Dentro do campus da Universidade Federal de Minas Gerais.
A vaga destinada para deficientes começava com o ângulo de 45 graus, onde terminavam as vagas paralelas ao meio fio. O carro estacionou entre o final do meio fio e a outra metade do carro ficou na entrada da vaga dos deficientes. Eram apenas duas vagas para essa finalidade. Sobrou uma e meia. Veio logo o reboque e exemplarmente começou a colocar o carro em cima do caminhão.O homem chegou esbravejando e o guarda nem quis saber de argumento. Ele disse que seu carro não ira ser levado de jeito nenhum, que ele era importante, aquilo poderia prejudicar o emprego do guarda.
Acho que podíamos acabar logo com a hipocrisia e criar leis especiais também para gente importante, pois no fundo é assim que as coisas funcionam, todo mundo chia, elas continuam importantes, a impunidade continua valendo para elas e o papel continua sagrado, intocável, imaculado dizendo que todos são iguais perante a lei e isso está logo nos primeiros artigos da constituição.
Artigo novo: “Todos são desiguais e perante a lei assim será observado, aplicando proporcionalmente a pena à importância que o cidadão tem na sociedade.” O critério? Poder e dinheiro.
Politicamente correto é dizer que o deficiente é portador de necessidades especiais. Universalmente incorreto é fazer com que a lei valha mais para um do que para outro. Ou dizer que uns valem mais que outros na hora a aplicação das leis.
Tem momentos que a raiva para não ser transformada em ato de heroísmo vão (dar um sopapo no arrogante) ou diante da impotência solitária, a única saída é um desabafo no papel. Saí de lá cantando Ultraje a Rigor : “inútil, a gente somos inútil...!!!”
Diante da pergunta sobre o que me seduz para um relacionamento afetivo, eu respondi como um pretendente a bom cozinheiro que sou. Arroz com feijão é uma combinação sedutora aos olhos e satisfaz ao estômago sempre que se está com aquela fome insurgente. Depois a gente passa a sentir com mais apuro os temperos neles colocados. Às vezes dá uma vontade de uma saladinha, uma carne, uns legumes ou ainda algum requinte, sem exageros. Variar os temperos também evita que a fome caia naquela rotina que enfastia logo na primeira garfada.
A sedução começou lá no arroz com feijão, lembra?
PARA VIVER UM GRANDE AMOR (Vinícius de Moraes)
Para viver um grande amor, preciso
É muita concentração e muito siso
Muita seriedade e pouco riso
Para viver um grande amor
Para viver um grande amor, mister
É ser um homem de uma só mulher
Pois ser de muitas - poxa! - é pra quem quer
Nem tem nenhum valor
Para viver um grande amor, primeiro
É preciso sagrar-se cavalheiro
E ser de sua dama por inteiro
Seja lá como for
Há de fazer do corpo uma morada
Onde clausure-se a mulher amada
E postar-se de fora com uma espada
Para viver um grande amor
Para viver um grande amor direito
Não basta apenas ser um bom sujeito
É preciso também ter muito peito
Peito de remador
É sempre necessário ter em vista
Um crédito de rosas no florista
Muito mais, muito mais que na modista
Para viver um grande amor
Conta ponto saber fazer coisinhas
Ovos mexidos, camarões, sopinhas
Molhos, filés com fritas, comidinhas
Para depois do amor
E o que há de melhor que ir pra cozinha
E preparar com amor uma galinha
Com uma rica e gostosa farofinha
Para o seu grande amor?
Para viver um grande amor, é muito
Muito importante viver sempre junto
E até ser, se possível, um só defunto
Pra não morrer de dor
É preciso um cuidado permanente
Não só com o corpo, mas também com a mente
Pois qualquer "baixo" seu a amada sente
E esfria um pouco o amor
Há de ser bem cortês sem cortesia
Doce e conciliador sem covardia
Saber ganhar dinheiro com poesia
Não ser um ganhador
Mas tudo isso não adianta nada
Se nesta selva escura e desvairada
Não se souber achar a grande amada
Para viver um grande amor!
Chuveiros podem abrigar bactérias perigosas, diz estudo
Cientistas americanos advertiram que o chuveiro pode oferecer um ambiente favorável para a contaminação por bactérias que causam distúrbios respiratórios. Os pesquisadores da Universidade de Colorado constataram que 30% das peças apresentavam um risco potencial.
A quantidade de Mycobacterium avium era cem vezes maior do que a encontrada normalmente na rede hidráulica das cidades. Esta bactéria forma um revestimento que adere ao interior do chuveiro e a água que sai pela peça pode lançar gotículas com grande concentração do microorganismo no ar. Essas gotículas podem ser inaladas e penetrar nas partes mais profundas dos pulmões, dizem os pesquisadores.
"Se você receber um jato de água na cara quando ligar o chuveiro, provavelmente vai receber uma quantidade especialmente alta de Mycobacterium avium, o que não é muito saudável." A infecção por Mycobacterium avium inclui sintomas como cansaço, tosse seca, respiração difícil e fraqueza.
Aparentemente, chuveiros de plástico podem abrigar mais bactérias do que os de metal, disse...
Os chuveiros podem ser ainda uma rota para a propagação de outras doenças infecciosas como um tipo de pneumonia chamada "doença dos legionários", e distúrbios provocados pela bactéria Pseudomonas aeruginosa.
Banheiras aquecidas e piscinas de spas apresentam um risco de infecção semelhante, de acordo com a Agência de Proteção à Saúde da Grã-Bretanha.
