segunda-feira, 7 de junho de 2010

BOM EM QUALQUER ÉPOCA - COMO SERIA?


Há tanta produção literária por esse mundão, tanta coisa que tanta gente tem acesso e muito mais coisa que tanta gente não tem que pelo bem do conhecimento humano e da literatura, acho que toda oportunidade que tivermos para aumentar a visibilidade de textos bons não pode ser perdida. Selecionei alguns que acho que precisam de quando em vez ser divulgados pelas suas qualidades inumeráveis. É só mais uma forma de dar ainda mais vida à sua imortalidade. Só lendo para qualificar. E isso cabe ao leitor.


Como seria?

Um país sem falsos guias, sem a odiosa demagogia, sem dinheiro nas cuecas, desmarginalizando as periferias, como seria?

Um país sem mais bravatas, sem conluios e promessas falsas, sem tantas falácias, sem jogos de cartas marcadas, onde quem ganha é a burguesia, como seria?

Um país sem ideologias vãs, sem conchavos, sem escabros, sem o ganhar do pão roubado, daqueles que acreditaram em vocês um dia, que depositaram em uma urna, toda a fé em um melhor dia, como seria?

Um país com mais decência, sem escândalos que arrepia, sem um juiz que não se contenta e mete a mão onde não devia, sem um governador gaiato, que faz a prece a luz do dia,agradecendo a propina, para bancar a mordomia, tirando de milhões que tem fome, e precisam de moradia, enquanto que quem roubou um pão, foi preso na padaria, foi chamado de ladrão, e no presídio foi passar seus dias,como seria?

Um país com uma justiça realmente cega, como aprendemos nos livros, os defuntos do Vigário Geral com seus prantos mal ouvidos, a dama de vendas absolveu, os bandidos mais temidos, os sob a tutela do Estado, está tudo invertido, como seria?

Um país com mais pão que circo, com apologia aos livros, sem tanta alienação, sem carneirinhos entretidos, se esquecendo que carneiros são o prato preferido, dos locupletadores de sonhos, que em um palanque falam bonito,os que em troca de tostão, sepultam quaisquer princípios, como seria?

Um país sem religião que vende chão no paraíso, se esquecendo que Deus não se vende, para que assim seja sentido,a teoria do se dar bem, virou moda e é um perigo, não nos esqueçamos que quem fere,mais adiante será ferido, como seria?

Um país sem tanta safadeza, sem tanta maledicência, sem tantos filhos da puta no poder, que só se preocupam com seus gananciosos bolsos e definitivamente com os seus, em detrimento do sofrimento de um já tão sofrido povo cujos anseios são apenas viverem uma vida mais digna e serem tratados como cidadãos que são,como seria?

O poeta perde a pose em meio a tanta hipocrisia, esquece o rebuscado das palavras e da fina poesia, chuta o balde das letras e parte pra baixaria, pois, ele em papel esboça o país que tanto queria, sem tanta opressão e tanta dicotomia, sem nepotismos disfarçados, e promessas de apenas um dia, nos unamos em um só brado, e indaguemos com ousadia, uma pergunta tão sensata que há de ser feita um dia: como seria?



AUTOR: Felipe Padilha di Freita (O Poeta do Deserto),grande poeta recifense. Escritor também do site Recanto das Letras, onde pode ser acessado através do link:  http://recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=52265

domingo, 6 de junho de 2010

NO MEIO DO CAMINHO TEM UM MOSQUITINHO


No período medieval, surgiu uma corrente avassaladora, podemos dizer, de pensamentos que se propunham a lançar luzes na obscuridade em que a sociedade vivia. Foi do Iluminismo que brotaram ideais do desenvolvimento econômico industrial, o fim da servidão humana e o desenvolvimento capitalista. Daí para frente, só experimentamos desenvolvimento atrás de desenvolvimento de condições materiais de vida, de facilidades para a vida humana através de invenções de toda espécie. Não que isso tenha provocado uma isonomia na distribuição das riquezas e benefícios produzidos. O sistema é capitalista e ele não pressupõe igualdade de nenhuma espécie antes da morte. No campo do pensamento, da cultura e das idéias, o desenvolvimento é pouco significativo, muito pouco, infelizmente. Uma lástima para bilhões de pessoas e um paraíso para alguns milhares de abastados que sobrevivem da exploração humana. E que não me venham com a ladainha da oportunidade que foi deixada escapar, que o esforço individual basta para superar todas as dificuldades e que a sua perda (da oportunidade) é a responsável pela miséria humana. Isso me soaria como discurso de capacho e serviçal do sistema que usa de mentes que “se acham” para poder perpetuar o status quo que existe. Precisamos mesmo evoluir muito mais do que desenvolver.

A ironia que mais chama atenção no momento, no entanto é que, a despeito de todo o avanço tecnológico há um “mosquitinho de nada” que está atazanando a vida da gente, correndo o risco de fugir ao controle das porcas políticas dos governantes em todas as esferas e do pouco cuidado que as pessoas têm em fazer a sua parte. Um bocado de ignorância e um montão de irresponsabilidade. Um ato de “empurrar com a barriga,” tão corriqueiro em nosso meio. Barrigas para isso é o que não faltam. A dengue está aí mais ameaçadora do que nunca. O mosquito morre fácil, fácil, desde que haja um envolvimento efetivo de todo mundo e uma seriedade dos mandatários.
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P.S: A Edna Lopes fez uma crônica “Dengue: Estamos Perdendo a Guerra?” sobre o crescimento da doença em Alagoas (veja no link) http://recantodasletras.uol.com.br/cronicas/2291271. Há relatos de crescimento assustador no Rio e em São Paulo. Aqui em Belo Horizonte a situação é alarmante. Não vi estatísticas de outros estados.

sábado, 5 de junho de 2010

PÁSSAROS E AVIÕES

Tem um homem que fica na cabeceira da pista do aeroporto da Pampulha treinando um gavião para atacar outros pássaros. Nem precisaria se fosse para ele se alimentar apenas, já que a rapina é a sua maior especialidade na cadeia alimentar. É um sistema de prevenção que a administração descobriu para diminuir o número de acidentes com aeronaves na hora do pouso. No intervalo entre um pouso e uma decolagem, lá vai ele, afastar as aves que ficam por ali, achando que os aviões são irmãos seus mais crescidinhos. Só que de vez em quando dão uma trombada com seu irmãozão e aí é possibilidade de fatalidade. No mínimo atropela a manobra. Dizem que uma ave entrando por uma turbina de avião é como um impacto de mais de uma tonelada de peso. Chega a derrubar uma aeronave, como já ocorreu muitas vezes. Risco constante para muitas pessoas. Fico observando os helicópteros que passam por sobre o meu bairro diariamente e, principalmente pela manhã, as aves gostam de acompanhá-los. Será que elas pensam que é um igual de sua raça, de tamanho maior? E ainda por cima trazendo alguma comida, já que os pássaros urbanos têm que suar muito mais nos seus vôos para garantir um rango? É muito bonito de se observar o trabalho do gavião solitário. Ele, que já está com seu almoço e jantar garantidos todos os dias, não executa a sua costumeira caça. Apenas afugenta urubus, garças, pombos e outros pássaros menores da rota de descida e subida dos aviões. Só deve ter que ser treinado novamente a caçar quando ficar mais velho e cansado, pois já deve estar acostumado com a recompensa do treinador. Vai perdendo a habilidade natural . Ou será que eles fazem com os pássaros o mesmo que fazem com a gente quando fica velho e não tem recursos para resolver mais as coisas sozinho? Ainda não ouvi dizer que tem asilo para bichos.



