sexta-feira, 21 de março de 2008

O UISQUE E O SAPATO

Existe um excelente programa no canal Futura, chamado O Bom Jeitinho Brasileiro que revela o lado peculiar do nosso povo de lidar com as escassas oportunidades da vida com criatividade, engenhosidade e bom humor. São casos dos mais intrigantes e geniais malabarismos que enfrentam nossos compatriotas na luta digna pela sobrevivência e pela sobrevivência digna. Sem as malandragens perniciosas de nossos colarinhos brancos e nem o imperativo astuto do “levar vantagem em tudo, certo?”. Acho não menos genial quem teve a idéia de transformar essa exortação em um programa, pois não é que convivemos a todos os instantes com situações desse tipo e nem nos damos conta?

Vou contar então um caso de duplo desaperto para solução de problemas que à primeira vista, desencoraja a quem os enfrenta pela absoluta falta de recursos ou pela urgência de seu desfecho. Foi numa das repúblicas em que morava junto com mais dez companheiros estudantes, onde a maior abundância era a de carência, menos de laços fraternos. O Joaquim Primo tinha pretensões de cursar a medicina e custeava seus estudos preparatórios com a ajuda de um emprego meia-boca, desses não muito raros em que o patrão cobra muita dedicação, presença e competência, mas não retribui na mesma moeda. Ganhava pouco, como os outros todos da casa que possuíam alguma renda para ajudar aos pais na manutenção do sonho do ver os filhos formados. Possuía ele um litro de uísque, presenteado que fora em uma confraternização de final de ano em seu trabalho e o guardava com zelo de vigilante. Nossos hábitos e disponibilidades financeiras republicanas permitiam, quando muito uma cervejinha raramente , assim mesmo, quando o pai de algum de nós vinha visitar e deixava um dinheirinho extra, para aquelas precisões mais urgentes. Ou ainda quando aparecia um convite para festa do tipo boca livre. O uísque era um luxo longe da imaginação e do paladar. Só mesmo para ser olhado e cuidado como enfeite da casa sem mais adornos dignos de serem comentados. O Zezinho era muito vaidoso e gostava dum negocinho, que agora não sei se era para sustentar a vaidade ou vice-versa. Vivia vendendo roupa usada para nós ou trocando peças, que repetir vestimenta não era muito de seu agrado. A venda só fazia quando precisava muito de alguns trocados e percebia que alguém gostava também de suas roupas, que eram de bom gosto, e assim lhe rendiam mais que valiam. Além disso, estudava à noite e durante o dia trabalhava num banco, onde tinha que estar com a aparência bem talhada, que banqueiro gosta de atrair cliente é pelo bolso e silhueta.

Tinham os dois um compromisso de festa de casamento. O Zezinho ia ser padrinho do seu convidado e o Primo era só convidado de outra celebração. Um não tinha presente nem dinheiro para comprar. O outro, tampouco tinha sapato de domingo para ir ao festejo. Numa conversa de cinco minutos, apareceu um princípio de solução. Digo princípio porque a negociação durou o dia inteiro. Resolveram trocar o sapato pelo uísque, que ia enfeitar um e não deixar o outro fazer feio ante o afilhado. O Zezinho gostava desses modelos mocassim e o Primo, gostando ou não, tinha pouca opção de resistência; negaria o escambo apenas se não lhe coubesse nos pés. O sapato foi devidamente lustrado para ganhar aparência de saído de loja, já que ficou bem ajustado sem precisar de enchimento com jornal ou causando manco por aperto. Já o uísque foi levado na caixa mesmo, porque papel de presente era muito caro.

quinta-feira, 20 de março de 2008

RESIGNAÇÃO INDÍGNA

Está para sair ainda este ano, uma nova versão de “1968, O Ano Que Não terminou”, do genial Zuenir Ventura. Quem não viveu naquela época, nem leu a primeira narrativa, poderá fazê-lo, não por necessidade de ofício ou simples prazer literário. Mas com olhos de ser pensante nesses tempos de idéias pré-concebidas sem ressonância, sem resistência agregadora.

Quisera ter eu mais anos em 1968. Nascido já estava, mas de muito pouca idade e tinha liberdade. Não era proibido brincar. O que não se permitia era falar para ser ouvido. A não ser nos porões sombrios das armas. Ali era obrigação Mas aí, uns dez anos após, já na faixa etária que reivindiquei ter tido lá nos 68, estava também naquele resto de luta ainda com fogo, mas, com bem menos fervura. Tomei gosto pela luta, influenciado fortemente pela vida em repúblicas de estudantes e trabalhadores, onde viviam os novos amigos já mais adiantados que eu em anos, leituras e militância.

O mal naqueles tempos não era uma pessoa, um gestor público, um político, um juiz ou um algoz sozinho ou em quadrilha. Era um sistema visível, cuja perversidade todos queriam travar alguma batalha em sentido contrário. Até mesmo a imprensa, que hoje se posta de joelhos venerandos perante a quem lhe extorquiu o direito à letra, palavra e imagem fora de contexto ou de foco.

E vou logo empatando a polêmica(?) com os mais novos. Havia, como hoje, tatuagens, brincos na orelha e muito show de rock. Tudo embalado pelas idéias construídas. Mas nada de idéias que já vêm embaladas para consumo como atualmente. Esse argumento é para aqueles que rivalizam a geração anterior com um anti-saudosismo histórico. Porque tenho saudade das ruas cheias de gritos por mudanças, das mãos erguidas junto com as cabeças contra o silêncio imposto. Das grandes reuniões públicas por eleições diretas, pelo fim das torturas, por greves gerais para a redução das jornadas de trabalho e aumento dos salários, das passeatas estudantis pelo ensino público gratuito e de qualidade, das manifestações nos dias das mulheres contra toda forma de opressão, das queimações simbólicas das personagens abomináveis nos sábados de aleluia. Também sinto falta dos companheiros guerreiros dos carros de som ou das praças com megafones sem watts elétricos, mas com potentes ecos, dos que ainda permanecem na luta, mas a fazem com certa interinidade de gabinete, dos lutadores que abandonaram tudo por sentimento de derrota ou por derrota mesmo, dos companheiros antigos que se tornaram estrelas deslumbradas do poder e dão rédea curta ao contraditório. Faz-me falta eu mesmo transformando aqui tudo em letras mortas, inoperante, inquieto e fraco.

O sangue circulava-me melhor quando os combates eram movidos pelo poder das idéias. Hoje há uma guerra pelas idéias de poder, custe o que custar, doa a quem quiser sentir dor.

quarta-feira, 19 de março de 2008

TEM UM TEMPINHO AI?

Estamos vivendo a era da luta contra o tempo. Resistimos a tudo que nos “toma” esse precioso elemento. Estamos apressados para tudo. Como a nossa vida tem virado um perde-ganha descontrolado, o tempo é matéria.

Os muito atarefados se horrorizam com a possibilidade de deixar de aproveitar algum tempo que todos chamamos de útil. Mesmo que a utilidade em questão seja nada, lugar algum. Se no trânsito, o sujeito lhe ultrapassa, buzina, e vocifera, na maioria das vezes, aonde ele chega primeiro é no sinal fechado. É tão urgente a vida que estamos esquecendo até de “perder” algum tempo com nós mesmos ou com os que nos são queridos ou próximos, para podermos viver bem mais tempo. Estamos só passando. Passando correndo, aliás. Precisamos começar a perder algum tempo com umas coisas que farão a nossa passagem ser ganhadora. Não de tempo, mas de substância.

Em casa, não perdemos tempo com os filhos, com a família, para não perdermos o que passa na televisão. Com os amigos, somos breves, lacônicos, porque o tempo não pára e temos sempre algo mais a fazer. No trabalho, tempo é dinheiro, mesmo que ele não venha a ser nosso depois da correria. Se errarmos, então, foram tempo e dinheiro perdidos: rua. Tá cheio de gente com tempo esperando a nossa vaga.

Pela falta de tempo, optamos pelos relacionamentos virtuais e despendemos grande tempo na rede mundial, isso mesmo, mundial, para depois de muito tempo e dores nas costas, descobrirmos que estamos solitários entre a cadeira e o monitor.

Difícil se estabelecer ou se ouvir uma conversa sobre qualquer assunto que não seja entrecortada pelas palavras: “agora não posso, estou sem tempo”, “dê um tempo”, “se sobrar um tempo eu vou”, ou “eu faço”, ou “eu vejo”, ou “eu leio”, “isso leva muito tempo?”

O lado bom é a sabedoria que ele trás consigo, como senhor da razão, cura dos males da alma e matéria dos sensatos e pacientes. Reserva créditos futuros em longevidade para aqueles cujo tempo é exatamente a medida calculada para a satisfação das necessidades básicas e abundante para ser gasto em outros bons tempos e em alheamento e observação.

terça-feira, 18 de março de 2008

FRUTEIRA

É roupa, consuma; eletroeletrônico, consuma; é escola; consuma; saúde compre; calçado, beleza, limpeza, cama, mesa, comida, brinquedo, carro, móveis, bebida, etc., compre, compre, compre. Enquanto o dinheiro der, ou o crediário permitir. Como todas as coisas que rodeiam nosso cotidiano viram objeto de massificação se alguém vislumbrar a possibilidade de tornar algum produto consumível, vivemos verdadeiramente atormentados por anúncios a toda hora e em qualquer lugar, com promessas de felicidade total. Aliás, da forma que nos são mostrados os produtos, só é possível alguma felicidade se ela for adquirida. À vista, no cartão ou no cheque. Todos os dias, mesmo que não nos façam a menor falta ou não alterem em nada a nossa vida, a ordem é comprar, ter.