Ah, como eu gostaria agora de saber como se faz um roteiro para cinema. Um bom filme de suspense. Já estou com as idéias na cabeça e a câmera na mão.Imagino alguém (uma mulher bonita é chamativo para bilheteria) abre a torneira e recebe um jato de água aparentemente inocente. Poderia estar cantarolando desafinada, mas alegremente uma canção quando, de repente, começa a se coçar toda, a tossir sem saber o que está acontecendo. As bactérias são invisíveis Toca aquele trecho da música do filme Psicose (meu filme iria se chamar Neurose). Então num acesso enlouquecedor de tosse começa a perder o fôlego a e bater com toda a força na parede e a gritar desesperada por socorro. Vem o marido, arromba a porta achando se tratar de uma invasão de algum estranho que a espionava e vê a agonia da amada, desligando imediatamente a torneira e chamando o resgate, já que a voz da mulher a essa altura já está fraca, bem como seus movimentos. Feito o socorro, começa uma investigação médica daquela estranha manifestação no banho. Não havendo nada no interior do seu organismo, parte-se para a investigação do local (no meu filme eu ia contratar aquele Doutor bactéria chato da televisão, aqui ele iria ser muito mais útil). Finalmente (para não alongar demais o roteiro), descobre-se que o problema é a contaminação de todos os chuveiros de São Paulo(tem que ser na maior cidade, né? Afinal se fosse nos EUA adivinha se não seria em Nova Iorque?). Então a paranóia se instala. Os mais ricos, claro, vão mandar colocar uns aparelhos que matam todas as bactérias no reservatório de suas casas e apartamentos, ou seja, um descontaminante na caixa d’água. Ocorre que os ricos são minoria em todo o mundo, então o enredo vai se concentrar nas periferias e bairros menos abastados (senão também não teria mais graça nenhuma esse roteiro, não é mesmo?) As pessoas começam a evitar o banho. Não adiantaria procurar rios, cachoeiras, piscinas nem pensar, afinal, a bactéria vem das nascentes. Nem a companhia de água da cidade possui remédio eficaz. O suspense se agravaria com a falta de banho, já que em qualquer circunstância a falta de higiene traz doenças. É claro que no final o Dr Bactéria vai encontrar a solução salvadora da humanidade, com um produto desenvolvido num laboratório famoso que vai vender bilhões de reais (essa parte nunca entra nos filmes) e entre uns poucos mortos (nenhum mocinho nem mocinha) se salvarão todos.
Compartilhar a cama faz mal para a saúde, diz estudo
Dormir em camas separadas pode ser bom para a saúde e o relacionamento de um casal, de acordo com estudiosos do sono.
O especialista britânico Neil Stanley disse que compartilhar a cama com o parceiro pode causar brigas por ronco ou disputa pelo cobertor, e levar, assim, à perda de preciosas horas de sono.
Um estudo constatou que, em média, os casais sofrem 50% ou mais problemas ao dormir se compartilham a cama. Stanley disse que foi estabelecida uma ligação entre dormir mal e depressão, doenças cardíacas, derrame, distúrbios pulmonares, acidentes de trânsito e industriais, e divórcio. O especialista destacou que historicamente não era para as pessoas dormirem na mesma cama. Segundo ele, a tradição moderna do leito conjugal só começou com a Revolução Industrial, quando as pessoas que se mudavam para cidades superpopulosas enfrentaram escassez de espaço.
Antes da era vitoriana, era raro os casais casados dormirem em leitos conjugais. Na Roma Antiga, o leito conjugal era um lugar mais usado para relações sexuais, mas não para dormir. “Stanley disse que as pessoas hoje deveriam pensar em fazer a mesma coisa”. Depende do que satisfaz as pessoas. “Se elas dormem juntas e ambas dormem muito bem, não devem mudar isso, mas elas não devem ter medo de agir de maneira diferente.” "Todos nós sabemos como é ficar abraçado e depois dizer 'agora eu vou dormir' e ir para o lado oposto da cama. Então, por que não levantar e ir para outro quarto?"
- Meu amor, você sabe que eu não fico sem seu ronco. É só ter a paciência de me esperar dormir primeiro.Se eu acordar no meio da noite lhe dou uma cutucada, você vira de lado e pronto! Estamos resolvidos. Smac! Boa noite querido!
- Boa noite, amor! Ponha uma toalhinha de rosto no travesseiro para o caso de você babar.
Casais infelizes:
- Ô seu peste, que parar com essa ronqueira1 Assim eu não consigo dormir. Por que você não vai para o outro quarto? E, além disso, você precisa parar com essa bebedeira. O ruído fica ainda mais insuportável. Além do cheiro de álcool no quarto. Ninguém merece!
- Que merda mulher, toma esse seu remédio aí e vê se não me amola, amanhã eu tenho que levantar cedo.
- Eu também. E além e trabalhar ainda tenho que fazer todas as tarefas domésticas, e cuidar das crianças sozinha. Humpf!
Às vezes a pessoa fica com aquela vontade de falar para o parceiro umas coisas que estão incomodando no relacionamento. Naqueles momentos quase imperceptíveis de tão raros, de “discutir a relação”. A verdade de um é sempre mais verdadeira do que a do outro. Então vem um embasamento científico para corroborar uma das teses. O queestá a fim de pular fora do quarto ou da vida do outro, se apega com o argumento de um estudo de especialistas e solta a matéria. Propõe até que leiam juntos.
