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Mulheres bonitas são discriminadas em entrevistas de emprego*
(clique no título para ler a reportagem)
O culto excessivo à estética carimba desde muito cedo as pessoas com uma beleza extremamente destacada. É para o mundo das celebridades que a sociedade encaminha automaticamente os muitos bonitos. Dificilmente elas se tornam pessoas comuns como nós, os feios, os simpáticos e os arrumadinhos. Em primeiro lugar há o preconceito contra a associação beleza x inteligência e depois há aquela merda (me desculpem) da chamada inveja. Eu dei uma escalonada e categorizei a inveja. Primeiro ela vem da riqueza material, depois da posição social e depois, da estética corporal. Tem ainda outras categorias menos importantes ou menos visíveis (e nem por isso menos maléficas), mas a inveja está muito presente historicamente na sociedade humana.
Geyme Leschner já alertava em seu livro genial que “mulheres bonitas não são para casar”. A trama não faz menção direta aos embaraços que uma beleza provoca no nosso meio, mas é uma verdade que ao mesmo tempo em que a beleza é algo desejado, ansiado e buscado a todo instante, ela também causa bloqueios, confusões e, dependendo do caso, uma sensação de fracasso numa mulher extremamente bonita e que não incline para o lado de sua quase natural celebrização.
O saudoso Moacyr Scliar falou da feiúra como elemento de empecilho ao sucesso pessoal. No livro A Mulher que Escreveu a Bíblia, ele nos relata que a mulher era tão feia que nos seus anos de juventude o único relacionamento afetivo que ela conseguiu foi com uma pedra de estimação. O fato de ser a única que sabia ler naqueles tempos da narrativa foi que permitiu a ela desposar Salomão mesmo assim, com a missão de reescrever a bíblia e ainda tendo que dividi-lo com cerca de 300 outras esposas e mais de 700 amantes que ele mantinha em seu palácio.
Até o Freud entrou na roda para ajudar encontrar as raízes psíquicas da inveja, com o complexo de Édipo, uma longa história que não dá para tratar aqui.
Agora vejo esta notícia dando conta que as mulheres muito bonitas são descriminadas em determinadas vagas de empregos comuns. A reportagem fala de duas contradições, no meu entendimento: a primeira é que elas chamariam muito a atenção no ambiente de trabalho provocando “distração” nos demais colegas. Ressalta, no entanto, que em 96% desses casos as entrevistas eliminatórias foram conduzidas por mulheres. (Será que os homens teriam preconceito ao contrário quando selecionadores?) E a segunda é a que elas não seriam suficientemente inteligentes, um estereótipo difícil de desgrudar (as louras vítimas das piadinhas infames que o digam).
Difícil mais esse imbróglio do planeta humano. Coisas que todo mundo sabe que existem, quem tem poder de decidir ou de mudar não admite, quem é vítima reclama mas não encontra apoio (como nos casos de discriminações de cor , sexualidade ou limitação física), e continuamos tocando em frente.
Me fez sentir uma pontada abatimento e lembrar de Chico Buarque:
“...a filosofia hoje me auxilia a viver indiferente assim. Nessa prontidão sem fim, vou fingindo que sou rico pra ninguém zombar de mim.”