domingo, 11 de maio de 2008

PRESSÁGIO

Coceira nas mãos: dinheiro; coceira no dedão do pé: chuva; coração apertado: mau presságio; uma orelha quente: alguém falando mal; duas orelhas quentes: alguém falando mal e outro alguém defendendo (ou então pode ser febre mesmo). Esses conhecimentos antigos vão sobrevivendo no tempo das adivinhações modernas e continuam a ter seus adeptos. A tecnologia não acabou ainda com o folclore, graças a Deus.

O que não perde espaço por nada desse mundo é o presságio. Tem pessoas que se sentem avisadas por algum mensageiro do além ou por uma força extra-sensorial de que realizar determinada tarefa ou praticar um ato qualquer deve ser evitado quando sentem um aperto no peito, indicando que algo pode dar errado. O contrário também faz parte desse contrato informal com o subconsciente. Em ambos os casos, não é raro haver algum interesse escondido por trás do pressentimento. Uma desculpa para se ver livre de alguém ou de alguma situação desagradável cai bem com uma saída diplomática dessas. Afinal quem será capaz de ir contra um mau presságio? E se der errado mesmo? O remorso, o sentimento de culpa... É o tipo do argumento no qual ao mesmo tempo se descarta logo de cara qualquer possibilidade de se fazer aquilo que não se tem vontade, sem desagradar a quem quer que seja. E de quebra, ainda sair agraciado com a fama de predestinado, caso ocorra alguma coincidência com o que foi pressentido. Do contrário, se nada de ruim ocorrer ganha-se pelo menos o respeito e a garantia da continuidade das relações, a velha política da boa vizinhança. Desde tragédia com avião até ganhar prêmio de loteria, todo mundo já ouviu algum caso de que alguém foi avisado antes. Se não conseguiu evitar ou tirar a sorte grande foi por não terem lhe dado ouvidos ou deixado de apostar. De vez em quando ocorrem problemas de interpretação que, como se fazem com os sonhos, a coisa se dá ao contrario do pressentimento ou não tão bem à maneira decifrada pelo pressagiante.

Já estava com tudo preparado para aquela viagem de férias que me consumiu ansiedade de um ano e me fez reduzir gastos até onde não mais poder para que não tivesse que fazer essa redução durante o descanso na praia. Uma vez por ano, pelo menos dava para dar uma esbanjadazinha. Passei o dia inteiro entre uma tarefa e outra no trabalho trocando idéias com os colegas sobre a viagem, minha expectativa, o aluguel da casa para quinze dias, e nas rodas, o Waldemilson, só observava a tudo calado e com reticências no olhar a cada frase que ouvia. Disse no final de expediente que precisava falar em particular comigo e propus após o trabalho. Não deu as caras até a manhã seguinte, quando bem cedo arrumava as coisas no carro, que bagagem de pobre tem que começar a ser arrumada é com muita antecedência para caber tudo direitinho. Aí ele aparece antes do sol. Até assustei e achei que pudesse ser algo grave mesmo a ponto de ter que interromper ou adiar o passeio.

-Rapaz, você tem mesmo a certeza de que precisa fazer esta viagem?

- Ô Waldemilson, precisar, assim de necessidade urgente, não, mas, cê sabe, férias são só trinta dias... Por que a pergunta?

-Desde o primeiro dia que te ouvi falando dessa praia que tem uma coisa me incomodando...

- O quê, quer ir também? Já fui logo de gozação.

- Falo sério, é um sentimento esquisito, umas coisas querendo e não querendo me dizer ao mesmo tempo, um aperto danado, um sufoco.

Pensei logo, agora vai minha viagem pro ano que vem. Deve estar precisando de algum emprestado, recebi as férias...

-Tá precisando de algum para emergência?

- Que isso, cara, graças a Deus, tá tudo em ordem. É sobre a sua viagem mesmo. Melhor você não ir...

-Tá doido, sô, se eu falar isso aqui em casa vão me internar e arranjar outro motorista. Tá todo mundo esperando isso faz tempo!

- É que eu gosto muito de você e de sua família e fico com medo de acontecer alguma coisa ruim...

- Só se for chuva os dias todos, vira essa boca pra lá.

Nisso já estava todo mundo acomodado e minha filha começa a se impacientar

-Ô pai, anda logo, que eu quero pegar uma onda hoje ainda!

Despedimos ali não sem seus conselhos premonitórios de: vá devagar, cuidado com as crianças no mar, não exagere na bebida e pá, pá, pá. Fui tentando não pensar naquilo, mas com uma pulga atrás da orelha e com a vigilância redobrada, porque independente do receio, o cuidado é que nem canja de galinha... Foi um dos melhores passeios que já tinha feito e por cima, sucedido de um achado. Lá pelo terceiro dia, voltando da praia para a casa num fim de tarde, vi uma sacola esquecida na areia com uma linda máquina fotográfica dessas profissionais, com uma objetiva do tamanho de luneta. Como não havia mais ninguém por ali, levei-a comigo e tornei a trazê-la durante o resto da permanência para ver se aparecia o dono reclamando sua falta. Não acorreu e acabei tendo que ficar com ela sob o risco de dar a algum esperto que se proclamasse proprietário, como quase sempre ocorre com os objetos encontrados à mercê da sorte. Tirava fotos com uma nitidez de dispensar fotógrafo profissional, a não ser para um melhor ângulo.

De retorno à cidade, nem esperei pela volta ao trabalho para lhe contar as novidades. Como fez comigo, fui até sua casa – não tão cedo como ele – relatei a calma viagem e mostrei o achado. Espantado com minha integridade morena, sem um arranhão sequer, foi logo dizendo ao olhar a bela máquina:

- Eu sabia! (Com cara pensativa e procurando uma saída honrosa).

- Sabia o que Waldemilson?

- Uai, vai ver, então, que o que eu senti foi o dono dela se afogando.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

NÓ!!!

Teste mostra que fumaça de incenso é prejudicial à saúde
CLÁUDIA COLLUCCI - da Folha de S.Paulo, em Brasília
Usado
desde a Antigüidade com sentido de purificação e proteção, o incenso acaba de receber sinal vermelho da Pro Teste, a Associação Brasileira de Defesa do Consumidor. Cinco marcas avaliadas mostram que daquela fumacinha, aparentemente inocente, exalam substâncias altamente tóxicas

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Adoçante pode engordar

Parece contra-senso, mas o alto consumo de adoçantes artificiais pode causar aumento de peso...

..."Se o açúcar for utilizado de forma correta levará a uma série de vantagens ao paciente, inclusive saciando a compulsão por doces... ( saúde.terra.com.br)

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ABSORVENTE INTERNO PODE PROVOCAR CÂNCER

...Você já ouviu falar que os fabricantes de absorventes internos usam asbestos na fabricação de absorventes? Porque asbestos fazem você sangrar mais, se você
sangra mais, você vai precisar de mais absorventes... Absorventes internos contêm duas substancias que são potencialmente perigosas: Rayon (para absorver), e dióxido (um produto químico usado para provocar sangramentos)... Dioxina é potencialmente cancerígena (câncer associado)...

(www.grupo-ramazzini.med.br)

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Benefícios de um consumo moderado de cerveja ( www.cervejasdomundo.com)

A cerveja é uma bebida saudável e que faz parte da dieta do Homem desde tempos ancestrais... elas não são apenas boas para beber, como também fazem bem à nossa saúde, desde que consumidas moderada e regularmente, isto é, não mais de 2 garrafas por dia... pode proteger as pessoas de doenças cardiovasculares, como por exemplo, ataques de coração e algumas formas de trombose...

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Porquinhos light(veja.abril.com.br)

Modificação do DNA faz com que a carne desses suínos produzam ômega 3, o ácido graxo que faz bem ao coração e previne o câncer...

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“Táubua de tiro ao álvaro

Não tem mais onde furá”

(Adoniran Barbosa)

Meu Deus, o adoçante faz mal! E pior, engorda!

Light nem é tão leve

E diet tem açúcar

Álcool é bom para longevidade coronária e dá carona para o corpo

Carne de porco agora é ômega, alfa beta e gama, faz bem para a saúde

Chocolate rejuvenesce, tira rugas e não dá espinhas

Absorvente interno dá câncer

A gota, quem diria, cura-se com gotas – de limão todo dia

A fumaça do incenso é mais perigosa que a do cigarro (pelo menos é cheirosa),

E nós, que escolher? Entre a morte iminente de ontem e o futuro saudável?

Entre o saudável de ontem que virou vilão de repente

Mata a gente pelo gosto, ingestão ou indigestão?