Eu com essa minha mania de procurar um lado bom em tudo que vejo ou ouço, nem que seja uma beiradinha só, nem que seja para me aliviar do enfado dessa vitrine de futilidades que está virando a nossa existência, sempre acho um viés bom nas coisas. Fico que nem coruja e o que tem mais me prendido a atenção nos reclames de consumo é com relação à alimentação. Já está todo mundo ficando desesperado perante as novas doenças, a obesidade, e os produtos e serviços para maquiarem as imperfeições físicas causadas pelos entupimentos do excesso de ingestão alimentar ganham cada dia mais espaço e, para não perder o costume, vendem-nos mil promessas de redenção, com academias, remédios emagrecedores, géis, tônicos, ligths, diets e outros venenos.

Não sou exemplo elevado dos melhores e mais saudáveis hábitos à mesa, mas confesso que tenho me esforçado significativamente para retomar antigos costumes, próprios da condição humana: consumir o que de melhor a natureza ainda nos oferece em busca de uma saúde que me tem sido tão cara por causa de desvios e abusos que cometi goela abaixo nos últimos tempos. Também não pretendo me tornar um chato comensal, já que não aboli os pecados da gula e tampouco quero perder a companhia de quem não está nem aí para essas coisas. Só busco algum equilíbrio na hora em que penso o que já passaram meu estômago, fígado, rins, coração e outros órgãos coadjuvantes na minha caminhada de sobrevivente. Simples, passei a consumir regularmente, junto com as demais guloseimas, muitas frutas, legumes, verduras e alimentos mais naturais a ponto de suplantarem em número o de comidas mais contaminantes. Porque em qualidade as naturais dispensam loas. Esse é o meu ponto de equilíbrio. Que cada um procure o seu, se assim o desejar. Não será por isso que vamos deixar de sempre nos sentar à mesma mesa. E devo dizer que me sinto melhor, se serve de estímulo. Posso até adoecer ou subitamente ter uma morte estando saudável, mas, que me sinto melhor, sinto. Todos os dias. Nem vou esmiuçar outras atitudes que tenho tomado, como fazer uma atividade física leve e regular, tomar muita água, suco e menos refrigerante, comer um pedaço de chocolate sempre, banana, mamão, limão, fibras, usado temperos caseiros nas comidas que faço (é, eu gosto de cozinhar), para não acharem que estou querendo vender alguma coisa. Mas, se por acaso quiserem me agradecer por alguma coisa aproveitável nesse falatório aqui, podem marcar para a festa do meu centenário: 02/09/2062.

Na minha casa, a decoração da cozinha ganhou até movimento semanal. A fruteira está sempre renovada de cores e sabores por causa do consumo diário. E sem mais rodeios eu digo o motivo: O homem antes plantava seu pomar, comia a fruta ali mesmo no pé e jogava a cascas e as sementes no chão que era para readubar e brotar mais. Depois, o tempo foi se escasseando e foi inventada a fruteira. Ficava mais fácil ainda ter as frutas ali na mesa. Agora que o tempo nada mais é que uma chance de ganhar urgente algum dinheiro, elas foram industrializadas e enlatadas ou engarrafadas. Em muitas casas alguma coisa da tradição ainda se mantém. Não se come mais frutas, mas elas estão lá na fruteira. Tudo de plástico, que nem vaso de planta.

segunda-feira, 17 de março de 2008

NASCIDO DE NOVO!

Essa foi minha irmã quem me contou. Faz ela aniversário em dezembro, próximo ao natal, dia 22 e o Gentil, meu cunhado, em 08 de março, juntamente com o dia da mulher. Sofreu ele um grave acidente anos atrás, precisamente no dia de anos dela e o médico que lhe deu os socorros, diante do quadro de um grande coágulo no cérebro, afirmou que o mesmo nascera de novo, tamanho o risco fatal do impacto da pancada. Lembro bem o dia, pois estava em Itabira para comemorar o aniversário dela e já emendar com o Natal e fui quem recebeu a notícia trazida por um moço pálido e assustado que tocou a campainha da casa de meu pai num fim de tarde daquele dia, que caíra num domingo. Era um colega de trabalho que havia ajudado a socorrê-lo no local juntamente com o Marrom (o apelido do amigo e também acidentado não menos grave que vinha junto no banco do carona). Primeiro o susto e depois um tremendo corre-corre até o pronto socorro municipal para nos acercarmos in loco da situação. Exames feitos e constatado o estado que relatei, o doutor deu expressa ordem para que o transferissem à capital, de modo a lhe ser provido atendimento com maiores recursos médico-hospitalares. Cumpridas todas as exigências e recomendações, deu-se boa e satisfatória recuperação, não lhe restando qualquer seqüela do acidente passando o mesmo a comemorar duas vezes o nascimento.

Agora no mês de março, liguei no dia nove para não ter que parabenizá-lo no dia da mulher e de modo a permitir fazer-lhe zoeira da coincidência de datas. Não o encontrando em casa, deixei com a minha irmã meus votos de saúde, paz, felicidades e muitos anos de vida, ao que ela me disse não haver problemas pela seguinte seqüência de fatos: “comemora junto com o meu por ter nascido de novo e junto com o dia da mulher, porque não é à toa que se chama gentil”.

domingo, 16 de março de 2008

TEATRO

Timidez e vergonha na minha compreensão sempre tiveram uma definição parecida nas atitudes que empreendi ao longo da vida. Não sei ainda estabelecer os limites de uma e de outra. De onde veio isso, também acho que não sei muito bem. Desde muito cedo já abominava a possibilidade de estar em evidência diante dos fatos e pavor diante de muitas pessoas. Na escola tremia, gelava e perdia a pigmentação da pele só de pensar que poderia ter que responder a alguma questão em voz alta em sala de aula. Ir ao quadro negro então dava arrepios e dor de barriga. Encontrei recentemente e depois de muito sofrimento uma explicação satisfatória para mim e ao mesmo tempo apaziguadora com esse passado, já que não posso mais reverter o quadro. Se bem que até melhorei um pouquinho. Falo demais, não em público, mas converso muito como forma de superação, numa espécie de acerto de contas com o trauma que carrego. Cheguei até a ser sindicalista. Não que essa função transforme alguém em pessoa melhor que os outros, mas pela busca de igualdade e contra injustiças, fiz muitos discursos.

A justificativa é que, sendo filho de operário, criado em um bairro construído pela companhia mineradora da cidade exclusivamente para operários e habitado exclusivamente por operários e suas famílias, onde ela ditava tudo, os resquícios de submissão resvalavam de pai para filho igual transmissão hereditária, sem nenhum obstáculo visível ou declarado. A firma dava escola, material, presente de natal, tirava a gente de casa quando ia dinamitar a mina, que era muito próxima, fornecia o transporte, a comida básica e os remédios, além de ser dona do hospital. As rebeldias eram surdas, mudas e tratadas como maluquices. Além disso, os filhos carregavam sentimentos de culpa quando faziam artes próprias do ofício de ser criança e ainda tinham de ouvir dos mais velhos que tais atitudes poderiam prejudicar o emprego do pai. Em resumo, crescemos quase todos ali sob o império do sim senhor.

Lembrei-me disso para falar de teatro. Ou o porquê de não ter me tornado um grande ator (modéstia, não?). Durante o curso fundamental (na escola da Companhia desde as primeiras letras), eu tinha um professor que era um irmão holandês dessas irmandades que espalham religiosos mundo afora para a catequese entre os ímpios e incréus. Ele dava aulas de Educação Artística. Irmão Cristino. Era um varapau, de quase dois metros, sisudo e carrancudo, mas indulgente e dócil com aqueles com os quais simpatizava e creio que era o meu caso. O nome de verdade era um embolado difícil de pronunciar e adotou Cristino que assim é regra da igreja nesses casos. Adotar um nome e costumes do povo que vai arrebanhar para facilitar a missão. Gostava de teatro e sempre ensaiava peças em todo o colégio, indicando os candidatos a atores entre os seus eleitos ou alunos prediletos. A peça que me revelou um borra-botas era Pluft, o Fantasminha, texto de Maria Clara Machado. Justo essa: o fantasma que tinha medo de gente. E convidou-me para ser o personagem principal. Parece até que conhecia minhas idiossincrasias. Amarelei, nem precisa dizer e já fui logo negando para não haver possibilidade de insistência. Não prejudicava nas notas mesmo! Ainda assim não deixei de comparecer ao espetáculo. Era uma necessidade, pois, me abriria a possibilidade de arranjar uma saída honrosa à minha negativa, caso a peça não saísse bem ao gosto da platéia. Foi no colégio N. S. das Dores, escola de religiosas para meninas e homem só entrava nessas ocasiões ou se fosse para alguma manutenção. Tinha lá um pequeno palco acortinado onde se realizavam todas as apresentações dos colégios da cidade. Foi um retumbante sucesso de público e eu, lá do fundo, nas últimas filas, observava que o Irmão dirigia a peça e também me dirigia olhares sob os grandes óculos, com aquele semblante que expressava um lamento, como se quisesse me dizer: “veja só o que você perdeu!”