Deu vontade de usar uma boa desculpa para falar dos aviões para esconder o medo que tenho deles; admiração e medo. O tanto que me atraem me apavoram. Toda tragédia em outros meios de transporte são menos ameaçadoras do ponto de vista das possibilidades, exceto os aviões. Se você andar de trem, carro, ônibus, navio ou a pé, sabe que corre riscos, mas nenhum dá tanta certeza de que não poderá se repetir como o avião. Já ouviu alguém contar que sobreviveu a mais de um acidente de avião? Se já, o milagre realmente existe. Imagine uma pane em pleno ar, o avião balançando, em parafuso ou pegando fogo. Quem será que pensa que vai sair vivo? Se descontarmos os acidentes em que houve explosões, em todos os demais as pessoas foram acompanhando a morte desde sua chegada na cabine do avião até a queda final. Não dá tempo de deixar bilhetinho, nem de ligar para se despedir de alguém, de arrependimentos ou declarações tardias. Isso não é terrorismo. É o medo que me acompanha desde a primeira voada e não sai mais nem a poder de calmante. Quando eu bebia, não me importava. Só viajava “chapadaço”. Agora estou pressentindo que vou ter que encarar um vôo em breve, então colocar para fora alivia. Se não, no mínimo fica avisado de que eu queria ter ido a pé mesmo. Até a volta.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

AOS ANTIGOS AMIGOS IDEALISTAS

Primeiro fomos embalados. Uma grande onda de dimensões continentais passava querendo lavar os chãos da pátria e construir um novo passeio público. Emergiam sonhos, vontades que impulsionaram tantos para uma frente de combate. O sistema que nos oprimia continua oprimindo e agora muito mais, com armas menos visíveis, mas com poder de dilacerar tão potentes quanto muitas bombas de gás lacrimogêneo e paus de arara com efeitos nas células da alma. Agora sucumbimos a uma avalanche de desmerecimento, diante de uma minoria ruidosa, com seus cristais finos e carros luxuosos. A pergunta era: o que pode nos derrotar, lembram-se? Foi o descaso com o ideal, ou o abandono de princípios? Ou o dinheiro que governa o mundo? Terá sido a tentação do poder? À maioria silenciosa negamos a vez que tanto lutamos para dar.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

UMA RESENHA DO MEU LIVRO - POR GEYME LECHNER MANNES

A vida do bebe - De 40 para frente

by José Cláudio Adao



Quando comecei a ler o livro do José Cláudio Adão, carinhosamente por mim, conhecido como: Cacá, pensei que ali encontraria escrituras sobre a metamorfose masculina após os 40, mas fui surpreendida quando gradativamente (e acidentalmente), reconheci que ali também estava um pouco de mim (mulher) e minha própria mutação, meus receios, anseios... Dúvidas de todo ser humano que se auto-questiona, ou ainda que não, é forçado, de forma encantadora, a refletir e ponderar através das palavras do autor sobre o inimaginável deleite da vida após os 40.

O livro é de um gracejo e sabedoria que só quem sentiu, pensou e ponderou sobre as minúcias da vida, seria capaz de criá-lo. Isso quer dizer, não basta apenas chegar aos 40, ou passar dessa idade para saber o que na “A vida do bebe” está “desenhado”! Quase todos tem chance de chegar lá, mas uns apanhando mais que outros! Tem gente que alcança e ultrapassa essa etapa, cometendo os mesmos erros, as mesmas falhas e fazendo tudo igual, dia após dia, permitindo que a própria vida consuma o tempo sem alcançar a evolução intelectual e a plenitude superior. Não refiro-me a divindades ou estado de perfeição, mas afirmo com letras garrafais, que na obra do Cacá, há um mundo a ser descoberto, e só quem se auto-questionou durante o cotidiano das mais de 350.000 horas vividas, num ângulo distante do “comum”, é capaz de retratar com o respectivo brilhantismo.

“Se cada pessoa pudesse se despir de preconceitos, palavras e atos difamatórios e denegridores; se as pessoas considerassem o todo e não o individuo como centro da vida e sua razão maior de existência...; certamente isso aqui; se cada um ou cada uma espalhasse um grãozinho de ternura, desapego, altruísmo, sem abrir mão de suas vicissitudes, claro, mas com firmes propósitos de elevar a alma humana para além do aqui e agora; certamente isso aqui não terá sido ufanismo, mas uma crença e uma religião.”

Que fácil atirar a primeira pedra, mais fácil sermos expectadores distantes e metralhar um bombardeio de palavras aquilo ou aquele que nos é diferente, inferiorizar terceiros, sobrepondo-nos num pedestal de diamantes! É com imensa habilidade que solucionamos outros problemas enquanto nos afogamos nos nossos próprios... Quanto tempo dedicamos a depreciar o que não nos é de direito? E quanto tempo necessitamos para frear a língua com julgamentos medíocres?

Ah, o tempo...

Embora o título seja “A vida do bebe – de 40 para frente”, a obra deve ser indicada a todas idades e sexos, pois remete ao comportamento passado, tem carisma e humor, nos transporta do como éramos, ao, como poderemos ser. É uma leitura deliciosa, rica, envolvente! Imaginei-me como filha, mãe, mulher. Ser humano de verdade, em carne e osso, que nasce, cresce e amadurece. Cresce e aparece! Fui levada pra cá e pra lá, lembrando de gente que não teve essa habilidade juvenil de envelhecer!

Confesso que tive que fechar o livro algumas vezes, parar e voltar, pois ademais de conter um retrato bem-humorado do nascimento, ou renascimento aos 40, há também filosofia e reflexões que mereceram um tempo extra para decodificar o que o autor quis dizer, daquilo que me fez pensar (e olha que não foi pouco...)

”Somos como carros muito rodados”

Se não cuidamos desse “veículo”, poderemos ter um carro velho antes do tempo para manutenção, e este meus amigos, não podemos trocar!

Ser, deixar de ser ou parecer ser! Eis das muitas questões que nos deparamos no livro, reflexões que nos remetem ao passado e nos fazem rir, outras, que nos levam a um tal ponto de equilíbrio que chegamos a dizer em voz alta (antes mesmo dos 40): “Poxa vida, quero ser uma pessoa equilibrada agora”! Por que preciso ser radical, do contra a favor, direita ou esquerda, expressar minha opinião a ferro e a fogo, unhas, tapas e dentes? Cade nosso equilíbrio? Eu o quero agora! Por que já não nascemos com ele?

Passagens no livros nos trazem Dejà vu, no estilo: “Putz, também fazia isso!” ou ainda: “Putz, ainda faço isso!”, o que é pior, porém, remediável!

Estados de lucidez se alcançam apenas com sabedoria e retrocesso, esse passinho atrás de voltar e rever caminhos, mudar o status quo... Equilíbrio é uma questão fundamental apresentada na obra, mas não adianta espernear, o leitor pode até tentar ser um ser humano precoce, antecipadamente evoluído, mas ainda será necessário esta bagagem de experiencia bem vivida, não sermos essas máquinas do sistema, é preciso pensar e refletir, ou seguir:

“repetindo falas, conceitos, atos, gestos..”

Gostaria de desmembrar o livro, página por página, mas tenho receio de contar demais....

Fico feliz por ter lido a obra e ter espaço para comentar e dividir o meu deleite!

