Os carros brasileiros melhoraram muito de uns tempos para cá. Uns para acompanhar a concorrência cada dia mais veloz e ousada; outros apenas para obedecer uma a legislação que vem evoluindo (devagar) com relação à segurança. Desde pequeno, por exemplo, eu me lembro que eles já vinham com cinto de segurança mas ninguém usava. Não era obrigatório. E no quesito tecnologia , isso não era lá muito observado. Eles não desenvolviam muita velocidade e em quantidade eram poucos. Ainda bem, pois não possuíam muita estabilidade nas curvas nem muita segurança de forma generalizada. Isso já faz um bom tempo.
Dois acidentes que eu vi na infância e não esqueci mais. Nas duas vezes presenciei portas de carros se abrindo em plena curva ou numa virada de esquina e os motoristas despencarem no chão. Cair do carro é mole? Pois é, hoje, não se vê mais gente caindo por ai mas muitos ainda se esquecem de usar o cinto.
Eu trabalhava numa mineradora grande e lá havia daqueles caminhões que transportam mais de 100 toneladas de uma só vez. Para quem não sabe ou nunca viu fica difícil imaginar o tamanho de um bichão desses, né? Pois então saibam que só os pneus têm mais de três metros de diâmetro, quase da altura de uma casa. Do chão até o lugar mais alto do caminhão, são mais de seis metros, da altura de um poste de iluminação. Eu trabalhava na manutenção e a empresa começava a implementar um sistema informatizado de controle. Os caminhões tinham portas bem vedadas e o motorista trabalhava com elas bem fechadas para se livrar do intenso ruído que os caminhões faziam, bem como para se livrar da poeira imensa que era gerada na mina dia e noite. Lá dentro ele tinha ar condicionado. Uma dessas portas estragou a fechadura e o operador fez uma gambiarra e trabalhou ainda o dia inteiro. Ao final do expediente solicitou à manutenção o conserto. Foi feita uma ordem de serviço com os dizeres. “Corrigir porta amarrada com arame.” Com o tempo, rindo muito das curiosidades que encontrava nas anotações que eram feitas nas ordens de serviço depois de concluídos, passei a notar o quanto a tecnologia demora para acabar com hábitos arraigados ou , em outras situações, o quanto o homem convive com ela sem deixar de manter sua ligação com as tradições antigas e com as coisas próprias de sua natureza. Duas que ficaram registradas na memória: sobre a porta, o mecânico escreveu:
“Foi corrigido o problema. Trocado o arame velho por um novinho.”
De outra feita o motorista solicitou que se verificasse um ruído anormal atrás da cabine de comando (da boléia). O mecânico colocou:
“Ora, era só um ninho de passarinhos perto do trocador de calor. Como o lugar é bem quentinho eu fiquei com dó de tirar. Pode trabalhar sossegado e não se incomode com o barulho. Quando der filhotes eles saem sozinhos”.
O meu avô primordial era o Adão, aquele mesmo do mal falado jardim do éden. E fez questão que minha família preservasse o seu nome no nosso sobrenome. Muita gente me diz, mas você é José Cláudio Adão, três nomes próprios? Ao que eu respondo que o José e o Cláudio foram resultados de um acordo possível depois de uma disputa ferrenha entre minha mãe e meu pai; e o Adão é herança genética (do gênesis). Mais sagrado que broa de fubá (pelo menos aqui em Minas Gerais). Assim, a linhagem dos Adão foi constituindo uma família não muito numerosa até chegar no meu avô mais recente, o Joaquim Adão, que vai ter um papel importante no meu desenvolvimento psicológico. E só isto, pois todas as outras contas foi meu pai quem pagou.
Menino quando é meio adiantado na escola, já ficam logo querendo que escolha o que vai querer ser depois de grande. E ele é quem me aconselhava nas minhas dificuldades pretéritas. Me via jogando bola e eu me queixando que nunca seria uma craque. Ele só olhava, caladão. Me via tocando violão e me queixando que não seria um grande músico, jamais. E ele não ajudava nem a cantar. Até que me viu cozinhar pela primeira vez e ao provar, não resistiu e lascou a sua sentença, por que dizia que os sábios só dizem pérolas, motivo pelo qual falam tão pouco. Me chamou a um canto e disse:
- Bem, gostoso não tá, não! Mesmo assim, acho melhor ir tentando. É melhor ser ruim em muitas coisas do que ser especialista em uma só. Veja o exemplo desse tal de Freud, (falava do jeitinho que se escreve; ele não pronunciava Fróid). - Quis se especializar na cabeça dos homens e só arranjou confusão. Dizem que sua mulher o despachou de tanto que ele refugava as obrigações do lar. Só pensava naquela massa disforme que compõe a cabeça da maioria dos mortais. E ainda por cima recomendava procurar o eu da gente nos outros. Você, meu neto, é filho de operário, tem que procurar seu eu é na secretaria de segurança e no ministério do trabalho. Assim que formar, já tire logo a identidade e a carteira profissional e vá trabalhar. Isso é que faz um eu de valor.
Eu sei é que de lá pra cá, tentei me especializar em alguma coisa. “Focar”, usando um termo mais focado na moda. Ora, lá na minha terra já teve um sujeito famoso, o Carlos Drummond. Ele, que depois de ser conhecido por demais com a poesia, ficava deprimido de vez em quando com essas coisas, dizendo que “teve gado, teve ouro e teve fazenda e depois virou “apenas” um funcionário público.” Por que eu não hei de achar uma especialidade?
Usamos uma parte quase insignificante da nossa capacidade cerebral. Eu atribuo isso à falta de conhecimento que temos de nós mesmos. Quanto ao cérebro, no entanto, temos especialistas para cada parte dele. Córtex, lobo frontal, parietal, neurônios, massa encefálica, veias, vasos e o escambau. Os especialistas não nos explicam muito por que eles também não conseguiram ainda apreender o funcionamento de todo o conjunto. O escambau, por exemplo, é uma área ainda estranha... Então, qual o remédio para quando há problemas? Exatamente medicamento. Atua naquele ponto específico e se der um outro probleminha, lá vamos nós para outro especialista ou trocam o remédio e assim sucessivamente até a morte nos apanhar em plena dose de medicamento ou num ataque súbito.
Mesmo não conhecendo toda a capacidade cerebral, o homem inventou o computador, essa máquina que se assemelha, mesmo que com mais pobreza, ao funcionamento cerebral. E nós, por consequência, também não conseguimos usar nem a metade das coisas que ele nos disponibiliza. Creio até que se fosse uma pessoa só ou um grupo de pessoas que se reunisse e criasse a máquina desde a concepção, montagem e programação, seria mais fácil disseminar os conhecimentos de forma que muitos pudessem aprender a totalidade do funcionamento. Se bem que Deus fez isso com o cérebro humano sozinho. Mas, ah, deixa pra lá, Deus é Deus. Ocorre com o computador, que um inventa uma parte aqui, vem outro e aprimora, vem depois um terceiro e modifica tudo e assim vira esse negócio maravilhosamente assustador. Depois, cai em nossas mãos e vamos nós, com a nossa ínfima capacidade cerebral usar o mínimo que nos é possível da capacidade computacional. Aí está feita a confusão.
Por que esta história? Por causa de outra que eu vou contar. O meu pai ganhou um computador. Ele não tem familiaridade nenhuma com Word, Excel, internet, blogs e mais esse tanto de coisa que nem caberia aqui se fosse citar apenas as que eu conheço (pouquíssimas). Então como fazer? Alguém fez um blog para ele. Outro fez um e-mail, outro chegou e tentou explicar como copiar fotografias e imagens em geral para ilustrar textos que ele fizer. Outros, o fácil “copiar e colar”. Qual e-mail pode abrir sem medo de vírus? Os poucos cabelos que ainda lhe restam estão por cair. Isso se não aparecer um personal computer (acabei de criar). O cara que vai lá na casa dele uma ou duas horas por dia dar aulas particulares, senão não terá jeito. Vai virar uma peça de enfeitar a sua sala, é bem bonitinho o conjunto.
Então, com tanto personal por aí, anglicisticamente estou propondo a criação do “personal net.” O cara que vem na sua casa lhe ensinar a acompanhar o surgimento e as mudanças diárias e velozes das opções e recursos. Muita coisa é travestida de novidade, tipo corpo sujo com roupa limpa. Imaginem cobrar 20, 30 reais por hora para ficar à disposição para ensinar a controlar o HTML, o facebook, o twitter, o blog, o tal de rss... Se aparecer, vou ter que arranjar dois, pois moramos em cidades diferentes e eu também preciso tanto...
O servente de pedreiro Ademir Gonçalves quase causa a morte da mãe ao comparecer ao velório dele mesmo em Santo Antonio da Platina, Paraná. Um indigente morreu em um atropelamento na BR-153 e teve o corpo reconhecido como sendo de Gonçalves.
O corpo estava sendo velado na madrugada por familiares e amigos. E no início da manhã, o "morto" apareceu no próprio velório, surpreso com o que via e assustando a todos.
Logo, o engano foi esclarecido. O defunto era muito parecido com o servente de pedreiro, o que levou até a própria mãe de Gonçalves a confundí-lo no momento do reconhecimento do corpo.