- Veja bem, amor, não sou eu que estou dizendo, é a ciência. Isso pode ser melhor para nós. Te amando ou não, você me amando ou não, o certo é que vamos poder viver mais, seja para o outro, seja para um outro.
- Ora, isso é coisa de quem não tem o que fazer, não acredito, não!
- É, mas naquela outra matéria que saiu sobre a preferência das mulheres por homens que fazem trabalhos domésticos você acreditou, né? Aquilo também é trabalho de cientista, sabia?
Agora, triste é para quem está a fim de se casar ou de sair da casa dos pais e poder dormir juntinho de seu amor. Em camas separadas somente depois que começar essa confusão aí de cima. Espero que não.
O presunto, o bacon, o salame e outros tipos de carne processada aumentam o risco de câncer de intestino ao longo da vida em aproximadamente 20%, afirma pesquisa recente. O W. C. R. F. (Fundo Mundial de Pesquisas de Câncer) afirmou que, apesar de a pesquisa não ter focado especialmente no efeito de comer carne processada na infância, a evidência do risco nos adultos tornou importante ensinar as crianças a evitar esse tipo de comida sempre que possível.
Cientistas afirmam que, no Reino Unido, aproximadamente 3700 casos de câncer de intestino poderiam ter sido prevenidos se todos comessem menos de 70g de carne processada por semana, o que equivale a três fatias fininhas de bacon. Colocar presunto no sanduíche do pequeno pode ser fácil e gostoso, mas pense em substituir esses alimentos por alternativas mais saudáveis, como peixe, queijos com pouca gordura (como o queijo branco), pequenas quantidades de frango ...
A entidade mundial também aproveitou pra fazer outro alerta: lanches que contém bebidas açucaradas e itens com alto índice de gordura e de calorias podem indiretamente aumentar o risco de câncer ao fazer as crianças ficarem acima do peso, levando os quilinhos extras à idade adulta.
Outro dia eu falei de uma médica inglesa que, cansada de aconselhar dietas saudáveis radicalizou e especializou-se em aterrorizar os renitentes com sua nova profissão: estudar cadáveres de gente que come muita porcaria para alertar que se comessem melhor, não morreriam pela boca (do estômago). O alerta, claro fica para os que ficam Ela abre o “presunto” de cima abaixo e vai mostrando víscera por víscera, veia por veia e os períodos em que as gorduras, líquidos e tumores foram se acumulando. “Isso aqui é o excesso de doces, isso é o resultado dos embutidos, isso aqui são as gorduras em excesso, isso é o sal em demasia. Aqui poderia ter se regenerado se esse cara tivesse comido mais fibras.” Esse tipo de terapia de choque já funcionou com muito fumantes que vão fazer aqueles cursos com programa cujas aulas incluem a exposição de um pulmão de fumante e outro de não fumante. Só vendo.. Eu não parei, mas é um horror. Meu masoquismo é um caso à parte.
E não adianta também lutar contra a insensatez tanto de quem fabrica quanto de quem consome. O poder da indústria vai além do dinheiro. O convencimento pela propaganda intimidatória é enorme diante da ignorância. É só irem aos meios de comunicação fazer um comunicado relevante que o argumento passa a ser aceito como verdade sem muitos questionamentos.
Chantagem, então, é a principal arma. Primeiro começam a mostrar aquelas fábricas limpinhas (dá até para sentir o cheiro de limpeza na notícia). Depois falam dos milhares de empregos que geram para o bem do país e depois dos programas sociais. Ajudam uma escola aqui, uma comunidade ali e seguem nos matando sem dó nem piedade. E nós seguimos comendo veneno sem auto piedade.
Aliás, esse apelo do emprego está na moda para tudo quanto é destruição. Desmatar gera empregos, fabricar agrotóxico gera empregos, fabricar cigarros gera empregos, fabricar bebidas gera empregos, até o cassino que está sendo ensaiado pelos bingos gera empregos, queremos mais o que? Vamos morrendo de emprego, os donos do dinheiro agradecem. Ah, e é bom não esquecermos que temos que nos reproduzir. É preciso botar mais gente no mundo para ocupar os empregos que são gerados.
Obs: Esta é uma crônica de humor. Cada um sabe a delícia e a consequência de comer o que quiser ou o que tiver para comer.
De longe avistamos o posto da polícia rodoviária. Eles também nos avistaram e correram para a pista ordenando a parada com sinais de braços. E foram logo mandando descer todos os cinco ocupantes do corcel verde limão de rodas de magnésio e uma antena do tamanho de um poste. Tão grande que não precisava captar ondas de rádio. Acho que ela as buscava onde quer que estivessem vagando pelo céu.
O Risadinha, com esse apelido auto explicativo, ria de nervoso, de alegria, de tristeza, para falar, chorar, até comendo. Só nunca dormi com ele para saber se ria também dormindo. E o guarda implicou:
- Tá rindo de que, negão?
-Nada não, senhor.
- É melhor ir tirando esse chapelão e esses óculos ray ban. Não tem barbeador em casa também não?
- Sim, senhor.
- Cadê a carteira de motorista e a identidade?
Pegou os documentos e foi lá para dentro da sala dos horrores, onde ficam. Saiu um guarda dando ordem de prisão.
- A carteira é falsa.
Nem assim o sorriso do Risadinha fechava. Mesmo eu acostumado já estava nervoso com ele.