Sucesso sempre!

Geyme Lechner Mannes.

(Autora do livro Meninas Bonitas Não São Para Casar

geyme.blogspot.com

quarta-feira, 2 de junho de 2010

MENINAS BONITAS NÃO SÃO PARA CASAR

O livro surpreende o leitor em todos os aspectos. O título Meninas Bonitas Não São Para Casar, não é um axioma como pode parecer à primeira vista, mesmo sendo o autor, uma autora jovem. Também não é um compêndio de lições de moral, mesmo sendo ambientado nos anos 50 do século passado quando as meninas eram todas para casar, sendo ou não bonitas. E podem também ir se desiludindo aqueles ou aquelas que acham que se trata de uma lista de aconselhamento para as meninas bonitas. Nada disso. No entanto, qual a surpresa? Essa eu deixo para ser satisfeita por cada um. O que e tenho a dizer é que desde a primeira até a última página desse livro, a autora tem algo a dizer nesse momento em que estamos numa crise sem precedentes no mundo da criação em geral. Ela tem muito a dizer sobre idiossincrasias humanas, sobre o cotidiano das cidades, sobre história recente do nosso país, sobre as mais comezinhas e mais presentes emoções que nos guiam e também as mais profundas e belas reflexões filosóficas e psicológicas dos personagens, cada um esmiuçado escancaradamente para o leitor se identificar ou não, amar ou odiar.

É uma história de amores e tragédias, de carreiras e de golpes que entre sucessos e fracassos compõem a nossa cena comum, às vezes invejável do ponto de vista pessoal, íntimo, às vezes execrável e odiável do ponto de vista ético. O que posso dizer é que a autora Geyme Lechner é uma escritora de todos os tempos. Apesar da pouca idade (ela é bem jovem) parece que isso não lhe impõe nenhuma barreira que possa deixar de alçá-la à galeria dos grandes escritores da literatura. A desenvoltura e firmeza com que conduz as tramas, a não linearidade narrativa, o processo descontínuo e alternado de mostrar cenas e histórias, locais e conjunturas é algo impressionante. Vi essa narrativa alternando suspense e descrições monologais e extração dos dilemas pessoais em Rubem Fonseca, sem querer aqui fazer comparações. Apenas dizer que o talento dela é único e o livro imperdível. São cerca de 400 páginas que gostaríamos que fossem 800 logo no começo. Histórias boas, a gente nunca quer que terminem. Mais não digo. Apenas recomendo.



MENINAS BONITAS NÃO SÃO PARA CASAR

Geyme Lechner Mannes

Ed. Livronovo, 2009

UMA GOTA DE ÉTICA

Os veículos de comunicação não costumam se pautar muito pela ética. Mas a democracia faz com que eles deixem pelo menos que ela seja discutida. Uma espécie de metalinguagem por expiação. Eles, no entanto, não fazem isso na sua programação dirigida aos grandes públicos que freqüentam os chamados horários nobres. Horário nobre na televisão quer dizer uma forma de aumentar as vendas de produtos e serviços, não é necessariamente horário de programação nobre. A palavra nobre ganhou uma dupla significação ao longo do tempo. Se levarmos em conta o comportamento das pessoas que fizeram parte de uma certa nobreza secular, por exemplo, o significado é vilipendioso. Portanto, o horário nobre pode ser mesmo algo terrível. Hora de ver desgraças de toda sorte nos telejornais e depois as “educativas” novelas e programas de auditório.
As televisões possuem nos seus contratos de concessão com o estado, uma obrigação de destinar uma parte de sua grade diária a programas educativos e programas com fins sociais. Isso é feito normalmente bem cedinho ou bem tarde da noite, hora em que as pessoas estão indo dormir ou ainda não se levantaram. O canal Futura, por exemplo, foi uma criação da rede Globo para canalizar tudo de bom que ela produz mas para ser visto apenas por quem possui uma parabólica ou tv a cabo; uma parcela que não deve chegar a 5 por cento da população. Ali está tudo de bom, de ético, de digno em qualquer horário. Uma programação limpa, em todos os sentidos, inclusive de propagandas de produtos para a gente comprar entre intervalos comerciais. E é sobre ética que tive oportunidade de assistir a um programa outro dia, falando historiadores, psicanalistas, juristas e gente nas ruas sobre esse valor que circula no meio da sociedade. Um valor de alta importância para as nossas relações no cotidiano, pois dela decorre toda nossa fracassada ou vitoriosa investida humana. Da nossa percepção do mundo e da nossa atuação nele, enquanto sujeitos que constroem uma história. Falava específicamente sobre as pequenas corrupções, pequenos subornos, o “jeitinho” com fins de adulteração e do serviço público. Nos primeiros tempos coloniais, os cargos públicos eram comprados. Um investimento, portanto, para ser remunerado depois que se chegava ao serviço público. Essa herança parece não ter sido modificada pelos concursos públicos, que vieram a substituir o sistema de aquisição. Ainda se trata o público como coisa privada a ser recompensada quando se vislumbra um cargo, seja de representação política, seja cargo de confiança, seja de servidor de carreira. A corrupção e o mau serviço prestado pelos poderes constituídos ainda são uma exceção, para o nosso consolo, mas acho que a raiz da corrupção vem desse gene da aquisição de cargo desde lá em 1808.
No rádio também é muito curioso. Aqui em Minas, a radio de maior audiência e a mais popular, a Itatiaia, possui um programa diário de debates, riquíssimo do ponto de vista dos temas abordados. Assuntos presentes no cotidiano da sociedade e ancorados por pessoas do mais alto nível intelectual, de carreiras sólidas em suas áreas de atuação. A ética, por exemplo, é um assunto que freqüenta amiúde esses debates. Só que, entre um intervalo e outro o que mais se ouve é comercial de remédios milagrosos para artrite, artrose, emagrecedores, impotência, afrodisíacos, e tudo que pode ser adquirido em qualquer estabelecimento do ramo sem nenhuma receita médica. A maioria eles dá até números de telefone para adquirirmos sem precisar sair de casa. Pra quem tem artrite e artrose deve ser uma “mão na roda”! Outro dia eu mandei um e-mail para lá (a gente pode participar com mensagens on line) perguntando ao apresentador se eles não se sentiam constrangidos com esta situação. Não obtive resposta. Sei lá, deve ser por que a ética é um princípio de vastíssimo alcance, pode ser que ainda estejam tentando onde enquadrar uma resposta para me dar ou então preparando uma ação para me processar por calúnia, difamação ou falta de ética.
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Fontes: Além dos programas citados do Futura e da Radio Itatiaia, baseei-me também no artigo: A Função Social da TV, disponível em:



http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI194592-EI306,00.html

terça-feira, 1 de junho de 2010

BOM EM QUALQUER ÉPOCA - LER DEVIA SER PROIBIDO

Há tanta produção literária por esse mundão, tanta coisa que tanta gente tem acesso e muito mais coisa que tanta gente não tem que pelo bem do conhecimento humano e da literatura, acho que toda oportunidade que tivermos para aumentar a visibilidade de textos bons não pode ser perdida. Selecionei alguns que acho que precisam de quando em vez ser divulgados pelas suas qualidades inumeráveis. É só mais uma forma de dar ainda mais vida à sua imortalidade. Só lendo para qualificar. E isso cabe ao leitor.