O que fazer sem senão?

O que comer sem medo, sem culpa,

Que remédio, qual expectativa?

Tenho aprendido demais!

Nem certo de tudo, nem de todo errado,

Muito antes pelo contrário

E a recíproca é verdadeira

Eis a questão?

domingo, 4 de maio de 2008

ZÉ JOÃO

Ôoola, ôola, ôla, alô macanudo, câmbio. Agora aqui não tá mais ao cento por cento, câmbio. Não tem mais acampamento com aquela barraca que levava a residência da gente pro mato. Nem luz faltava. Só o banheiro mesmo que transferíamos para a moita. E o churrasco perdeu um pouco da elegância ritual no trato da carne. Estamos tentando é diminuir no sal. Aquele seu garfo nem sei mais por onde anda. A brasília amarela já roda por outras bandas. Tem mais uma porção de sobrinhos, alguns que só te conhecem de ouvido e foto e lamentam não ter podido estar antes para o convívio. Tem uns que até dizem que era para você ter esperado mais. Será que nos sessenta e poucos e mais pra frente você ia ficar rabugento? Câmbio...QSL, copiou? Não desligue, macanudo. Continuamos aqui em ondas médias, respirando mais dióxido de carbono que fumaça de carvão temperado. Mas vamos todos bem e com saudades. Tem sempre comentários a seu respeito nas rodas de reunião familiar. E com que respeito! Não há sequer uma prosa em que não haja uma menção, uma lembrança, uma reverência de sua marca que não se apaga em nós. Porque não queremos também não, copiou? Câmbio... Bem sei que uma homenagem você merecia em vida e em poucas linhas não cabe tanta história boa e, justiça seja feita, era justiça mesmo o seu maior guia na vida vivida. Mas você cometeu-nos uma indelicadeza que não era do seu feitio. Foi sem aviso nem sintoma. Esteja em paz aí que estamos em busca aqui.

Põe a Delfina aí na escuta e transmita a nossa saudade grande. Cambio...

terça-feira, 29 de abril de 2008

JOGADOR DE FUTEBOL


(clique na foto para ampliá-la)

TUPANZINHO FUTEBOL CLUBE (Itabira-MG – 1975)



(De pé; Tony, Diquinho, Fiapo, Adelson, Guimba, Cacá, Jeca (técnico)

Agachados: Claudimir, Bedéia, Walter, Adilson, Mate-Couro)

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Encerrei minha carreira muito jovem, no auge da glória, para não ficar na marcação da torcida como pipoqueiro nem perna de pau. Por isso me aposentei da bola aos quatorze anos para ter muito tempo para curtir a fama. Essa foto foi do jogo de despedida. Procurem nos registros do esporte que vai estar lá o Cacá com “C”.

Não há ainda uma profissão cujo primeiro atrativo seja a conseqüência de sua bem elaborada, planejada e executada missão. Essa é movida mesmo pela paixão, antes mesmo dos carrões, do sonho europeu e da mulherada bonita. Há coração no pé, peito, coxa, joelho e cabeça. Para quem ama, o esporte só perde a graça depois que o sujeito passa a se preocupar mais com a efemeridade da gloria de estrela e menos em jogar uma bola redondinha.

Tem toda a razão o Skank, “quem não sonhou em ser um jogador de futebol?” Trocando as bolas da música, quem não gosta de futebol é ruim do pé ou doente da cabeça. Os campinhos pipocam por todo o Brasil, onde se joga de tênis, descalço, com bola ou qualquer coisa que se possa chutar. É grama, terra batida quadra de cimento, soçaite, rua com gol feito de lata ou pedra e até curral, enquanto a boiada vai pastar, serve para se bater uma bolinha. O detalhe mais curioso é a capacidade que tem o futebol como espetáculo único e fenômeno inexplicável de enquadrar discrepâncias mais que qualquer religião ou sistema político ou econômico. Não há capitalismo, socialismo, comunismo, catolicismo, islamismo, zen budismo, que alcance tanta unidade como o futebol. Assisti dia desses a algumas cenas de um jogo entre as seleções de Coréia do Sul e do Norte, que os governos são inimigos ideológicos viscerais, mas os povos, não. E me chamou mais a atenção as tomadas das torcidas no estádio, que o jogo propriamente; umas caneladas de dar dó. As duas galeras aplaudiam efusivamente uma e outra seleção, como se quisessem avisar ao mundo que as duas equipes deveriam ser uma só. O outro detalhe é que o mesmo tanto de unidade empata com a falta de unanimidade. Nesse fenômeno físico os opostos se atraem mesmo. Mas só até as torcidas entrarem no estádio e rolar a bola no gramado.

Com toda reverência aos demais esportes, vôlei, basquete, natação, corrida, ginástica, ciclismo, e outras tantas maravilhas que o gênio humano inventou para o bem estar físico e mental e coletivo e de lazer e mais um monte de coisa boa, inclusive ganhar dinheiro; me perdoem, mas o futebol é de uma plástica coletiva... Vamos com calma. O futebol bem jogado e sem amarelação nem catimba. Não vou a estádios, nem sou fanático por nenhum time, mas gosto de apreciar as habilidades individuais e a solidariedade com a bola. Os fominhas dentro de campo não têm apoio de ninguém. Os gols que fizeram o continuam fazendo história são os construídos com uma costura em ziguezague ou com a tabelinha de deixar caído o queixo do torcedor e o adversário que não consegue parar a jogada com falta ou pênalti. .

Dinheiro dá muito, mas outra riqueza que a moçada da bola vem adquirindo é na linguagem. Já entraram para o anedotário as falas dos jogadores O conjunto do vocabulário não sei como anda, mas aquelas antigas expressões das entrevistas evoluíram. Em vez de ‘fui fondo’, passou a ‘acompanhei a trajetória da bola’. Hoje até já dá para eles agradecerem a Skol por ter dado umas Brahmas de presente, porque a fábrica agora é uma só, mas antes tinha concorrência. Mudou também aquela síntese do antes do jogo “eu e meus companheiros vamos dar tudo de si.” Já se fala em “vou dar o meu melhor, porque estamos focados nesse objetivo.”

“Com certeza.”

domingo, 27 de abril de 2008

O SONO ROM

Os especialistas – sempre os especialistas – depois de seu último congresso internacional vêm nos acordar para nos deixar ligados nas novas descobertas que têm feito acerca do sono. A quantidade, a qualidade, as causas e os efeitos das boas e péssimas noites de nossa pausa para o corpo descansar. Descansar na nossa idéia, pois, segundo eles, a gente está, na verdade é com uma parte relaxando e outra continuando o seu trabalho de revitalização, realimentando as células e renovando o corpo e a mente para o dia seguinte. Entendi popularmente que é como dormir com um olho fechado e outro aberto, próprio das pessoas desconfiadas ou de rabo preso com algum mal feito. Xi! O mundo só deve dormir pela metade e olhe lá! Descobri que existem basicamente na ciência sonológica, os sonos REM e não-REM. O primeiro, profundo, relaxante, com a guarda totalmente aberta e o outro, o tal de não-REM, é o vigilante.

Entre eles, incluo o ROM, que é o ruído meu e de muita gente boa que costuma não deixar ninguém ter o seu REM e às vezes acordar-se com o próprio barulho do ROM, de tão alto. Tenho guardada até hoje comigo (nem sei para quê), uma fita cassete com a gravação de um ronco de um colega de quarto nos meus tempos de estagiário. Ele não acreditava que fosse possível emitir um urro tão leonino e eu não acreditava que iria ter que passar os próximos seis meses sem conseguir dormir. A casa só tinha um quarto e o chão da cozinha era gelado demais para colocar o meu colchão. O banheiro só me cabia em pé. Posição que não é lá muito agradável de se dormir. A gravação foi uma prova contra a sua descrença e uma vingança ao mesmo tempo, já que o esperava adormecer e ligava o toca-fitas. Ele acordava para me xingar que o barulho o estava incomodando. Não ficamos inimigos por isso. Passei a beber algo forte antes de deitar e aí um ronco passou a combater o outro. Assim dormíamos. Se bem ou mal, não sei até hoje, mas continuo roncando. Tive uma tia a quem admirava muito e, quando criança mais ainda, na hora em que ela dormia. A diversão em casa era ir ao quarto quando ela pegava no sono para curtirmos a sinfonia. Ela dava um assobio antes do gutural groaarrrrrr (vou ver se descubro uma onomatopéia melhor), essas dos quadrinhos (ronc, ronc, ronc,), não estão com nada em termos de representação de ruído de sono.