Ponderei com o guarda:
-Seu guarda, nós somos de uma comissão de demitidos. A empresa está dispensando em massa e os deputados mandaram que viéssemos à assembléia legislativa para relatar os fatos e apoiarem os trabalhadores. Somos todos pais de família, igual o senhor deve ser. Por um instante ele amorteceu a exaltação, mas chamou o seu superior, que recomeçou com perguntas:
- Por que você, sendo Mineiro, nascido em Inhapim, morando em Mariana há mais de 10 anos, tirou carteira de motorista em São Paulo no ano passado?
- É que eu aproveitei as férias na casa de uns parentes, sabe como é, né? Eles me disseram que lá era mais fácil.
- Hum..., - ô sargento, confere essa conta de novo.
O cara refez umas três vezes e achou a coincidência dos números com o dígito final para alívio nosso, nessa altura, já mais de uma hora atrasados para o compromisso. O sargento havia errado no cálculo que se fazia com os números da carteira de motorista que atestavam se o prontuário era verdadeiro. E finamente nos liberou. Livramos a cara, mas não conseguimos os empregos de volta.
O respeito pela inviolabilidade do lar, da escola e do local de trabalho era um combinado de ética. Não estava escrito mas agia como lei, pois o respeito age. A gente ficava organizando torcida para a briga depois da aula.
Lá fora, a turma do êh, êh, êh, êh, - atiçando. A turma do “deixa disso”, só depois que esquentava o agarra-agarra é que entrava para separar. Brigava-se por nada. Mas tinha-se uma ética da desavença. Arma, de espécie alguma. Tinha-se que ser em pé (ou mão) de igualdade. Havia outras modalidades de rivalidades: rua de baixo contra a rua de cima, bairro contra bairro, turma do bom da boca, turma do cara mau.
Não há mais briga de rua. Raridade. Resolvem-se todas as diferenças à bala, à faca, paus, pedras e machados. Quando alguém desperta os sentimentos mais primitivos em outro alguém, o caminho que o progresso humano tem indicadoé o da eliminação do adversário. É bom que se diga que a violência de espécie alguma é defensável.
Teve os tempos das brigas de rua. Uma violência mais honesta e menos covarde, mesmo se um lado é mais forte que outro. Há a possibilidade da defesa e da desforra. As turmas de ruas de outrora, evoluíram hoje para as gangues de extermínio. As brigas se davam por terrenos, sim. Terrenos de namoradas, ciúmes de irmã, dos times de futebol da rua de baixo contra a rua de cima. Uma valentia gratuita, mas que nunca passava de uns safanões ou uns chutes na bunda. Nada comparado a extermínio com dezenas de tiros de atualmente. Acho até mesmo que essa turma de hoje é mais medrosa. Só tem valentia armada. Isso sem falar da violência institucional, com a qual muitos concordam quando o estado a pratica em nossa pretensa e quase sempre obscura defesa.
Assentei um pouco as minhas inquietações no dia em que resolvi assumir que uma porção de loucura faz mesmo parte inseparável de mim. Meu primeiro espanto foi quando deixei de beber, de jogar compulsivamente tudo o que se referia a um desafio mental visando superações (e tentar a tal da sorte também, claro). Tinha ao mesmo tempo parado de fumar e voltei. Pensei: assim não dá, estou ficando certinho demais. Tenho que ter algo que aplaque a fúria primitiva. Em vez de sair por ai matando decidi abrandar a minha ira através da auto destruição pela nicotina e alcatrão. Os únicos vícios que me haviam restado eram: fazer palavras cruzadas no banheiro, ler jornais todos os dias e comer uma banana pela manhã, já que disseram que quem come uma banana por dia não visita médicos. E muitos desses estão ficando loucos (é o que dizem).
Agora mesmo, nessa madrugada silenciosa, uma raridade na cidade grande, estava aqui ouvindo os pingos da água filtrando. Contei uma gota a cada 24 segundos. Fui logo trocar a vela. Calculei rapidamenteque, sendo 7,5 litros a capacidade do filtro, eu só ia beber água filtrada daqui a 82 horas. Torturante, mas tolerável diante da sede que mata. Tortura, dizem que se for física e não matar, a medicina conserta. Já para a psicológica, sómesmo desenvolvendo uma certa resiliência.
Tem umas coisas também que eu acho loucura dos outros, mas sou tributado como louco é exatamente por isso. Exemplo: Parei de assistir aos programas de televisão, feito novelas, programas de auditório. Vejo aos jornalísticos, documentário e filmes. Só. Me consideram um anormal. Com é que pode? “Televisão é um item essencial numa casa”, já me disseram. Eu sei, tem até duas e com bastante utilidade: enfeitam o ambiente, economizam na conta de energia estando desligadas e preenchem aquele espaço vazio quando se recebe visitas indesejáveis ou sem assunto. Outro exemplo: desde criança uma idéia fixa me persegue: a de que eu iria morrer de acidente automobilístico. Fiquei uma eternidade sem entrar em qualquer automóvel. Hoje uma das coisas de que mais gosto é dirigir. E tenho também o hábito de andar na contramão. Mas só do senso comum. Isso talvez me mate algum dia. De depressão ou de uma agonia fulminante.
SORTE: Acidente da fortuna, casualidade, sina, felicidade, ventura.