LER DEVIA SER PROIBIDO

Guiomar de Grammont *



Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Dom Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.
Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação.
Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?
Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.
Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.
Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.
Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verosimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.
O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incómodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metros, ou no silêncio da alcova… Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.
Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.
Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.
Além disso, a leitura promove a comunicação de dores e alegrias, tantos outros sentimentos… A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna colectivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.
Ler pode tornar o homem perigosamente humano.



* Guiomar de Grammont é historiadora, doutoranda em literatura, autora de vários livros e publicações e foi curadora da II Bienal do Livro de Belo Horizonte-2010.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

APOSENTADORIA

O PROBLEMA ETERNO DA PREVIDÊNCIA

Para quem já se aposentou ou pensa em algum dia se aposentar: entre os muitos problemas da nossa previdência, o que me chama mais atenção quanto ao descaso com aposentados no Brasil é o seguinte:

a) As leis previdenciárias são feitas e aprovadas por quem tem uma aposentadoria que não é paga com o dinheiro da previdência (regime geral) São os deputados e senadores. E não é pouco.

b) Essas mesmas leis quando são questionadas, são julgadas por pessoas que têm seu sistema próprio de aposentadoria e que também é invejável, os juizes.

c) E para executá-las, os funcionários que comandam o sistema também não são aposentados pelo regime geral da previdência. (os próprios funcionários públicos graduados do INSS) E se aposentam com salários gordos.

Dá para confiar que pode vir a mudar alguma coisa em favor dos aposentados e aposentáveis?
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VERSOS PERMANENTES DO SEGURADO

Está chegando o fim do mês,
meu senhor, minha senhora.
Será a minha, a sua, a nossa vez,
de saber quem mais demora,
a gastar o benefício,
que mais parece uma esmola.
Quem a vida inteira, no sacrifício,
ralou, suou e fez escola,
aprendendo e ensinando ofício,
ajudando a coletividade a andar,
chega a se aposentar,
mas não é recompensado.
É antes, responsabilizado
pela falência de um sistema
que a gente mesmo é dono.
Porém falcatruas, descontrole e fraudes
Isso é um velho problema
E acontece sem o nosso abono,
na nossa cara e aos baldes.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

VERSINHO DA DOR DE COTOVELO *

Expressão maior de maldade,


Vou lhe dizer a verdade


É quando um amor tão querido


Se faz de bandido


Nos deixando apenas a queixa


Dá saudade como efeito


E uma dor que não deixa


Parar de arder o peito.


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* A expressão teve origem nas cenas de pessoas sentadas em bares, com os cotovelos apoiados no balcão bebendo e chorando um amor perdido. Muitos atribuem a criação da expressão ao genial compositor Lupicínio Rodrigues.

Então, de tanto ficar naquela posição, as pessoas ficavam com dores no cotovelo. Atualmente, é muito comum utilizar essa expressão para designar o despeito provocado pelo ciúme ou a tristeza causada por uma decepção amorosa.

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Fonte:
http://www.brasilescola.com/curiosidades

quinta-feira, 27 de maio de 2010

ACRÓSTICO DO A até o Z

Aqui começa a brincadeira
Bem ao gosto de quem lê
Curta letras e palavras
Depois mande tudo às favas
Entre risos e raivas
Faça o que bem entender
Gostando, vai querer guardar
Hediondo sendo considerado
Ignorar é o melhor a se fazer
Junte alegria e enfado, jovialidade e siso.
Kkkkk! Venceu a vontade do riso
Loucura estamos fazendo
Mais eu do que você que está lendo
Nada aqui faz sentido
Ou faz, querida amiga, amigo querido?
Pior que isso eu já vi
Quando eu mesmo invento moda
Rabisco papel, digito tolices
Sai cada coisa que é... fogo!
Termino aqui o meu teste
Um acinte à paciência
Vir aqui me ler contente
Xingue agora, sem clemência
Yes I can, sim eu posso
www quer dizer que o mundo não é só meu, tá vendo? É nosso
Zzzzzz! Dormi primeiro. Obrigado, minha gente!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

UM PAI EM TODAS AS COPAS

PAI,

Era para falar de copas do mundo. Você está acompanhando essa modalidade desde a primeira, em 1930. Era o seu primeiro ano de vida. Mas entre uma copa e outra, quantas histórias vividas, quanta coisa aconteceu nesse mundão nos últimos 81 anos. A saúde que lhe acompanha desde 1929 não é algo que deva ser levado apenas como natural. A começar que naquele ano, o mundo experimentava uma das maiores crises econômicas de sua história. Faltavam inclusive, gêneros alimentícios porque uma especulação financeira de proporções gigantescas derrubou os montes de dinheiro que circulavam no mundo, então muito menos habitado, e que deixou alguns ricos pobres e os milhões de pobres, miseráveis. No Brasil, o abalo foi ainda maior. Uma economia que dependia quase que exclusivamente de um produto, este que lhe ofereço hoje para tomar de manhã e que alguns de seus filhos até o plantam atualmente. O café movia o Brasil e o deixou imóvel e faminto. Ele não faltava, pelo contrário. Havia em abundância sem que ninguém se interessasse em comprar.

Veio a seguir uma rigorosa ditadura, o chamado Estado Novo, capitaneado por Vargas, suprimindo liberdades, sufocando o povo. E logo depois uma guerra mundial. Já era a segunda da história. Ainda bem que o senhor era apenas uma criança, um quase adolescente. Uns aninhos a mais e talvez tivesse ido engrossar as fileiras da Força Aérea ou da Força Expedicionária Brasileira que foram combater na Europa, aliados de última hora dos americanos, soviéticos, franceses e ingleses. Nesse intervalo, o mundo ficou sem milhões de vidas e sem duas copas do mundo. Passada a carnificina humana, caiu também a ditadura e o país parecia encaminhar-se para uma normalidade. Nesse meio tempo, você já rapazinho, entrava na Vale do Rio Doce, naqueles tempos onde a tecnologia maior ainda era o lombo do burro e os pequenos caminhões que transportavam para o trem de ferro e os navios, o rico minério de Itabira para ir para o mundo. Um pouco dele ajudou a fabricar não somente os carros da nascente indústria de automóveis e estruturas de aço nas cidades, mas também tanques e armas de guerra. Entrou a década de 50 com o Brasil sediando a segunda copa depois do período de interrupção. Inaugurava-se o Maracanã, então o maior estádio de futebol do mundo. Porém o Brasil não correspondeu ao investimento absurdo na sua construção com a alegria para o povo. Ouvia pelo rádio entre lágrimas que hoje a tv nos mostra, a seleção sucumbir diante de mais de 100 mil pessoas ao Uruguai., lembra-se? Por outro lado, Getulio Vargas que havia sido deposto ao final da guerra, voltava eleito pelo voto direto e nos braços do povo se redimia da sua condição de ditador mas não deixaria de enfrentar os seus antigos detratores nem o poder econômico ancorado no capital internacional. Suicidava-se logo depois de outra copa do mundo em que o Brasil também havia passado do em brancas nuvens.

Você, no entanto, estava em outras nuvens. A essa altura, já havia a Maria Delfina em sua vida, aquela gloriosa mulher que o acompanharia por mais de trinta anos, gerando uma significativa prole, seus nove filhos que aqui estão. A nossa mãe merece um capítulo à parte e muito generoso por sinal. Não foi muita sombra e água fresca o que vocês tiveram que passar para educar essa turma toda. Estamos muito bem, obrigado mesmo!

