeça é de bagre,
quando der na minha “teia”
vou-me embora e digo Deus lhe pague.

Já tentei uma terapia, mandinga e reza ,
não houve quem desse jeito,
eu como bom sujeito,
faço só o que não lhe enfeza.
Entretanto, minha gente,
também fico amolado,
um desânimo, falta de sono, e apetite,
o meu “vento tá virado”.

Eu preciso de uma ajudinha,
de um santo, de um amigo,
um consolo avalizado,
minha casa não é minha,
se alguém me der abrigo,
eu divido meu ganhame,
cozinho, lavo passo,
sangue, fezes, urina,
qualquer exame eu faço
mas por favor me chame
me tire dessa enrascada.


Inspirado na música Incompatibilidade de Gênios, de João Bosco

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

POIS É, PRA QUÊ?

Porque é uma palavra que tem quatro formas de grafia, quatro tormentos, remetendo a perguntas e respostas, motivos e explicações. Não precisava tanto, creio. Por mim uma bastaria para o saudável exercício de comunicar, de aprender e ensinar.

Tem horas que a gente fica escarafunchando umas coisas que nem sei o porquê. Vamos acumulando aprendizados na vida, vamos exercitando o ato de pensar, vamos dando corda às lembranças guardadas de coisas que vimos ou ouvimos há tanto tempo. Por causa de quê?

Tem gente mais pragmática no sentido de não querer aprender muitas coisas que lhes são consideradas inúteis para o seu viver. Preferem às vezes acumular coisas, digamos, mais palpáveis do que o ato de aprender com perguntas e respostas. Estas quase nunca satisfazem plenamente porque não dá para “pegar”, gerando sempre mais perguntas, o que dá uma canseira danada.

Igualzinho com as coisas palpáveis. Compra-se um objeto do desejo (não da necessidade). Aquilo satisfaz por um momento, vem a publicidade dizendo que agora o que você precisa é de outra coisa, e, havendo dinheiro, vai-se comprando mais coisas até saciar a vontade plenamente ou acabarem os estoques. Dura pouco essa satisfação. A do aprendizado traz mais benefícios a meu ver.

 Faz sentido eu saber como se fixa uma peça em outra, apertando um parafuso ou encaixando duas peças? Faz sentido um biólogo saber trocar um pneu de um carro? Faz sentido uma dona de casa saber de assuntos que estão totalmente fora da moda da novela, como, por exemplo, de filosofia? Por que um atleta vai saber dos casos de corrupção na política? Vale a pena pensar sobre religião? Um executivo precisa saber algo sobre culinária, se o seu negócio é o mercado financeiro? Para que serve o conhecimento da história? Um inútil saber do pós-fato? E quando vem aquela situação na vida prática em que é necessária uma resposta do tipo: o que você faria?

O conhecimento, ao contrário de bugigangas não ocupa lugar nem incomoda ou traz drama existencial sem por quê.

POIS É, PRA QUÊ?
Sidney Muller

O automóvel corre
A lembrança morre
O suor escorre
E molha a calçada
A verdade na rua
A verdade no povo
A mulher toda nua
Mas nada de novo
A revolta latente
Que ninguém vê
E nem sabe se sente
Pois é, pra que?

O imposto, a conta
O bazar barato
O relógio aponta
O momento exato
Da morte incerta
A gravata enforca
O sapato aperta
O país exporta
E na minha porta
Ninguém quer ver
Uma sombra morta
Pois é, pra que?

Que rapaz é esse?
Que estranho canto
Seu rosto é santo
Seu canto é tudo
Saiu do nada
Da dor fingida
Desceu a estrada
Subiu na vida
A menina aflita
Ele não quer ver
A guitarra excita
Pois é, pra que?

A fome, a doença
O esporte, a gincana
A praia compensa
O trabalho a semana
O chopp, o cinema
O amor que atenua
Um tiro no peito
O sangue na rua
A fome, a doença
Não sei mais porque
Que noite, que lua
Meu bem, pra que?

O patrão sustenta
O café, o almoço
O jornal comenta
Um rapaz tão moço
O calor aumenta
A família cresce
O cientista inventa
Uma flor que parece
A razão mais segura
Pra ninguém saber
De outra flor
Que tortura...

No fim do mundo
Tem um tesouro
Quem for primeiro
Carrega o ouro
A vida passa no meu cigarro
Quem tem mais pressa
Que arranje um carro
Pra andar ligeiro
Sem ter porque
Sem ter pra onde
Pois é, pra que?
Pois é, pra que?
Pois é!

sábado, 2 de outubro de 2010

BOM EM QUALQUER ÉPOCA - CÂNTICO NEGRO

Há tanta produção literária por esse mundão, tanta coisa que tanta gente tem acesso e muito mais coisa que tanta gente não tem que pelo bem do conhecimento humano e da literatura, acho que toda oportunidade que tivermos para aumentar a visibilidade de textos bons não pode ser perdida. Selecionei alguns que acho que precisam de quando em vez ser divulgados pelas suas qualidades inumeráveis. É só mais uma forma de dar ainda mais vida à sua imortalidade. Só lendo para qualificar. E isso cabe ao leitor. 



Cântico negro
José Régio



"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.


Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!



José Régio
, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos


P.S: Eu achei este poema a minha cara no período eleitoral.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

TEMPO E MATÉRIA

Tempo e matéria
Eis minha constituição
E alma e essência
Onde estarão?

Sou um viço,
 um nascedouro.
Um apagado tição,
sou servidão,
ou sou ouro
perdido em meio a tudo isso?
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