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quinta-feira, 30 de junho de 2011

TRAGÉDIA HUMANA DIÁRIA - SOCORRO!!!

Coisas que todo mundo já sabe: para ser um bom professor e um bom médico no sistema público há que se ter muito desprendimento, ser muito idealista, acreditar que é possível uma sociedade melhor, mesmo ganhando baixa remuneração, atuando em jornadas estafantes e dispondo de recursos precários.

Mais coisas que todo mundo sabe: o poder público destina verbas insuficientes para a saúde e educação, há muita prevaricação no uso destes recursos e peculato na administração. As leis não punem com o rigor necessário, os detentores de cargos públicos se sentem investidos de um poder que os alça à condição de pessoas acima do bem e do mal, chegando à prepotência e desprezo absoluto com o público. Há servidores que se apóiam na sua condição de intocáveis por conta da estabilidade no emprego, não se preocupam em se aprimorar profissionalmente e sequer se dão ao trabalho de ter boas maneiras e respeito com o público que lhes garante o sustento.

Quando se entrega um setor público nas mãos de particulares seja através de terceirização ou privatização, a sensação coletiva que paira no ar é “agora a coisa vai funcionar”. O que se vê logo em seguida é um aumento abusivo de taxas e tarifas e criam-se escalas de prestação dos serviços, sendo a qualidade máxima atingida apenas por quem possui muito dinheiro, influência e bons advogados. A grande maioria fica à mercê de órgãos de defesa de consumidores ou agências reguladoras, além do judiciário, cujas eficiências, nesta ordem, vão de péssima, ruim e pior.

O saldo é um salve-se quem puder, chamado pelo eufemismo de leis de mercado, também conhecido como democracia capitalista.

quinta-feira, 31 de março de 2011

"MEMÓRIAS DE UM TEMPO ONDE LUTAR POR SEU DIREITO É UM DEFEITO QUE MATA"

Eu freqüentava o Grupo Escolar, quando o terceiro presidente da golpe de 1964 foi visitar a mineração Vale do Rio Doce na minha cidade. Todas as crianças da escola foram impecavelmente uniformizadas e portando bandeirinhas do Brasil feitas de papel e bambu, perfiladas no Ponto dos Aflitos, caminho da mina, onde funcionava um mercado clandestino de hortifrutigranjeiros e outras, carnes, ervas e outros utensílios em meio à imensa poeira e lama. Aquilo tinha que ser mascarado não podia o presidente ver nem saber da existência. Diziam para a gente que era a revolução. Nesses eventos era obrigatória a participação, com as mãos no peito para mostrar orgulho e sorrisos de crianças nos lábios representando a satisfação da população. A mesma coisa era no sete de setembro. O desfile era obrigatório. Valia até nota no boletim. Mas depois fui crescendo até o dia em que vi uma bomba sendo jogada em minha casa. Passou um fusca, jogaram e nem deu para saber quem foi. Ninguém nos dizia nada. Só sabia que meu pai era do sindicato dos trabalhadores da mineração. Mas ninguém falava nada. 

Mais adiante, vim para capital estudar. Aí comecei a ver que tinha gente querendo fazer uma revolução. E pensava. Mas já não teve uma revolução? Começaram a me ensinar que a outra revolução era para restaurar a democracia. Comecei a ver com meus próprios olhos e sentir no nariz, quando na rua, a gente tinha que correr assim, do nada, de avanços das tropas em cima de alguma manifestação, tampando a cara dos gases das bombas. Passei a gostar de ler e os rapazes da república onde morava me alertavam que não era qualquer livro que se podia ler. Tinha uma censura, com livros, com discos. Mas na televisão e nos jornais nada se falava sobre o assunto. Lendo às escondidas, comecei a entender o sistema. Me envolvi também vendo colegas todos engajados, estudantes nas ruas todos os dias. Percebi que a outra revolução que se tentava era para derrubar o regime que humilhou, ofendeu, torturou, matou, destruiu vidas carreiras, reputações, famílias. Para andar nas ruas à noite o documento que tinha que se ter em mãos era a carteira de trabalho. Não adiantava RG, CPF. As bancas de jornais que vendiam material ‘proibido’, viviam sendo explodidas, tais como as redações de jornais que ousavam criticar alguma coisa. Não pode ficar esquecido. Passou mas não se esqueceu. Durou vinte e um anos.

Hoje faz 47 anos que tudo começou. Ainda bem que já passou, mas eu estou contando essa historinha é mais para quem nasceu depois disso tudo, maioria de jovens tão desligados da história, que nem sente os pés no chão a não ser para mostrar tênis de marca. Que não têm a democracia como valor social coletivo e universal. Para aqueles que acham que é só na indiferença política e no consumo que reside toda a felicidade possível de ser alcançada.

PEQUENA MEMÓRIA PARA UM TEMPO SEM MEMÓRIA

PS: SEMANA DE MEMÓRIA HISTÓRICA
texto atualizado. Publiquei-o em 2009.
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