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Eu já portei uma arma de fogo.
Quando tinha 22 anos, fui a uma praia no litoral paulista e meu irmão emprestou-me
o carro dele. Deu-me um revolver, dizendo que lá podia ser perigoso e que era
bom levá-lo só por segurança. No primeiro momento fiquei tão atônito com a
oferta que quase instintivamente desisti da viagem. Depois, rapidamente foi
crescendo dentro de mim um poder imaginário misturado com pavor e tive,
acordado, pesadelos atraindo desgraças pro meu lado. Senti uma mistura de poder
divino e satânico enquanto a manuseava. Quando a coloquei no carro para seguir
meu caminho senti um medão danado. Medo de ter que utiliza-la e não saber
depois se o poder que ela havia me conferido seria meu infortúnio para o resto
de minha vida ou algo que me fizesse sentir mais cidadão desse mundo. Se usasse
em legítima defesa ou se abusasse do meu poder letal só depois é que as coisas
iriam se definir na minha mente e no julgamento que ia ser feito de meu ato. O
fato é que a posse de uma arma mudou completamente a noção das coisas em minha
cabeça.
Eu fiquei me lembrando disso depois que passei a
estranhar a Scotland Yard, a famosa polícia inglesa. Desde o assassinato de um
brasileiro (Jean Charles) que eu penso nesta força policial invejada pelas
populações das grandes cidades do mundo e almejada pelas polícias idem. Eles
até pouco tempo atrás não usavam armas de fogo nas ruas. Tinham outros meios de
combater a pouca incidência de violências em Londres. O que mudou? A
polícia, as pessoas ou a cena urbana? O mundo não está ficando mais violento do
que já foi. O que eu consigo enxergar agora, depois de passear pela história é
que no passado a violência era mais uma prerrogativa reivindicada por alguns
mandatários (reis, estados nacionais, forças milicianas e guetos). Agora me
parece que disseminou para fora dessas forças e se instalou dentro do indivíduo
sem muito controle. Quando não é de fato, pelo menos em potencial. Com isso
aparecem as soluções imediatistas. É muito mais cômodo armar a população e
deixar que ela resolva a seu modo os problemas de violência pessoal do que
investir numa educação para a paz e a fraternidade (na prática não é assim, bem
diferente dos discursos oficiais?). Há também a pouca confiança nas políticas
públicas de segurança contribuindo para aumentar o ímpeto da auto e legítima defesas.
Por
isso eu continuo com muito mais medo de manusear uma arma hoje do que eu tinha
lá nos meus aventureiros 22 anos. A forma banal com que a vida tem sido tratada
me faz preferir evitar lugares, situações e eventos que me instigariam a reagir
a uma ofensa ou afronta do que pegar uma coisa tão pequenina mas tão
destruidora