Se me perguntarem como tudo começou eu não saberia explicar. Mas a gente costuma associaresse negócio de sorte, num primeiro estalo a dinheiro. Pode serpor causa da etimologia que a explica como sinônimo de fortuna; a associação ficou sendo direta. Mas a fortuna que é aquela contrária do infortúnio, que seria o azar. Sefico afirmando isso é por que não sei e desconfio de muita coisa tentando aprender. Vou questionando para ver se tenho asorte de descobrir as coisas. Na ciência não é um pouco assim. De tanto a curiosidade ser posta a prova, o cara acaba encontrando algo. Pode ser até mesmo algo que ele não procurava. Mas se a coisa se transforma num achado, olha ele ficando famoso e ganhando um prêmio. E isso é sorte premiando pesquisa e determinação. O que eu não acredito é naquela história do cavalo arreado passar na porta da gente. Não para quem está lá dentro sentado. Aí, o cara nem vê e perde a garupa.
Quer ver? Eu conheci o Jean, ele tinha pouco mais de vinte e dois anos. Já tinha vivido segundo ele mesmo, o equivalente a uns quarenta. Coisas que só muito dinheiro consegue fazer: multiplicar o tempo. Acelerar e desacelerar de acordo com a vontade do possuidor. Ir até onde quiser; voltar, parar, fazer andar novamente e nisso tudo não se passarem sequer dois anos de uma existência. Jean era garimpeiro lá pelas bandas do Norte de Minas, onde se bamburra* ou se vive da sieba**. O meio termo é ir tentar outra sina em São Paulo. Umas minas pequenas, que mais parecem tocas de refúgio animal. Ele detonou uns quilos de explosivos edescobriu um veio de turmalinas azuis. Das que vi nasfotografias, tinha uma do tamanho de um gato grande e gordo. Da noite para o dia, virou uma espécie de imperador da região, reverenciado com uma veneração quase sagrada. Transformou-se num mito vivo, numa lenda materializada em riqueza de pedra. Se tivesse mais juízo financeiro teria construído um império particular. Súditos já tinha aos montes. Um séqüito também.O poder que o dinheiro traz é o seu exercício, não o seu estado permanente. Eu quero dizer que quem o possui em muita quantidade o exerce automaticamente se quiser, mas não o detém eternamente. Vale enquanto durar.Portanto isso pode ser considerado como sorte. Já o saber proporciona um poder mais duradouro, pois só onde não há saberes, é que o saber é uma forma de poder. A tal da capilaridade social, política e cultural.
Jean comprou carros, viajou pelo Brasil afora e foi até na Europa, fazendo-se senhor do tempo provisoriamente. Só não ouvi contar que conseguisse fazer chover no norte, sendo que o que mais quis, fez. E como em muitas histórias de garimpeiros, ele terminou com uma lojinha de pequenas jóias ( o pouquinho que guardou) e andando de carona levando gente que precisava fazer trabalhos acadêmicos com garimpeiros. Para quem não sabe, não se entra em garimpos clandestinos impunemente, nem desacompanhado. E contando histórias num saudosismo que servia de ânimo aos que lá tentavam alguma sorte e aos siebanos lá de fora da mina.
Ele que buscou a glória eterna esquecendo a efemeridade que a acompanha na falta de juízo e saber, pode se dar por sortudo se essa crônica ficar muito conhecida. Estará eternizado
* Bamburrar: encontrar enorme quantidade de pedras preciosas numa garimpada.
* Sieba:restos de terra e minérios que são retirados e colocados de fora de uma mina (rejeito). Normalmente possuem pequenas quantidades de pedras preciosas desprezadas pelos garimpeiros que buscam a sorte grande.
O casal fica se beijando de manhã na pracinha da avenida principal do bairro. Uma boa conversa, depois sai carregando as tralhas num carrinho de bebê. É engraçado como a felicidade incomoda. Ela não tem patrimônio à vista (nem a prazo) não tem casa com piscina nem carro na garagem. É a felicidade desprovida de qualquer finalidade que nosso espírito cristão ocidental está habituado a buscar. De ela vir rodeada de adornos e bens geradores de conforto. É o sorriso clean, o traje confortável, a boa educação à mesa e os laços de fraterna hipocrisia. Tudo junto nalgum lar. E só é considerada felicidade se assim for.
Pois esse casal mora em duas praças que há na mesma avenida. A do início e a do final. Quando se cansam de uma paisagem, eles se mudam para a outra Tem sempre algum morador que fica incomodado e pede a polícia para retirá-los das redondezas. Todos os dias a cerimônia se repete. Tomam seu café da manhã (um pão doado ontem, uma garrafa de água colhida na torneira de regar a grama e umas frutas do lixo dos sacolões). Mas o carinho também é permanente. Seu meio de transporte da “casa”, o carrinho de bebê que comporta algumas roupas e cobertas, além da cama, um monte de papelão cuidadosamente dobrado é tudo o que possuem além do cuidado e da atenção diária com o outro. Vejo-os todos os dias. Impassíveis, mas amorosos entre si. Talvez uma redoma anti redoma. A sociedade se protege deles e eles se protegem dela dando um baita sopro de felicidade. Pena que não são observados por esse ângulo interior. Por isso não causam nem inveja. Causam piedade. Aquela piedade que nos sai lá da culpa inexplicável pelas diferenças tão absurdamente gritantes. Da falta de lugar no bonde da oportunidade que não tem lugar para todos. Será que visão nossa é semelhante à do colonizador que considerava o nativo um ser vivo, porém desprovido de sentimentos que comovam? Ah, tá bom, então só precisam de alimentos, agasalhos e pronto.