Em 58 já deu para você sentir uma alegria como torcedor. Pelé, o menino prodígio da bola encantava o mundo e ajudava o Brasil a trazer o seu primeiro caneco. Junto com as seleções de 1970 e 1982, talvez tenham representado o que de melhor já se produziu no futebol para quem aprecia a arte sem paixões cegas. Apenas o jogar bonito. Não sei se você vê da mesma forma. Aqui já é uma opinião deste filho que lhe escreve. Eu já era um garoto em 70 e em 82 já era um homem feito. A de 58 eu não me canso de ver quando reprisam nos canais de televisão. Ainda ao final da década de 50, veio o que talvez possa ser chamado de milagre econômico no Brasil. Não digo em termos de uma isonomia nas riquezas produzidas, que isso não é coisa que o capitalismo proporcione em lugar nenhum do mundo, mas de uma nova fisionomia que o país ganhou, com a chegada massiva de indústrias de bens de consumo e da construção de Brasília para ser a capital Federal. São os anos JK. Nesse meio tempo, há uma consolidação de uma classe operária pujante e você estava lá, imbuído de princípios de igualdades envolvido com o movimento sindical urbano em crescimento. Em 62 nascia este que lhe dedica estas linhas e o Brasil havia faturado o seu segundo troféu.

Veio 1964 e um pesadelo passou a povoar os sonhos de liberdade. Alegavam que era um combate a um misterioso fantasma comunista que rondava o mundo e, no entanto mergulharam o país numa das mais terríveis páginas de nossa história. Uma verdadeira guerra civil urbana e rural, com torturas, mortes, perseguições de toda sorte e a liberdade se limitava apenas ao direito de trabalhar e pensar, desde que fosse calado. Falar não podia. Manifestar-se publicamente, nesse caso, nem pensar. Você é testemunha quase física dessa perseguição. Digo quase, pois não chegou a freqüentar os porões dos paus de arara e choques elétricos, ainda assim teve seu mandato sindical cassado, seu contrato de trabalho rompido e sua família sob ameaça constante Safou-se por muito pouco. Foi em plena copa de 70. A gente era muito criança e adolescentes ainda e comemorava sem saber que os “noventa milhões em ação, pra frente Brasil” era só um slogan para encobrir o sangue que corria nos bastidores das vidas de tantas pessoas que ousaram discordar da ditadura militar. A sua prole já estava toda crescendo nessa época, felizes e alheios às dificuldades. Tivemos apesar de tudo, uma infância muito feliz. O ideal de felicidade não estava tão necessariamente associado ao conforto e excesso de acumulo patrimonial e de estrelato e brilho individual como nos dias atuais. Os afazeres coletivos, as possibilidades de viver sem medos nas ruas, a necessidade de inventar, de criar as próprias brincadeiras nos permitiam um maior convívio humano e acho que nos satisfaziam mais ao espírito do que hoje, quando parece que só se consegue uma felicidade depois que passamos no caixa de algum estabelecimento.

Ficamos num jejum de mais de vinte anos sem saborear um título mundial e quanta coisa aconteceu nesse período em sua vida! Os filhos começavam a ter seus próprios trabalhos, suas rendas para diminuir o seu penoso esforço e da nossa mãe de garantirem dinheiro para fazer frente a tanta demanda de alimentos, escolas, roupas, calçados, médicos, dentistas e outras coisas que os pais dão aos filhos. Os primeiros foram saindo de casa e puxando a fila dos outros em busca de seus sonhos, estudando e trabalhando. Começaram em meados da década de 70 a se casarem algumas filhas, outros se formando em alguma coisas.

Entra a década de 80 com o nosso primeiro - e creio convicto -, maior baque humano. Mais do que qualquer fome, mais do que qualquer angústia existencial, mais do que qualquer dificuldade material. A perda de nossa mãe, tão jovem ainda, apenas 51 anos, nos deixando meio acéfalos, meio desnorteados, meio sem chão. Ela tinha uma presença tão importante para todos nós que ainda hoje, após tantos anos de sua partida não conseguimos esquecer o seu significado, o seu aprendizado, a sua sabedoria possível. Falo por mim, mas pelo muito que conheço de meus irmãos todos, não acredito estar exagerando se disser que falo por eles também.

Você nesse intervalo, além de aposentar-se em 82, nunca deixou a sua militância. Não era mais um sindicalista apenas, pelo contrário, expandiu a sua ação para toda a comunidade. Não lutava para melhorar as condições de vida apenas de seus companheiros de mesmo uniforme. Estava numa luta de toda a comunidade Itabirana, como permanece ainda hoje emprestando toda a sua experiência, toda a sua habilidade diplomática e todo o seu carisma para construir uma cidade que dê dignidade no dia a dia de seus habitantes. Assistimos em 94 e 2002 o Brasil ser tetra e penta campeão com esse futebol de resultados e egos muito mais do que arte como era antigamente. Mas de resultados é que mais se fala atualmente. Então estamos aí, a espera do hexa, do hepta... E à espera também de dias melhores para toda a maioria da sofrida e manobrada população brasileira.

Queremos e o senhor também, claro, muito mais do que títulos de copas do mundo. Títulos mais importantes seriam os que laureassem a sua luta em prol de educação, saúde, moradia, saneamento e lazer. Isto sim nos fará um povo mais orgulhoso de ser campeão do mundo em dignidade. A vida segue. . A sua dignidade segue, cada vez mais elevada; seus calos nas mãos e suas rugas cada vez mais respeitados. Temos muito orgulho de poder dizer a quem quer que seja que somos filhos de José Felipe Adão.

Parabéns, PAI.

Aceite esse singelo cafezinho virtual, mas não se sinta liberado da bagunça física. Sábado próximo estaremos toda a família aí, filhos, filhas, genros, noras, netos, bisnetos, sobrinhos, agregados e amigos reunidos para comemorar muito.

terça-feira, 25 de maio de 2010

SIGLAS

Peguei meu CPF e fui à SRF resolver pendências do IR. Caí na malha fina e fui convocado. Peguei o 2212B, a linha do meu bairro que passa lá perto.. Minha senha de atendimento foi 32 AD. Fui falar com o chefe da seção, que me pediu os comprovantes dos rendimentos que declarei, bem como das despesas pagas. Saí de lá e passei no INSS, pois o mesmo não mandou o meu extrato de benefícios (CR). Lá eu sou a matrícula KAV 9196, um beneficiário qualquer. Antes, no entanto, tive que solicitar uma informação a um vigilante cujo crachá não traz o seu nome, apenas Colaborador da SEGUR. Depois passei na CEMIG, a concessionária de energia do estado para obter uma segunda via de CR, que já quer dizer comprovante de residência e não de rendimentos como na previdência. Nessa não me exigiram CPF, mas solicitaram meu RG e o identificador da minha casa. É um código numérico por onde me mandam luz não importando quem eu sou; sou aquele identificador, desde que não atrase o pagamento. Nesse último caso passarei a ter nome. Ou será que me cobrarão a dívida através do meu CPF e no SPC?



E tem gente que diz que a gente não tem boa memória. Já notou a quantidade de siglas e números que somos? Não falei de umas dezoito senhas que possuo para internet de, acesso a páginas onde sou cadastrado, bancárias, números dos telefones fixo e celular, os números do manequim e calçado (embora muita gente por vaidade gostasse de esquecer). Sem contar o outro lado que não tem siglas mas é tudo impessoal do mesmo jeito. Há lugares e situações em que somos contribuintes, consumidores, usuários, beneficiários, devedores, réus, vítimas, transeuntes, passageiros, portadores, cidadãos ufa! Isso é fruto do hábito da redução simplificadora que reina no meio da civilização ou é o desmerecimento com o ser humano? Não importa, não é? Provavelmente os mais reducionistas vão dizer que isso é chatice de um cronista e se perguntarem qual dirão: acho que é um tal de JCA.