sábado, 15 de março de 2008

É SO UMA PICADINHA DE FORMIGA

Um bombeiro que desmaiava ao ver uma agulha sendo usada ou ter que aplicar uma injeção foi demitido. Deu no noticiário da internet. A notícia na internet ou na tv na maioria das vezes, serve muito mais à inspiração e à lembrança do que à relevância. Mas deu. E me recordou dois episódios curiosamente inusitados. O primeiro só fui compreender muito tempo depois. Ainda não estava habilitado a decifrar as vicissitudes humanas ante a fatos que para mim eram tão corriqueiros. Mesmo sendo, ou apesar de ser criança como na época em que seu deu o acontecido. Já presenciei muito pavor de agulha nas campanhas de vacinação ou aversão a sangue em episódios em que fazia doação, mas esses me acudiram a memória pela comicidade. Meus dois irmãos e mais um primo haviam sofrido grave acidente de carro e estavam sob cuidados médicos em um hospital na capital, Belo Horizonte. Morávamos então em Itabira. Minha mãe havia conseguido que os visitássemos, eu e as duas irmãs mais novas, às escondidas, já que não era permitida para menores de doze anos a entrada, a não ser como pacientes. Estavam bem machucados e o meu irmão mais velho, o Paulo despelou da cintura para baixo, ou, no jargão apropriado, estava em carne viva. Chegou lá um casal de namorados, estranho para nós, mas conhecidos da mãe. Eles manifestaram pelas faces ruborizadas, o quanto ficaram impressionados pelo estrago provocado e o rapaz, não se conteve de curiosidade, insistindo que minha mãe descobrisse o lençol das pernas dele a fim de ver melhor como ficara. Ela dizia ser melhor que não, podia se assustar, etc, mas o sujeito teimava. Vencida pela insistência, foi tirando a coberta e o moço foi desfalecendo, no mesmo ritmo do movimento de retirada do lençol e antes mesmo que ela terminasse, ele já estava nos braços da namorada precisando de sais aromáticos.

O outro caso foi quando morava na cidade de Mariana e trabalhava em uma grande empresa. Fomos todos consultados sobre a possibilidade de doar sangue à esposa de um colega de trabalho que seria submetida a uma grande cirurgia, também na capital, ao que me prontifiquei, estava já acostumado a fazê-lo sempre que não havia nenhum inconveniente com a saúde ou quando não havia ingerido algumas cerveja a mais na noite anterior. Éramos em torno de oito ou dez doadores. No hospital, preenchemos o formulário de praxe e nos enfileiramos nas cadeiras aguardando as duas enfermeiras que se revezavam na retirada do sangue. O Jair, um moreno alto e forte com seus quase 1,90m ( hoje em descanso eterno) descoloriu, ou amarelou modernamente falando, ao ver a agulha e teve de imediato, a pressão aumentada até os 18 x 12 quando a moça viu-lhe a falta de rubor e resolveu medi-la antes por via das dúvidas. Para evitar algum constrangimento nem mexer-lhe com os brios de homem macho, disse a ele para aguardar para ver se a pressão baixava um pouco, que deveria ser excesso de calor, cansaço da viagem ou coisa que o valha. Fez uma cara corada, parecia que era de satisfação ou alívio e nem quis perguntar se haveria nova tentativa depois que elas terminaram a retirada dos demais. Ao oferecer-nos um lanche repositor, uma das enfermeiras nos segredou que isso acontecia. As pessoas temerosas por agulhadas, geralmente desmaiavam ou tinham a pressão elevada ou corriam do hospital sem sequer olhar para trás. Por esse motivo ela havia inventado para ele, numa conversa reservada, uma história amena de que seu sangue houvera engrossado demais e não lhe saía das veias.

sexta-feira, 14 de março de 2008

TEMPOS MAIS QUE MODERNOS

O que você vai ser quando crescer? Esse é um dilema de pais, crianças e adolescentes desde os modernos tempos em que a revolução industrial esfacelou o saber coletivo e empurrou para a especialidade o homem que sempre construiu sua própria sobrevivência e a transmitia para sua descendência num ciclo natural da humanidade. Preste atenção no que vou dizer: Não faço aqui apologia ao passado, mas não vou deixar de dizer as coisas como elas eram só para agradar a quem não gosta de velhas histórias. E olha, que nem sou eu o dono deste desabafo. Ele vem de Machado de Assis, século XIX. Portanto, estamos conversados: só atualizei.

Motorista, engenheiro, professora, costureira, mecânico, médico e muitas mais das profissões clássicas naqueles antigos tempos modernos povoavam o imaginário e o desejo desses pais e filhos. Buscava-se algo que correspondesse à aptidão de cada um. A antiga vocação foi sendo surrupiada pela oportunidade, que a tecnologia, para o nosso bem ou nosso mal vem impondo. Hoje ela é coisa rara para ser empregada no momento da escolha ou do instante de bater as próprias asas. As pouquíssimas exceções são logo confirmadas por um talento inato ou apadrinhadas por um berço de ouro, que fornece ao candidato o benefício da espera pelo momento certo de se fazer a opção profissional. Mas é bom ir adiantando ao freguês que, com os avanços na medicina, com a nossa alimentação cada dia mais trans, com os mecanismos cada dia mais sofisticados de comunicação e com a nossa desenfreada marcha para o eu sozinho, novas doenças surgem no mercado da saúde, novos equipamentos vão sendo criados para facilitar o nosso ócio físico e mental, novos serviços vão sendo criados para atender a nossa indisfarçável solidão e, assim também vão surgindo novas profissões, nunca antes cogitadas, para atender a esses reclames que não fomos nós que fizemos.

Primeiro vou falar de algumas profissões que a modernidade engoliu, só para lembrar mesmo, depois a gente entra no assunto propriamente ao gosto da modernidade. Por exemplo, não temos mais ou quase não temos mais, alfaiate, lambe-lambe, reparador de máquinas de escrever (nem a máquina), sapateiro, apontador, telegrafista, leiteiro... Ah, eu sou do tempo em que o padeiro passava de porta em porta de bicicleta ou de Kombi duas vezes por dia com pão fresquinho.

Andei pesquisando nos classificados de jornais, alguns exemplos que ainda não entendi bem os significados, mas dá para se ter uma noção das atribuições dos novos afazeres profissionais. Já temos o médico do tráfego, que, imagino, deve cuidar para que possamos ir e vir com saúde física e mental, a despeito do nosso louco trânsito. Deve ser um psicólogo de motoristas e pedestres. Outra especialidade médica nova para mim é a cosmiatria ( que a princípio pensei cuidar da influência do cosmos em nossa saúde), mas é um ramo (ou vamos chamar de ciência?) que trata dos aspectos da beleza humana. No campo da prestação de serviços, existe a hostess (uma espécie de babá para ensinar bons modos a adultos) e o observador de ambiente de vendas (um espião a serviço do próprio espionado - no caso-, o dono do ambiente). Temos também no mundo do lazer ou o que eu chamo de gerenciamento da solidão, o administrador de comunidades virtuais e o planejador de games. Acho que o primeiro administra nada para ninguém e tudo para todos, ao mesmo tempo e nessa ordem. Já o segundo deve passar a sua jornada criando novos jogos para ajudar a podar a imaginação criativa de nossas crianças e dar sossego para os pais que não têm tempo de participar da formação dos filhos. Nada de pressa ou de pânico, estamos combinados? Quem sabe, uma hora dessas não passa um cavalo arreado na sua porta? Ou prefere um trem-bala?

quinta-feira, 13 de março de 2008

PESADELO

“Tudo o que cala fala mais alto ao coração”

(Lulu Santos e Nélson Motta – Certas Coisas)

Eu, de vontade própria tenho muita dificuldade em guardar ou lembrar os sonhos de noites bem ou mal dormidas. O meu subconsciente faz isso para mim. Lembrar-me, às vezes não, mas perturbar-me com sonhos indesejáveis, sim. Acho que ontem vi muito e ouvi falar tanto de acidentes que esse controle autônomo que temos, esse tal de subconsciente, não me deixou dormir sem a companhia da tragédia. Na primeira acordada que tive suado e tenso, pulei logo da cama com medo de voltar a dormir e os sonhos voltarem junto. Agora imperturbável aqui nessa cadeira que me acessa ao teclado, lembrei-me de uma dura experiência real que virou pesadelo, num endereço de república entre os muitos que houve em época de estudante.

Morávamos no centro de Belo Horizonte, edifício Maletta, famoso por vários atrativos ruins naquela época, exceto pelo preço do aluguel. Um de nossos companheiros de apartamento começara do nada, a dizer coisas sem sentido durante o seu sono, o que viemos a perceber só mesmo quando certa vez fomos despertados pelo barulho da janela do 11º andar onde ocupávamos um apartamento, alta madrugada. Ao acudirmos o sonâmbulo, notamos que falava e chorava, coisas incompreensíveis. Nós o despertamos depois de afastá-lo da janela e perguntamos se havia tido algum pesadelo ou se errara a porta do banheiro, já que havia tempos que dividíamos o mesmo espaço e ele nunca tinha apresentado esses disparates noturnos. Desconversou e voltou a dormir como quem apenas sofreu algum desarranjo momentâneo, mas que estava exausto e tinha aula nas primeiras horas da manhã. Dias seguintes, repetidas vezes, os sonhos povoando seus sonos e nossa insônia, passamos a fazer vigília revezada, temerosos pelas suas constantes tentativas de se jogar pela janela durante esses episódios. Agora já compreendíamos algumas de suas balbúcias, onde inconformava-se com uma moça que - dizia ele - não podia tê-lo abandonado daquela forma. Instado amiúde a contar-nos o que se passava em sua vida, dizia nada e reiterava ainda não se lembrar do que houvera sonhado em noite anterior. A situação foi se agravando porque já não dormia sequer uma hora consecutiva sem manifestar os pesadelos e levantar-se. Isso também estava esgotando-nos junto com as tarefas de estudarmos todos e estudarem e trabalharem alguns. Recorremos então ao decano da república, uma espécie de irmão mais velho e conselheiro de todos (no meu caso era irmão mais velho mesmo) para que tomasse providência que desse fim ao flagelo do colega e ao nosso. Já estávamos dando-lhe anti-alérgico como sonífero. Não para nos livrar do problema, mas para dormirmos sem temores e não perdemos aulas ou faltarmos ao trabalho por não haver dormido a noite quase toda. O remédio foi uma prescrição de outro colega que o usava para as suas coceiras e que dizia não se sustentar acordado quando tinha que ingerir algum comprimido.

