A paixão, minha gente, não serve para guiar a vida de ninguém de sã
consciência. Se alguém lhe disser que outro alguém faz cuidadosamente algo de
que muito gosta com paixão, pode retrucar, pois aquilo é feito com amor. Amor é
próprio de quem cuida, ensina, aprende e liberta. Principalmente libertar para
aprendizados.
Estou acompanhando o final
do campeonato brasileiro de futebol e sentindo (na pele, pois sou torcedor do
Cruzeiro) o que é um mundo movido pela paixão. O torcedor apaixonado é o
retrato mais fiel do que pode alavancar ou destronar um time em poucos dias.
Deve ser por isso (também) que dizem que a diferença entre o remédio que cura e
o veneno que mata está na dosagem. Não
há racionalidade absolutamente nenhuma em seu comportamento diante da equipe
que ele diz amar tanto. Estamos assistindo a uma guerra campal pelo título e na
parte de cima da tabela de classificação a referência para analisar fica ruim. Ali a paixão está se comportando como amor
verdadeiro. Está sossegada, irradiando suspiros febris e olhares brilhantes,
irmanando afetos e desafetos, libertando gritos e curando problemas sublimados
temporariamente.
Descendo pela tabela onde
está o risco de rebaixamento é que vemos o estrago que as loucas paixões provocam.
Uma rodada de jogos e lá estão os torcedores dizendo que seu time é uma merda,
o técnico tem que ser mandado embora urgente, que tal e qual jogadores devem
ser dispensados porque não jogam
absolutamente nada (até o juiz é poupado nessas ocasiões, onde se reconhece a
fraqueza do time).
Basta uma vitória na
semana seguinte, quando aumentam as chances de se permanecer na série A no
próximo ano para chamarem o time de guerreiro, os jogadores de lutadores,
gritarem o nome do técnico em quase canção e o juiz passa a ser espinafrado por
não ter dado “aquele” pênalti, pois aí a vitória poderia ter sido por placar
ainda mais dilatado.
Nessas horas, tento evitar
as analogias mas me é impossível. Penso nos relacionamentos afetivos e
profissões de fé religiosa, no quanto a paixão inicial não amadurece a ponto de
firmar convicções e vontades próprias, equilíbrio entre emoção e racionalidade
no correr da vida (que não é campeonato mas tratado como se fosse). Há, não
raro, uma coincidência de comportamentos impulsivos, imaturos, onde o erro e a
culpa estão sempre do outro lado.