Pra lá e pra cá, naquela felicidade inacreditável. Incômoda. Meu Deus, como pode uma gente assim ficar com essa cara satisfeita todos os dias? Sem ter casa, sem ter uma mesa para almoçar, sem ter banheiro?E o carinho é invejável. Beijam-se de manhã, sentam-se sob uma arvorezinha arredondada pela jardinagem da prefeitura, se escondem do sol ou da chuva e travam um longo diálogo, talvez delineando o planejamento de como conseguir uma comida naquele dia e onde vão dormir em caso de chuva. Nos olhares que trocam, falam de respeito e admiração de um pelo outro. É ou não é insulto à inalcançável felicidade?
Acho que encontrei um remédio para quem se sente incomodado com a chamada compulsão para o consumo. Mesmo para os que não têm dinheiro para ter a doença e insistem em adquiri-la. Síndromes de SPC e SERASA (doenças novas, segundo a última versão do Código Internacional de Doenças) são casos de hipocondria consumista. Portanto, muito cuidado com interrupções bruscas, pois causam sérias crises de abstinência.
Essa idéia me veio lá da página do Eduardo Costta (recantodasletras.uol.com.br), de uma bela crônica chamada A TELEVISÃO. Ele relata um assalto em uma residência, cujo único bem deixado para trás pelos ladrões foi uma televisão muito antiga. Mas uma televisão que passou por várias gerações e acabou construindo um laço emocional na família. Aquele rapaz (o Eduardo Costta) é de um talento imensurável.
Como uma mercadoria, um simples objeto passa a ter valor afetivo para a gente? Às vezes, quem nos deu é muito querido ou apreciado; pode ter sido recebido numa data muito especial; foi talvez comprado com muito esforço, uma poupança de anos a fio.Objetos que possuem uma história. Mas como isso não é do universo do consumismo desenfreado, vamos falar daquelas coisas que compramos, compramos, compramos estando ou não precisando. A idéia é que passemos a registrar as histórias que esse objeto cria para ver se adquire um valor estimativo , de forma que freie nosso impulso de jogá-lo fora assim que surge um mais moderno no mercado.Transfira para o objeto, a emoção que sentiu quando aconteceu algo do tipo que você conta para alguém, sem levar em conta o valor material do objeto que estava ali, junto com você.
Aquele carro cujo alarme disparou quando você estava no melhor da pegada, aquele celular que tantas alegrias e aborrecimentos lhe deu, como o primeiro emprego quando lhe chamaram e você estava lá na praia, tão necessitado... ou aquela demissão desrespeitosa por telefone. Já pensou na ligação que fez para o resgate que salvou alguma vida no trânsito, ou aquela denúncia anônima que evitou um assalto? E o velho computador (do ano passado)? Ah... esse deve ter tantas histórias para quem não é analista de sistemas, instrutor de informáticaou hacker...Deixe que falem que é ultrapassado.A menos que na memória dele não tenha mesmo nada que valha a pena ser lembrado.
Registre tudo, fale com todos, fotografe, dê nomes, mas tambémnão vamos exagerar e transformá-los em mercadorias humanizadas, a ponto de gerar crises de ciúmes se alguém ficar de olho.
Estou com um encosto literário. É um tormento. Não consigo me desligar dos pensamentos dissociados, permanentes, constantes, diuturnos, oníricos até. Quase me empurrando. Parece que a cabeça vai se fundir a qualquer momento como aquelas máquinas que, sobrecarregadas além da sua capacidade de botar para fora algum produto enquanto vão sendo alimentadas de matéria prima, começam a soltar uma fumacinha, exalar um cheiro de queimado e depois, bum!!! espirram peças pra todas as direções parecendo um vômito.
Nem a comida mais que tanto gosto de fazer tenho conseguido ser deixar queimar algo ao menos uma vez por dia. Vai aparecendo uma idéia, largo temporariamente o que estou fazendo (pensando ser rapidinho, apenas uma anotação de uma fantasia) e quando assusto, o cheiro de queimado me trai. Saem umas palavrinhas e vem a fome. E a necessidade de fazer outro prato ou ainda comprar pronto depende da hora ou da capacidade orgânica de aguentar esperar. Então, olho para a comida, olho para as palavras e jogo tudo fora. Ficaram ambas impróprias para degustação
Não sei mais o que fazer. Daqui a pouco viro um ermitão de cadeira. Eu, uma cadeira e o computador vamos ter que andar unidos até a quase eternidade, digo quase porque quando eu secar aqui sentado, claro que vão me enterrar sozinho e aproveitar a máquina, se ainda estiver boa para uso.
NOIVOS DE CREDOS DIFERENTES PROMOVEM CERIMÔNIAS QUE CONTEMPLAM A FÉ DE AMBOS.
Casar com um parceiro de uma religião diferente já foi sinônimo de tabu ou problema familiar. Hoje em dia, de tão comuns, essas uniões inter-religiosas já tem um cerimonial próprio. Em igrejas como a anglicana, a católica apostólica brasileira e algumas evangélicas, é possível entrar vestida de noiva no tapete vermelho e receber bênçãos de duas religiões. Esse tipo de celebração se multiplicou nos últimos anos de acordo com organizadores de eventos. E pode combinar crenças como o hinduísmo e protestantismo ou as religiões católica e judaica num mesmo altar – nem que ele seja construído numa casa de festas...
Para Cada Crença Uma Regra.
