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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

AS COISAS DO AVESSO (MAIS)

Como na postagem anterior, continuo com as brincadeiras que comecei fazendo e que acabaram se transformando numa proposta de livro. Em breve será lançado AS COISAS DO AVESSO, uma coletânea que fiz de ditados populares e aforismos. Eu subverti os significados e chamei de desaforismos e desditos populares. Também como sou um apaixonado por etimologia, andei brincando com os significados de palavras, às vezes pelo som a que remetem, às vezes pelo próprio prazer de presentear a imaginação com o caminho que ela queria me levar em vez da seriedade que a lexicografia recomenda. Então está ai uma palhinha do meu próximo lançamento. Vai de A até Z.


DESAFORISMOS E DESDITOS POPULARES



A PRESSA É INIMIGA DA PERFEIÇÃO.
O cara que inventou isso nunca soube o que é um piriri.

BONITO É SE ASSIM LHE PARECE
A expressão honesta de quem prefere chamar de simpático o feio.

CASA DE FERREIRO, ESPETO DE PAU.
O que é que você tem com isso?

DAR MURRO EM PONTA DE FACA
Criado para resolver o impasse entre a indecisão e a ignorância.

EM BOCA FECHADA NÃO ENTRA MOSQUITO.
Nem arroz, nem feijão, carninha...

FALEM MAL MAS FALEM DE MIM.
Sem comentários, obrigado.

GATO ESCALDADO TEM MEDO DE ÁGUA FRIA.
Incorporado pela cachorra daqui de casa. Estava acostumada a tomar banho de mangueira até o dia em que foi levada num pet shop pra banho. Só de olhar para mangueira hoje ela já corre.

HÁ MALES QUE VEM PARA O BEM.
Há “malas” que vem com essa intenção. Isso é bem?

JOGO E BEBIDA, CASA PERDIDA.
Se for beber e jogar, anote seu endereço num papelzinho. Sempre haverá alguém de bom coração que o deixará em casa.

LARANJA MADURA NA BEIRA DE ESTRADA TÁ BICHADA OU TEM MARIMBONDO NO PÉ.
Conhece o Nhô Lau, da história do Chico Bento? Melhor verificar se não tem alguém do tipo vigiando o laranjal antes de roubar algumas.

MAIS VALE UM PÁSSARO NA MÃO DO QUE DOIS VOANDO.
Maldade e ganância dos contrabandistas de aves.

NÃO ADIANTA CHORAR O LEITE DERRAMADO.
Frase criada para popularizar o leite de caixinha quando foi lançado. Estavam querendo convencer os consumidores de que não precisava mais ferver o leite.

O DONO DO BOI É QUEM PEGA NO CHIFRE.
O duro é quando se vira dono do chifre.

PAU QUE NASCE TORTO MORRE TORTO.
E ainda por cima mija fora do penico.

QUEM ESTÁ NA CHUVA É PARA SE MOLHAR.
Frase maldosa de quem fica de sombrinha ou guarda chuva na marquise ocupando lugar de quem não tem.

RIR É O MELHOR REMÉDIO.
Só não vá recomendar isso a quem acabou de sair de uma cirurgia e está com pontos.

SE A TOCA É ANCHA, O TATU É GORDO.
E o Ibama está de olho nos caçadores. Quer dizer, pelo menos deveria.

TIRAR O PAI DA FORCA
Função moderna do advogado que vai soltar o cara que não pagou pensão alimentícia.

UMA MÃO LAVA A OUTRA.
Engraçado, né? Nem precisa a gente mandar. As minhas têm uma autonomia...

VASO RUIM NÃO QUEBRA
Então é bom para  sanitário.

ZANGAM-SE AS COMADRES, DESCOBREM-SE AS VERDADES.
Se for zanga de uma com a outra pode ser sinal de que o marido de uma tem culpa no cartório.


BRINCANDO COM AS PALAVRAS

AMARROTAR – Aquela pessoa que adora dar um arroto
(amassar)

BIMESTRE: Uma pessoa que possui dois títulos de mestrado
(período de dois meses consecutivos)

CALABAR: Aquele pessoal que trabalha na vigilância sanitária e toma conta da lei do silêncio, fechando bares que não a obedecem.
(Senhor de engenho do Séc  XVII, aliado dos holandeses que invadiram o nordeste do Brasil)

DEMOLIÇÃO: Ensinamo alguma coisa
(destruição, derrubada de edificação)

ESVAI: Em alguns lugares de Minas é o mesmo que dizer “eles vão”
(evapora-se)

FAMILISTÉRIO: O cúmulo do nepotismo praticado por algum ministro descarado, que emprega desde a mãe até o cachorro da família  em um ministério.
(Conjuntos de habitações encostadas umas às outras para acomodar diversas famílias - na concepção do Socialista utópico Fourier).

GENDARME: alguém me fazer uma doação de material genético
(soldado francês)

HAUSTELO: “lígido”,  “ligoloso”, assim falado por  quem possui dislalia como o Cebolinha
(Parte da armadura bucal dos insetos dípeteros)

INDEFERIMENTO: Um machucado que ainda não sarou
(negação de um despacho, desatendimento, indeferimento)

JABUTIFEDE: Já ouvi dizer também, mas nunca tive oportunidade de cheirar um jabuti.
(Tribo indígena que habita entre os igarapés Cacoal e Riozinho, afluente do rio Jiparaná-RO).