E na minha lápide provavelmente estará uma placa assim:

J.C.A

(viveu um pouco no século XX e o resto no XXI)

Baixado no cartório civil sob o nº ....

No de títulos e protestos sob o nº...

segunda-feira, 24 de maio de 2010

LINGUAGENS

Durante um tempo eu morei no centro da cidade. Belo Horizonte oferece aluguéis baratos na região central por possuir prédios sem garagens e apartamentos pequenos. Coisas para gente só ou sem muito dinheiro. Essa última qualidade acaba atraindo muitos estudantes que vêm para capital formar as famigeradas repúblicas estudantis. Ali, ninguém é só, mas quase sempre gente de pouco dinheiro. Tudo fica mais em conta, exceto o ruído e o tumulto. Também, nem tudo é perfeito, não é mesmo?

Na época em que os cinemas ainda não eram igrejas e nem nos shoppings, eu morava bem próximo ao cine Palladium, um cinema mais voltado para filmes de bang-bang e erotismos vulgares. Durante o dia, o seu hall era repleto de pessoas de uma comunidade: os surdos-mudos, que ali se comunicavam freneticamente, numa agitação parecida com uma feira de aflitos. E muita gente ia para lá aprender ou para ensinar a linguagem de sinais. Eu era um desses aprendizes. Quando não tinha o que fazer, ficava ali observando e tentando estabelecer um diálogo de surdos. Aprendi um pouquinho, muito pouquinho. Não havia assiduidade de minha parte.



Se tivesse aprendido tudo, pode ser que eu não ficasse hoje imaginando coisas que talvez tenham sido, talvez não. Por exemplo: outro dia eu estava parado à porta de um restaurante lá perto da escola de minha filha esperando por ela. Chegou um mudo e abriu a mão em minha direção e nela havia duas moedas. Acho que ele queria mais. O gesto que ele fez, eu entendi que era para inteirar o dinheiro para que pudesse almoçar. Eu respondi que não tinha. Fiz um gesto dizendo que eu poderia lhe pagar um almoço com o cartão. Não sei se não me fiz entender ou ele não tinha a intenção de almoçar naquele lugar. Aí a minha dúvida já aumentou. Nem sabia mais se o dinheiro era para o almoço. E gestos para lá, gestos para cá, ele abanava o dedo negativamente e me fazia aqueles movimentos de halterofilista quando se prepara para levantar um peso e a comunicação não se estabeleceu. Notei que ele ficou me olhando de cima abaixo enquanto fazia seus sinais e com um risinho meio irônico de canto de boca. Depois fomos cada um pro seu lado. E eu saí cabreiro e aborrecido quando fui resolvendo o enigma (suponho): e entendi bem depois. Ele quis dizer que eu já estava bastante gordo e não precisava almoçar. Ele sim.

domingo, 23 de maio de 2010

DESMERECIMENTO EM PROSA - "TÁ PEGANDO QUEM?"

A contabilidade já foi uma fria matéria de números resultantes das perdas e ganhos de financistas e produtores em geral. Agora está nos quentíssimos diários de beijos das meninas e nas embaladas conversas de meninos. Quantos beijos e quantas namoradas(os) no melhor estilo: - “tá pegando quem?” como se tirassem alguma mercadoria da prateleira para usar e devolver ou jogar fora e trocar por outra mais vistosa, cheirosa e gostosa. É um termo usual, muitos poderão dizer que é da moda, é da onda, é maneira, véi. Eu tô ligado, mas não me conformo mesmo assim. Entre tantos insultos à dignidade humana, entre tantas insignificâncias que estamos adquirindo para suprir nosso lado gente e empatarmos pari passu com as mercadorias, “tá pegando quem?” para mim está num dos primeiros lugares em termos de desmerecimento humano.



Hoje, tratarmos esse termo por conta das idéias de machismo e antigos ideais de feminismo não encontra mais eco no meio da juventude que sequer se dá ao trabalho de pensar a individualidade e a auto determinação como valores psicológicos e sociais. Estão em sua maioria nos embalos do que ditam os valores econômicos para serem transmitidos subliminarmente ao seu comportamento. Individualismo é a palavra mais apropriada para se conceituar as bases que sustentam o trato entre uma pessoa e outra ou entre uma pessoa e o restante da coletividade. É desmerecimento à medida que não se buscam mais outras formas de se qualificar relações fora de um sistema que envolva recompensas materiais palpáveis e imediatas. Qualificar, aliás vem sendo um gesto afirmativo de quanto vale, quanto custa, qual o resultado em termos de ganhos. Usurpou o significado de quantificar. Não arreda pé de um materialismo insistente em ser a única forma de valoração humana. Assim, o “Tá pegando quem?” significa uma materialização do indivíduo em um formato de coisa , de objeto de uso e descarte. Claro que os sentimentos podem acabar aflorando em algum momento, mas ele dificilmente vai se descolar da base que o originou: o ser coisa-propriedade, bem de consumo. Aí, quando e se aflorarem sentimentos é que vai ser determinado se o bem será de consumo durável ou não durável, tal como fazemos com os objetos e utensílios que nos emprestam alguma serventia no nosso dia-a-dia. Talvez por isso, complementem o desmerecimento tão gravemente com a uma ameaça velada a quem não se enquadra ou não quer fazer parte do jogo por qualquer motivo, dizendo: “a fila anda”.

sábado, 22 de maio de 2010

DESMERECIMENTO EM PROSA - PRECONCEITO

Há fenômenos que são tão evidentes, são tão marcantes, são tão universais que dá para falar deles sob muitos pontos de vista. inspiram muito, provocam muitas emoções e são racionalizados também por conta de sua manifestação. Uma lua cheia e o preconceito, por exemplo, são dois temas de que se pode falar de inumeráveis formas. Apesar de o primeiro ser um fenômeno natural e encantador e o outro ser um fenômeno social e assustador.



Um dia, véspera de final de um ano qualquer, o jornalista Boris Casoy falou em pleno jornal que estava no ar na televisão em rede nacional que os dois garis que desejavam feliz ano novo ao povo brasileiro eram o tipo mais baixo na escala social. Eles não teriam então o direito nem de desejar a tão sonhada felicidade para o próximo. É uma forma legítima de pensamento, essa do Boris, já que historicamente a elite nacional vive mesmo da hipocrisia, almejando resquícios de nobreza e jogando o lixo debaixo do tapete para os seus serviçais sem nenhum valor limparem depois. Um estudante de pós-graduação em psicologia da Universidade de São Paulo (USP) fez uma brilhante tese sobre a invisibilidade que têm certas pessoas na sociedade pela profissão que exercem. Na hierarquia de valores, o peso humano é medido pelo status não somente financeiro mas também profissional. Ele ficou oito anos passando-se por gari dentro das dependências do campus e não era notado pelos colegas e professores. Disfarçava-se com um macacão e vassoura nas horas que não estava nos estudos e assim passava incógnito durante a varredura à cata do lixo universitário. Pode-se considerar isso como um preconceito usual que estamos habituados a lidar. O aluno da USP conta que seus professores, colegas e orientadores passavam por ele e sequer olhavam em seu rosto. Dar bom dia, ou boa tarde, nem pensar. Parecia uma parte da paisagem daquele belo campus, menos notado, o entanto, do que os elementos fixos da paisagem tais como árvores, postes, prédios e outros ornamentos. Ele se movia, portanto não chamava a atenção. A sua ausência e não a presença somente seria notada se o campus deixasse de ser varrido ou o lixo fosse acumulando. Quanto ao Boris Casoy, dispensa comentários. Não creio que seja uma pessoa que mereça tecer considerações ao seu comportamento por trás de sua máscara verborrágica usando aquele bordão “é uma vergonha”.