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E se fosse diferente? Então os mortos passariam a aparecer no próprio velório em carne viva e olhos arregalados para conversar o último assunto que gostariam de ter com uns vivos. Aqueles de quem gostavam e de quem também não gostavam. Uma espécie de acerto de contas “post mortem” rapidinho. Apesar da presença física eles não teriam poder, por exemplo, de dar umas porradas em desafetos que lhe azucrinaram em vida. Por outro lado também não sentiriam dor em caso de levarem uns bofetes de acerto ou de revide.
Mas já imaginou o quanto de problemas não poderiam ser resolvidos com simples conversas em velórios? Quantas máscaras cairiam ante o morto questionando algum choro fingido? Um afago que pode curar uma dor que parece não acabar pela perda do ente querido? Quantos acertos de dívidas com o passado? Quanto alívio isso não provocaria em quem fica? Quanto de substância não palpável poderia ser adquirida num simples velório? Passaríamos a aprender com o eflúvio?
Eu imaginei que se fosse eu e houvesse essa possibilidade, a primeira coisa que faria seria ser pedir perdões. Talvez, com tantos que tenho por rogar eu conseguisse até mesmo acabar com todo o chororô no recinto. Cumpriria o ensinamento da oração do Pai, perdoando a quem me ofendeu e solicitando o perdão pelas minhas ofensas. Essa deve ser a hora em que se torna mais fácil a obtenção e concessão do difícil perdão mútuo.
Tenho certeza que todos iam ouvir um morto. Na dúvida se ele esteve em outra dimensão, iam ouvir. Ouvir com a devida introspecção, coisa que não se costuma fazer em vida. Creio que nessas condições um morto se torna um sábio automaticamente. É tudo que todo mundo pobre ou rico quer ouvir: palavras de um morto. Para muitas coisas. Abnegações, arrependimentos, súbitas bondades, velhas paciências, desprendimentos e compreensões de toda sorte. Também maldades irreparáveis para quem não se importa jamais com culpas de qualquer natureza.
Arcanjo Isabelito Salustiano é um filósofo considerado “a voz das ruas”. Não é título concedido por nenhuma autoridade eclesiástica nem acadêmica, nem vem de nenhum tribunal superior. Foi ele mesmo que se auto concedeu por achar que a filosofia tem que fazer parte da vida cotidiana mais do que aquelas que são consideradas apenas ditados populares, convertidos em filosofia de vida.
Então, ele vive na tocaia. Não no sentido pejorativo que essa palavra carrega. Como é mineiro, sabe muito bem que esta palavra pode ser empregada em vários sentidos, inclusive, tocaia mesmo. Observa a tudo caladinho e depois, solta o verbo, sujeito e predicado também, para não ficar parecendo coisa de malandro nem de traíra.
Na última viagem que fez, visitando as belas praias do litoral nordestino, passou por Natal, a terra do sol, do sal, do petróleo e de Zélia Maria Freire, a grande filósofa, cronista e poetisa daquela cidade de natureza exuberante, lindas praias e uma receptividade inigualável. Ela deu-lhe uma colherinha de chá, duas de cerveja e três de pinga (da boa). Além disso, concedeu uma entrevista, que está sendo publicada no Recanto das Letras e no blog de seu pai , o Adão (José Cláudio Adão). Confiram aí as importantíssimas, seriíssimas, profundas, bem humoradas e pedagógicas opiniões da nossa querida Zélia, em prosa, verso e alegria.
ENTREVISTA
Meu caro filósofo, como preâmbulo desta entrevista, vos digo que, pelas sete perguntas feitas me lembrei de Plabo Neruda, que fez esta indagação: Cuantas preguntas tiene um gato. O que respondeu o poeta Diógenes da Cunha Lima no seu livro de Respostas: Sete. Cada vida é uma pergunta.
P: Quando nasceu um anjo torto, desses que vivem nas sombras, disse: - vai ser gauche na vida?
R: Não, não disse, só ouvi dele: Não! Não,! Não pode, não pode, não pode...
P: É uma cidadã comum, como essas que se vêem na rua? É feito aquela gente boa, honesta e comovida?
R: Sou uma cidadã comum e honesta. Quanto à comoção... Fico cá a imaginar até onde o sofrimento de verdade e a desgraça de ficção nos atingem... Um escritor amigo meu de nome Mário Moacyr Porto, costumava dizer que o bem e o mal só existem para nós como forças contraditórias quando passam da condição de juízo de valor do raciocínio para a categoria de estado emocionais, vividas pela nossa imaginação. O espetáculo da miséria humana, as brutalidades do egoísmo o sofrimento real e irremissível dos nossos iguais não nos tocam como realidades sensíveis e contagiantes. Não vamos às lagrimas diante de um pobre mendigo faminto que nos pede ajuda. Mas sentimos comoção e choramos, sim, assistindo o sofrimento de ficção revelada por qualquer forma de expressão artística.
P: E a vida?: E a vida o que é, diga lá, minha irmã?
Tijolo por tijolo num desenho lógico ou só o amor constrói?
R:Tem um conto sueco que o bem-ti-vi faz esta pergunta. A roseira respondeu que é desenvolvimento. A borboleta disse que a vida é só alegria e brilho. A formiga disse que a vida não é mais do que trabalho e cansaço. A abelha disse que a vida era um misto de prazer e trabalho. O rato disse que a vida é uma luta no escuro. A chuva disse que a vida consiste só em lágrimas. A águia disse que a vida é um esforço pra subir. Uma árvore curvada disse que a vida é inclinar-se sob uma força maior. A coruja disse que a vida é aproveitar as oportunidades enquanto os outros dormem. Um rapaz que caiu na relva cansado de dançar e beber disse que a vida é uma busca constante de felicidade e uma corrente de decepções. Finalmente , a aurora levantou-se em toda sua plenitude e disse: assim como a dia é um instante da vida, assim a vida é um instante da eternidade.
P: A dor da gente não sai no jornal? Ou cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é?
R: eu sou o que sou. Dor... quem já não as teve? Delícia de viver... Conheço.
P: Vastas emoções e pensamentos imperfeitos?
R: São tantas as emoções já vividas... Pensamentos? Acho que são tortos.
P: Quanto mais a gente ensina mais aprende o que ensinou?
R: Vamos lá: faz de conta que eu ensino, você faz de conta que aprende e juntos chegamos à conclusão que eu nada ensinei nem você nada aprendeu.
P: Viver e não ter a vergonha de ser feliz?
R:Viver é não ter vergonha de si próprio. Quanto ao ser feliz, como é um estado de alma, feliz hoje... amanhã quem sabe...
Obrigado, Zélia! Paz e bem.
Obs: as perguntas foram adaptações de trechos de letras de músicas e frases de livros.
P.S: Esta entrevista está também publicada na página da Zélia MariaFreire.
*Arcanjo Isabelito Salustiano é um personagem meu.
Quando penso em fronteiras me vem à mente um outro pensamento não geográfico. A normalidade e a loucura. Essa é a minha fronteira imediata para pensar. Até onde vou com meu pensamento? Até onde a loucura não é o que me conduz? E que referências uso para diferenciar loucura de normalidade, senão um conceito que eu mesmo estabeleço de fronteira, de normalidade e de loucura? Ai, meu Deus, acho que entrei por um caminho que não sei onde vai dar! Então, estou no limite. Agora, aqui escrevendo, acho que sim. Nas ações, um discernimento fala mais alto, pois provavelmente terei reações, como na lei da física. E tem muitos atos que posso desagradar a mim mesmo ou ao próximo. Então sou um pouco mais definitivo quando ajo do que quando penso. Lógico, não? Pronto, outro limite! Entre tantas escolhas à disposição, a única certeza que fica é que não posso parar no meio do caminho. Afinal, a vida tem uma fronteira bem absoluta que é o seu fim a qualquer momento.
Outono me dá uma sensação de neutralidade, de prenúncio. As outras estações têm um apelo coletivo muito forte. Muita coisa a favor da primavera. Inverno e verão numa disputa acirrada de preferências, mas outono... Nada sobra, nada falta, mas também nada se equilibra. Parece uma neutralidade da natureza, desprovida de consciência. Se continua o que passou ou se prepara o que vem adiante. Alguma coisa como deixar estar para ver como vai ficar. Não conheço os Deuses do outono, não sei dos reis e rainhas dessa estação. Qual o seu símbolo de encanto? É..., acho que folhas caindo são para a dúvida!
Lei prevê 14° salário para professores de escolas que tiverem bons resultados no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). O projeto, de autoria do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), prevê que, para ter direito ao 14° salário no final do ano, os professores precisam elevar o Ideb de sua escola em pelo menos 50%. Também serão beneficiados profissionais de escolas que alcançarem um índice igual ou superior a sete. O indicador foi criado em 2005 e avalia a qualidade do ensino público a partir do desempenho dos alunos na Prova Brasil e das taxas de aprovação. Escolas, municípios e estados ganham uma nota, em uma escala que vai de zero a dez. A média nacional em 2007 foi de 4,2 pontos para os anos iniciais do ensino fundamental. O novo Ideb será divulgado em 2010. ______________________________________________ FONTE: http://educacao.ig.com.br/us/2009/11/10/ 10/11/09 ______________________________________________
A CRÔNICA
SÓ PARA DESANUVIAR, ANTES DE MAIS NADA: PROFESSOR DEVERIA SER A CATEGORIA MAIS BEM REMUNERADA DO MUNDO.