Marcou-se reunião de todos para uma tarde e, pressionado pelos fatos, contou-nos, não sem muito sofrimento nosso, o seu penar. Tinha arranjado uma namorada linda e rica na escola técnica onde estudava e apaixonara-se perdidamente pela moça num lance tão rápido quanto foi sua morte durante as férias escolares, acometida de uma grave, impiedosa e rápida doença, que até hoje, imagino mas não sei do que se tratava.Ele soubera pela cunhada, que só foi conhecer pelo fato dela tê-lo procurado com uma carta de despedida que a falecida deixara em suas mãos caso não retornasse das férias.Tinha relevância para ele o fato da menina ser rica. Era o motivo de ter escondido de todos nós o relacionamento. Seu medo era que pensássemos ter ele interesses outros que não o amor puro que devotava a ela. Daí por diante, administramos com mais atenção, tolerância e solidariedade os seus momentos de crise onírica, que até reduziram-se um pouco com o desabafo entre amigos.

A saída encontrada ante ao medo nosso de suas aproximações noturnas à janela foi encaminhá-lo a um tratamento psicológico. Primeiro em minha escola onde havia um psicólogo que o atendia de graça ( não tínhamos recursos para bancar) nem ele queria que seus pais soubessem do caso. O que se tornou inevitável tempos depois, já que o profissional que lhe cuidava na minha escola escorregou, alegando estar sendo cobrado pela direção por atender pessoas que não eram alunas sem pagamento de honorários.O que aliviou a todos desse pesadelo vivo foi seu pai saber por nós dos fatos e providenciar terapia adequada.

quarta-feira, 12 de março de 2008

IBVB, OBRIGADO

Desenvolvi meu próprio sistema para aferição de crescimento da economia e distribuição de renda. Mesmo que essa distribuição se dê em círculo e não fuja da roda. Chama-se Índice o Brasil Vai Bem, Obrigado. Daqui para frente vamos tratá-lo por IBVB, Obrigado. Não tenho muita pretensão, uma vez que economia clássica não é especialidade minha. A doméstica sim, essa entendo bem. Espero, entretanto, que sirva para orientar os catastróficos boletins de imprensa dos economistas e comentaristas de economia, quase sempre assemelhados a previsões astrológicas. Só trocam os céus e os astros pelos cenários, os mercados e os investidores. O meu não. Qualquer um que vive de salário, sem salário (principalmente), ou de vender algo hoje para garantir o leite das crianças pode usá-lo com muita eficácia e eficiência. Essas duas últimas palavras aprendi com os economistas. Serve também para orientar estudantes de economia a produzirem uma monografia ou tese, se não for de minha parte querer muito. (O meu sobrinho Leandro esta cursando. Alô, meu jovem, aproveite a ocasião)

O método básico consiste em observar os movimentos em todos os lugares, em todas as direções, com todas as alterações que forem se operando no tempo. Das pessoas e das coisas e das coisas e das pessoas. Parece difícil à primeira vista ou observação, mas é simples. Os ônibus que você costuma usar estão mais cheios ultimamente ou não? Não leve em conta horário, número de carros na linha, essas coisas que nunca são obedecidas. Sempre que andar de táxi, converse com os motoristas. Esses sempre falam da praça, se tá ruim ou boa. Melhor ainda com aqueles que pagam aluguel do carro e vivem na correria danada atrás de passageiros. Às vezes, pelo sorriso ou pela cara amarrada, já dá para avaliar, sem precisar perguntar nada. Caso não tenha grana para o táxi, procure conversar com eles assim mesmo nos pontos de parada. Enquanto aguardam a vez, adoram um bate papo. Observe o movimento dos catadores de lixo reciclável. Se o número deles tem aumentado ou diminuído em sua rua, seu bairro ou nos locais onde freqüenta. Quando diminuem pode ser uma leve e provável tendência de que conseguiram algum emprego. A fila do caixa do supermercado é um outro bom parâmetro. Ultimamente, elas têm sido enormes de 2ª a 2ª. Esse item pode ser estendido a sacolões, padarias, farmácias, açougues e outros lugares que a gente não deixa de freqüentar, mesmo que não queira. Os moto-boys são outro ponto a ser notado. Pelo menos aqui em Belo Horizonte eles já estão quase que se igualando em número ao dos carros. Emparelhados com eles, já estão há muito tempo. Viajar de ônibus ou de carro é mais um excelente termômetro. Veja as demoras nas rodoviárias, nas estradas e o incrível aumento do número de acidentes. Nisso eu rivalizo de novo com os boletins da mídia, que só dão atenção ao tal do caos aéreo. Que caos, se só seis por cento da população viaja de avião? Já viu repórter passar o dia inteiro numa rodoviária para falar do caos dos ônibus? Um item interessante. Se você tiver um cachorro ou gato de estimação, note quando for levá-lo para banho ou tosa. Agora tem fila de espera. Há lugares que tem até agendamento prévio. Mas se não os tiver, ou se tiver e eles tomarem banho na mangueira de casa mesmo ou não tomarem de jeito nenhum, sem problemas, não invalide a observação. Fique uns instantes na porta de uma loja dessas e verá com os próprios olhos. Ou então dê uma ida a um supermercado ou drogaria, na seção de comida e outros produtos para animais. Tem ração igual a arroz e feijão.

Portanto, a não ser que você esteja dentre os milhares de poucos investidores, empresários, que esteja a serviço da mídia, seja executivo de grandes corporações ou ainda economista de escola, nada de Bovespa, Dow Jones, Nasdak, Tóquio, Nova Iorque, mercados emergentes e outras volatilidades (esta também os economistas me ensinaram ). O meu método é fácil e pode ainda ser enriquecido com outros quesitos à sua escolha. Use o IBVB, Obrigado.

terça-feira, 11 de março de 2008

APRENDENDO A LER

Quando crianças, os nossos olhos vão se abrindo (metaforicamente), na medida em que nos vem a fala e depois os demais mecanismos de comunicação que vamos captando durante o crescimento. Como pais, acompanhar essa trajetória é melhor que ganhar em todas as loterias. Permito-me aqui fazer analogias desse imenso prazer ( da participação) com o enriquecimento. Mas tá bom, tomem o dinheiro como metáfora. As palavras vão surgindo desconexas nas primeiras falas e se encaixando tanto quanto a percepção e o aprendizado vão cedendo lugar. Um aparte, antes de ir aos fatos para justificar o texto: hoje em dia há tanta palavra, imagem e informação disponível que desconfio proporcionarem, em breve, às crianças dos nascimentos próximos, já virem à luz, em vez de chorando, balbuciando. E assim se vai aprendendo e vivendo (as crianças) e vivendo e aprendendo ( os mais velhos). Pelo menos até a idade escolar acontece mais ou menos assim, de acordo com as articulações que a criança tem à sua disposição ou é capaz, por si só de estabelecer com o mundo da palavra. Então no contato com as primeiras letras, aí o mundo vira outro. Parece um míope quando descobre a deficiência e usa óculos pela primeira vez. O mundo ganha um novo brilho e colorido. O sentimento que se tem é de que, ao aprendermos a ler, dá vontade de engolirmos todo o mundo. Ou ir engolindo-o aos pedaços ou às sílabas, para que fique mais bem ilustrado.

Minhas duas filhas guardam a distância entre si de 11 anos, mas em comum, guardo eu das duas, a similaridade de atitudes no aprendizado da leitura e é desse prazer de genitor e observador que quero falar. Uma de cada vez e com hierarquia, que foi assim que me ensinaram. Vamos então à Maíra, que é a mais velha.

Morávamos em Mariana e vínhamos de ônibus para Belo Horizonte a convite de um irmão para passar um fim de semana em sua casa e ela veio em meu colo (ainda muito pequena, era beneficiária do passe livre). Grudada com o rostinho na janela do veículo, não perdia um detalhe sequer do movimento lá fora ou do movimento cá dentro, isso é muito relativo (já dizia Einstein). Na entrada da cidade, longe a vista já alcança o mundo da ilusão, pelos letreiros de propaganda, placas de out door e muros rabiscados, onde se vende de tudo e atiça a mágica curiosidade dos olhares de aprendiz de bê-á-bá. Foi devorando tudo que lhe foi permitido pela velocidade do ônibus, deixando cair letras pelo caminho aos solavancos do veículo ou aceleradas do motorista. Até que, parado o ônibus em um semáforo, aquele breve momento permitiu que ela se fixasse em uma placa duma loja de som automotivo e que leu célere, para minha surpresa a palavra “casa verde”, me olhando como quem pede aplauso ou elogio, mas engasgando ao mesmo tempo para soletrar a placa do alto falante. Lia “bravo” e dizia, não; “bravoche”, também não. O ônibus arrancando e ela apressada e não querendo dar o braço a torcer disse: ah, pai é bravoc, né? Era Bravox. Tinha então cinco anos.