Não há de medição para o preconceito. Todos são abomináveis. A desclassificação é a chave nesse terreno onde entra uma velada disputa. Se o ser humano não compete como os animais pela sobrevivência através da eliminação e o alimentar-se do outro literalmente, procura destituí-lo de qualidades para se sobressair. Isso é sobrevivência. Não importa a que preço. Um preconceito também indica o formato piramidal da sociedade. Quando se olha alguém de menos posse e lhe é dado tratamento diferenciado. Quando se olha uma pessoa de cor diferente e se faz julgamento considerando uma cor melhor do que outra, ou quando transforma a pessoa da outra cor em uma raça distinta e inferior. Quando se tem bens e se ganha reverência onde quer que se vá em função do patrimônio. Quando se trata a sexualidade diferente como deplorável. Enfim, eis mais uma forma de desmerecimento.



E temos os cúmulos: já ouvi de diversos donos de cães que quando estes se agitam muito diante de pessoas negras é por não gostarem da cor. Uai, pelo que consta dos conhecimentos científicos os cachorros não possuem a faculdade de distinguir cores! Então, quem é que não gosta?

sexta-feira, 21 de maio de 2010

DEIXE PARA A HISTÓRIA DE SUA VIDA UMA NOTÍCIA NOBRE *

NOTA PRELIMINAR: Eu havia escrito esta crônica no início desse ano, no entanto havia desistido de publicá-la por achar que estava me tornando impertinente, irritante e implicante com o tratamento demasiado humano aos animais em detrimento das relações humanas propriamente. Costumo acompanhar a Rosely Sayão, uma psicóloga especializada em relações familiares e educacionais, tanto através de seu blog como no programa SEUS FILHOS, junto com a jornalista Inês de Castro, apresentado pela rádio Band News. Para minha surpresa, ontem o tema foi sobre pais que estão negligenciando carinho e atenção aos filhos em troca do amor aos cachorros e gatos. Isso, pelo menos para mim seria sim, o famoso e indesejável “fim do mundo”. Para quem se interessar, leia, para quem acha que é exagero, o programa vai ser narrado neste sábado próximo. E, copiando o Raul Seixas, “para aqueles que acharem que eu tô mentindo, eu tiro o meu chapéu.”








A NOTÍCIA

Animais de estimação têm luxo e mordomia ao alcance das patas.



Os animais de estimação não têm do que reclamar. Em julho/09 começou a operar a companhia aérea americana Pet Airways, a primeira destinada a bichinhos de estimação. O avião leva 19 humanos e até 50 animaizinhos, porque as fileiras de bancos foram substituídas por gaiolinhas próprias para cães e gatos. Essa, porém, não é a única mordomia do reino animal. Roupinhas, acessórios de beleza, camas confortáveis, perfumes, alimentação balanceada, festas de aniversário, ofurô, personal dog, docinhos e até produtos inspirados em artigos de grife de moda fazem parte da extensa lista.


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Fonte: http://mulher.terra.com.br/interna/ 6/08/09.


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A CRÔNICA


Estou pensando seriamente em fazer uma série de crônicas apenas falando de cães e gatos. Acho que meu assunto já está ficando cansativo. Daqui a pouco não sei se vão ter assuntos fora de eventos oficiais onde os homens vão falar alguma coisa com os outros homens. No mais é com os bichinhos. Daqui a pouco também vou começar a sofrer ataques me insinuando como insensível, desumano (?). Tenho um álibi: possuo cachorro. Só que ele, apesar de bem cuidado, é tratado como cachorro.



Qual a diferença ente crônica, grave e aguda? Sei não, mas eu queria que este texto pudesse se chamar grave. Gravíssimo para ser mais contundente.



Como é bom acompanhar a evolução da humanidade! Eu agora quero propor eliminarmos de circulação popular alguns ditados ofensivos dos humanos relacionados aos animais. Alguns substituir. Coisas do tipo:



“Quem não tem cão caça como gato”. Ora quem não tem cão que arranje um imediatamente e cace logo algo para que se conforte. E gatos são para leite como ratos para queijos.



“Mais perdido que cachorro caído de caminhão de mudança.” Qual caminhão, o que vai levar os móveis? Onde já se viu misturar móveis com cachorro? Ele vai no carro da família. Só não é no banco da frente por causa da incompreensão das autoridades de trânsito. Os guardas ainda não evoluíram o bastante. Vão entender que, com cinto de segurança os bichinhos ficam comportadinhos na frente.



“Gato escaldado em água quente...” O que? Isso passa a ser crime inafiançável!



“Cão que ladra não morde.” Substituir para cão que ladra está carente de afeto. Já temos cirurgias de extirpação de suas cordas vocais. Latir é com cães sem teto, famélicos moradores de rua, que não despertaram ainda a sensibilidade das autoridades para lhes dar abrigo.



“Nós gatos já nascemos pobres, porém já nascemos livres.” Bom, nascer pobre é destino, viver como pobre é com os burros. Vai ter vida boa, porem dentro do conforto de um lar. A liberdade? Ora, tudo tem um preço também, não é gatinhos?



“Sofrer mais que cachorro zangado” será substituído por sofrer mais que menor abandonado. Meu único medo é se começarem a querer dar o tiro de misericórdia nas crianças de rua também.


* O título é parte de um trecho da música Rock da Cachorra , de Eduardo Dusek.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

BOM EM QUALQUER ÉPOCA - MANIA DE EXPLICAÇÃO

Há tanta produção literária por esse mundão, tanta coisa que tanta gente tem acesso e muito mais coisa que tanta gente não tem que pelo bem do conhecimento humano e da literatura, acho que toda oportunidade que tivermos para aumentar a visibilidade de textos bons não pode ser perdida. Selecionei alguns que acho que precisam de quando em vez ser divulgados pelas suas qualidades inumeráveis. É só mais uma forma de dar ainda mais vida à sua imortalidade. Só lendo para qualificar. E isso cabe ao leitor.




 
MANIA DE EXPLICAÇÃO *



(Adriana Falcão)



Era uma menina que gostava de inventar uma explicação para cada coisa.



Explicação é uma frase que se acha mais importante do que a palavra.

As pessoas até se irritavam, irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio de seu peito, com aquela menina explicando o tempo todo o que a população inteira já sabia. Quando ela se dava conta, todo mundo tinha ido embora. Então ela ficava lá, explicando, sozinha.

Solidão é uma ilha com saudade de barco.

Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança pra acontecer de novo e não consegue.

Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo.

Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer "eu deixo" é pouco.

Pouco é menos da metade.

Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.

Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro de sua cabeça.

Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego.

Agonia é quando o maestro de você se perde completamente. Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair de seu pensamento.

Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa.

Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára.

Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.

Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.

Renúncia é um não que não queria ser ele.

Sucesso é quando você faz o que sempre fez só que todo mundo percebe.

Vaidade é um espelho onisciente, onipotente e onipresente. Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.

