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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

LER NÃO CAUSA L.E.R. * - Gleicineide e os Livros

imagem google

Ela limpava minhas estantes e encontrou um marcador de livros que eu mandei fazer com a capa de meu livro ARCANJO ISABELITO SALUSTIANO E OUTRAS CRÔNICAS e nele consta a frase que dá título a esta série sobre leitura.

- Seu moço, L.E.R. eu já sei do que se trata, aquele negócio que dá dor em algum lugar no corpo da gente quando fica repetindo uma tarefa todo dia, toda hora. E sabe que me dá mesmo é uma vontade de ler um livro de vez em quando? Aí, chega o final de semana, minha folga, eu fico querendo tomar umazinha pra relaxar e acabo deixando pra depois.
- Faça como você faz com a cerveja. Nunca adie a sua vontade de ler. O prazer pode ser uma embriaguez que não lhe dará ressaca nunca. Já pensou nisso?
- Nó, seu moço, precisava tanto não!
- Você nunca leu um livro?
Já sim, eu me lembro de dois que a professora mandou ler lá na época do fundamental.
- Quais?
- Um foi Esaú e Jacó, o senhor conhece? Achei uma história muito boa. O outro eu gostei também, Mar Morto, de um escritor que se chama Jorge, eu acho.
- Jorge Amado!
- Esse mesmo!
- Nossa, você gostou de dois dos maiores autores da literatura, e logo nos primeiros livros de sua vida! Isso é sinal de que você só não lê é de preguiça.
- Não tô entendendo nada.
- Machado de Assis é considerado um clássico, dificilmente quando a gente o lê na adolescência tem bagagem para acompanhar suas divagações literárias tão subjetivas, profundas, psicológicas, sociológicas e sua narrativa é uma verdadeira conversa íntima com a gente quando está lendo. Jorge Amado é mais um dos grandes mestres também.
- Eu vou ler mais, sim. A gente precisa melhorar o palavreado, né, seu moço?
- É a melhor maneira de aumentarmos o nosso vocabulário, nossos argumentos, nosso pensamento passa a se organizar melhor. Sem contar o prazer que os livros nos trazem lá dentro, no íntimo de cada um.

Acabei convencendo-a, pois ela me pediu para levar A Moreninha pra casa e na semana seguinte chegou me dizendo que leu apenas dez paginas do livro mas que está adorando muito a história.
- Tem muitas palavras difíceis, né?
- O bom de ler é isso, Gleicineide, vamos aprendendo mais e mais palavras. Também o romance foi escrito no século XIX e há palavras lá que já nem se usam mais.
- Seu moço, agora eu vou lhe dizer o que eu descobri: eu parei o livro por causa da prova de legislação de trânsito que estou pra fazer. Estudei, estudei e não consegui decorar nada direito daquele monte de placas e regras de circulação. Já o livro, até as páginas que li, sei a história toda. A minha conclusão é que as coisas que a gente faz por obrigação não tem o mesmo efeito do que quando a gente faz por gosto.
- Chegou aonde eu queria, chegar, Gleicineide: é o poder de sedução que a literatura exerce. É o poder de sedução!

PS: duas semanas depois ela me disse que já passou na prova de legislação, já retomou a leitura do livro e conta com cara de insuspeita alegria cada passagem do livro que disse estar adorando, começa a ler e, se não fossem tantos afazeres não pararia enquanto não terminasse. Tomara que ao devolver peça para levar outros. Que eu vou oferecer, isso eu vou!






Gleicineide é uma personagem que criei.
*L.E.R – Lesão Por Esforço Repetitivo



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