Consegui com os especialistas (ah! os especialistas, sempre eles) um alento para minha autopunição por gostar de dormir durante o dia. Sempre achei uma justificativa de que o hábito veio de anos trabalhando em regime de revezamento de turnos, não querendo nunca admitir que fosse preguiça mesmo e eles, de novo, dizem que há certa hereditariedade nos sucessos e transtornos do sono. Há dorminhocos e insones por culpa exclusiva de seus ancestrais. Quer ver meu pai dormindo? Coloque-o sentado em frente a uma televisão. Antes achava que dormia por enfado da programação. Mas não, dorme até em jogo do Flamengo, seu único time do coração. Se estiver em uma mesa ou numa roda qualquer e a conversa parar, não resiste a cinco minutos do silêncio. Não chega a roncar sentado, mas dorme com a boca aberta até os cantos das orelhas. Eu também já dormi até em cadeira de dentista, em túnel de tomografia e em mesa de bar. Nesse último caso houve ajuda externa ao metabolismo basal.

E, por último – palavra dos especialistas – a morte é igualmente inevitável para quem dorme mais ou menos. Não vive mais quem dorme muito e vice-versa. O que importa é a qualidade que o sono tem. Só ofereço o meu lamento a quem vive com um(a) companheiro(a) com sono ROM. Esses não dormem nem bem nem mal.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

A FÉ REMOVE GORDURAS

Rio: pastor garante que oração faz fiel perder 5 kg

A promessa de emagrecimento rápido, sem exercícios, dietas ou cirurgias, está atraindo fiéis à Igreja Evangélica Ministério Brilho do Sol, no bairro Santa Lúcia, em Duque de Caxias, no Rio. Em panfletos distribuídos nas ruas e nos cultos, o pastor Ubiraci Xavier promete a perda dos quilos indesejados através da fé... O pastor joga a responsabilidade do sucesso para o fiel. "Se esse for realmente o propósito de vida, ele será agraciado com o milagre de perder até cinco quilos em uma oração", diz...

“Muita Fé”

Ubiraci garante que o panfleto que promete emagrecimento imediato de até cinco quilos, através de 'lipoaspiração divina', não é estratégia para atrair novos fiéis e arrecadar dinheiro. "Nem pensei nisso. Até porque só emagrece quem tem muita fé", disse, garantindo que, durante uma campanha de fé no Espírito Santo, uma fiel emagreceu cerca de 10 kg...

(Fonte:www.noticias.terra.com.br/brasil/interna) Quarta, 26 de março de 2008, 02h44

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Jesus ao fazer o milagre da multiplicação dos peixes se esqueceu de deixar a receita para aqueles que se empanturrassem de comida e virassem obesos. Bastava dizer que muita fé e uma determinada oração levariam de volta todo o excesso ingerido pelos gulosos ou famintos que devoram todos os pães, peixes, carnes, doces e outras delícias pecaminosas que foram inventadas depois dele. Mas, na sua infinita sabedoria e na sua infalibilidade divina, mandou pelo menos um enviado para salvar as almas mais pesadas. Irmanados na fé em uma corrente de preces de aspiração de lipídios, podemos fazer cessar a chaga gordurosa que se acumula nos nossos tecidos em forma de pneus, culotes e proeminências abdominais. Isso é com fé, porque com muita fé, podemos também atingir o milagre da multiplicação do emagrecimento. Adeus dietas mirabolantes, adeus bisturis redutores, até mais ver, aparelhos de queimar gorduras a laser, vade retro piscinas, pistas, campos, quadras, xô academias, esteiras e bicicletas. A devoção a Santo Antônio também vai acabar perdendo fiéis, já que seu milagre só se concretiza com a reza de 500 padre-nossos acompanhada do mesmo número de abdominais diariamente. Dizem que não é tão milagrosa a ponto de emagrecer em uma só sessão, mas que depois de dois ou três meses, a pessoa fica fininha. É muita penitência.

Ainda bem que o pastor já avisou de antemão que seu objetivo não é o de arrecadar dinheiro com o milagre, uma vez que os fiéis, agora sem culpa vão gastar mais com comidas gostosas. Mas também terá o seu lado bom, o do aumento de número de ovelhas rezando diariamente para poderem comer mais no outro dia. Um jeito bom de arrecadar algum sem ser acusado de charlatanismo, blasfêmia ou outra heresia, é instalar uma lanchonete na igreja. Tento esquecer as bobagens que já vi ou ouvi na vida mas essas coisas insistem em reativar esse lado do meu cérebro. Lembrei daquela história do padre que encontra numa estrada deserta um sujeito com um carro sem gasolina que lhe pede alguma ajuda e ele pergunta ao rapaz se tinha fé. Ao responder positivamente, manda-o urinar no tanque de combustvível. Dando certo, o cara arranca o carro agradecido para surpresa do padre que exclama, incrédulo: “vai ter fé assim lá na p#”&q*+**&p!.”

domingo, 20 de abril de 2008

JARGÃO

Segundo a definição que adaptei dos dicionários, o jargão é uma forma própria de um determinado grupo se expressar, numa linguagem corrompida, uma espécie de gíria específica. Para mim, não passa de um corporativismo lingüístico. Um diálogo defensivo. As profissões trazem junto com seus afazeres, o próprio código de comunicação. E depois, para desespero geral, o trazem para nos causar afasia. Não tenho nenhuma implicância com nenhum desses grupos, a não ser quando me sinto enganado pela própria ignorância no assunto ou por achar que o uso do jargão é para esconder alguma ameaça que não pode ser feita de outra forma. Esse negócio só pode ter sido criado por algum serviço secreto. Tente decifrar a bula de um remédio qualquer ou ler uma argumentação inicial de um processo judicial e vai entender o que digo. Se conseguir. Alguns depoimentos sinceros:

Policial:

- Estávamos em patrulha de rotina quando identificamos um elemento suspeito que evadiu-se do local ao se deparar com a viatura, mas o mesmo não logrou êxito, pois conseguimos abordá-lo e após averiguações, descobrimos que o meliante estava de posse de uma bolsa que havia subtraído de uma transeunte. O elemento agora vai ser encaminhado à delegacia...

Mecânico:

- Olha, senhor, seu motor está batendo biela. Podemos fazer o serviço completo ou dar uma guaribada.

- Guaribada?

- É, uma meia sola.

_ ???

- Trocamos só os casquilhos. Damos uma usinada no eixo, uns ajustes no cabeçote...

- Mas isso é gambiarra!

- É doutor, só tem que esperar o motor amaciar e não rodar na banguela. Aí, agüenta um tranco bom ainda e tem garantia. Três meses na mão de obra.

Advogado:

- Doutor, acabei concordando com as explicações que me deram sobre o prejuízo...

- Data vênia, seu caso é merecedor de uma querela para reparar danos.

- Não entendi.

- Peticionarei ao douto juízo e questionaremos no mesmo diapasão ignominioso que lhe ofenderam a mais alta sapiência.

- Hein?

- A corte vai fazer valer o fumus boni júris.

- Tá bom, doutor, onde é que eu assino?

Atendentes em geral: (por falta de recursos de linguagem)

- Alô!

- Pois não, em que posso estar ajudando?

- É sobre a minha conta telefônica.

- Posso estar sabendo do que está se tratando?

- É sobre umas cobranças indevidas...

- Só um momento, senhor, e já estarei indo atendê-lo (meia hora de espera) e desisto. Agora não estou podendo.

Cuidado. Esses jargões parecem estar contendo vírus. Já contaminaram muita gente.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

NARIZ

Nariz ‘aprende a identificar o cheiro de perigo’, diz estudo

O medo pode aguçar o sentido do olfato em uma pessoa a ponto de que ela passe a associar rapidamente um odor que sentiu no passado a uma situação de perigo e a distingui-lo de outros semelhantes... Os pesquisadores submeteram 12 jovens saudáveis a testes envolvendo dois odores muito similares enquanto registravam imagens de ressonância magnética de seus cérebros. Primeiro, os participantes tiveram que cheirar o conteúdo de duas garrafas. O odor era quase idêntico, com uma variação química sutil. Eles não conseguiram discriminar os aromas. Depois tiveram que cheirar o conteúdo de uma das garrafas novamente enquanto eram submetidos a uma situação de desconforto - a aplicação de um choque elétrico de baixa intensidade em sua perna. Logo eles aprenderam a distinguir este cheiro específico do outro, que era bastante similar...