Não sei se minhas teses têm fundamentos, mas não me parece uma boa idéia premiar professores pela produtividade com dinheiro. Entendo a educação como um processo de formação integral do indivíduo, uma preparação complementar para a vida. Esse tipo de compensação pode legitimar uma tragédia que vem acontecendo há muito tempo no sistema educacional. Ele está muito mais voltado para a preparação do sujeito para o mercado de trabalho do que qualquer outro fim. E mesmo sendo assim, a preparação tem sido péssima na maioria dos casos.
Ora, a escola não pode se tornar apenas instrumento das relações de produção! Se assim for, não podemos sequer queixar de que, não havendo espaço para todos num mercado seletivo, alguns descambem para a marginalidade pura e simples. É um complexo sistema de inter-relações que nem dá para ser tratado em uma crônica simplória, mas que tem seus desdobramentos negativos nesse aspecto, isso eu afirmo com todos os ônus possíveis para mim. Um professor é uma extensão de um lar, de uma família e não de uma teia de relações sociais de produção. A partir do instante que a sua valorização depende de gratificação extra para aprovar e melhorar alunos, sua atenção pode se concentrar exclusivamente em resultados palpáveis e não mais em formar pessoas. O que seria educar viraria treinar, disciplinar, adestrar pessoas. Então, nesse caso, melhor mesmo é ensinar às crianças até a alfabetização e a partir daí, coloca-las logo em instituições exclusivamente profissionalizantes e pronto. Aí, sim, está desfeita a ligação aparentemente real de que estará educando. Sairão todos prontos para serem mão de obra disponível no chamado exército de reserva do mercado de trabalho e acabaríamos com a hipocrisia de que a escola é lugar para se educar. Melhor colocar uma placa na porta: Centro de Formação, Disciplinamento e Adoção para o Mercado.
NOTA: Mesmo discordando dessa lei, contemporizo com o senador por considerá-lo uma voz quase solitária em defesa da qualidade da educação no Brasil nos meios do executivo e legislativo.
São 5:40 h da manhã. Na rua os termômetros já marcam 23 graus. Eu saí pedalando para me antecipar e buscar a chuva que há dias a meteorologia promete que vai cair a partir de hoje. Vou de encontro dela para refrescar um pouco. Não tem sido fácil ter uma boa noite de sono diante de tanto calor. Queria ter ficado no computador, posto que minha vontade era de escrever. Mas andando de bicicleta, nem mesmo levando o note book nas costas tem jeito; eu teria que fazer uma coisa ou outra. Ademais, se chove, adeus minha tecnologia ambulante.
Então, dispenso a modernidade e volto para o papel, mais precisamente, meus “papelim”, como gosto de falar de um jeito bem mineiro. Papelim é gíria de quem gosta de cigarro de palha. Hoje em dia ele já está industrializado, vendido até em caixinhas, mas houve um tempo em que na falta de uma palha de milho, o fumo era enrolado em qualquer tirinha de papel limpo. E são essas tirinhas e caneta que me acompanham. Tenho no bolso, no banheiro, na cômoda ao lado da cama, no porta-luvas do carro. Sempre que aparece uma idéia, eles estão ali, à mão. Afinal, eu sempre costumo dizer que qualquer um pode escrever. Vira escritor é quem tem a idéia e anota. Falo dos comuns. Os geniais não precisam desses recursos. O cara faz aquela cara estranha, bota a mão no queixo, coça a cabeça, deita a mão no teclado e saem coisas maravilhosas. Eu vou exercitando um pouco a cada dia. Se fosse genial eu dispensava esses recursos e pitava o papelim.
Não sabem desse causo? Os dois caipiras, viajando num ônibus numa época em que era permitido fumar em qualquer recinto ou ambiente. Vem o fiscal de viagem e lhes pede a passagem para conferência. Pede e fica esperando e o cara calado. - Senhor, a sua passagem. - Que”passage” moço? - O bilhete que o senhor comprou para viajar. - Ah, aquele pepelim branco? - Sim! - Ih, pitei ele!
As soluções prontas são um balde de água fria no hábito de pensar. Antigamente as coisas iam acontecendo e os recursos eram escassos. Enquanto faltavam técnicas apuradas por um lado, abundavam pensamentos por outro. O homem ia vendo as coisas, os fenômenos naturais e ia teorizando, esperando socorro. Foi assim que nasceu a filosofia. E como tinha pouca gente para pensar, os mesmos filósofos viram que tinham que resolver os problemas eles mesmos. Tanto que viraram cientistas também. Enquanto deixavam o pensamento vagar em observações no cosmos sob o sol, luares e estrelas, iam fazendo umas continhas, misturando umas substâncias, testando umas superfícies lisas ou ásperas e tomando anotações. Nasciam os astrônomos, fiscos, matemáticos e por ai afora.
Quando pensaram na dor, que remédio tinha a não ser teorizar? Teve gente que afirmava que com a dor se aprendia a viver melhor, uma forma de superação de adversidades. Ficar impassível diante da dor provocava uma elevação do caráter. Veio o tal do estoicismo. Uma aula com a dor. Era preciso aprender a cura, no entanto, pois muita gente não entendia o princípio e continuava sentindo dores. Além do mais quem poderia transferir para a alma, onde o suporte é maior, uma dor que tá doendo no braço, na perna, na barriga? Aí teve uns que começaram a estudar o corpo humano e a medicina foi aparecendo depois, devagar.
O que atrapalhou um pouco os planos, ou melhor, os pensamentos bem intencionados acerca da dor foram umas pessoas que passaram a sentir um certo conforto e prazer com ela. Eram os tais dos masoquistas atrasando o desenvolvimento da filosofia e da ciência. Pode uma coisa dessas? Como tudo tem uma reação (já estava começando a germinar o conhecimento da lei da ação e reação), apareceram aqueles que gostavam de ver o sofrimento alheio e também sentiam prazer nisso. Eram os sádicos, tradicionais rivais dos masoquistas durante muito tempo. E bem mais à frente na história vamos ver que se aliaram. Muitos acabaram em moderníssimos motéis com chicotinhos, correntes, algemas e outros apetrechos, já que a sociedade começou a punir abusos em praça pública. Coisa de foro íntimo, eu nem tenho nada com isso.
Não falei dos hipocondríacos, uma categoria intermediária, mas deixa pra lá. O caso deles quase nunca envolve dor. Acho que se trata mais de carências da alma querendo algum reconhecimento e que são substituídas por aparentes doenças e muitos remédios. Se lhe derem umas pílulas de trigo ou maizena disfarçadas e disserem que resolvem os problemas muitos se curam com uma facilidade incrível.
Motivo dessa prosa toda? Eu estava andando de bicicleta e me deu uma dor danada no cóccix. Pode falar nos ossos da bunda? Não me levem a mal, não há intenções sádicas nem masoquistas. É que eu fiquei uns tempos parado e até me acostumar novamente não tenho outro remédio senão pensar e ir me exercitando. E cóccix é uma palavra muito difícil de ser pronunciada. Só de pensar dói.
Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não.
As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão.
Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.”
(Drummond – Memória)
A nostalgia eu a considero um libelo contra um futuro que se faz de presente na vida sem pedir licença, sem nos dar tempo de aceitá-lo. Resisto a todo novo que não se justifica em oferta de felicidade. Se estamos em algum lugar diferente do usual, chega um momento em que queremos retornar. Se estamos em uma condição de vida não muito agradável afetivamente, também chega um momento de desejo do retorno. Retornar para onde? Retornar para que? Normalmente para a segurança por vezes insuportável da nossa rotina.
Isso me faz lembrar algo. Estive em casa de meu pai durante as festividades de natal durante 4 dias e por melhor que estivesse o ambiente, toda a família reunida, bateu uma saudade de casa. Porque ela é a minha rotina. Escrever, cozinhar, ficar em casa, enfim. E afinal cheguei. E as recordações dos dias que lá passei são o registro mais evidente da minha vontade de voltar. Estava ruim? Ao contrário. É por gostar mesmo das recordações e para que elas não se percam em uma outra rotina é que resolvi voltar. Para ter mais assunto ano que vem, quando nos reunirmos todos novamente e contarmos casos do ano que passou e da infância. Esses são infalíveis. Talvez pelas marcas indeléveis que ela deixou. Talvez por querer que a nova geração de filhos e sobrinhos saiba o quanto foi bom e o quanto serve de estímulo para que eles construam a sua história também. Mas história a gente não constrói com intenção historiográfica. A gente constrói com propósito de satisfação pessoal ou de grupos. Só no momento do pensamento na posteridade é que há desejo de registro. E ele se dá em primeiro lugar com recordações.
Agora, aqui pra nós, a recordação não é um assunto que fica melhor encaixado dentro de uma música ou pelo menos embalado por ela? Não consigo embarcar nos momentos de memória afetiva sem um fundo musical. Na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, até que a morte me separe da matéria pensante, não consigo dissociar recordação e música.
Nesse arrebatamento, essa tal recordação é assunto que nos transforma a todos em poetas. O amor que guia os versos, o pensamento que leva para cantos recônditos, a emoção que cutuca o sentido da lembrança. Sempre que o presente se apresenta insosso e o futuro dá ares de pessimismo, as recordações me acalmam o espírito trazendo esperança diluída em saudade.
