“O
correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois
desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” (Guimarães Rosa)
De que são feitos os meus
momentos de felicidade, uma vez que é impossível ela ser plena e inacabável?
Como vou construindo e elevando a minha auto-estima?
Não há coisa melhor do que
um esforço recompensado de fora para dentro. Eu acho que a gente tem uma
característica atávica de procurar caminhos mais fáceis pra tudo. É muito
legítimo e evolutivo do ponto de vista humano mas há umas coisas que são
mais edificantes quando impomos a nós
mesmos um sacrifício em termos da satisfação comemorada ao final. De que
adianta eu arranjar quem faça tudo por mim ou pagar por tudo ou conseguir tudo
na base da esperteza se depois eu vou me sentir o pior do mundo? Não
valorizando as minhas capacidades, com todo dinheiro de que eu dispuser para
comprar facilidades vou me sentir um inútil. Vou acabar achando que todos serão
sempre melhores do que eu. Então se faço um sacrifício para ver meu esforço
dando um resultado (mesmo que ele seja só para mim), já estou pago e muito bem
pago.
Hoje em dia, temos personal disso,
personal daquilo (nada contra esses profissionais nem contra quem faz uso de
seus serviços) mas comigo seria uma sensação de inutilidade. Ouvi numa
reportagem que já existe um personal conquista. As pessoas estão indo para as
baladas, para o happy hour ou seja lá onde haja uma possibilidade de conquistar
um par e ficam o tempo inteiro olhando para as redes sociais nos celulares ou
falando neles e sequer tem tempo de ver à sua volta para relacionarem-se com os
presentes, daí surgiu o vácuo preenchido por quem promete dar conta de lhe
arranjar algum par, sem que se tenha que fazer muito esforço pessoal, além de
se portar educadamente e ficar esbanjando uma cara de disponível nos lugares
onde vai. Achei um horror, com todo o respeito com quem ganha dinheiro se
prestando a esse papel e com quem se dispõe a pagar.
Pois, bem, essa lengalenga toda é
pra falar de minha auto recompensa mais recente. Uma coisica de nada, como diz o meu amigo Joaquim. Sendo a cozinha e a
literatura minhas terapias diárias, aproveitei uma reunião de família para
testar um aprendizado. Fiz o teste na minha casa antes e depois fui apresentar
para os meus comensais. Aprendi a desossar um frango inteiro, rechear com algum
complemento gostoso e depois assá-lo. Minha nossa, que pequeno sacrifício que
valeu a pena para mim! Mesmo se as pessoas não tivessem achado gostoso eu já
estaria realizado, foi o resultado de meu investimento em paciência,
determinação e, especialmente prazer em fazer algo que gosto. É recompensa impagável com qualquer outro valor que não
seja satisfação interior. Faz bem para a minha alma, me demove da sensação de inutilidade,
me transforma em potentado de pequenas potencialidades, me joga para o alto em
minha circunstância daqueles momentos de felicidade mais íntimos, incompreensíveis
e indestrutíveis.