Sexta-feira 28 de março de 2008 09h59min (Fonte www.uai.com.br/UAI/html/sessao_8)

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Bem que eu já desconfiava que quando alguém diz: isso não me cheira bem, não se tratava do aspecto físico da matéria. Algumas vezes é direto, na lata, ali nas narinas. Quando se passa por lixo, rede de esgoto a céu aberto ou de alguém sem banho de muitos dias, por exemplo. No caso da descoberta acima, é um cheiro de entrelinhas. O perigo reside na ameaça do odor que fatos ou atitudes podem representar para o cotidiano ou ainda resultar em calamidade pública ou injustiça particular. Muitos advogados quando lhe perguntamos da possibilidade de se ganhar aquela causa na justiça, costumam responder que “de bumbum de bebê e cabeça de juiz pode se esperar de tudo.” Isso realmente cheira a perigo. Quem diria que o nariz fosse ganhar vida própria e se tornaria independente do cérebro! Passa agora a ter comando autônomo e é responsável desde então, a fabricar adrenalina e outros hormônios que avisam ao corpo da iminência de risco - com tanta competência a ponto de não deixar escorrer para não serem confundidas com outra secreção e permitir que a pessoa fique vulnerável. Vai que o sujeito pára a fungada para limpar o nariz e aí, ó, olha a ameaça se concretizando! Aos cachorros, é melhor ir botando as barbas de molho. As barbas não, os narizes.

Para quem acreditava até agora que o nariz servia para enfeitar ou enfeiar uma cara, distinguir odores de fedores e suportar óculos, veio esse magnífico e insofismável achado da ciência moderna, que tanto contribui para o progresso civilizatório ultra contemporâneo da humanidade. O olfato assim deixa de ser um mero sentido e ganha status de órgão. E órgão vital por nos precaver das ameaças reais e potenciais com que formos nos deparando. Agora podemos meter o nariz até onde não fomos chamados com autoridade quase policial. Daqui a pouco começam aparecer os especialistas. Nariz desarmador de bombas, nariz anti-acidentes (subdividido em várias categorias) domésticos, de automóveis, aviões, etc. Nariz que previne contra o nariz da mulher que sente a léguas de distância um perfume diferente no pescoço ou na camisa do amado e, finalmente o nariz especializado em política, que já fareja o perigo ali, no discurso, antes de concretizar a eleição do candidato. Se o cara for dono do próprio nariz e tiver senso de oportunidade, vai fazer fortuna entre os eleitores com narizes menos qualificados.

domingo, 13 de abril de 2008

INVENTAR BRINCADEIRA

Quando não podíamos sair para brincar na rua por algum castigo ou impedidos por chuva, últimos quatro da lavra dos nove filhos santos e adão, costumávamos ficar eu, o Walter a Néa e a Nina, no alpendre de casa fazendo disputa de adivinhar o carro que iria passar na rua. Papel e lápis nas mãos, cada um escolhia um modelo e ficava na sua ansiosa torcida para o pequeno trânsito lhe favorecer com a opção. Tinha fusca, kombi, corcel, variant, jeep, opala, rural willis... Não valiam mais gordini, aero-willis, vemaguete e simca que já estavam saindo de linha e havia poucos em circulação também. Caminhão podia qualquer um, uma vez que eram minoria na frota e custavam a passar. Havia Fenemês, Mercedes, uns poucos Chevrolet e raros Ford. O fusquinha era um caso à parte. Para tê-los nas apostas, era obrigatório escolher uma cor para dar mais oportunidade a outro jogador fazê-lo também. Eles eram em número muito superior a qualquer outro carro. Assim, se fizesse essa opção tinha de estabelecer: eu quero azul, o outro, verde, outro, vermelho, e assim por diante para ninguém ficar em desvantagem na brincadeira. Ganhava aquele que anotasse o maior número de carros passados em um determinado tempo. Esse tempo era ditado pelo momento que a mãe chamasse para almoço, jantar ou banho. Ou ainda quando um espertinho em vantagem inventasse uma dor de barriga ou trapaça semelhante e saísse jogo declarando vitória. Distração não era perdoada. Era antes, um recurso que usávamos para fazer o concorrente levar barrigada. Pançada era mais precisamente como dizíamos.

Duas coisas que estimulam muito a sociabilidade e a criatividade infantis são a fartura de irmãos ou amigos e a carência material. Inventávamos brincadeiras bacanas sem precisar do pai gastar um tostão. Quer dizer, gastávamos lápis e papel para as anotações. Reais e fraudadas. Há poucos dias, passava num bairro aqui perto, naqueles em que as crianças ainda podem brincar nas ruas aos domingos, e a sobrinha que me acompanhava, viu um menino desembestado rua abaixo num carrinho de rolimã, adaptado com um pedaço de cadeira de plástico como assento e ela achou radical, irado. Foi ai que eu falei a ela sobre a criatividade...

Ultimamente tem sido difícil brincar dessas coisas. Difícil até conhecer tantos carros. Os que existem no presente, amanhã já são outros. Cores de mil tons, marcas das mais variadas. Viraram brinquedos só de adultos. Eles ao volante, poderosos, rápidos nas ruas e em quantidade que os olhos nem conseguem acompanhar para a cabeça fazer a contagem. E as crianças em frente à tv e ao computador, brincando de procurar amigos que nunca vêm e nunca vêem, brincando de lutar e guerrear, derrotando os inimigos que lhes botaram na tela. Os da vida elas vão treinando para daqui a algum tempo...

domingo, 6 de abril de 2008

DEMO

“Abre as asas sobre mim, oh senhora liberdade

Pois fui condenado sem merecimento...”

Senhora Liberdade (Wilson Moreira e Nei Lopes)

Hoje estou para provocação. Ou melhor ainda, para o troco. O que vou dizer deve ter sido inventado por americanos. Não é o sofrido torcedor do América Mineiro, não. São os americanos da américa do norte mesmo, esses que se acham os donos do mundo. Que gostam de exorbitâncias, grandezas e as esparramam mundo afora para nos aporrinhar a paciência, mais do que já fazem com nosso dinheiro, nossa cultura e outras atrocidades globalizadas. Vamos nesse ritmo.

. Os barulhos nas ruas dos bairros que têm mais casas que prédios de apartamentos são mais bem definidos. Do alto de um apartamento, ruídos externos são menos decifráveis ou são mais desconsiderados. Eles são múltiplos, continuados e sem apelo que mereça atenção, salvo tiro ou batida de carro. Em casa, até mesmo por estarem nossos ouvidos mais próximos da rua e com auditiva prevenção de segurança, ficamos mais sensíveis ao que se passa lá fora. O caso aqui tem sido a última moda desses imensuráveis e insuportáveis sons dos carros que circulam dia e noite, tarde e madrugada. Não satisfaz o sujeito ter um potente aparelho de som em casa ou assistir a esses shows tri-elétricos de milhões de maga watts de decibéis. Eles agora acompanham o seu dono nos porta malas dos carros. Acreditam os DJ’s automotivos que estão agradando com sua boate-pagode-vazia-ambulante. Digo isso porque passam bem devagar para democratizar a música(?) caótica e sem graça. Dá a impressão que querem ser aplaudidos ou verem alguém chegar ao portão ou à janela para lhes fazer um aceno de carinho ou aprovação. Até no céu se escuta. Já vi até urubu subindo em direção à camada de ozônio para abafar o ruído. Sorte deles é que o som se propaga no ar e não dá pra Deus ouvir. Eu os tenho chamado de som de irritar cachorro. A cachorrada late num efeito dominó. Deu pra saber, inclusive que a população canina é enorme aqui no bairro. A raiva deles é tanta, que mesmo depois de passado o barulho eles continuam a latição como se quisessem mandar um recado ao portador da zoeira: estamos latindo até agora para ver se você não volta mais aqui, seu chato!

Nas minhas caminhas adotei o habito de escutar um radinho com fones de ouvido (PARA NÃO INCOMODAR OS OUTROS). Poucos dias atrás ouvi uma música que me inspirou a fazer uma faixa e colocar aqui na porta para dar um recado a essa turma. Já procurei por tudo enquanto é internet e não achei toda a letra, mas o refrão eu guardei bem e é uma luva-carapuça para vestir nesses caras. Diz assim:

“Feche esse carro, bundão,

que meu ouvido não é penico não.

O que lhe sobra de potência, falta de educação.”

segunda-feira, 31 de março de 2008

AURORA

“Alvorada lá no morro, que beleza

Ninguém chora, não há tristeza

Ninguém sente dissabor.