(Obs: escrita para o site Duelos Literários como tema do mês)
Segundo a psicologia, o medo é um instinto humano que faz parte da luta pela sobrevivência. Aquilo que é conhecido pode balizar nossas atitudes e dividi-las entre coragem, precaução, ousadia e pavor. Já o desconhecido coloca limites mais radicais nos atos da gente. Costuma nos dividir entre aventureiros ou borra-botas. Acertei? Não sei. Tenho medo de afirmar categoricamente tudo aquilo que desconheço. O que eu sei é que quando criança possuía um medo exagerado de tudo. Não podia ficar no escuro, não gostava de brigas de braço, tinha medo de quedas, de ciganos, não entrava em bola dividida. Talvez por isso tenha feito xixi na cama até os doze anos. Mas isso é um quadro patológico que não vale a pena pintar como ilustração.
Se fosse nos dias de hoje, provavelmente seria tachado de covarde. Já pensou, eu, nessa idade com medo de tudo? Curei-me, creio, mais por necessidade do que por ousadia. Tenho ainda alguns medos, todos relacionados aos vivos, que desconheço mais do que o sobrenatural.
Houve um acidente com meus dois irmãos, um primo e um vizinho, dono do carro. Chamava-se Édio. O Seu Dico Batista, outro vizinho, viu aquele monte de crianças na porta da casa onde era velado o corpo , aproximou-se e nos disse que era para entrarmos lá, beijar os pés do defunto e pedir a ele que levasse o nosso medo junto. Era assim que funcionava com o desconhecido e com a incapacidade de nossos pais e educadores de lidar com os mistérios da imaginação e com a fantasia infantis. Veja que (contra)tradição: os mortos curando o medo dos vivos! E lá fui eu, tremendo feito vara verde visitar o mensageiro de meu medo para o além. Minha coragem só foi suficiente para encostar minha mão nos pés dele. Estavam gelados. Nunca imaginaria que alguém pudesse adquirir uma temperatura daquelas. O calor humano passou a ter para mim um duplo sentido desde então. Corri com meu medo de volta para casa e ele agora tinha se transformado em pavor.
Pouquíssimo tempo depois, veio a falecer o Seu Dico Batista. E foi no velório dele que, estranhamente despachei de vez um bocado dos meus medos. A morte naquela época ainda não era tão banal ou os sentimentos humanos não eram tão fugazes e efêmeros. Uma vizinhança em um bairro era como uma enorme família. Conversei do meu jeito com ele, expliquei-lhe que a sua recomendação com o Édio não havia funcionado e fiquei lá, a noite inteira e até a hora do enterro no outro dia para certificar-me de que, enterrando-o, o medo estaria em sua companhia e não mais na minha. Funcionou? De lá pra cá, não sei. Criei muitos mecanismos de defesa mas ainda tenho umas portas abertas que me deixam entrar medos dos vivos quando as relações se escondem nas mais misteriosas intenções.
Se é limpa a sua ficha é bom ter certo cuidado não cometa deslize não ouse um pecado
A pena é áspera como lixa seu foro não é privilegiado A menos que seja você juiz, vereador, presidente, governador parlamentar do tipo senador ou sido eleito deputado
Portanto , meu amigo malandro que é malandro sabe o gosto da pancada
Quando um infortúnio lhe põe a teste a frase é a de César “alea jacta est” o que quer dizer sua sorte está lançada.
Vão me desculpar os colegas historiadores, vão se danar os politicamente corretos. Eu cheguei a uma conclusão dessas que não agradam muito a ninguém, inclusive a mim, quando se fala que brasileiro não gosta de trabalhar. A conclusão, no entanto, nada tem a ver com a disposição para o trabalho. Gostando ou não estamos aí trabalhando como sempre, sustentando a nós e a muitos outros menos afeitos a um “trampo”, porém bons em outras coisas como, por exemplo, a famosa “lábia”.
Falo é do “nó cego”, um termo que exprime o jeitinho pouco suspeito de driblar as tarefas penosas, cansativas e repetitivas no trabalho. É também uma armação quase incontestável, às vezes, para se ausentar dele. Uma forma de enrolar o chefe ou em trabalho direto do empregado com o dono de um “negócio” (que, diga-se, quer dizer negação do ócio) ou ainda numa relação contratual de prestação de algum serviço.
Pois bem, o nó cego foi criado pelos escravos. Lendo relatos de brasilianistas* e viajantes**, especialmente quando falam da organização da vida no Brasil colônia e no Brasil império, a constatação é de que o homem branco daqui abominava o trabalho e o negro, como não podia copiá-lo, aprendeu a dar seus nós. Apenas seguia o exemplo dos seus proprietários, afinal que estímulos de nobreza laboral haveriam de ter? Só na base do açoite, quem gostava de trabalho passava a detestar.
Os viajantes narravam suas andanças pelo país observando o comportamento dos fazendeiros que lhes davam pousada. Também visitavam as senzalas. Tinham contatos com os donos, com os escravos domésticos e com aqueles que trabalhavam direto nos plantios e colheitas. É bem verdade que muitos deles também davam verdadeiros nós cegos no pessoal da corte. A pretexto de conhecerem o novo mundo, bem que muitos estavam a serviço de seus países, mapeando tesouros minerais, fauna e flora brasileiros. Podemos dizer que eram nós cegos especializados.
Agora, não vamos querer também comparar com o que fazem alguns políticos, né?Aqueles que superaram qualquer noção de trabalho digno e honesto e com a sua criativa malandragem conseguem dar nó até em pingo d’água! No caso brasileiro, tanto os antigos como os mais recentes já é safadeza mesmo.
Democracia: Conceito vago esse. Perdeu-se na imensidão do mundo que tanto a enalteceu desde a Grécia clássica, que a fundou sob o manto da escravidão. Ela veio imperfeita como tudo que nasce da criação humana. Natural e louvável que se quisesse igualar os homens no exterior da vida. Por dentro não precisa de nenhum sistema que o regule. Nunca superaria o seu cérebro. Pelo menos, se espera. Tornou-se, portanto, um instrumento utilitarista na história. Nos momentos em que a barbárie natural do homem dá sinais de manifestar em forma organizada, ela é invocada, trôpega e claudicante para por ordem nas coisas.
Penso nisso e imagino que o homem só a valoriza, só a torna valor intrínseco, só a defende quando, ou foi usurpado pela sua falta, ou sofreu reveses irreparáveis na sua lida cotidiana. Aqui, tanto se lutou durante tantos anos pela sua implantação e parece-me que se limita hoje à obrigação de votar e ao direito de ser votado e depois quem votou passar para o lado de fora, aquele do xingamento; e quem foi votado para o lado de dentro da vitrine O resto espera-se subliminarmente que se resolva por si mesmo, até o próximo pleito se alguma coisa não der certo.
O que vem ocorrendo no mundo inteiro, mas vamos ficar só no nosso chão, o Brasil, me preocupa. Somos ainda uma nação muito jovem do ponto de vista de formação histórica de estado nacional, de consolidação como país. A referência para datar nossa juventude é o hemisfério norte e especialmente a Europa. Eles têm milênios nessa grande aventura chamada civilização. Têm tradição de reinos, impérios, repúblicas, parlamentarismos monárquicos e presidencialismos há muitos séculos. O povo também já está calejado com tanta fome e abundância, direitos, deveres, massacres, derrotas e conquistas. Portanto, creio que dão mais valor à democracia no seu dia-a-dia do que nós.
Os grandes regimes de carnificina que aconteceram na história foram cozidos num vapor barato, onde o calor não era suficiente para fervilhar os neurônios de populações inteiras. Então apareceram os incendiários travestidos de bombeiros oferecendo sua água inflamável para apagar o fogo. Construíram os tais impérios do mal com o apoio popular. De pão e circo passamos a lágrimas e sangue em muitos momentos em que a apatia e a crença que somente por si mesma a democracia representativa resolvesse todos os problemas de quem se preocupa apenas em encher os buchos ou os bolsos. Se eu estiver errado, espero que não os críticos, mas a história me absolva.
O que se faz hoje em intranet, se fazia até pouco tempo intramuros: fofoca. Muitas empresas para não deixar que a lavação da roupa doméstica caia na rede mundial possuem esse sistema privado de internet. Ali se distribuem novidades de interesse corporativo, se faz propaganda dos produtos e se impõe a doutrina dos donos. E fala-se muito, mas muito mesmo dos concorrentes, tudo com a garantia dos empregados de manutenção do sigilo interno. Rola uma fofoca solta.
Uma vizinha que tive, a Dona Iranilda gostava muito de jogar buraco * . Chamava a gente por trás do muro para uma partidinha quase todos as noites e íamos sempre que havia disponibilidade. Continuamente em sua casa, não gostava alternar nas de seus parceiros ou adversários. Proclamava-se a mais velha e mais cansada e alegava gostar muito de receber pessoas. Durante o jogo, conversas poucas e muita concentração, afinal não gostava de perder de jeito nenhum. Uma boa anfitriã, descontando-se o verdadeiro nevoeiro de pub inglês em que se transformava sua sala, de tantos cigarros que fumava em cerca de três ou quatro horas que duravam as partidas. Eu gostava dela até o momento em que começou a atazanar a minha vida com fofocas. Captava todos os ruídos que vinham de minha casa e transformava-os em histórias que a sua imaginação queria. Gostava de provocar desavenças. Falava com a minha mulher pelo muro, nem subia para mostrar a cara. Ficava aquela conversa de ecos. - O pau quebrou ai em sua casa neste final de semana, hein? Tava um cheirinho de churrasco... - Você não estava aí nesse fim de semana, né? Uai, parecia que estava tendo festa... - Menina, seu marido fica muito em casa, né? Tem dias que você está viajando e ele está aí em plena luz da manhã... (Eu trabalhava em regime de revezamento de turnos).