A Clara iniciou também cedo a vida acadêmica. Partiu da palavra para as letras já aos dois anos de idade. De todas as jóias proferidas por ela durante o seu aprendizado, essa, infelizmente, não presenciei ao vivo por não estar ela mais morando comigo. Mas foi mais ou menos como a irmã: perto dos cinco anos. Havia se mudado para o interior de São Paulo, onde a mãe prosseguia estudos. Mas ouvi dessa última o relato e considero que foi bem marcante pela criatividade e o desaperto quando se tem interesse no aprendizado, ainda mais se ele vier acompanhado de um bônus, como se deu o ocorrido. Soletrava já algumas sílabas e até mesmo palavras soltas.

Dia de muito calor, cidadezinha do interior, o passeio predileto de pais com filhos, geralmente é nas praças. Ou da Matriz ou do Coreto, enfim, a praça de encontro nas cidades pequenas onde o calor humano é mais perceptível que nas metrópoles. Empolgada com a desenvoltura da pequena na escola, as duas vão andando pela rua e a mãe, sempre diante de algo escrito pedia a mesma para ler. Foi tentando sem muito interesse, mas tentando e puxando a mãe pelo braço até porta de um estabelecimento em cuja parede derretia o desenho de um sorvete e também continha o nome do lugar. A danadinha, já suada e querendo mostrar serviço não só para ser elogiada, mas também para concretizar sua segunda intenção parou bem em frente e leu o desenho: “olha lá, mamãe, ali está escrito sorveteria.” A mãe ganhou o dia e ela, um sorvete.

segunda-feira, 10 de março de 2008

A ARCA DO FUTURO

Urgente – o mundo esta melhorando

Vejam só: deu na imprensa dia 07/03 que o Bill Gates deixou de ser o homem mais rico do mundo. Passou para o segundo lugar. Imagino que ele nem deve ter dormido à noite caso tenha sido pego de surpresa por uma notícia dessas. E olhem que é de fonte bem famosa. Uma tal de revista Forbes Não é fantástico? Será que ele andou queimando dinheiro? Ou será que geriu mal os seus negócios a ponto de virar o segundo da lista? Também não deve ser muito problema, não. A diferença é uma mixaria de 1 bilhão e pouquíssimos milhões de dólares entre a fortuna dele e a do primeiro colocado. É bem possível que aquela conversa de que anda dando o seu salário para entidades beneficentes deve ter prejudicado seu desempenho. (acreditem ou não, ele tem salário) Dizem que são mais de dez mil dólares todo mês. Também, eta povo que gasta, esse povo pobre!

E o Brasil pegou carona, por conseqüência. Entrou mais um brasileiro na lista, que agora passa a ter três pessoas. Bastante considerável esse número, principalmente levando-se em conta que a nossa população é só de cento e oitenta e poucos milhões de brasileiros. A vantagem de ser rico assim deve ser porque o cara não é rico uma vez só, mas bilhões de vezes. Tudo o que se quiser ter, se tem até cansar, enjoar, jogar fora, comprar mais e ainda não acaba o dinheiro. O que me dá medo é se eles resolveram, entediados de ter todas as coisas materiais possíveis, pararem de comprar imóveis, fazendas, ilhas, carrões e resolverem comprar países. Esse povo, do jeito que é meio maluco... Sei lá! Mas tenho esperança que os povos vão reagir e não vão deixar. Aí, eles terão de desenvolver um sistema biológico em algum planeta ou construir umas máquinas que cumpram essa função e assim, comprarem esse outro planeta. Dinheiro para isso não falta. Se bem que podem alegar que os planetas não têm dono, poucos têm recursos para irem para lá e poderão invadir. Aí, vão construir sua arca de Noé do século XXI. Que deverá se chamar A Arca Dos Mais Humanos Que Os Outros. Devem estabelecer uma seleção rigorosa para quem quiser trocar de planeta, com critérios bem definidos, do tipo: patrimônio ( só entra quem tiver mais de Bilhão); cor (uma só, pois, certamente vão querer purificar a raça humana para vingar tentativas do passado recente); quanto ao sexo, (agora fiquei na dúvida, não sei se haverá alguma restrição. Eles se entendem); credo religioso: deverá ser criada lá, depois de todos instalados, uma religião que atenda a todos os interesses, sem afetar os bens e valores de ninguém (valores aqui é um eufemismo e desculpem pelo trocadilho). O Deus será democraticamente eleito entre eles, com mandato, etc. Para não ter problema de cada um que cismar ir criando uma religião com um Deus diferente do outro, com mais poder, como fazem na Terra, inclusive para ganhar dinheiro.

Animais, para embarcar, só com pedigree, ISO 9000 e, mesmo assim cães e gatos, que estão muito em evidência hoje em dia. Uma ou outra espécie diferente deverá ser permitida aos mais excêntricos, desde que paguem por isso e criem lá, um sistema biológico adaptável a elas. Plantas, nem pensar. Não precisaram delas aqui, qual o valor vão ter lá? As máquinas cuidarão de fazer belos monumentos artificiais, que eles gostam de coisa enfeitada.

Ah, e brasileiros (exceto os bilionários), achando que, com jeitinho se oferecem para motorista, babá, garçons, etc., podem ir tirando o cavalinho da chuva, que a robozada vai fazer tudo.

domingo, 9 de março de 2008

CONVERSA PRÁ BOI DORMIR

Já reparou o leitor nas feições dos animais? Botei meu reparo na cadela daqui de casa (a Flor) para descrever com precisão humana essas expressões que a gente nota, mas não fala por vergonha da tolice ou por acreditar na impossibilidade de manifestações sentimentais nesses seres vivos que chamamos de irracionais. Eu acho que os bichos podem até não pensar mesmo, mas que eles manifestam sentimentos, ah, isso lá é verdade. Está na cara! Os cães têm um olhar que é o símbolo natural da humildade. De vira lata a pit bull, sem exceção, basta observá-los quando estão sozinhos ou na calmaria e trocar com eles um olhar. Parece que estão querendo chamar a atenção para a sua presença e que precisam de correspondência, seja do dono ou de quem estiver olhando-o e que lhe seja simpático ou agradavelmente não agressivo. Uma olhadinha que seja, se não for possível um afago e se o interlocutor não tiver medo. E nem precisa ter, porque, se existe sinceridade em um olhar, ela foi dada às crianças e aos cachorros. A gente vai perdendo com o tempo, os cães não.

Por outro lado, os gatos possuem um tom ameaçador à primeira vista. Nem que seja por instinto de defesa e sobrevivência. Já cruzou com algum à noite, estático, lhe observando com aqueles olhos vidrados e difundindo luz, como se fossem o facho de uma lanterna colorida? É bonito, mas dá um medo danado. Talvez a associação que fazemos desse animal com coisas de bruxaria tenha partido desse comportamento deles. De outras coisas malévolas que o gato faria para gerar essas crenças, nunca ouvi dizer. É tão manso que empresta sua apatia aos indolentes. Quem nunca ouviu ou mesmo chamou alguém de “mais manso que gato de hotel?”, ou, “manso que nem gato em beira de fogão a lenha.”?

Agora, os pássaros e as aves em geral, que vivem no fio da navalha, quer dizer, são presas fáceis para tudo quanto é bicho, tem o mais arisco semblante que já se viu. Os olhos dos pássaros, pombos e outros seres voantes, giram que nem uma bola. Não sei não, mas devem enxergar em todas as direções ao mesmo tempo. Só amansam quando têm a certeza de que o dono não lhes quer como alimento ou mesmo quando é fácil decolar diante da iminência de um ataque. Mas há também as chamadas aves de rapina. Ocorre que essas são exceção. Até porque vivem em alturas tão grandes, que só vêm aqui em baixo para buscar uma comida e voltam de imediato para seu lar, seja nas montanhas elevadas ou simplesmente disputando no céu espaço com aviões e outros maquinismos voadores.

Dos bichos que já me proporcionaram a oportunidade da observação, o que mais me comove é o boi. E o termo exato que consegui encontrar para definir o seu olhar e resignação até para andar é: comovente. A sensação que seu olhar transmite é a de que sabe que tem de cumprir sua triste sina rumo ao matadouro, mais dia, menos dia. E vive por isso, com aquele olhar de profunda tristeza. Se nos imbuirmos de sentimentalismos num curral cheio e ficar alguns momentos cruzando olhares com bois, vacas e bezerros, creio que, por piedade ou solidariedade, deixaremos de gostar da carne desse animal tão indispensável à nossa saúde. Desculpe-me, leitor se por acaso fizer essa leitura antes do almoço, jantar e estiver diante de um prato com um suculento e cheiroso bife.

sábado, 8 de março de 2008

O ANO COMEÇA EM JANEIRO, A VIDA EM MARÇO

Entrego esse poema a todas as mulheres

Que não simbolizam nada. Simplesmente são

As lutadoras do mercado desigual do trabalho

As guerreiras das casas, cozinheiras, lavadeiras, companheiras

Mães, acima de tudo, das gentes. Mães.