O sol colorindo é tão lindo, é tão lindo

E a natureza sorrindo, tingindo, tingindo

(a alvorada)”...

Cartola

Bom dia! O amanhecer é lindo, sim. Aqui e em qualquer lugar. Exceto quando a afobação nem nos permite percebê-lo. Hoje, mesmo quando não tenho absolutamente nada para fazer durante todo o dia, o que não é raro, me levanto ainda antes das últimas voltinhas da terra perante o sol, quando ela está prestes a descortiná-lo e assim dá gosto. Acostumado ao batente desde muito jovem já que tinha eu 14 anos de idade, fui cedo forçado a conviver com a mudança que se opera quando termina a escuridão da noite e irrompe aquele claro sem medida. Lindo nem sempre, se o olharmos com os olhos das obrigações e preocupações com as lidas da vida, mas lindo pelo acesso soberbo e indiferente a tudo. Para mim é como presenciar ao vivo em com todas as cores, uma mudança de estação. Não me satisfaz abrir os olhos e ver pela janela do quarto que o dia já é dia sem ter admirado como testemunha o seu nascimento. Gosto de começar junto com ele. Observando o branqueamento infalível da noite vencida sem necessidade de luta ou qualquer outra contestação da natureza. Com estrelas e lua serem tragadas, num deslize do tempo, pela imensidão da aurora. Ainda mais quando ela vem aparecendo dominadora e imponente com aquele gigantesco sol dourado atrás de uma montanha. Bom dia!

domingo, 30 de março de 2008

CASA VELHA

A imortalidade não pertence ao fato em si. É filha da memória. Minha nossa, tanta filosofia barata para falar de um bar! Melhor dizendo, de um bar e de histórias de bar. Perdi a conta das belas, divertidas e inusitadas situações vividas nos bares que acompanham nossa rota de adolescentes e as reuniões de amigos, de caçadores de aventuras amorosas ou de lazer desacompanhado de segundas intenções. O bar não é somente o refúgio etílico dos destituídos de afeto social, tampouco o ponto ideal para as tomadas de decisões que envolvam rota de mudanças ou permanências desejadamente definitivas. Antes e acima de tudo é o lugar do encontro casual ou marcado. O espaço da reflexão breve, da observação de modos e maneiras e em última análise, lugar para se comer e beber, bem ou mal. Aos mineiros a quem é imposta a marca de ter esse recanto entre suas preferências primeiras por não serem diariamente lavados nas bordas e entranhas pelo mar, e se a alguém isso incomoda, digo que o coração que cabe no mar bate mais perto no bar, e que os bares vão às praias também. Pois é, mas o assunto aqui é dessas noites que a gente não tem vontade de ver terminar. Ainda mais que aquela noite eu vi, enquanto esperava condução para voltar para casa. O cenário de um bar qualquer já bastava, mas aquele tinha uma particularidade estética: era um casarão do século XIX, que abandonado ou sei lá o que, foi transformado em um lindo bar e em conseqüência, também o mais freqüentado em Itabira. Chamava-se Casa Velha Bar. Noites servidas de canções ao som dos vários violões que por lá circulavam com seus magníficos artistas anônimos, de deliciosos caldos preparados para as noites mais frias (o que era comum em Itabira, o frio) e enfeitadas pela beleza arquitetônica. Não se podendo esquecer a localização, bem no alto do morro mais central da cidade, ao lado da imponente Igreja da Saúde. Estávamos quase todos em inícios de namoros, mais ou menos apaixonados – dependendo do tempo, dos pares e das intenções. Cantorias, fugas para os arredores mais escuros em volta da casa-bar pelos mais afoitos com a libido e o doce e ardente clima de noite boêmios completavam a companhia.

O Genésio, o nosso violeiro e compositor de verve da mais alta criatividade e também dono de irrefutáveis argumentos apaixonados e apaixonantes, tanto nas letras de suas composições, como ao vivo e aos beijos (ou melhor, a cores), namorava a Rogéria, amiga elétrica e falante da nossa turma. E ao mesmo tempo, a Betânia, outra amiga, menos elétrica e menos falante, enfermeira, que poucas noites tinha disponíveis por causa de seus plantões no hospital. Ambas amigas comuns da turma, mas estranhas entre si, até então. Assim a sua administração do imbróglio ficava mais fácil; tanto que havia ficado noivo de uma e de outra. Dá-se dessas trágicas e cômicas coincidências, não muito difíceis em uma cidade pequena, de encontrarem-se as duas, já desconfiadas da meada ou avisadas por alguma amiga solidária e resolvem levá-lo a julgamento público ali mesmo e naquela hora (foi assim que acabaram se tornando amigas; pelos acordes dissonantes que as vitimavam). Ele lá, desavisado e alheio a tudo, agradando a todos com a voz e o som delicioso do violão. Intimado aos devidos esclarecimentos para a decisão da escolha obrigatória entre essa ou aquela - não sem antes ser chamado de safado, pilantra, traidor, entre outros adjetivos pouco amáveis-, postou-se de pé, diante de toda a platéia que se formou em volta. Num simples e rápido lance, quando todos já contavam com sua tentativa de fuga, palidez ou rompimento definitivo, desferiu poeticamente seu sincero depoimento. Voz grave, firme e afinada, deixou-as com cara de tacho e a todos mais ainda boquiabertos.

– Não posso fazer nada. Eu amo as duas.

sábado, 29 de março de 2008

DIMINUA O TAMANHO DO PEIXE QUE EU APAGO A LAMPARINA

Homem pesca peixe 25 anos após tê-lo jogado na água*

Algumas pessoas pescam peixes e depois os devolvem à natureza. Com o biólogo americano Bill Wengert, do Estado de Wyoming, aconteceu algo diferente: 25 anos depois de ter jogado um peixe na água, ele pescou-o. Em abril de 1983, Wengert e outros biólogos do Departamento de Pesca depositaram cerca de 12 mil trutas em um reservatório no sudoeste do Estado. Lucy Wold, porta-voz do departamento, contou que Wengert estava pescando recentemente no reservatório - que tem 146 km de comprimento - quando fisgou uma truta. O biólogo, então, percebeu que a barbatana pélvica direita da truta estava cortada, o que indicou se tratar de um peixe que havia sido depositado no reservatório. Examinando dados históricos das atividades do departamento, ele concluiu que a truta havia sido colocada naquelas águas no dia 14 de abril de 1983. "Provavelmente fui em mesmo que cortei a barbatana desse peixe, e era eu que estava guiando o barco quando as trutas foram depositadas no reservatório, quase 25 anos atrás", afirmou Wengert.

Sábado, 22 de março de 2008, 10h47 ( fonte: http://noticias.terra.com.br/popular)

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Pois eu também tenho minha história de pescador digna desses torneios que são realizados para expor e premiar as maiores proezas dos aficionados pelo banho na minhoca. E é semelhante à credibilidade dessa que foi relatada na notícia ai em cima. Meu pai que não é pescador e não gosta de mentiras (a primeira afirmativa é verdadeira) contou na roda de crianças que se fazia em nossa casa uma aventura de uns amigos seus, com tanta convicção que até ele mesmo acreditava no grande feito. E é pura verdade. A fé das crianças e suas crenças são tão inabaláveis, principalmente se são provocadas pelos pais. Acreditei por muito tempo e construí o cenário completo dessa história em minha imaginação como foi descrita nas minúcias.