“CATÓLICOS”: Casar fora da igreja ou com pessoa de outra religião só é possível com uma licença concedida por um bispo ou um vigário episcopal;
“JUDAÍSMO”: Reconhece apenas casamentos entre noivos que compartilhem a religião judaica;
“ESPÍRITAS”: para ele, o casamento não é considerado um rito religioso, mas familiar. Não se opõem à forma como os noivos escolhem celebra-lo;
“MUÇULMANOS”: Não admitem a celebração conjunta. Acreditam que os fiéis têm de escolher em que regras querem se casar para segui-las;
“EVANGÉLICOS”: Para os chamados congregacionais, o casamento inter-religioso pode ocorrer como exceção, se for autorizado pelo pastor;
“BUDISTAS”: Não se opõem à celebração conjunta. A base de sua filosofia é a compreensão;
“CANDOMBLÉ”: Os rituais realizados nos terreiros não costumam ser combinados com outras religiões.
Minha mãe professava um sincretismo religioso considerável. Transitava por várias religiões e credos com uma desenvoltura fervorosa. Acho que ela procurava um lugar acolhedor que abraçasse seu espírito inquieto e sua irrefreada relutância contra dogmas e também contra preconceitos. Diziam que elapossuía uma mediunidade exacerbada e religiões costumam reivindicar para si a primazia da onipotência, da onipresença, da onisciência. Ela, entre a cruz e a espada, talvez ficasse andando pra lá e pra cá, a fim de encontrar o seu lugar espiritual e a paz com Deus. Quanto aos filhos, educou-nos todos na religião católica enquanto não tínhamos ainda capacidade de discernimento. Mandava com vigor que freqüentássemos uma missa semanal, fazia muitas orações em casa com a família reunida e, na medida em que íamos crescendo, não interferia mais se um ou outromudasse seu rumo. Para ela, sua missão estava cumprida: havia ensinado o caminho a Deus. Os nove filhos manifestam religiosidade. Uns mais outros menos. Olhando o mundo, as pessoas, o mar, o céu, a lua, as estrelas, os bichos e os fenômenos naturais, me soa absurda a negação Mão Celestial que tenha propiciado tudo isso. Não fosse assim creio, nem teríamos ciência, cujas origens e progresso tem como fundo epistemológico a busca de verdades acerca de nosso estar aqui no mundo , de onde viemos, para onde vamos. O que fazemos é que é o grande nó, a grande desavença, os grandes desacordos.Eu vislumbro possibilidade de interpretações e nominações várias para a criação do mundo e sua “governança” espiritual. Mas ela está em um Deus apenas, tomando Deus como palavra universal.
Acredito que a intolerância vem desse conceito múltiplo que se confunde com a vontade do homem e se confunde ainda mais numa tentativa de mortais querendo sobrepor ao próprio Deus quando impõem aos seus semelhantes e seguidores um Criador como sendo o seu diferente e melhor do que o do outro. Esse é meu ponto sem pacificação com as igrejas espalhadas pelo mundo. Pois é a partir delas que se fomentam disputas teológicas que ultrapassam o conhecimento e a aproximação com Deus para ganhar condição de superioridade. Como se a divindade professada por uma igreja tivesse maior sacralidade do que de outra.
Antes de sonho da casa própria eu sonhava com bicicleta. Olhando hoje para trás acho que são as duas coisas que me inteirariam na vida como realização. A casa por poder colocar nela tudo que construí na vida que não tinha lugar; e tudo o que viesse a construir depois de minha independência que precisasse de um lugar. A certeza de que dali eu poderia ir e voltar para outras aventuras na vida. Era meu habeas corpus sem delito. Não sei se é eufemismo chamar também de cidadania financiada. Um lugar para morar que não fosse mais a casa de meus pais ou a incerta locação, que só nos diferencia de um morador de rua, pelo endereço fixo, porém provisório. Sempre provisório. E eu precisava de coisas definitivas. Tem umas coisas na vida que é bom que sejam definitivas. Para o desequilíbrio de vez em quando as emoções bastam.
Na infância, a bicicleta representava essa consciência que só agoraremeto de volta para ela, longínqua, mas boa de se reviver. A bicicleta simbolizava um equilíbrio, uma liberdade esvoaçante, um poder que quando aprendemos a andar sozinhos ainda não temos noção exata dele.
Eu já desejei uma monareta, já quis uma de freio contra-pedal (máximo em eficiência nas derrapagens), conhecida como camelo. Mas não deu, quer dizer, não ganhei. Há pouco tempo, peguei uma que minha filha abandonou num canto (esta já moderna, de marchas e tudo), dei-lhe uma boa lavada e resolvi seguir os conselhos do médico para me exercitar. Minha aventura inicial foi reveladora. Acho que fiquei com trauma de infância. No primeiro dia, cai em uma boca de lobo sem tampa e estraguei a cara toda, esfolei os braços e joelhos e xinguei, xinguei meu pai muito. E não desisti. Comprei uma nova diante do estado de sucata em que a outra se transformou.A lagoa da Pampulha tem uma ciclovia em seu entorno e eu comecei a fazer o trajeto com a minha companheira nova. Na primeira semana, no finalzinho do percurso, me desequilibrei e caí a ponto de não aguentar me mover. O senhor de me acudiu, deu umas balançadas no meu braço, ajeitou meu ombro e disse que havia apenas uma luxação. Até agradeci achando que fosse um médico caminhando por ali. Não agüentei voltar montado para a casa e vim empurrando, sentindo uma dor que disputo com qualquer mulher que já teve parto normal qual dor é mais doída. Se bem que a do parto vale a pena. Cheguei ao portão e não tive forças para abri-lo. Minha mulher veio em meu socorro e viu meu ombro direito parecendo que tinha um mastro sob a camisa. Quando olhei no espelho é que descobri que o moço não era médico. Já no hospital foi diagnosticada a olho nu uma fratura exposta, agora sim por um médico do ombro, que me remendou com dois parafusos, 40 dias de tipóia, mais 90 dias sem fazer qualquer movimento brusco com o braço direito. Fiquei só sonhando com bicicleta, do lado esquerdo, uma vez que não podia dormir do outro lado. Diante dos apelos familiares para que abandonasse de vez essa malograda aventura, respondi igual a jogador de futebol contundido: “assim que o departamento médico me liberar eu e meus companheiros vamos dar tudo de si.” Tenho pedalado por ai em meu sonho de menino.