As que romperam barreiras no passado opressivo

As que buscam quebrá-las no presente

que faz de gente, coisa.

As donas, moças, donzelas, meninas

As carentes, simples, alegres, sofridas

As que se iludem, que transgridem, se penitenciam

As que não se calam, que vão às lutas a despeito de tudo

As que não se rendem e nem se vendem

Que olham além dos muros, às que não sucumbem

Que não fazem da sedução trilha para estrelismo ou vida fácil ou vida fútil

As que resistem ser mercadoria, vitrine de marca, ponte para produto

As fortes, combatentes, companheiras

As amadas, bem amadas, dignificadas

As plenas, esposas, maridas, mães, pais, filhas e espírito santo amém

As escondidas, temerosas

As merecidas, corajosas.

Ofereço esse poema a todas estas e àquelas

Que ainda encontram chão e o pisam com a firmeza decente

Para amar sem explicação, suster a prole com honra

Dividindo o parco

Transmitindo vidas

Espalhando humanidade, doçura, fibra.

sexta-feira, 7 de março de 2008

FALAR É FÁCIL

FIQUEI NA DÚVIDA DE COMO UTILIZAR CORRETAMENTE O VERBO VER, NO CASO DE TELEVISÃO. EU DIZIA AO LEITOR QUE, QUANDO FOSSE VER NA TV... AÍ VEIO A DÚVIDA: QUANDO VER NA TV OU QUANDO VIR NA TV? ENTRE PESQUISA EM GRAMÁTICA E CONSULTA A UMA DE MINHAS IRMÃS DAS LETRAS, OPTEI PELA SEGUNDA, ALI, MAIS À MÃO E ÀS FALAS, QUE É MELHOR. DEPOIS FIQUEI PENSANDO E CONSTATEI LOGO O QUÃO EXIGENTE É A NOSSA LÍNGUA (DA QUAL ME ORGULHO MUITO, QUE FIQUE BEM CLARO). MAS, POR QUE FALAMOS TANTO E SOMOS ENTENDIDOS E O MESMO NÃO PODE OCORRER COM A ESCRITA? (ESSE PRONOME TAMBÉM É TRABALHOSO, TEM UMAS QUATRO OU CINCO FORMAS).

A NOSSA TENDÊNCIA PARA A TRANSGRESSÃO ACHO QUE VEM DAÍ. QUANDO CRIANÇAS APRENDENDO A FALAR E NÃO DOMINANDO AINDA A PALAVRA ESCRITA, NÃO HÁ QUE CONJUGAR, CONCORDAR NEM FLEXIONAR NADA. DEPOIS, NA ESCOLA, TOMAMOS UM CHOQUE. ENSINARAM-NOS A FALAR DE UM MODO E DAÍ POR DIANTE (DA ALFABETIZAÇÃO), O BURACO PASSA A SER MAIS EMBAIXO. SURGEM AS REGRAS. ACHO QUE O SUJEITO QUE INVENTOU AS REGRAS GRAMATICAIS, NÃO TINHA LÁ MUITOS PREDICADOS.

SE O VERBO É VER E VIRA VIR NO FUTURO DO SUBJUNTIVO (AVE, MARIA!), QUANDO USAMOS VIR DE ALGUM LUGAR, PASSA A SER VIER. ALIÁS, PARA APRENDERMOS SUBJUNTIVO, PRETÉRITO, DEFECTIVO (CREDO, PARECE OUTRA COISA), ANÔMALO, E TANTOS DISPARATES MAIS, TEMOS PRIMEIRO QUE IR AO DICIONÁRIO PARA SABER O QUE SÃO ESSES PALAVRÕES. PARECE XINGAMENTO.

ISSO É O QUE DÁ BRECHA PARA OS MODISMOS LINGÜÍSTICOS. O MODISMO NA LÍNGUA É UMA FORMA DE UNIVERSALIZAR O NÃO SEI. É UM CONSENSO GERAL E QUASE TOTAL EM TORNO DE EXPRESSÕES E FALAS CRIADAS. PRODUZEM COMUNICAÇÃO, COM TODOS OS RUÍDOS E CHIADOS POSSÍVEIS, MAS ESTABELECEM UMA TRANSMISSÃO E RECEBIMENTO DE UMA MENSAGEM (CAPTOU A MINHA?). ESTAMOS AGORA VIVENDO O EXEMPLO DOS GERÚNDIOS (DÁ PARA ESTAR ME ENTENDENDO?). TEMOS TAMBÉM A GÍRIA E O APORTUGUESAMENTO, QUE TANTA DINÂMICA EMPRESTAM À NOSSA “FLOR DO LÁCIO, INCULTA E BELA”*, DIZIA O NOSSO GRANDE OLAVO BILAC.

COM O ADVENTO DAS IMAGENS E DA INTERNET, A ESCRITA VEM PERDENDO CADA VEZ MAIS TERRENO PARA ESSAS FORMAS DE COMUNICAÇÃO. NÃO QUERO JULGAR SE EMPOBRECEM A LÍNGUA, NEM TENHO TAL CAPACIDADE, MAS, NESSE RITMO, ACREDITO QUE VAMOS NOS COMUNICAR EXCLUSIVAMENTE POR MÍMICA DAQUI A ALGUM TEMPO.

DARIA PARA FAZER UM LIVRO COM TODAS AS POSSIBILIDADES, DÚVIDAS, APREENSÕES E DISCORRER POR MILHARES DE PÁGINAS SOBRE O ASSUNTO. MAS COMO A LEITURA JÁ ESTÁ QUASE SE TORNANDO UMA ATIVIDADE DE ESPECIALISTAS, VAMOS FALANDO E ANDANDO.

* Lácio (em latim, Latium; em italiano, Lazio) é uma região da Itália. A última flor refere-se à língua portuguesa, que é originada do latim.

quinta-feira, 6 de março de 2008

NO CONSULTÓRIO

Eu retornei com minha mulher ao médico que me operou de duas hérnias para fazer uma revisão programada nas partes que ele consertou, mas, dessa vez, não no bloco cirúrgico. Foi no seu consultório, no 12º piso do prédio e explico depois por que citei o andar . A clínica ocupa todo o pavimento e as especialidades são todas relacionadas à cirurgia, especialmente das vísceras. A mais concorrida delas é a recente novidade da medicina de fazer a redução de estômago. Há um grande corredor com cadeiras, anexo a uma sala de espera um pouco maior e estava completamente lotada. Os médicos atrasados, essas coisas corriqueiras dos consultórios, que revelam o ser humano nas suas mais íntimas idiossincrasias, fragilidades e curiosidade impagável.

Já na subida, conhecemos um casal que também retornava de um pós-operatório, cuja mulher havia retirado a vesícula. A conversa foi se espichando para a sala de espera, estendida mais ainda com a intervenção de outras pacientes recém operadas, a maioria delas, do estômago. Depois de todas relatarem brevemente o seu caso, o assunto me prendeu a atenção pela forma como as pessoas estão tratando dos seus corpos, vendo a intervenção cirúrgica como única forma de se livrar dos incômodos quilinhos a mais. Foi unanimidade o argumento de que é impossível deixar de comer e imprescindível manter a silhueta. Até mesmo para quem não necessitava, como foi o caso de uma senhora, ao afirmar (absurdamente, avaliei eu) ter engordado vinte quilos a fim de fazer a cirurgia. Puxando-lhe a língua, já que não agüentei de curiosidade, descobri, que, ela, na verdade, queria era fazer uma plástica na barriga e nos seios e tinha receio de engordar depois de tanto gasto com a estética. A senhora que citei ter conhecido na chegada, falando sobre o tormento de uma cirurgia, ponderou que todo o sofrimento e as dores são menores que o desespero de não encontrar em nenhuma loja uma roupa para se usar. Ela estava aguardando sarar o corte da vesícula para depois abrir outro no estômago. Uma terceira, senhora, disse que estava fazendo a preparação para se operar apenas para ser solidária ao filho de 20 anos, que já havia sido submetido à incisão na esperança de perder um pouco de seus 146 quilos. Coisas de mãe, imagino. Duas delas reclamaram não suportar tomar água no período de recuperação, mas que refrigerante, doce e outras perigosas delícias não lhes causavam incômodo algum, demonstrando como a vaidade está acima de qualquer preocupação com o bem estar físico e emocional.

Pelo que sei, a intenção do médico que criou esse procedimento, era aliviar o sofrimento das pessoas portadoras de obesidade mórbida, aquela, com origens e desenvolvimento fora do controle humano. O que não era o caso de nenhuma das pessoas lá presentes. Todas gordinhas sim, mas não a ponto de trocarem um sacrificiozinho alimentar e ginástico por uma agressão tamanha ao o corpo.

Agora explico o andar que citei. Ao sairmos da consulta, o elevador parou no 9º andar e entrou uma moça. Estávamos eu e minha mulher fazendo comentários sobre o ocorrido e creio que despertamos a curiosidade dela. Ao chegarmos ao térreo, a mesma não se conteve e nos disse: - Olha, eu trabalho aqui no prédio e, quando a gente vê no elevador alguma pessoa mais gorda e indecisa quanto ao andar, já vamos logo apertando o botão do 12º para ela.