A minha esposa do primeiro casamento tinha crises de enxaqueca frequentemente. Sempre que havia amigos em casa e as dores a acometiam ela se recolhia num ambiente fechado e escuro. Não suportava luz. Então, estava sempre junto dos eventos. A D. Iranilda, da última vez que fui lá jogar, discretamente a convidei, na saída para aparecer em minha casa qualquer dia. Ela disse que saía pouco, estava ficando velha e cansada. Aproveitei e respondi injuriado - Por isso mesmo, vá dar uma relaxada. Tem sempre festa! _______________________________________________________ * buraco é um jogo de cartas
A literatura tem função? É didática, pedagógica, prazerosa, psicológica? Em que medida ela nos afeta a ponto de usarmos expressões como “me atingiu em cheio” ou “caiu como uma luva” e “vestimos a carapuça”?
A arte da representação veio antes dela. As ferramentas que o homem aprendeu a fazer para se virar no meio da selvageria (aquela mais primitiva do que a atual), serviram também para fazer representações do mundo, até então sem espelhos. Os primeiros homens faziam arte nos momentos de folga para extravasar ou para agradar seus pares? Estão aí as pinturas nas cavernas. Era para ensinar as crianças como viam as plantas e os animais? Era uma representação de si mesmos? E depois da escrita? Passou a ser para quê? E depois do dinheiro, passou a ser para quê? Ou não alterou nada o que ainda sequer consigo encontrar resposta?
O hábito da leitura deixou de ser solitário aqui nesses tempos de on-line pra cá, on-line pra lá. No computador (e aqui incluo o recanto das letras) a gente lê ao mesmo tempo em que está dialogando com o autor. Então, não creio que a imensa maioria dos que se aventuram na escrita estejam apenas fazendo um desabafo intimista sem querer uma voz do outro lado da linha, esteja ela em sua própria casa ou no Tibet , se lá receber e enviar sinal para a rede mundial.
Os comentários que fazemos nos textos são os ecos que saem de nosso sentido provocado pelo teor da mensagem. Seja poesia, crônica, conto, artigo, frase, pensamento, enfim, a locução que foi utilizada. Cada uma com suas peculiaridades ficcionais ou reais estabelecem contatos imediatos de primeiro grau, feito um parentesco às avessas entre o escritor e o leitor. Sentidos: alegria, raiva, identificação, discordância, aceitação, deleite...Até cópia tem gente que não resiste e faz, pensando-se esperto ou julgando-se incapaz de produzir algo que saia de sua própria cabeça, sem admitir publicamente.
Muito bem! Isso aqui é uma divagação sem intenção de respostas definitivas. Reflexões apenas sobre o ato de ler, escrever e mergulhar no mundo da palavra escrita. E a literatura para mim tem essa função além do prazer e do aprendizado que vem depois, como uma refeição bem aproveitada pelo organismo. Não sou bovino, mas engordo ou emagreço com o que me alimento e rumino o que não me serve para o fortalecimento do espírito, pois é ele que a literatura alimenta.
Andam dizendo por ai que a tendência será em pouco tempo desaparecerem os jornais e revistas impressos, substituídos pela velocidade e mais autonomia da internet. A interatividade também conta muito, uma vez que o leitor pode opinar quando concorda ou não com o assunto. Há ainda a possibilidade dele mesmo criar seu próprio domínio e dar notícias ou enviar as que produzir para serem publicadas em um determinado site. Eu sou contra, apesar da minha opinião não ter nenhum valor. Somente por um motivo: sou viciado em jornais e revistas, sou viciado em notícias, mas gosto especialmente desses veículos. Eles não são melhores, pelo contrário. Mas são os tais rituais com os quais a gente se habitua. Sentar e ler o jornal na mesa da cozinha e a revista no banheiro. Isso já faço há uns trinta anos.
E sinto cada vez mais a aproximação do fim. Primeiro, um súbito rebaixamento de preços dos jornais e revistas, tanto de capa quanto de assinatura. Nunca recebi tanta proposta de assinaturas em minha vida e nunca vi tantas promoções e prêmios aos assinantes. Se bem que prêmio melhor que eles poderiam nos ter dado esses anos todos era uma imprensa menos parcial, menos travestida de compromisso com a verdade. É um negócio como qualquer outro. Como podem se dizer livres se vivem em função de lucro? Em todo e qualquer negócio que se depende de dinheiro para a sobrevivência, manutenção e crescimento, há alguma sujeição. Enquanto existir dinheiro no mundo Isso não mudará. A menos que o dinheiro deixe de ter donos individuais. Coisa mais improvável.
Esses fatos contribuíram para as pessoas, principalmente as mais novas a migrarem para a rede mundial. Elas já cresceram habituadas às efemeridades e rapidez. E por último, a velocidade é impressionante. Estava lendo no jornal impresso sobre um atentado com uma seleção de jogadores de Togo, África. Lá dizia que eles desistiram de participar de um torneio africano em função disso. Logo que terminei, liguei o computador e eles já haviam anunciado que voltaram atrás em sua decisão. No mesmo jornal, falavam de uma cirurgia a que a Hebe Camargo ia ser submetida e na internet, logo a seguir, já tinha o diagnóstico e previsão de alta. Pois bem, acho melhor ir me acostumando a colocar os óculos e ficar sentado na frente do monitor lendo notícias. No banheiro, fico com as minhas palavras cruzadas.
Cochilar revigora energias e aumenta produtividade Churchill defendia o cochilo no meio tarde. "É uma maneira de ter dois dias em um", afirmava. Bill Clinton, Lance Armstrong, Napoleão Bonaparte, Einstein e Leonardo da Vinci também sempre apoiaram o descanso vespertino. A Toyota no Japão instituiu a prática como obrigatória. Além de ter funcionários mais motivados, a direção diz que economiza dinheiro, já que as luzes da fábrica são apagadas no período.Já foi-se o tempo em que dormir no serviço era sinônimo de gente preguiçosa e sem pique para trabalhar. Tradição em muitos países, especialmente os latinos e na Espanha, a siesta começa a vencer preconceitos e ser levada a sério pelos brasileiros. Isso porque tirar de 10 a 40 minutos para uma cochiladinha pós-almoço revigora o cérebro, desperta a atenção e prepara a pessoa para o "segundo round" no exaustivo dia de trabalho. E a boa notícia é que, excetuando os casos de insônia crônica, não afeta o sono noturno.
A CRÔNICA Eu adquiri uma hérnia de disco na coluna e alguns médicos independentes me disseram que foi proveniente de esforços repetitivos e excesso de peso mal administrado pela cabeça na hora de comandar o corpo na forma de carregar as coisas, de abaixar, sentar e por ai. Só os médicos da empresa onde eu trabalhava disseram que era inato, sem nenhum exame. Pesquisei e nunca vi em literatura médica alguém afirmar que isso é hereditário. Tudo bem. Pode ser defeito de fabricação Já está instalada e não há reparação que me anime a operar. Já vi gente muito mais nova que eu ficar aleijada para sempre. A cirurgia é uma espécie de jogo de azar. Desde que você conte, inclusive, com uma equipe com tanta sorte quanto talento profissional, a cura dura por volta de seis a sete anos. Depois o problema volta. Nos últimos tempos antes de me aposentar, as dores estavam se tornando um martírio, a ponto de algumas vezes necessitar de uma muleta para auxiliar na locomoção. Um médico me fez uma recomendação terapêutica para não precisar de me afastar do trabalho - Quando sentir dores demais, deite-se no chão duro por uns dez ou quinze minutos e fique bem quieto até a dor passar. Depois pode voltar às suas atividades. Isso deve acontecer com você pelo menos uma vez por semana, dependendo de sua atividade. Além disso, tome os relaxantes musculares e antiinflamatórios direitinho. Acontece que eu era dirigente sindical nesta época e não gozava de muito prestígio junto aos chefes. E eles eram loucos para conseguir um pretexto inquestionável para me aplicarem uma demissão por justa causa. Tinha motivo melhor do que esse? Ser apanhado deitado em pleno horário de produção? Ainda lembro que a produção na mina onde trabalhava acontecia em todas as 24 horas de todos os dias de todos os anos, desde 1942. Pois aconteceu de ser acometido por uma queimação na região lombar como se o local estivesse sendo atingido por uma labareda, de tanto ardor que a dor provoca. Segui a receita do doutor e me deitei um pouco no chão da sala. Acresce que cochilei (dizem que a intensidade da dor provoca uma injeção natural de alguma substância anestesiante). E algum dos chefes entrou nesse intervalo e me demitiu duas vezes. Uma pela satisfação pessoal e outra pela desídia, segundo suas próprias palavras. Como a demissão por justa causa de trabalhadores estáveis necessita de processo administrativo ou judicial para provar que houve falta grave, tive que arrolar o médico como minha testemunha de defesa e o juiz que me absolveu e mandou me reintegrar ao trabalho deu foi muitas gargalhadas com o inusitado do caso. Mesmo assim fiquei cabreiro demais com esse negócio de cochilo se eu não estiver no chão da minha própria casa.