Foram mais de 80 horas de gravação. Demorou mais de dois meses a edição da entrevista. Ele falou coisas impublicáveis, cada expressão, cada palavra de baixo calão dirigida para o alto escalão... E ainda queria que tudo saísse do jeitinho que foi dito. O acordo não foi fácil. Em compensação nada foi fruto de ato secreto.
Ele não é famoso, mas vai que vira de uma hora para outra? Flash pra todo lado, microfones em profusão, aquela coletiva, ou aquela exclusiva. Nada disso comove nem demove o Arcanjo de seu anonimato feliz e provocador. Portanto resolveu dar essa entrevista apenas para seu pai. Para ficar em família, guardada junto com o álbum de fotografias para quando se for, servir de sobremesa filosófica para aqueles momentos de nostalgia da família reunida depois do almoço de um domingo qualquer.
- Arcanjo, meu filho, por que essa implicância com a modernidade?
- Tudo começou com os cachorros. A partir da observação da forma como as pessoas vêm tratando os cachorros ultimamente. Comecei a botar o pé atrás quando aquele ministro disse que o cachorro era um ser humano como qualquer outro. Esse pessoal que se declara defensor dos animais já pensou que, tirando os bichos de seu habitat, de seus costumes estão é lhes fazendo mal? Cachorro gosta de roupa desde quando? Gosta de dormir em cama, de escovar os dentes, de passar perfume? Ou isso é para agradar ao dono? Aquela pelagem que nasce com eles, é exatamente para se adaptarem às intempéries. Aí inventaram a tosa e as roupas para cães. Isso é defender animais? Ou satisfazer a vaidade insana dos sonhos? Quero dizer que adoro cachorros, viu?
- Como é essa sua mania de ver o outro lado das coisas?
- Qual deles? O obscuro ou o mal resolvido? O impublicável ou o indizível?
Há uma diferença entre o desconhecido e a desconfiança. O meu caso é o segundo. Filosofar apartir da desconfiança o resultado é mais confiável. Se bem que resultados em filosofia são sempre uma resposta só: o eterno retorno.
Por que essa filosofia das ruas?
- Olha, já teve a Velhinha de Taubaté (já ouviu falar?) Aquela que acreditava em todos os políticos. Já teve o deputado Justo Veríssimo (aquele que inspirou a expressão “Tô me lixando pro povo”). Já teve até o General, que ficara em coma seis anos e não acreditava nas notícias que recebia do Brasil quando recuperou a consciência ( aquele do “me tira o tubo”, lembra?). Já teve o bordão do Brasilino Roxo (“só se for na França”, declarando-se incrédulo com acontecimentos sinistros no Brasil). Então, o Arcanjo é uma soma disso tudo. Claro que com o ingrediente essencial das ruas, das casas e do mundo do trabalho, que é ondea virtualidade se manifesta de maneira palpável.
O que você acha da educação?
- Um grande negócio particular e um péssimo negócio para o público.
- E da violência?
- Um grande negócio para as empresas, um bom cabo eleitoral para o poder público, um horror para o público em poder da violência.
- E sobre o conhecimento, as informações que chegam aos borbotões para nós a todo instante?
- A tecnologia é uma coisa fantástica, olhando do alto da ambição humana de dominar a natureza e por conseqüência os semelhantes. Antes, para dominar um território novo era necessário deslocar milhares de homens num exército a pé, a cavalo, de navio e guerrear até escorrer a última gota de sangue do dominado. Aí, fomos evoluindo para as guerras aéreas, as bombas... Agora, basta um toque no teclado em qualquer computador potente de uma bolsa de valores poderosa e todo mundo sabe onde é o caminho do dinheiro. Todo mundo que eu digo é o mesmo todo mundo de sempre. Só vão deixando heranças para suas proles. O dinheiro é volátil mas o poder é concreto. Tem melhorado muito a humanidade em geral, desde que você esteja interessado em um negócio, em alguma “oportunidade imperdível” como dizem nos comerciais. Não há mais mistério em nada, nada mesmo.
Vou lhe dar o exemplo do desconhecido, do misterioso. Já transformaram até assombração e outras crenças no além em negócio rentável. Estão agora explorando o turismo em lugares que antes eram impenetráveis, cheios de mistérios que a nossa ignorância chamava de paranormais.. Aquele livro maravilhoso do Gilberto Freyre, “Assombrações do Recife Velho”, agora virou “case” para turismo na cidade. Ganham dinheiro com as histórias. Coitado do Freyre, deve estar revirando no túmulo! Pode ir lá para conferir, nem cemitério mete mais medo hoje em dia.