PS: Ao Dr. Ney Franco Júnior, obrigado pelo auxílio luxuoso do bisturi.

quarta-feira, 5 de março de 2008

CENAS DE UM SONHO

O povo está nas ruas, a partir de hoje

Todo o mal à humanidade finda aqui e agora

Toda a corrupção está extinta

Saúde é bem inato, não se adquire

Educação é direito inegociável, não sujeita a engodo e lucro

Todos os pães são para todos

Todas as florestas têm vida própria, altiva e respirável

E todo o público tem dono. Todo o público é de todos, não de ninguém ou de poucos

O povo está nas ruas, a partir de hoje.


Igualdade não é possibilidade ou esperança, é fato

As águas cumprirão seu ciclo. Rolar, sublimar e recair na terra e no mar

Todo cão, todo gato são tão somente animais de estimação,

Com devido amor e respeito, mas não são gente

Marginal será toda a sociedade se gerar algum

Por fome, descaso ou descuido

Armado no dicionário significará tão somente “montado”

E que a munição serão as peças do objeto armado

A partir de hoje, o povo está nas ruas.


O ir e vir estão garantidos sem medo. Dia, tarde, noite, madrugada adentro

O pecado não está perdoado, mas abolido, pela intenção do bom gesto

Foi criado o controle remoto inteligente para tevê

O nascido terá berço em toda a sua plenitude

Pobreza é ficção, a não ser a de espírito

Os monóxidos, dióxidos e outras pestes pulmonares

Darão lugar às azaléias, bromélias, ipês e jasmins e seus olores

A música terá significado e as letras, sonoridade

O povo está nas ruas, a partir de hoje.


Todos os bancos respeitam os clientes

Nos quesitos, juros, horários e funcionários

Mas, o dinheiro acabou da forma como é

Fica decretado o direito de tê-lo plantado

Não em latifúndio (que é isso?)

Mas no quintal ou jardim sem muros

Os muros e cercas caíram de vergonha

A tevê, o radio, o jornal e toda a comunicação

Não tem mais dono único, e a imprensa agora é livre

A partir de hoje, povo está nas ruas


A felicidade está disponível a todos e incondicionalmente

O perdão passará de hora em hora em frente a todos os lugares

O território principal das crianças é a rua.

Carros e outras maquinarias estão em segundo plano

Todas as conspirações serão a favor

A morte não se dará em vida

Só se morrerá mesmo de morte morrida

O povo é o presidente

E está nas ruas, a partir de hoje.

terça-feira, 4 de março de 2008

A TIRACOLO

O Brasil está crescendo, a economia vai de vento em popa, mas o povo continua pobre, desvalido, humilhado e ofendido por tantos e tantos séculos de sempre o mesmo. Aos amigos do poder e do dinheiro, tudo, aos e inimigos e ao povo em geral e lei e as bolsas com o que estiver sobrando. Ou com alguns anéis para garantir os dedos dos donos. E já que a moda governativa é impressionar com números, cifras e pouco planejamento e visão abrangente e futura, vou aproveitar a onda e sugerir ao governo o lançamento de mais algumas bolsas que possam mitigar tantas mazelas sociais e psicológicas. Isso porque acabo de ler na imprensa que foi lançado no Rio de Janeiro uma nova modalidade: a bolsa-formação-policial em que a polícia militar, bombeiros, policia civil, carcereiros e afins vão receber uma verba para se para qualificarem melhor e diminuir a criminalidade.

Junto à bolsa família, bolsa educação, bolsa gás, bolsa remédio, bolsa isso, bolsa aquilo, acrescentemos, a tira-colo,

- A primeira tem de ser a bolsa apaga incêndio. Que não será de uso exclusivo do corpo de bombeiros, mas dos corpos de bombeiros, ou seja, naquilo em que todos nós nos transformaremos para ajudar a administrar essas políticas do tipo “tapa-buraco”,” cala-a-boca”,” pensemos no aqui e agora” ou,” o futuro a Deus pertence”.

- A bolsa anti-especulação financeira a ser paga pelos “mercados”. Deverá vir acompanhada de lupas e câmeras para os bolsistas procurarem esses agentes invisíveis, mas muito ricos. E conterá uma advertência. Proibido fazer retirada de seus recursos para pagamentos de juros de dívidas públicas e não poderá se contingenciar recursos para manter esse tal de superávit fiscal, que é o mesmo que um adulto malvado tirar o doce de uma criança prestes a ficar feliz por comer.

- A bolsa geradora, estabilizadora de empregos e diminuidora de jornada de trabalho, acompanhada de cartilha de argumentos de defesa anti-mídia (defensora dos privilégios dos donos do dinheiro). Quando ouvir ou vir na televisão ou outro meio de comunicação dizendo que isso inviabiliza o país, é só abrir na página tal e ler o artigo tal que diz o seguinte; “o que inviabiliza o país é a ganância e a sede do lucro como únicas metas possíveis para o desenvolvimento.”

- A bolsa peroba, que vem com milhares de mudinhas daquela árvore que faz brilhar qualquer cara de pau, que todo mundo sabe muito bem onde encontrar. Tem que se fazer um ato solene, porém público para entregar ao agraciado, ensinando como se obter o óleo e passar na cara para sair bonito na fita ou na foto. Ideal para ser usada nas Câmaras, assembléias, prefeituras, governos estaduais, senado, justiça, imprensa, partidos, clubes e congêneres e afins e outros tantos lugares e situações mais.

- E, finalmente, a grande e, redentora estrela: a bolsa corporativa – crédito aberto e saques à vontade para todas as necessidades de todos os cidadãos. Essa ia derrubar de vez a oposição e acabar com qualquer possibilidade de CPI. Detalhe: deverá ser de plástico transparente para ninguém precisar suspeitar de ninguém.

segunda-feira, 3 de março de 2008

AVÔ

NÃO QUE EU JÁ QUEIRA ME TORNAR AVÔ AGORA, APESAR DE JÁ ESTAR APTO PARA TAL. APTO NÃO NO SENTIDO DE QUALIFICADO - ISSO A GENTE SÓ FICA DEPOIS DE FAZER MUITAS TRAPALHADAS COM OS NETOS -, MAS POR CAUSA DA IDADE DE MINHA FILHA MAIS VELHA, QUE, INCLUSIVE VAI SE CASAR EM BREVE. MAS É BOM JÁ IR ADIANTANDO AS FUNÇÕES DOS AVÓS PARA NÃO TER PROBLEMAS FUTUROS COM GENROS E NORAS. É QUE AOS OLHOS DOS NETOS E PELOS COMPORTAMENTOS DE CERTOS PROGENITORES, O AVÔ (NO MASCULINO, AQUI NO MEU CASO) É UMA ESPÉCIE DE BRINQUEDO COM VIDA PRÓPRIA. DAÍ O ENCANTO MAIOR DA PROLE COM ELE. DIZ UM VELHO E SURRADO DITADO QUE OS PAIS SÃO PARA EDUCAR E OS AVÓS PARA AVACALHAR (NÃO NESSA MESMA ORDEM, NECESSARIAMENTE) MAS FUNCIONA MAIS OU MENOS ASSIM.

É UM RETORNO À INFÂNCIA JÁ TÃO DISTANTE E TÃO PRÓXIMA. E AO MESMO TEMPO UMA TROCA DE APRENDIZADOS. ALÉM DA POSSIBILIDADE DE DAR UMA ESPETADINHA NO FILHO OU FILHA (NO CASO, OS PAIS DO REBENTO). QUANDO ELES RECLAMAREM DO DESENCAMINHAMENTO QUE O AVÔ FAZ, A RESPOSTA JÁ ESTÁ PRONTA:

- ISSO É PARA VER O QUE EU PASSEI QUANDO VOCÊ ERA CRIANÇA.

É UM TAL DE DAR COMIDA QUE OS PAIS PROÍBEM, DE SAIR PARA PASSEAR COM O VÔ E VOLTAR LAMBUZADO ATÉ OS CABELOS DE TERRA, BARRO OU MELADO. DE SER ESTIMULADO A FAZER AS MAIS DESAFIADORAS ARTES, ATÉ OS PAIS TORCEREM O NARIZ COM AQUELA VONTADE DE CENSURAR, MAS O NETO SEMPRE ACABA VIRANDO O PROTETOR E COMPARSA DO AVÔ.

DIA DESSES OUVI NUMA RÁDIO ATÉ UMA PROPAGANDA DE UMA FUNERÁRIA EM QUE O NETO ENSINA O AVÔ A ANDAR DE BICICLETA, QUE TERMINA ASSIM: “OLHA A VIDA TE ENSINADO DE NOVO.” NÃO SEI SE É CRIATIVIDADE OU INTENCIONAL. MAS, SE O APRENDIZADO NÃO DER CERTO, É SÓ A FAMÍLIA LIGAR PARA SE TER UM ENTERRO DE PRIMEIRA.