Lançadas as varas, a turma ali naquele silêncio cheio de cumplicidade e vigília que caracterizam os momentos de concentração na margem do rio e, de repente, eis a fisgada. O sujeito dá linha para agarrar bem a presa e repuxa e solta, repuxa e solta, repuxa e solta para dar uma canseira no bicho e tirá-lo da água com aquele prazer de cintilar os olhos. Começa a se inverter a situação em favor do peixe e o pescador dá ares de cansaço e sem forças para arrancar a vítima. A turma acode logo e faz um cordão como aqueles que se faz para resgatar pessoas caídas em um buraco. O peixe resiste bravamente. Trocam a linha por uma mais grossa e amarram-na no pára-choque de um dos carros para aumentar a força e nem sinal da cabeça emergir. Antes que arrebentasse a linha e se perdesse essa pérola rara, avistam um trator desses de fazenda e alguém tem a brilhante idéia de amarrar com cabo de aço, que o bicho além de grande era forte mesmo. Um dos mais corajosos entre o grupo entra na água e troca o frágil anzol por um gancho daqueles usados para ancorar navio. Agora vai! Foi unânime o grito. Foi dada a partida e ligada a tomada de força. Acelerou. Potência total. Expectativa geral. Disse meu pai que retornaram cabisbaixos e frustrados todos já que não foi possível nem uma fotografia para tornar ainda mais verossímil a história. O rio entortou todo, mas o peixe não saiu.


sexta-feira, 28 de março de 2008

A COISA PÚBLICA E A COISA PRIVADA (COM TROCADILHO)

Houve uma época em que eu assinava o Jornal Folha de São Paulo e ele tinha um caderno chamado cotidiano, recheado de coisas do cotidiano (risos meus), curiosidades, notícias de São Paulo e do Brasil. E era nelas que o grandíssíssimo escritor Moacir Scliar (assim mesmo, no superlativo aumentado, que o homem é da mais alta estatura literária) se inspirava para recolher um retalho do essencial de determinada matéria e dela produzir belas crônicas. Gostava tanto que, do jornal colecionei por um bom período, esses recortes e o caderno Ilustrada, que privilegiava o debate, a exposição de idéias, a literatura e música, cinema e outras coisa menos graves ou urgentes. Falei outras vezes que boa parte do que se noticia na tv e na internet serve muito mais à inspiração do que à relevância, portanto resolvi transformar em ficção a bizarrice de certas gentes e de certos (ou errados) fatos. Que me perdoe o escritor, mas não é cópia, nem plágio. É inspiração também, já que não tenho a pretensão de atingir a qualidade correspondente e nem sou capaz para tanto brilho, viu mestre? Começo já.

Família inteira de Prefeito é aprovada em concurso em MG

“O resultado de um concurso público está causando polêmica entre os moradores da cidade de Ipaba, no Vale do Aço, a 250 quilômetros de Belo Horizonte. Tudo porque, na relação dos aprovados, aparecem os nomes da mulher, de três filhos e dois sobrinhos do prefeito José Vieira de Almeida (DEM). A lista de aprovados também se estende a secretários e a uma filha do vice-prefeito. A polêmica já chegou ao Ministério Público. Na semana passada, o advogado Denner Franco Reis fez uma representação à Promotoria de Justiça do Patrimônio Público em Ipatinga pedindo a anulação do concurso...

...As suspeitas de favorecimento, de acordo com a representação, também recaem sobre a filha do vice-prefeito, José celestino Pena (PSB), Janaína Silus Pena, aprovada para a única vaga ao cargo de atendente de consultório odontológico da prefeitura. Também foi aprovado no concurso o secretário de Saúde, Weber Freire Pascoal, para a vaga de motorista. Ele receberá salário mínimo. Já o secretário de Tributos, Everton dos Reis Couto, foi aprovado para o cargo de encarregado de serviços, também com salário mínimo. “Os salários deles giravam em torno de R$ 2 mil. Agora, com a aprovação no concurso, eles podem ser apostilados em seus cargos, ou seja, exercem a função para a qual foram aprovados no concurso e recebem o salário do cargo de comissão” disse Denner Reis.

...A secretária Sebastiana Souza de Oliveira foi uma das que concorreram à vaga de secretária-executiva, na qual foi aprovada a mulher do prefeito. Segundo ela, o resultado não foi o esperado por quem participou das provas. “Eu me preparei e acredito que fiz uma boa avaliação, mas já suspeitava que esse resultado poderia ser de cartas marcadas” disse a secretária. De acordo com ela, as provas para conhecimentos gerais foram direcionadas a pessoas que trabalhavam dentro da prefeitura. “Uma das questões da prova foi escrever o nome completo do prefeito. Outra foi dizer quais as distâncias entre Ipaba e Ipatinga e Belo Horizonte”. Candidatos que vieram de fora, segundo ela, teriam dificuldades para acertar essas questões...”

(FONTE: www.uai.com.br/UAI/html/seção_3) Domingo 23 de março de 2008 08h33min

Imagino a Prova.

CADERNO DE QUESTÕES – INFORMAÇÕES AO CANDIDATO.

- Não é permitido o uso de calculadoras, celulares ou cola de papel, mão, canela, braço, etc.

- Os candidatos não poderão comunicar-se entre si em nenhuma hipótese e nem valer-se de outros meios de consultas a livros, mapas, documentos de uso exclusivo da prefeitura, cartórios, certidões e documentos de identificação de terceiros de qualquer espécie, sob pena de anulação da prova.

- O apostilamento, ou melhor, o resultado será publicado no diário oficial.

BOA SORTE (se ajudar em alguma coisa).

Responda objetivamente as questões abaixo:

1 – As iniciais do nome do prefeito do município são J.V.A. Escreva por extenso o seu nome completo (o dele, não o seu, não é para confundir). (Uma dica: o primeiro nome é José).

2 – Sabendo-se que Ipatinga é cidade pólo do Vale do Aço e que concentra a maior parte dos serviços de saúde, em casos de emergência em Ipaba, quando quilômetros deverão ser percorridos até se chegar lá?

3 – Em caso de não haver recursos suficientes em Ipatinga, qual a distância desta até Belo Horizonte?

4 – Você é de fora ou de dentro? (não da prefeitura, mas da cidade, só para não confundir, de novo!).

Gostaria de ver a classificação geral para conferir quantos primeiros lugares foram obtidos nesse concurso, se é que algum parente não errou alguma dessas questões mais difíceis.

quinta-feira, 27 de março de 2008

T.O.C., T.O.C., T.O.C.

Ultimamente tenho lavado muito as mãos. Se for habito higiênico por causa da cozinha que freqüento muito, ótimo; mas desconfio que seja mania mesmo. E tomara que sim, para não ter que admitir algum transtorno obsessivo compulsivo. Ansiedade, nem pensar, que eu não sou ansioso, eu não sou ansioso, eu não sou ansioso, óóó! É só passar próximo de alguma torneira, que tô eu ali, esfregando, enxaguando e enxugando. Na maioria das vezes elas mesmas me comandam. Nem adianta resistir; vão logo abrindo a torneira, ensaboando, e quando tento retomar o controle, fingem obedecer, pegam a toalha ou pano de prato, se enxugam e vão para os bolsos ou pegam algum objeto para ver se esqueço ou deixo pra lá. T.O.C.. Tem casos mais graves que o meu. Mania de limpeza, muita gente boa tem, como o seu contrário também, mas a pecha de mania só fica com a pessoa da limpeza. A sujeira é inclassificável nos tratados da psicologia. É simplesmente considerada caso de porcaria. Morei um período na cidade de Araxá, onde conheci a mãe de um colega de trabalho, uma dona de casa, que fazia três faxinas por dia e não era diarista, não. Era em sua própria casa. Às vezes julgava que havia terminado, mas não largava o pano. Ficava andando pelos cômodos verificando se alguma poeira havia chegado repentinamente para xingar e limpar, xingar e limpar, xingar e limpar. Tinha uma outra mãe, a de uma colega de escola de segundo grau, por quem eu era caído e que me levava sempre para almoçar em sua casa, condoída pela minha alimentação republicana – éramos vizinhos de prédio no centro de Belo Horizonte. Aquela se superava. Um dia a vi lavando as couves para serem preparadas, e o fazia três vezes com detergente e esponja, folha por folha. E ao meu espanto respondeu que a primeira era para retirar a sujeira de muitas mãos que as apalpavam na feira (as couves, viu?), a segunda era para eliminar agrotóxicos e a terceira era a normal, todo mundo tinha que lavar os alimentos antes de comer. TOC, TOC.