"Ai, quantas lágrimas eu tenho derramado Só em saber que não posso mais Reviver o meu passado Eu vivia cheio de esperança E de alegria, eu cantava, eu sorria Mas hoje em dia eu não tenho mais A alegria dos tempos atrás.” (Quantas Lágrimas – Manacéia)
Aos quinze anos acabou-se a minha adolescência. A circunstância abreviou a sua precocidade. Foi na minha festa de despedida preparada de surpresa pela minha irmã Néa e pelos colegas de turma do bairro, na casa da Tânia. No dia seguinte eu iria enfrentar a sina encomendada pela minha mãe de sair para a capital estudar, trabalhar e vencer na vida. Não sonhava muito diferente da maioria das famílias para os seus filhos: um bom futuro poderia estar me esperando e eu é que não podia ficar parado. Não me queixo, portanto, que fique esclarecido. Eu quero é lembrar desse período de breve duração, mas com marcas tais que daria poucas páginas e muitas aventuras. E ao mesmo tempo homenagear a minha irmã que foi minha companheira de tão rápida passagem, mas não pouco significativa por causa de tanta intensidade e afeto.
Dos doze aos quinze foi o quanto durou. Teve uma mudança de bairro dentro desse intervalo. O local onde havíamos passado a infância ficara para trás junto com muitas histórias. Para crianças, difícil não haver alegrias por motivação própria. Tristezas, se há, são vindas de problemas que os adultos transferem impunemente para elas. Da grande família já havia agora um espaçamento que as idades e as responsabilidades vão colocando no caminho. As irmãs mais velhas, já se casando ou entabuladas para outras paragens. Os irmãos partiram para arriscar o sonho primeiro e ficamos os três mais novos. Eu e a Néa com diferença de apenas um ano, começamos a coincidir as manifestações hormonais e visões de mundo. Assim, ficamos mais próximos e amigos inseparáveis, cúmplices até nos dribles e bravatas típicos da adolescência.
Os discos de Maria Bethânia, Beatles, Gal Costa e Gilberto Gil, Rita Lee e Cartola. Abba e Peter Frampton marcavam ora nossas baladas, ora embalavam nossas confidências no porão da casa nova, numa vitrolinha de LP’s parecida com uma valise. Entre conversas de namoros e um cigarrinho escondido (apenas eu), cantávamos de cor e salteado o repertório de “Drama, Luz do Terceiro Ato”, LP que Maria Bethânia gravara ao vivo em 73. Néa devotava uma paixão pelas músicas, um envolvimento tão profundo, um encantamento tão honesto que não havia como não contagiar-me e nós cantarolarmos juntos repetidas vezes sem nos cansar.
Os namoros às escondidas faziam-nos dupla imbatível no engambelamento materno. Saímos às noites com a recomendação da nossa mãe de que eu tomasse conta dela e contasse tudo que visse de “diferente” na volta. Combinávamos horário e local para nos encontrar antes de voltar para casa e cada um seguia seu rumo nas penumbras do bairro iluminado pelos postes de lâmpadas ainda incandescentes e muitas árvores de frondosas sombras da cumplicidade com mãos dadas e beijos tímidos. Nessa fase, a vida meio adulta só era assumida à noite ou após o banho. De dia as brincadeiras ainda misturavam a infância mal terminada com um desejo intruso de ser gente grande. Quanta saudade!
“Solidão é lava que cobre tudo/Amargura em minha boca/Sorri seus dentes de chumbo/Solidão palavra cavada no coração/Resignado e mudo/No compasso da desilusão.” (Dança da Solidão - Paulinho da Viola)
A NOTÍCIA Solidão é contagiosa como uma doença, diz pesquisa Um estudo conduzido conjuntamente pelas Universidades de Harvard, da Califórnia, e de Chicago, mostrou que pessoas solitárias costumam espalhar seu modo de encarar a vida a quem os cerca e que, após um tempo, esse grupo acaba se posicionando à margem da sociedade. Aparentemente o processo funciona, pois pessoas solitárias têm menos interações com os outros e só isso por si leva os outros a sentirem o mesmo. Segundo o líder da pesquisa, Dr. John Cacioppo, existe um padrão de contágio da solidão que leva as pessoas a se afastarem da vida social e destruir até mesmo os poucos laços de amizade que restam...
Trabalhei durante sete anos com o Gouveia e só descobri que ele possuía dentes porque almoçava no mesmo restaurante que todos. E mastigava. De vez em quando também proferia umas poucas palavras. e dava para ver que tinha dentes de uma simetria e brancura invejáveis. Sorriso, nunca mostrou. Sisudo e carrancudo, ficou prejudicado em todas as possibilidades de ascensão na carreira, apesar do grande profissional que era. Entendia de sistemas hidráulicos, desenhos técnicos e matemática como poucos. Seu comportamento parecia de um autista. Diziam que era um solitário. Eu preferia dizer que estava numa fronteira entre timidez, misantropia e falta de educação. Se não fazia bem a quem quer que fosse, também mal físico não arriscava. Estava mais para impassibilidade. Só tinha um detalhe que o afastava de amizades sinceras: era um agiota. Talvez seu riso se reservasse para os momentos em que estivesse sozinho em casa contando dinheiro e o mal que ele causava fosse a ira que atraía para si por causa dos juros altos.
As formas como as relações humanas se estabelecem costumam esvaziar alguns conceitos ou então enchê-los de significados de tal forma que o próprio conceito fica confundido. Liberdade, solidão e felicidade são três estados da alma que bem poderiam compor, junto com o tempo, o universo das relatividades. Quase nunca sei definir essas coisas com muita propriedade. A solidão que me acomete de vez em quando é uma escolha que faço por necessidade de reclusão para elaborar alguma forma de me sentir colocado no mundo. O mundo não se adapta a ninguém por mais poderoso que seja o sujeito. A própria subjetividade elimina essa possibilidade. Isso, não creio que contagie ninguém. A minha felicidade não passa de um estado de alegria do espírito e já notei que, se bem cuidado pode ser duradoura. Minha liberdade é poder sonhar, ir e vir. E uma certeza quanto ao meu pensamento: ele é inexpugnável. Contagioso é mau humor.
De manhã, as manchetes No radio, jornal, televisão “O Brasil agora começa a funcionar”, eis a previsão Vamos ver se não tropeça, O carnaval passou O ano novo lá atrás ficou.
Condenam o país Que dizem, não quis Abrir o ano em janeiro Foi-se também fevereiro Mas se engana quem assim pensa. Quem crê na imprensa Não vê o Brasil, funcionar inteiro.
Pára banco, shopping, pára loja, Pára escritório, ar condicionado, oficina, Pára, da pirâmide social, Somente o andar de cima Não atrapalha nem desanima No fim, fica tudo normal.
Quem acha que o leiteiro, o padeiro, Motorista, metroviário, enfermeiro Médico, mercadista, açougueiro, Consegue parar prá pular carnaval Ou é de Paris, onde se é mais feliz Com muito glamour e dinheiro Ou então não sabe o que diz Não come, não bebe, não cura Ressaca, joelho, ranhura.
Essa gente que não pára, entra noite sai dia Repõe toda a nossa energia Perdida em meio ao turbilhão Depois de tanta folga, tanta folia!
UMA SINGELA HOMENAGEM AOS MILHÕES DE BRASILEIROS QUE SÓ TÊM NOTÍCIAS DO CARNAVAL PELAS CARAS QUE ATENDEM NOS DIAS SEGUINTES DA FOLIA. * Será editado tantas vezes quantas forem as insistências dos que dizem que ninguém trabalha no carnaval.
E foi assim que o homem, vendo que não evoluía mesmo naquilo que deveria ter de mais essencial - a essência -, resolveu oficializar em seus cursos de medicina a disciplina que reúne um caldinho de todas as outras, mais potente e eficaz. A intenção era acabar de vez com todo sentimentalismo que atrapalhava o progresso da humanidade. A matéria passou a se chamar “anatomia fisiológica das emoções.” Se não haveria mais bondade, por outro lado a maldade também cessaria. E a vaidade também esvairia-se. Tudo devidamente dissecado, esmiuçado, escarafunchado e desvendado de dentro para fora dos cérebros e corações dos homens.
A medicina avançou muito depois daquele estágio que já vinha demonstrando uma tendência quando foi realizado o projeto genoma. No século XXI desenvolvia-se a passos largos a fim de tornar o homem mais instrumentalizado para lidar com problemas que o cérebro insistia em mostrar ao vivente que estavam ligados a sentimentos. E ela tratando com produtos químicos. Cada vez mais fortes; tão fortes quanto eram as manifestações dos pacientes. Isso estava atrapalhando muito a produtividade humana como um todo. Descobriram uma peça solta na cabeça e deram-lhe o nome de ínsula (isolada). Ela seria a responsável por essas absurdas e ousadas e ameaçadoras manifestações humanas do ponto de vista que mais interessa ao homem do terceiro milênio: a economia.