Orgulho é uma guarita entre você e o da frente.

Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja.

Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada especialmente.

Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.

Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.

Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.

Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração.

Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é fevereiro.

Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.

Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.

Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho.

Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia.

Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.

Perdão é quando o Natal acontece em maio, por exemplo.

Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.

Excitação é quando os beijos estão desatinados pra sair de sua boca depressa.

Desatino é um desataque de prudência.

Prudência é um buraco de fechadura na porta do tempo.

Lucidez é um acesso de loucura ao contrário.

Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.

Emoção é um tango que ainda não foi feito.

Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.

Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.

Desejo é uma boca com sede.

Paixão é quando apesar da placa "perigo" o desejo vai e entra.

Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não. Amor é um exagero... Também não. É um desadoro... Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego? Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor ela não sabia explicar, a menina.



 


* Este é um livro famoso, bom para crianças desde a mais tenra idade, até a idade em que a inquietação faz a gente não perder de vista o que seja inquietação. Eu o considero como um texto que ensina brincando, o que é a maneira mais rica de se aprender. Já foi também adaptado para o teatro.







 








quarta-feira, 19 de maio de 2010

SEGUNDAS INTENÇÕES

Dificilmente se vê hoje pessoas movidas pelo altruísmo. Ô palavrinha boa! Altruísmo para mim compõe uma mistura onde entram desprendimento, doação, boas intenções, generosidade, solicitude. É daquelas palavras de sentir. Tem umas palavras que nos tocam de uma forma que vai além do seu significado do dicionário. Ainda mais num tempo onde a abnegação tem se tornado uma das coisas mais raras que existem. Elas passam a ter uma espécie de substância que dá vontade de pegar e colocar no bolso, já que não dá para abrir o peito literalmente. Mas elas acabam entrando e saindo na forma de exteriorização em gestos altruístas, nesses poucos (e louvados sejam) seres.

Somos moldados desde muito cedo para agir por meio de recompensas, a partir do choro recém nascido que é acalmado com o peito, mamadeira ou colo. Depois, a satisfação de vontades e os limites que se recebe determinam o que vai ser dado em troca. Acontece principalmente na infância e adolescência. Daí para frente, está instalado o sistema de interesses. Não quero dizer com isso que mais tarde todos vão agir exclusivamente por interesses egoístas. Os interesses individuais são legítimos e aceitáveis dentro de um convívio ético. Do discernimento que cada um aprende com os recursos que lhe foram passados e com sua própria capacidade de negação e afirmação, do uso de seu livre arbítrio, é que nascem e crescem as pessoas que se desvencilham do interesse puramente particular e se propõem a uma vida de partilha, de pensar no outro e se tornam amigas, companheiras, benfeitoras. O interesse pessoal pode estar até mesmo em ser útil, de fazer a pessoa sentir-se bem sendo boa.



Do oposto do altruísmo, no entanto é que quero falar. Ele se manifesta em forma de ganância, inveja, sentimento de inferioridade, baixa estima agressiva e instabilidade emocional. Há estímulos externos que contribuem ainda mais para aumentar o peso dessas más companhias no indivíduo. Por exemplo? O apelo insistente ao sucesso pessoal que chega a tornar muita gente arrivista. Na maioria das vezes, o desejado não é propriamente o que o outro possui em termos materiais vistosos. Isso pode ser conseguido. Mas acaba sendo aquilo o que o outro é ou representa. Mesmo que não seja muita coisa, a insatisfação permanece nesse desejoso do alheio. Ele poderá conseguir tudo o que estiver ao alcance ainda assim não aplacará sua ganância, não se realizará o seu misterioso e obscuro intento. Acho que aquela velha e surrada dicotomia do ser e do ter fica balançando nessas cabeças de pouca ou nenhuma serventia para a nossa companhia. Quando as pessoas se aproximam de nós armadas até os dentes, talvez seja até mais fácil de lidar com a situação. Embora isso não as tornem menos incômodas do que quando a aproximação se dá da forma mais sutil e dissimulada que pode existir. Sabe aquela gente que se faz de amiga, de interessada em tudo na nossa vida, de uma hora para outra se apresenta como solícita e preocupada com o nosso bem estar? Pois, é: aí que mora um certo perigo quando a gente abre a guarda. Não por frouxidão, mas às vezes por boas intenções ou de pura carência. A turma do “tapinha nas costas” é, geralmente da mesma equipe que quer dar o soco, por tantos motivos insondáveis e outros mais evidentes, a ponto de suscitar aquele velho ditado “quando a esmola é demais até o santo desconfia.”

terça-feira, 18 de maio de 2010

SEM INTERNET

Quem consegue viver sem sentir uma saudade é porque não viveu o motivo. Eu vivo falando sobre o que já foi, o que fui e o que é. Dá uma vontade danada de vir a ser em muitas vezes, não voltar a ser em várias outras e ou fazer tudo de novo do modo como a experiência ensinou. Tecnologia demais e muito rápido faz aumentar a sensação de saudosismo.

Não sei se foi um vício que criei com a internet ou se ela sozinha conseguiu sozinha se tornar essencial ao meu dia-a-dia. Para publicar eu já tenho certeza. Para o resto ainda estou testando. Outro dia eu li numa entrevista com o Antônio Fagundes ele dizer que é avesso à internet pelo fato de que as tecnologias criam necessidades que a gente não tinha.

 
A respeito do meu teste: resolvi fazer uma proposta de ficar uma semana desconectado. Um blecaute voluntário. Se bem que as operadoras e os provedores já costumam fazer isso com a gente sem pedir licença nem perdão. Mas nesses casos, a gente não tem tempo de curtir a sua falta. A indignação nos faz buscar outros meios rapidamente enquanto ouve as gravações que são feitas para nos enrolar quando eles dizem estar sanando os problemas. Fiz uma proposta para mim e mais três pessoas de meu convívio diário. De cara, a minha filha não topou. Já pensou um jovem praticamente nascido e criado na era eletrônica ficar sem internet um dia? Que inferno seria para quem está em sua volta! Eles usam o celular até para ir ao banheiro!

- Pai, deixa de ser velho, isso não existe!

Um outro amigo lá de minha cidade me disse

- Olha, lá em casa eu posso até tentar, mas não tenho como fazer o trato, porque no trabalho eu sou obrigado. Então pensei que o meu outro amigo que mora lá no sul do estado, na zona rural, criando galinhas poedeiras (ele vende ovos caipiras). Esse aí, eu achei que um radinho de pilha o contentaria, ele me responde:

- Quer me dar prejuízo, meu caro? Um dia aqui sem internet, eu perco a chance de oferecer omelete, sacou? Internet para mim é sinônimo de omelete na mesa dos outros. Eis que fiquei sozinho na minha saudade auto estimulada. E vi que posso fazer muitas coisas como ler um livro com mais calma, passear quatro horas de bicicleta em vez de duas, levar o cachorro para um passeio para emagrecer, pois acho que a sua gordura é do sedentarismo por culpa da internet que me deixa sentado aqui o dia inteiro , cuidar melhor das plantas do jardim . Escrever eu escrevo de caneta, mando carta pelo correio, procuro palavras no Aurélio, pesquiso em bibliotecas nos livros de papel. E essa crônica não é sobre bancos, mas de banco eu tenho trauma. É o lugar onde o ser humano é mais vulnerável, do ponto de vista sócio-econômico. Se eu tivesse conseguido o pacto topava até atrasar umas contas. Esse eu prefiro na internet.
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