Para o meu caso das mãos achei um culpado, ou melhor, uma culpada: Tia Rosário. Presente em muitos momentos da vida familiar em nossa casa ou nós na dela, para saborear suas deliciosas comidas ou ela ajudar minha mãe nas grandes reuniões gastronômicas, tem duas peculiaridades e uma não é mania: os seus olhos de Midas para a feiúra humana. Todos os que ela vê, conhece ou revê após anos, especialmente se tiver algum parentesco, ficam lindos ou uma belezura como costuma expressar com a respiração aspirada. A outra sim, a que ela faz às louças, deve ser a que me ficou como herança nas mãos. Na hora do almoço, comia bem rápido, levantava-se da mesa e ficava andando em volta, vigiando se alguém havia terminado ou, impaciente, perguntava: “já acabou?”; para recolher o prato e os talheres e lavar imediatamente. T.O.C., T.O.C., T.O.C.

quarta-feira, 26 de março de 2008

BREVE ANGÚSTIA

Outro dia meu irmão me ligou para contar que o primeiro texto que um professor de seu filho na faculdade de economia em que ele havia ingressado propôs para estudos, foi o manifesto comunista de Karl Marx. Mas falou com uma espécie de satisfação redentora. Como quem suspira aliviado diante do fôlego readquirido após um mergulho profundo e sufocante É que saíram do centro das elucubrações acadêmicas as dicotomias entre o sistema capitalista e comunista. Eram o motor dos grandes e profusos debates que tanto aqueciam a fervilhante e empolgante vida acadêmica, política e social de tempos memoráveis. O capitalismo está aí firme, forte e esse negócio de revolução, de socialismo, comunismo e outros ismos mais à esquerda já foram enterrados, quer dizer foram derrubados e não guardaram nem os tijolos para contarmos a história depois. As idéias destoantes do senso comum já foram imponentes e se tornaram uma afronta impotente. Pelo animado tom de sua voz notei que deve ter sentido que nem tudo está perdido no inabalável consenso a que chegou a nossa educação formal. Consome-se hoje em dia muita informação genérica e de pouco alcance na solidificação de conceitos, formação de opiniões e idéias transformadoras. A renovação que se dá é pela troca de uma coisa por outra, simples, objetiva, pragmática. Tudo muda o tempo todo para permanecer como está. Não se faz conexão, não se exercita mais a dialética.

Estamos à deriva numa arca repleta de seres, a reboque não de um só homem, mas de uma só verdade e expostos e passivos ante as tempestades, calmarias, tubarões, escassez e fartura. Vigiados eletronicamente, ocupados com o vazio da existência, perseguindo uma felicidade escondida atrás de portas de lojas. E impassíveis. E quem discordar, assino em baixo porque a exceção confirma a regra. Senão, o que seria de Nélson Rodrigues, com toda unanimidade é burra?

E estejamos combinados; uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

terça-feira, 25 de março de 2008

O CASO DO OVO

Em Hamlet, Shakespeare disse que o sono é o prelúdio da morte. Não vou discordar porque isso não se faz aos poetas, que exprimem os mais recônditos sentidos da alma humana com a beleza mais bela que se há na face da terra e alhures. Mas vou acrescentar um verso que, se de belo não tem nada, é de muita praticidade nos momentos difíceis e também não foi feito poesia, foi expressão da realidade mesmo e das duras. Ocorreu na república do Grajaú, que era o bairro onde residia, e o local atualmente é conhecido por Morro das Pedras. Muito tranqüilo então, comparado aos padrões de violência urbana que temos hoje. Custei a arranjar uma paródia para aquela casa de aventureiros em busca de uma vida melhor, como é praxe entre os jovens de todos os tempos saídos de famílias pouco ou nada abastadas. Como a vida sempre imita a arte, meu arremedo vai para o filme “onze homens e um segredo”, que no nosso caso passa a ser onze homens e pouca comida.

Tudo que se comprava às dúzias era democraticamente dividido entre os onze coabitantes com um bônus para aquele que chegasse mais cedo em casa. Era assim com as dúzias de ovos, bananas e outros alimentos que se vendiam nessas medidas e ao alcance dos recursos da caixinha de despesas que era rigorosamente controlada por um membro escolhido periodicamente entre os demais para tomar conta dessas e outras incumbências domésticas.

Muito se pergunta ou se divaga sobre as origens das coisas, dos atos, omissões e palavras e, sinceramente, creio que a solidariedade seja fruto de relações humanas com situações comuns, mas geralmente penosas, porque a vaidade e egoísmo humanos não abrem portas para a igualdade quando é para se dividir farturas. A carência é muito mais democratizada. Já a ira individual é derivada da ausência da solidariedade, mesmo quando o seu pretexto seja um ovo.

Dona Chica era nossa cozinheira diarista, porque tinha mais de um emprego e muitos filhos para alimentar, juntando parcos rendimentos de um de outro para dar conta do recado. Era ela a divisora dos alimentos extra-panela; melhor dizendo, fora do arroz com feijão. Nesse dia patético havia deixado para cada um o seu acompanhamento de almoço/jantar – dependendo do horário de cada um chegar em casa: um ovo. O Zé Lima, que saia logo cedo e retornava em noite já avançada, guardou o que lhe era destinado dentro de seu esconderijo e guarda roupas, que consistia em uma mala sob a cama, para ser cozido e deliciado como manjar antes do descanso para a batalha do dia seguinte. Após o rápido banho para não perder muito tempo e comer e dormir logo, ao som da antiga rádio Mundial AM, como fazia todos os dias, foi surpreendido com a falta do ovo em sua mala revirada. Incrédulo, chegou a duvidar que houvesse guardado ali e revirou toda a cozinha e o quarto na esperança de ter distraidamente deixado em outro local. Ledo engano, ele havia sido devorado, como fomos descobrir durante o seu acesso de fúria, que o levou às lágrimas menos pela fome e mais pela raiva da traição. Desconfiávamos do Caetano, que era quem mais tempo ficava em casa por causa dos horários alternados de escola técnica e pela fama de glutão. Mas como acusação sem prova é o refúgio dos destituídos de caráter, ficou a dúvida quase certa de que fora ele mesmo o autor do confisco. O Zé, desconsolado e já quase resignado, deitou-se, não sem muito esbravejar e pronunciar xingamentos de teor impublicável, com um choro ressentido e raivoso. Dormia na cama superior do beliche no quarto que dividia comigo e com o Paulo, esse último, hóspede da cama de baixo, que na sua calma e resignada paciência filosófica proferiu, de baixo para cima:

- Ô Zé, durma que o sono alimenta.

segunda-feira, 24 de março de 2008

TRANSIÇÕES

Estou numa idade de transição para montes de situações. Se a vida começa aos quarenta, sou uma criança, mas de boa memória. São tantas e tão rápidas as transformações no mundo, tão descartáveis as coisas, os valores e lembranças, principalmente as lembranças, que é impossível não ficar nostálgico, já que nos tornamos inertes perante o turbilhão de fatos que nos cercam; de pensar em resistir, pensar em separar o joio do trigo. A idéia de duração, permanência, é uma vaga cada dia mais tsunâmica. O tempo parece que virou escravo de sua própria andança com o mundo e está descrevendo trajetórias imprevisíveis. Vou registrar para ver se encontro eco com meus contemporâneos e se fisgo alguém das novas gerações, porque, não faz tanto tempo assim existia uma forma muito peculiar e descomprometida de se comunicar com simplicidade. E a simplicidade eu prezo muito.

Falei das profissões que se extinguiram ou quase, agora chegou a vez das expressões que não se vê mais usar. Quem é do interior de Minas ou convive com alguém que seja e que tenha nascido antes das últimas três décadas do século passado, há de se lembrar dessas.

- menino pintão ( que pinta e borda) numa alusão às bordadeiras que pintavam o pano antes de bordar. Significa fazer o serviço completo; no caso do menino, bagunça total; é mais ou menos equivalente ao moderno menino hiperativo.

- Catiar marra - desafiar situações ou ordens quando não se tem bala na agulha;

- Culundria - aglomerado de pessoas, geralmente tramando alguma coisa ou bando de pessoas reunidas para um fim;

- Incengado – teimoso ou cismado com alguma coisa, obsessivo;

- Intertido ou intirtido (?) - o mesmo que entretido, mas ainda é bastante falado e quer dizer absorto, envolvido;

Já ouvi bate boca de pessoa querendo corrigir outra quanto à palavra que era correta.

- Gafurina esgadanhada – cabelos desgrenhados ou arrepiados, difíceis de pentear;

- Esbaforido – apressado, aflito,

- Sirigaita – era quando se queria ofender uma mulher nos termos que se faz hoje, chamando-a galinha, piranha, etc;

- Enrabichado(a) – de namoro pretendido ou garantido;

- Regateira – não, não é praticante do esporte náutico nem fabricante de camiseta, é assanhada, oferecida;

- Botar reparo - notar, observar algo ou alguém;

- Embrafustado – bacana, chique, ajeitado;

- Cafifa – maldição; desejo de má sorte;

- Dar lance – deixar por algum movimento a calcinha à mostra ( sem querer ou de propósito) dependia se havia segundas intenções.

Já vi muita briga de namorado por esse motivo. “Fica aí dando lance pros outros!”

- Isturdia – outro dia ou dias atrás;

- Latomia – chiadeira, reclamação à toa;

- Xexelento – cheio de frescuras,

- Alcoviteira- que fica ouvindo atrás das paredes ou portas, as conversas alheias para divulgar depois, fofoqueira. Vem da alcova que era assim chamado o quarto dos casais (hoje em dia, só os poetas usam alcova). Não é machismo não, mas esse adjetivo só me lembra de tê-lo ouvido no feminino.