LAVA-CU: Te peguei, hein? Não é nada disso:
(besouro preto de asas transparentes).

MAÇADURA: É a massa resultante do erro de medidas do pedreiro ou do cozinheiro.
(sinal de uma pancada no corpo, hematoma)

NAMORADA:  No interior da residência
(mulher a quem se namora, que se enamorou)

ONZENICE: Para uma dúzia, falta apenas uma Nice
(Intriga, mexerico, bisbilhotice)

PREAMAR: Uma espécie de ensaio para o amor. Coisa de quem está “ficando”.
(Maré alta)

QUIBEBE: Uma pessoa afeita a uns goles de vez em quando ou de vez em sempre.
(Prato preparado com os grelos de abóbora)

REFINADA: uma ex acusada de algum crime (pois morreu)
(requintada, rebuscada)

SALDADO: Sal grátis
(pago, quitado)

TAFUL: Forma abreviada de tá fulminado, que é  sinônimo de tá fodido ou tá lascado
(alegre, festivo)

UNIVERSO*: Juntei sílabas, palavras, frases, estrofes e fiz poesia.
(o conjunto de tudo quanto existe, incluindo a Terra, os astros, as galáxias e toda a matéria disseminada no espaço)

(* Esta aqui fica como uma homenagem ao blog da Ester UNI-VERSOS)

VOLUTA: Uma avó que batalha
(arquitetura - ornato espiralado de um capitel de coluna)

XAMATA: Propaganda de má fé usada pelos fabricantes de refrigerantes, café e outras bebidas concorrentes do chá.
(manto de seda lavrado com couro, usado no oriente)

ZENOGRÁFICO: Um Zé qualquer que conste em gráficos estatísticos.
(relativo ao disco aparente do planeta Júpiter)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

UM CASO DE AMOR COM AS PALAVRAS

Não sei se todo mundo perde tempo com umas coisas inusitadas feito eu. Gosto de etimologia. Isso bastaria para não revelar excentricidades. Mas fuço, questiono e me digladio com palavras. Costuma dar em nada, mas me diverte. Selecionei dez durante uma exaustiva ruminância mental (bonita essa, não?) para apreciação dos meus parcos, mas valiosíssimos leitores.


Conurbação: Quando vi, eu também pensei nisso que você está pensando aí agora. Mas nada tem a ver com cornos, nem com masturbação. É o processo de crescimento de várias cidades próximas, que vão se juntando, se confundindo, até formarem uma região metropolitana. Mas, aqui pra nós, não dá uma ligeira vontade de pular o muro?
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Cizânia: Não é nenhum país da Ex URSS, que depois da tal cizânia virou CEI, nem nome de mulher, apesar de eu ter tido uma colega de nome parecido, Cirzene. Aquela, sim, unia muita gente em torno de si. Uma belezura!
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Lascívia: Me acompanha desde a adolescência, mas não é mulher. Apesar de só ficar me provocando.
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Idiossincrasia Gosto dessa palavra, menos pelo som que vibra  meio travado e mais pela significância relativa dos modos das gentes. Os olhares, os falares e os agires. Parece idiotia e às vezes pode ser mesmo um traço do comportamento.
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Somatização: não é nenhuma operação contábil, embora remeta a transferência. Não para crédito, mas débito para um órgão do corpo, que fica com o peso que a cabeça não agüenta ou não processa.
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Claudicante: Ah, essa é meu martírio! Sempre tive a intuição que queria dizer vacilante, incerto. E é mesmo. Só que fuçando nas origens, vi que Cláudio  significa manco, claudicante, vacilão. E não é que meu nome é Cláudio? Ainda bem que manco por enquanto só da cabeça!
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Mesquinho: Uma palavra tão bonitinha! Mas ordinária, infelizmente! À primeira vista, fica parecendo um apelido carinhoso de Tomé. Não, se bem que Tomé ( famoso apóstolo) até que não era mesquinho, mas duvidava de muita coisa que não podia ver antes.
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Limbo: É a parte que me cabe no universo. Mas, cá pra nós: não parece alguém falando “lindo” com a boca cheia?
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Pusilânime: Sempre que eu lia ou ouvia essa palavra, ficava martelando, martelando, martelando na minha cabeça. A ponto de me levar a associar a palavra a uma martelada, significando uma coisa incisiva,  uma inconfundível pancada. Dizem que poucas pessoas a usam por ser uma palavra muito forte, muito contundente. Ai mesmo é que eu associava a uma martelada. Descobri que sou mesmo um covarde. Demorei demais para ir consultar o dicionário. Uma covardia!
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Inato: Essa é a minha eterna implicância. Amor e ódio caminham lado a lado. Tudo o que já nasce com o sujeito é inato. Existe uma outra definição que é de algo ou alguém que não nasceu, mas essa não vale. É mais confusão. Podia ser nato, nascido, herdado, mas não! É inato. Veja bem: um cara desavisado é incauto, um outro que ninguém agüenta, é insuportável, algo que não acabou é inacabado. Quem não é feliz é infausto. E eu  tenho esse tipo insensato (que não é inato, viu?)  É adquirido de tanta implicância. 
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