A ciência médica passou a ter muita facilidade com os tratamentos. Os hospitais viraram verdadeiras oficinas, as queixas eram bem fáceis de se localizar, não havendo mais nenhuma interferência de neurônios transmissores de sensações que desembocam em doenças. Aquela coisa de somatização virou passado sanado. Agora era só dizer onde doía, onde incomodava e estaria feito o reparo em instantes. Uma economia e tanto com os gastos públicos em saúde.
NOTA PARA O FUTURO: Este texto está autorizado a ser corrigido caso venha cair nas mãos de quem discordar, afinal foi escrito ainda numa época em que havia resistências emocionais, portanto não é possível se falar de felicidade humana no futuro, pois esse é um sentimento que deixou de fazer parte dos homens juntamente com todos os demais. Tudo agora é sensação.
- Não me venha com saudosismos de novo! Não é possível, você e essa sua mania de ficar comparando o passado!. - E nem é com o presente, minha querida, é com o futuro. O presente creio que nem existe, de tão depressa que as coisas estão andando. O presente foi ontem. - Mas querer escrever de caneta não dá mais. Isso é só na escola, os meninos ali, nas primeiras letras. E olhe lá! Daqui a pouco eles também já estarão sendo alfabetizados em “carteclas”. - Que isso, mulher? - Carteclas são as letrinhas das teclas do computador. Cartilha feita de teclas. O único problema que falta pra resolver é alguém colocá-las numa seqüência alfabética. Isso iria atrapalhar aos que já estão acostumados com a disposição das letras no teclado. Aliás, quem inventou o teclado? Que maluco! Botou as letras todas misturadas, sem lógica nenhuma. - É mesmo, nunca havia pensado nisso. Qual seria a intenção do cara que o inventou começando com o “Q” e terminando com o “M”? - Dizem que foi um tal de Chistopher Latham Sholes. No mínimo estava tentando datilografar o próprio nome, daí essa mistura toda. É uma longa história que começa lá com a máquina de escrever. Mas, você já está tão acostumado, por que lembrar da caneta? Aliás, está tão acostumado que agora só escreve em letra de forma, não mais em letra cursiva. Outro dia até o cheque você assinou com letra de forma! - Confesso que a única vantagem no teclado é que a duas mãos doem por igual. Com a caneta é só uns dedos que ficam doendo. Minha raiva mesmo é com o circunflexo. Toda vez que vou colocar esse acento, ou sai só ele, ou sai o til no lugar. Isso, sem falar no quarteto traidor. Ficaram ali pertinho o S, o C, o X e o Z. Quantas vezes eu acabo trocando uma com outra! E o pior é quando elas têm o mesmo som na palavra! Quem vai acreditar, por exemplo, que o escelente que você escreveu não foi uma esbarrada no lugar errado? O texto poderia ter ficado excelente. Teve um dia que escrevi exxência, pode uma coisa dessas? Perdeu toda a essência. -Inaceitável foi aquela troca de “és minha mulher” para “minha ex-mulher”. Vai me dizer que foi erro de digitação!?!? - Ih, pintou xujeira! Quer dizer, sujeira!
Baratas e ratos me incomodam tanto quanto escândalos políticos e corrupção. Tenho asco de tudo isso. Mas vou falar só das baratas. Elas estão entrando pelos ralos, ao contrário de nosso dinheiro que se vai por eles. Vejam a diferença das trajetórias. Elas saem das imundícies e vem contaminar as nossas casas, enquanto que a corrupção e a falta de ética, de vergonha e outros adjetivos inatribuíveis a certos caras entram pelo submundo imundo dos parlamentos e escritórios de negócios e saem em forma de dinheiro que vai cair nos limpinhos cofres dos paraísos fiscais ou nos condomínios de luxo por esse mundo afora.
Voltemos às baratas domésticas, que por enquanto dá para livrar delas com uma chinelada. Foi de madrugada que cheguei à cozinha para preparar o meu habitual cafezinho companheiro e ela estava saindo pelo ralo da pia. Tinha força para empurrar a tampinha de arame trançado. Eu vi. Parei de duvidar que elas teriam resistência a uma radiação nuclear. Abri logo a torneira e ela combatendo como se suas inúmeras patas tivessem algum mecanismo pegajoso ou garras nas pontas. Tanto que custou a descer. Foi só o tempo de fechar a torneira e lá estava ela de volta. Meio tonta, mas subindo impunemente pelo cano. Eu não sei que raio de nojo é esse que dá na gente. Dizem os “especialistas” em baratas que é inato, o asco é instintivo.
Deus quando colocou essas pequenas pragas no mundo deve ter pensado no frágil equilíbrio sensorial humano. “Vocês não terão medo de dilúvios e cataclismos, mas tremerão diante de baratas e ratos para ver se tomam coragem de encarar as mazelas que lhes causam chagas de verdade”. Numa antecipação do que seriam as relações asquerosas de poder entre os homens? Só pode!
-Olha aqui, pessoal, eu bati meu cartão às 16 horas. Vamos mudar de assunto? O Tonhão falava sempre assim, espichando o braço e mostrando o relógio quando o assunto nas rodas de bar, na beira da quadra, ou até mesmo na fila do banco era sobre o dia passado no trabalho. Falar mal dos chefes até que podia, mas diretamente sobre o ofício, era para ele insuportável.
O Zé Geraldo não fazia outra coisa nas suas horas de folga. Era sobre uma pendência deixada, era sobre algo que deu errado ou algo que deu certo. Aliás, ele quase nunca ia direto para casa. Todos diziam que era para curtir um pouco mais o uniforme da empresa que ele vestia com tanto gosto. Dava uma desfilada pelo centro da cidade até quase anoitecer.
O trabalho ocupa cerca de um terço de nosso tempo de vida. Então é natural que depois de uma jornada sejam feitos comentários acerca do dia que passou. O que torna a conversa insuportável é não mudar de assunto nunca. Quando enchia o saco, a gente costumava dizer: ô fulano, você já saiu da empresa, agora deixe que ela saia de você. Amanhã tem muito “pano pra manga” lá no serviço, seu chato!
A NOTÍCIA Homens que fazem trabalho doméstico agradam mais as mulheres
Existe a máxima machista que prega que mulheres devem esquentar a barriga no fogão e esfriar no tanque, mas em alguns países, essa filosofia é garantia de uma vida solteira. A Universidade de Oxford promoveu um grande estudo em 12 países, envolvendo uma amostra de 13.500 homens e mulheres entre 20 e 45 anos para definir o índice de igualdade entre sexos a partir de atitudes pessoais em relação a trabalho doméstico e responsabilidades na criação de filhos.
Uma das questões mais interessantes levantadas pela pesquisa são os efeitos colaterais da postura típica de macho em não ajudar em casa. Nos países mais igualitários as mulheres se pronunciaram mais propensas a casar ou juntar os trapos do que naqueles que se encontram nas últimas posições. E só aceitariam o matrimônio com homens de cabeça mais aberta e dispostos a dividir tudo. Já os homens entrevistados, não importando de que grupo de nações se encontra, afirmaram que preferem mulheres com menor expectativa de igualdade em casa e que seguramente ficariam com aquelas dispostas a fazer todo o serviço doméstico. E se você quer um motivo extra para arregaçar as mangas e - pelo menos - lavar seu prato e seu copo depois de comer e recolher a toalha molhada da cama, um jornal britânico especializado em medicina esportiva publicou em 2008 que 20 minutos de trabalhos domésticos melhoram o estado mental e reduzem o stress diário (assim como caminhar ou praticar esportes). Só lembrando que lavar o carro nos domingos não é considerado trabalho doméstico, ok?
--------------------------------------------------------------------- Fonte: http://beleza.terra.com.br/homem/interna/01/09/09 --------------------------------------------------------------------- A CRÔNICA
A pesquisa não levou o Brasil em consideração. Um absurdo, se considerarmos que casam-se cerca de 900 mil pessoas por mês no país, fora os que vão morar juntos e não há documentos oficiais, mas é casamento da mesma forma. É nesses momentos, principalmente, que entra em cena o Arcanjo Isabelito Salustiano, com sua filosofia prática. Portanto quero lhes dizer que ele já foi às ruas, seu local favorito de divagações e experimentos e colheu suas impressões acerca do que acontece em nosso país sobre o assunto. Eis que ali pelo primeiro ano debaixo do mesmo teto começa a cizânia familiar. O casal naquela fase onde a paixão inaugural está para se firmar como amor de verdade ou transformar-se num ódio insuportável começa a ter as primeiras brigas. É uma toalha molhada deixada em cima da cama todos os dias, meias espalhadas pela casa, o cara que chegou cansado achando que vai encontrar uma comidinha quente e vê a esposa pedindo um sanduíche ou uma pizza com o dinheiro que era para pagar a conta de luz; é a sogra de um dos dois que começa a dar pitaco no casamento... Dificilmente tem duas sogras que combinam em tudo com os respectivos genros ou noras. É quase uma regra. Quando são exceções dão pitacos do mesmo jeito. Para o homem é mais ou menos assim: - Meu filho, essa sua mulher não tem um tempinho de limpar a casa direito, não? Faz dois dias que estou limpando aqui e olha quanta sujeira! Para a filha: - Minha filha, você precisa cobrar mais do seu marido que divida com você as tarefas domésticas. Não estamos mais nos tempos de escravas do lar, não! E essa sabedoria da intromissão fica martelando na cabeça de ambos.