Para alguns que não se dão com a nora ou o genro, o ATAVISMO funciona como uma espécie de VINGANÇA. DAÍ NÃO É RARO OUVIRMOS DE MÃEs ou pais esbravejarem COM OS FILHOS quando esteS aprontam alguma ESTRIPULIA: “este aí saiu igual ao avô.” MEU PAI MESMO CARREGA ESSA FAMA. AVÔ DE DUAS DA MINHA PROLE MAIS DEZOITO DOS OUTROS IRMÃOS, ALÉM DE BISA DE MAIS QUATRO SOBRINHOS (É..., JÁ ESTOU NO TREINAMENTO, SOU TIO-AVÔ!). E TEM AINDA MAIS UM PUNHADO QUE O ELEGERAM AVÔ PELO SEU CARINHO E CARISMA.

domingo, 2 de março de 2008

CARTÃO

QUANDO OUVIMOS FALAR DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, CRESCIMENTO E OUTRAS NOTÍCIAS QUE TODOS GOSTAM DE VER E OUVIR , IMAGINAMOS LOGO TODA UMA REDE PARALELA E ACESSÓRIA QUE OS ACOMPANHAM NA SOCIEDADE. NA ÁREA DA SAÚDE, DA EDUCAÇÃO, DOS SERVIÇOS BÁSICOS ESSENCIAIS À POPULAÇÃO E POR AÍ AFORA. MAS NÃO É BEM ASSIM. A PRESSA EM NÃO PERDER OPORTUNIDADE DE LUCRAR AQUI E AGORA COSTUMA FAZER OS AFLITOS PELO DINHEIRO DESPENCAREM DE SUA GANÂNCIA COM A MESMA VELOCIDADE QUE SUBIRAM NO TOPO DA PIRÂMIDE FINANCEIRA. O DESPREPARO É UMA DAS PRINCIPAIS CAUSAS DA PÉSSIMA QUALIDADE DOS SERVIÇOS PARTICULARES PRESTADOS DO MESMO MODO QUE A FALTA DE INVESTIMENTOS PÚBLICOS REFLETE NA MÁ FORMAÇÃO, EDUCAÇÃO E VIDA SAUDÁVEL DO POVO EM GERAL.

POIS BEM, O QUE ME ACONTECEU, SE NÃO FOSSE RELATADO PODERIA IR PARA A GALERIA DAS PIADAS OU “CAUSOS” QUE ACABAM ENTRANDO PARA O ANEDOTÁRIO.

ESTAVA NUM SUPERMERCADO AQUI DE BELO HORIZONTE E FUI ABORDADO POR UM CARTAZ EM QUE SE OFERECIA CARTÃO DE CRÉDITO (DO PRÓPRIO SUPERMERCADO) PARA FACILITAR AS COMPRAS, GANHAR PRAZO DE PAGAMENTO SEM ACRÉSCIMOS E, O QUE MAIS ME ATRAIU: PODER FAZÊ-LO SEM QUALQUER TAXA, ANUIDADE OU DESPESAS ADICIONAIS. NÃO PERDI TEMPO E FUI LOGO PREENCHENDO O CADASTRO EM CUJOS TERMOS PROMETIAM ENTREGAR EM DOMICÍLIO O CARTÃO DAÍ A ALGUNS DIAS. ASSIM FOI FEITO, ASSIM FOI CUMPRIDO. CHEGOU ATÉ MESMO ANTES DO PRAZO FINAL ESTABELECIDO. NO ENVELOPE DO CARTÃO VEIO JUNTO UM CONTRATO E EU, COM ESSA MINHA TERRÍVEL MANIA DE LER AS COISAS, DESCOBRI QUE, SE USASSE O TAL CARTÃO, TERIA DE ME SUJEITAR À ANUIDADE, TAXAS DE SERVIÇO, TAXA DE BOLETO, TAXA DE NÃO UTILIZAÇÃO POR MAIS DE SEIS MESES, ETC, TAXA, ETC, TAXA...

VOLTEI LÁ E, ATENDIDO PELA MESMA FUNCIONÁRIA QUE ME VENDERA O “PRESENTE DE GREGO”, COMENTEI DA PROPAGANDA ENGANOSA QUE ME HAVIAM FEITO E QUE NÃO IRIA DESBLOQUEAR O CARTÃO PARA O USO, ESSAS COISAS DITAS NO MOMENTO DA INDIGNAÇÃO. DIÁLOGO, COM GERÚNDIO, TRAVADO A SEGUIR (SENÃO, NÃO VALE):

- POIS NÃO, SENHOR, EM QUE EU PODERIA ESTAR AJUDANDO? EXPLIQUEI O FATO E ELA DESCONCERTADA, ME DISSE - O SENHOR VAI TER QUE ESTAR LIGANDO PARA O 4004-1011, QUE É DA ADMINISTRADORA DO CARTÃO PARA ESTAR RESOLVENDO ESSE PROBLEMA. EU DISSE QUE TUDO BEM E REPETI PARA ELA O NÚMERO COMO SEMPRE FAZEMOS NESSAS OCASIÕES, NEM QUE SEJA SÓ PARA ESTENDER O PAPO. – É 4004, MIL E ONZE, NÉ?

- NÃO, SENHOR, É 4004, DEZ ONZE.

- POIS, ENTÃO, MIL E ONZE.

TODA DIDÁTICA, ELA ENSINAVA:

- SENHOR, É COMO MIL, ESCRITO AO CONTRARIO. RETRUQUEI LOGO:

-AÍ É MIL E UM. ELA ME OLHOU MAIS DETIDAMENTE, COM AQUELE JEITÃO DO TIPO: “AI, MEU DEUS, COMO TEM GENTE IGNORANTE...!” E REPETIU ENFÁTICA: - O SENHOR TEM QUE DISCAR QUATRO MIL E QUATRO DEZ ONZE. INCONFORMADO COM TAL CONFUSÃO E NÃO ACREDITANDO NA FALTA DE INTIMIDADE DELA COM OS NÚMEROS, DESAFIEI:

- POR FAVOR, ESCREVA AÍ PARA EU VER, O NÚMERO MIL E ONZE. MAIS ATRAPALHADA AINDA, TRATOU LOGO DE DAR POR ENCERRADA A CONVERSA, NUM GERÚNDIO DE DOER AINDA MAIS OS OUVIDOS:

- OLHE, SE O SENHOR NÃO ESTAR DISCANDO DEZ ONZE, NÃO VAI DAR CERTO.

DESISTI E SAÍ AGRADECIDO E RAPIDAMENTE PARA NÃO GARGALHAR ALI EM MEIO À FILA QUE JÁ SE FORMAVA ATRÁS DE MIM, ATÉ MESMO PARA QUE A MENINA NÃO SE SENTISSE OFENDIDA. SERÁ QUE IRIA ESTAR SENTINDO?

E O CARTÃO CONTINUA GUARDADO.

sábado, 1 de março de 2008

O FUTURO DO CAFEZINHO


Acordei várias vezes durante a noite passada com uma enorme vontade de tomar um café. Creio que é psicológico, somático, sei lá, por estar com restrição em função da fase de recuperação de duas cirurgias que fiz esta semana. Dizem que provoca muitos gases e pode fazer doer os pontos. Mas tomei assim mesmo. Logo que levantei. Enquanto saboreava fiquei pensando sobre a importância dele em nossas vidas. Se não é importância, pelo menos a presença. Presença física, cheirosa, doce, amarga, quente ou fria. Atualmente, até combinada com outros sabores diversos aos costumes do nosso paladar. Mas firme e intocável. Intocável? Pois é disso que quero falar.

É muito difícil imaginar o dia-a-dia sem que o cafezinho tenha seu momento de companhia. Seja ao acordar, como fiz hoje, seja ao passar em frente a uma lanchonete ou padaria, seja em um encontro - formal ou não, para curar ressaca de quem preferiu o álcool ao café no tal encontro - formal ou não, em eventos de qualquer natureza.

É tão marcante sua presença nas mesas e xícaras dos brasileiros, que mesmo modismos americanizados até conseguiram mudar seu nome, mas não suas funções: Integrar pessoas e ao mesmo tempo, marcar um paladar típicamente brasileiro. Sobre o modismo, lembro de um caso engraçado em que fazia um curso de qualificação na empresa onde trabalhava e o instrutor, na abertura, distribuiu um folheto com a programação dos dias do curso. Entre atividades, almoço e encerramento havia um coffee-break pela manhã e outro à tarde, durante todos os dias do treinamento. Depois de todos lerem e guardarem junto ao restante do material, um colega levantou-se e soltou a pergunta: “Espera aí, mestre, nesses dias todos não vamos ter nenhum intervalo para um cafezinho?”

O café para mim é o produto mais brasileiro no sentido de identidade nacional. Do Oiapoque ao Chuí, com bombacha ou jerico, chimarrão, cachaça, suco, feijoada, pizza, umbu ou graviola, nada dá mais identidade brasileira que o café. Até para designar encontros, reuniões ou para expressar a hospitalidade, a referência é sempre o indefectível cafezinho.

Porém acredito que essa identidade está correndo sério risco a médio e longo prazo. Por motivos vários, o glorioso, imbatível e insubstituível café está deixando de fazer parte dessas coisas todas de que falei. Mansa e silenciosamente.

Como todos somos de tudo um pouquinho, vai aqui o resultado de meu lado pesquisador e estatístico. Sou de família de nove irmãos, cada qual com média de 2 filhos. Dos nossos filhos e sobrinhos, nem a metade toma café regularmente. Alguns nunca e outros sequer conhecem o sabor. Assim, conversando com outras pessoas, também pude constatar que a tradição não vem sendo mantida e isso é preocupante. Economicamente não é tão problemático, pois sua ausência pode ser compensada por outra produção. O negócio é saber se vai garantir a identidade. Isso sim, me preocupa, num mundo cada vez mais despreocupado com esses elos tão caros aos seres humanos, apesar de parecerem insignificantes. Reúna a qualquer hora amigos, colegas de trabalho ou familiares (em torno de um cafezinho, claro) e pesquise se não é fato.

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