- Embusteiro – enganador, que fala mentira par tirar algum proveito

- Vire o disco – mude de assunto. Quando a conversa é muito irritante, repetitiva ou cansativa.

Como muita gente nem conheceu o disco de vinil ( LP )..., fui!

domingo, 23 de março de 2008

RESPEITÁVEL PÚBLICO...

“...Era uma vez, mas eu me lembro como se fosse agora.

Eu queria ser trapezista, minha paixão era o trapézio.

Me atirar lá do alto na certeza de que alguém segurava minhas mãos,

Não me deixando cair.

Era lindo, mas eu morria de medo.

Tinha medo de tudo quase, cinema, parque de diversões, circos, ciganos,

Aquela gente encantada que chegava e seguia.

Era disso que eu tinha medo, do que não ficava para sempre.”


(Antonio Bivar, trecho de "Era uma vez", Na voz de Maria Bethânia)

Assisti, numa mistura de sentimentos que classifiquei de pudor sociológico, crise existencial e encantamento, tudo ao mesmo tempo e nessa mesma ordem, ao Cirque Du Soleil. Não admitia ter que pagar tanto dinheiro para um espetáculo, mas ao mesmo tempo não podia me furtar a realizar um sonho da minha filha Clara, que abriu mão do aniversário e do Natal para receber a ida ao circo como presente. Poderia ter sido outro qualquer, mas, convenhamos, é o circo. O deslumbramento dela perante a imensidão das tendas, as luzes coloridas e dos malabarismos, contorcionismos trapezismos e outros tantos e maravilhantes ismos, me levaram de volta – enriquecido - a uma lembrança. A crise que tive foi fruto das recordações dos circos de minha infância. Mas foi só até a hora do início do show e evaporou toda a bobagem sentimental, menos o encantamento. O fascínio que o circo exerce sobre as pessoas é ainda inexplicável e também dispensado de comentário; o prazer basta. Creio que uma das maiores diversões que já foram permitidas às crianças do interior era o circo. Às vezes passavam-se dois ou três anos sem aparecer algum na cidade e no momento em que tinha espetáculo, a gente era capaz de qualquer sacrifício, qualquer aventura, qualquer pequena contravenção que nos garantisse uma entrada. Vender picolé, engraxar sapatos na rodoviária, vender chup-chup, mangas do quintal (que normalmente eram dadas de graça), etc. Quando eram vistos os caminhões desembarcando aquele monte de ferros e lonas, os trailers de morada e camarim dos artistas, as jaulas dos bichos e uma Kombi ou fusquinha com som de megafone circulando as ruas anunciando sua presença, sabíamos que em no máximo uma semana teríamos o brilho dos olhos intensificado até as lagrimas de emoção. “Hoje tem marmelada, hoje em goiabada, o e palhaço, o que é...”. Ia ter espetáculo, sim senhor.

Transformávamos-nos em santinhos do pau oco para que as mães não usassem qualquer impedimento como castigo contra falta de modos e comportamento adequado. A minha mãe se valia muito desse tipo de punição quando queria ensinar o valor que tínhamos que dar às coisas. Qualquer desobediência, atrevimento ou deslize nos afazeres e responsabilidades, o castigo era ser proibido de fazer aquilo que mais se gostava ou que mais era esperado. Então andávamos pisando em ovos nessas ocasiões para não termos melindres nem frustrações. Na época dos estudos primários, lembro que meu irmão mais velho aguardou durante um mês inteiro, mas com uma ansiedade de um século para assistir a um jogo de futebol entre o Cruzeiro da capital contra o Valério, o time local e, na semana anterior ao jogo, veio o seu boletim escolar onde havia entre tantos noves e dez, uma nota oito, o que foi motivo da proibição dele ir ao estádio ver o clássico jogo . Chorou durante toda a semana seguinte.

Escapando-se desses fantasmas, o esquema era batalhar para poder entrar no maior número de apresentações e dias que fosse possível. Minha turma mesmo tinha até manobra ensaiada, que consistia em armar o golpe da distração. Enquanto alguém mais atirado entretinha o porteiro com conversa ou encenação, o resto entrava por baixo da lona, quando não havia dinheiro para os ingressos. Esse sacrificado era depois compensado em outra sessão com a repetição do golpe e a troca do ilusionista de porteiro. Lá em Itabira vira e mexe, apareciam circos e ciganos e freqüentava a cidade, repetidas vezes um Circo de nome La Paloma, tão nosso freguês de malandragem, que tínhamos até uma rima pobre para ornamentar nossa peripécia: “Circo La Paloma, quem não tem dinheiro passa debaixo da lona”.

Lá dentro, o palhaço, o trapézio, o domador, o globo da morte, o engolidor de fogo, o medo, o riso, a glória para todas as idades.

sábado, 22 de março de 2008

TILÁPIA

Inimigos a gente faz muitos na vida. Tem de todos os tipos e para todos os gostos – ou desgosto. Já morei em muitos lugares e com muita gente de alto e baixo calão e escalão e não queixo muito nesse capítulo. Detratores tenho poucos. Declarados, na verdade, não conheço nenhum; e se me fosse dado o direito de escolher, os preferiria, porque os ocultos são mais perigosos, ensina a caminhada. É inveja, ciúme, orgulho, injustiça, traição, tudo isso constrói senão um inimigo, um amigo reticente, o que para mim dá no mesmo. Cá entre nós, o bom da vida mesmo e o cálice da salvação é, religiosamente, fazer amigos. E, se for fazer inveja ou não, ouso dizer que fiz. Não tantos quanto gostaria, mas duma qualidade sem par. Ou de uma qualidade ímpar.

Um deles é o Paulinho Patrício, também conhecido como Tilápia. Eu o chamo peixe fora d’água, não por sobreviver anaerobicamente e sim pela aversão a certos comportamentos convencionais; o que comumente chamamos de gostar de andar na contramão. Talvez por isso o apelido, nunca perguntei o motivo. Questionado por exemplo numa certa terça feira no trabalho aonde chegara com bafo amanhecido de noitada etílica, “ uai, Paulinho, bebendo em plena segunda feira?” respondia que, se trabalhava todos os dias, porque não poderia beber também? Esse negócio de agir como gado em boiada rumo ao pasto não é com ele; tá mais para ovelha desgarrada do rebanho. O que lhe atrai muitas simpatias quase sempre é o caráter assumidamente fora das convenções tácitas ou explícitas.

As mulheres gordas, que todos classificam desproporcionais, para ele são uma massa uniforme, cujas nádegas se juntaram com as costas e os peitos com a barriga. Tenho, entre muitas lembranças, guardada uma foto da época em que fui abrigado por ele em seu apartamento depois de uma separação matrimonial, onde (na foto) estou adormecido num colchão após um almoço, ele se deitou ao meu lado, me abraçou como faz um casal numa sesta e mandou alguém registrar. Certa feita, vindo exausto de uma viagem de carro que nem era tão longa, mas de trânsito intenso e tarde já para quem teria que despertar antes da alvorada para o trabalho, acendo a luz da sala para colocar a mochila e achar o caminho da cama. Havia um caixão em cima da mesa com uma vela acesa ao lado, que me fez estatelar, branquear e perder a voz num só tempo ante a cena, só desfeita com a sua saída do quarto com cara de quem nada tinha a ver com o episódio. Só riu depois de me refazer do susto quase fatal aos corações perrengues e me explicar que havia mandado fazer para uma manifestação de rua em que faríamos um enterro simbólico de um inconveniente personagem político ou econômico, não me lembro bem qual. Éramos dirigentes sindicais naquela ocasião.

Afora as brincadeiras e sutilezas da boa molecagem, é de uma solidariedade grandiosa e de uma bondade que, em conhecendo-o, vai-se logo abrindo o coração e depondo-se todas as armas que já estamos previamente habituados a carregar, se não no corpo, quase sempre na mente. A distância nunca nos afastou o convívio em pensamentos; e os contatos telefônicos e eletrônicos amenizam a saudade que bate vez por outra. A última boa lembrança foi dia desses numa conversa ao telefone em que me relatou haver voltado a beber, depois de longa pausa para tratamento de colesterol, triglicérides, etceteris, ao que ingenuamente perguntei: - mas em plena quaresma? Resposta, de aguda franqueza: - Ora, você não acha que é também uma penitência? Todo mundo pára nesse período e eu me obrigo a beber todos os quarenta dias, querendo ou não!

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