Certo é que a única certeza é que não tem regra fixa para nada. Quer dizer, para nada que não seja necessário um combinado a fim de não prejudicar uma convivência pacífica e harmoniosa. E ela inclui uma matemática sem nenhuma exatidão numérica, exceto no número de filhos. Afinal, casamos não é para somar e dividir amor e responsabilidades?
Pacheco era um cara dramático. Seus modos de assustado e temeroso me encantavam. Tinha um ar de mistério em tudo que falava. Acho que era um desviado de função na empresa e de lugar na vida. Lhe cairia bem ser roteirista de filmes de suspense.
Mecânico de boas habilidades, cuidava de um setor que se chamava água e ar. Eram os responsáveis pela manutenção dos sistemas de água potável e da água para uso industrial. Além dos bebedouros, sanitários, restaurante, laboratório, ar condicionado das salas e do ar comprimido que alimentava circuitos pneumáticos em geral. Ele parecia dialogar com as máquinas.
Deu-se por suas hábeis qualidades receber uma promoção. Era agora inspetor geral das máquinas. Uma espécie de preceptor delas. Cuidar para que não lhes faltasse nada e não as deixasse “adoecer” de suas funções vitais. Ia à frente ver do que precisavam para não estragarem e prejudicarem todo o funcionamento da usina. Então, elaborava relatórios e passava para o pessoal da manutenção que ia socorrer os equipamentos. Era a chamada manutenção preventiva. Sua peculiaridade revelava-se nos relatórios. Tirei uma copia de um deles e guardei pensando um dia transformá-lo em alguma coisa que espelhasse o surreal. Já havia caído no rol dos engraçados comentários da “boca miúda” da peãozada. Em tempo: meu setor era de programação e planejamento. Onde os relatórios eram recebidos e eram agendadas datas, quantidade de pessoas, material necessário e equipamentos auxiliares para se realizarem as manutenções.
Transcrevo aqui o que estava no papel do Pacheco para quem interessar possa: “Ia eu caminhando lentamente pela região onde está o moinho. Aquele cilindro colossal que fica girando, girando, ameaçador, imponente, triturando minério em seu interior, quando, ao passar defronte à casa de máquinas bombeadoras de água, aquelas enormes, gigantescas bestas feras que cospem jatos de água com intensa pressão, ouço um ruído. Ma não um ruído qualquer desses que estou habituado de ofício e meus ouvidos sabem reconhecer e diagnosticar o defeito pelo seu tom. Tratava-se de algo inusitado, senhores. Entrei naquele cômodo sombrio e nem acendi as luzes. Precisava investigar primeiramente a possibilidade de uma sabotagem industrial ou algum fenômeno do além. Depois de exatos sete minutos de dez segundos e não acontecendo nenhum outro fato que confirmasse minhas suspeitas, resolvi deixar meu posto secreto e me aproximar do local de onde vinha o estranho barulho. E para minha surpresa e creio que de todos vocês, vejam só: me deparo com um pedaço de saco plástico agarrado nos ventiladores do motor de uma das bombas, o que gerava uma espécie de som assobiado, intermitente e agudo. Esclareço assim, que os senhores não mais precisarão se deslocar até lá. Eu mesmo providenciei a retirada do corpo estranho e fiz cessar todo o mistério. Podem trabalhar em outros casos mais urgentes.“ ASS: Pacheco, matricula 6728.
A NOTÍCIA Quer saber se uma mulher está a fim de você? Olhe para os pés dela
Esqueça aquela coisa do olhar lânguido e sensual em sua direção. A maneira correta de saber se você conseguiu conquistar a menina é olhar para os pés dela. Pelo menos é o que diz uma pesquisa realizada pelo professor Geoff Beattie, um dos mais renomados psicólogos ingleses, que declarou que as pessoas podem controlar as expressões faciais e movimentos da mão para disfarçar um sentimento, mas não prestam a atenção nos pés e nas mensagens que eles podem estar transmitindo. Por exemplo, se a mulher afastar os pés um do outro quase abrindo as pernas, enquanto ri, ela realmente te quer. Se ela mantiver as pernas cruzadas ou ficar sentada em cima delas enquanto conversa, qualquer tentativa de marcar um ponto com essa garota vai ser um desastre. Agora, misteriosamente essa regra não vale para os homens, mas se um cara mantém seu pé totalmente parado, sem nenhum movimento enquanto fala (estando sentado, óbvio), então ele está mentindo e o mesmo vale para moças desonestas. Homens ansiosos mexem os pés, enquanto mulheres ansiosas os deixam imóveis. "A linguagem secreta dos pés pode revelar muito da personalidade de alguém, o que pensamos dela e até o estado de espírito emocional naquele momento. São canais fascinantes de comunicação não verbal. Risos, em um primeiro encontro, por exemplo, podem não ser um bom sinal para isso, porque você nunca saberá se a pessoa está rindo com você ou de você" afirmou o Dr. Beattie. Sendo assim, no seu próximo encontro, não fique com os olhos parados no decote da moça (mesmo porque, como Seinfeld diz, decote é como eclipse, não pode ser olhado diretamente) e sim fixe nos pés da menina. Se ela estranhar, diga que aquele sapato a deixa sexy. Ela vai ficar tão feliz que no dia seguinte comprará mais seis novos pares. Todos pretos.
Era uma vez um cara que queria ganhar dinheiro. Matutou, matutou e depois de muito andar pesquisando mercado, viu que seus sapatos se desgastaram bastante. Resolveu que iria investir em sapatos. Descobriu também que as mulheres consumiam mais sapatos do que os homens. Mesmo que não os gastassem da mesma forma, elas sempre adoravam sapatos. Não havia crise econômica, fenômeno meteorológico ou pisos irregulares que fizessem as mulheres arredarem pé dos sapatos. Observou em sua própria casa entre sua mãe, irmãs e namorada. Tinham cada uma mais de cinco pares de sapatos. Daí para estender sua estimativa para outras mulheres, foi um passo só (sem gastar sapato desta vez). Então começou a fabricar sapatos femininos. E infantis, que era para as meninas já irem se habituando desde novinhas a gostarem também de sapatos.
Acontece, caro leitor, que esse cara era um protagonista dessas histórias de sucesso (do tipo “gente que faz”). E resolveu contratar um pesquisador renomado a fim de criar uma propaganda favorável. Algo que fizesse um apelo incontestável para aumentar suas vendas de sapatos e ganhar muito mais dinheiro. Então, o pesquisador que também de bobo não tinha nada e gostava de ganhar dinheiro com suas “descobertas” criou a teoria da sedução pelos movimentos dos pés. Assim, a dupla ficou milionária. E as mulheres continuam até hoje adorando sapatos. E os homens fingindo notarem no quanto elas ficam sedutoras com cada calçado que elas vestem. Na verdade eles estão é observando a forma delas mexerem os pés para ver se recebem algum sinal para investirem numa conquista.
E no final todos viveram felizes. Os homens dando sapatos de presente e as mulheres e meninas também gastando dinheiro com sapatos. Cada um mais lindo que o outro.
Silvestre Silvério e Silvério Silvestre eram os tais gêmeos idênticos. Não se satisfizeram apenas em nascer na mesma hora. Corria à boca pequena uma conversa meio polêmica sobre o fato de pais criarem gêmeos iguais em tudo. Se eram idênticos fisicamente, tinham que se diferenciar pelo menos nas características mais subjetivas. Isso forçaria uma personalidade independente para ambos e menos confusão para quem estivesse à sua volta. O outro lado da polêmica se fundava no fato de que sendo vontade de um ser igual ao outro, tinham que ser respeitados. No entanto, respeitados ou não, faziam tudo para confundir. Eu, por exemplo, só aprendi a diferenciá-los por causa das casas diferentes em que moravam. Ficava abismado como podia dois homenzarrões, que tinham filhos da minha idade, alguns até mais velhos andarem de roupa igual, sapato igual, fumarem o mesmo cigarro e acenderem nas mesmas horas. Ainda bem que não se casaram com duas irmãs gêmeas! Eram engraçadas as suas vestimentas. Sempre estilizadas. As que mais usavam eram de cowboys americanos. Indefectíveis calças de brim azuis e camisas também de brim mais fino, com chapéus e botas de couro.
Acho que gostavam muito dos filmes de bang-bang que passavam nos dois únicos cinemas da cidade naquela época. As desovas sempre ficam guardadas para serem feitas nos cantões. Os filmes de baixa qualidade iam sempre para o interior em primeiro lugar. Na minha cidade, os cinemas passavam muitos filmes de cowboys exterminando índios, como se os invasores fossem esses últimos e não o contrário. Uma inversão dos papéis de mocinho e bandido feito pelos americanos para justificar a colonização do país tomando as terras dos nativos. Se bem que nós aqui nem podemos falar muita coisa! Os nossos foram dizimados sem dó nem piedade.
Então, voltemos aos gêmeos, que pelo menos nisso eram honestos. Se vestiam feito os mocinhos bandidos mas não faziam mal a ninguém. Um deles tinha um filho que me batia muito e como ambos protegiam suas crias, quando ia reclamar um sempre me dizia que o pai era o outro. - Eu sou o tio, você tem que choramingar é com o pai dele. Acabei um dia tomando coragem e enfrentando o menino por que do pai-tio não ia sair nada que me amenizasse a humilhação.